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A validade da mulher sempre foi tida ou achada através da sua fertilidade, da sua aparência jovem. Quando deixava de estar fértil, portanto, aparentava os primeiros sinais de envelhecimento, já não tinha grande função, a não ser que fosse para avó. Então eu acho que a sociedade tem alguma dificuldade em lidar com essas mulheres livres, soltas e que não pretendem agradar. Ainda não sabem bem onde nos colocar, o que fazer conosco. E portanto, tentam dizer: "Esta já está velha, não encontro aqui nenhum elemento que me seduza".
Livre, desempoeirada e sempre fiel àquilo que sonha e acredita. Tem uma voz poderosa e não se limita apenas a cantar. É alguém que questiona, intervém e que acima de tudo gosta de abanar mentalidades e pôr-nos a pensar. É na música que se transforma e é no palco que nos emociona com a energia e vivacidade de uma artista completamente inquieta. Ana Bacalhau, em 40 Minutos, seja muito bem-vinda aqui à Rádio Portugal.
Seja muito bem-vinda, Ana. É um gosto enorme tê-la aqui.
O gosto é meu. Obrigada.
E com um sorriso de orelha a orelha. Já estivemos aqui a falar, no fundo, em off. Tu estás numa fase, podemos dizer, muito feliz. Acabas de lançar o teu mais recente trabalho, "Mundo Antena". Vamos estar aqui a falar sobre rádio, que é o meio que nos une e que esta semana, coincidentemente ou não, está na ordem do dia a propósito do apagão, e portanto foi um meio que nos uniu e que nos veio provar que, afinal, estamos aqui para as curvas.
Os meios de comunicação seletam a rádio.
Exatamente. E foi muito importante ao longo desta semana. O que tu pretendes também exaltar com este trabalho? A questão da rádio. É uma espécie de uma homenagem, podemos dizer assim?
É uma homenagem em vida.
Que é sempre importante.
Sim. É porque como se viu esta semana, as coisas de sempre, do século XX, como a rádio, as coisas antigas, que nós achamos que já não precisamos delas. Precisamos sempre. Há pilares, há bases, há coisas que atravessaram uma centena de anos. Não foi de balde, foi porque tinham argumentos para resistir este tempo todo e continuam a ter argumentos. Tal como um livro tem e terá sempre argumentos para resistir às televisões, aos iPads, essas coisas. A rádio terá sempre, caso queira, argumentos para resistir também às redes sociais, aos podcasts. Podcasts no sentido que não estão na imagem.
Daquilo que se pode ouvir depois, não em direto.
Sim. Provou-se isso agora neste dia que houve o apagão. Provou-se que as pessoas continuam a precisar daquele pilar, aquele porto seguro. Quando tudo falha, lá está. E há uma coisa mágica na rádio. E foi isto que me levou também a querer fazer esta homenagem à rádio, que é: a rádio apela apenas à audição.
Estamos mais despertos, mais atentos.
E somos parte ativa no processo.
Não há abstrações.
Não há abstrações e temos que criar na nossa mente as imagens. Enquanto que quando vemos alguma coisa, nós somos passivos, absolutamente passivos, porque tudo nos é dado, os olhos já estão ali fixos a ver.
E muitas vezes até nos perdemos no discurso, naquilo que está a ser dito pela imagem, não é?
Somos seduzidos pela imagem, somos levados para uma coisa que se calhar nem seríamos levados, mas a imagem seduz-nos. E, portanto, eu acho que este mundo precisa de criatividade, precisa que todos façamos parte desse processo, que tenhamos imaginação e que a tenhamos intacta, e que sempre nos consideremos parte ativa nos vários processos. Por isso a rádio é um exemplo e foi por estas razões todas que eu enumerei que decidi fazer-lhe homenagem.
E este "Mundo Antena" é um disco que fala de muitos temas. Da guerra de sotaques, a questão do mundo cada vez mais digital, a luta pela igualdade. Foste sentido, Ana, ao longo do tempo, que precisavas de um trabalho como este para também poderes falar sobre este tipo de questões?
É assim, a minha expressão artística sempre veio daquilo que eu sou. Eu nunca criei uma persona ou uma personagem para me apresentar.
Nem nunca sentiste essa necessidade para vingar na música.
Eu chamo-me Bacalhau, precisava de alguma coisa mais? E depois tenho esta Esta maneira de ser. Eu não sentia que precisava. E depois, todos os artistas a quem eu me ligava emocionalmente, eram artistas que não criavam essa persona. É óbvio que as câmeras, os microfones e as coisas que se ligam, também ligam alguma coisa em nós que é diferente do que é a nossa vida normal. Não é isso que eu estou aqui a dizer, que eu sou igual em palco como sou igual na vida, nem pode ser. Mas não sou um David Bowie. Mas mesmo o David Bowie com as personagens que criou, o que eu sempre senti é que ele sempre cantou coisas que o interessavam, que lhe importavam e ele comentava acerca da sociedade através das personagens que criava. O meu comentário é acerca do que vejo, dos meus valores, de tudo aquilo, vem muito naturalmente através da expressão artística, eu acho que é para isso que uma pessoa faz arte, que é para se expressar, primeiro. É muito natural que aquilo em que eu acredito, aquilo que me irrita, aquilo que eu adoro, passe naturalmente para a minha música. É intuitivo.
Não metes nenhum tipo de filtro? O que sai, sai.
Não meto. O único filtro que meto é se naquele momento faz sentido para mim ou não, porque uma pessoa também vai evoluindo enquanto pessoa, vai mudando e se calhar o que fazia sentido para mim cantar há 10 anos, já não faz muito sentido.
Hoje em dia, sim.
Algumas coisas, outras coisas sim. O meu critério é se isto me diz alguma coisa, de forma racional ou de forma emocional. Faz sentido para mim agora cantar isto? E depois a relação das canções umas com as outras para criar aquilo que é um coletivo, que faça sentido, que é o álbum. Que é uma coisa se calhar um bocadinho geracional, que ficou perdido entre a minha geração e a dos millennials, eu sou a geração X. E para a geração Z e alfa, se calhar, a noção de álbum não faz tanto sentido, mas espero que um dia dê a volta, porque realmente esta noção de que canções vão bem umas com as outras para contar aqui qualquer coisa que seja uma cápsula deste tempo e de mim, neste tempo, isso tudo é importante.
Nós fomos ver tudo o que tu tens andado a dizer para preparar-nos para este "Em 40 Minutos" e tu muito recentemente numa entrevista, disseste algo deste género: que assistimos a uma espécie de regressão em alguns jovens, em que alguns homens parece que estão a voltar àquela mentalidade de que as mulheres devem ficar em casa. Enquanto mulher e também artista, e estamos aqui a falar sobre isto, também já tens falado aqui da tua perspectiva, como é que a sociedade se deve posicionar e olhar para esta forma de pensar que parece que está a voltar outra vez? Nós celebrámos ainda há pouco tempo os 51 anos do 25 de Abril.
25 de Abril. E eu tenho uma canção que foi a Garota Não que escreveu para eu cantar neste disco.
"Por nos darem tanto".
"Por nos darem tanto", tal e qual, que conta em três minutos o que era antes. Aquilo que se ganhou com o 25 de Abril e agradeço a quem travou essas batalhas com muito sangue, às vezes. Estão aqui duas gerações que viveram, que chegaram perto, tocaram uma certa equitatividade e igualdade numa relação. O Eldorado estava quase, estava perto. E de repente, as gerações mais novas, quando nós pensávamos que isto ia continuar a ficar cada vez mais justo, que é a única coisa que eu pelo menos peço, é só justiça, equidade. Quando pensamos que isto ia cada vez ficar mais, eis que o que é que acontece? Há uma geração que já se fizeram estudos em que os homens estão muito conservadores, as mulheres estão mais liberais, mas mesmo assim, com as redes sociais, algumas redes sociais, e a prevalência de opiniões muito conservadoras e tradicionalistas que agarram os jovens, há movimentos que também tentam apelar às mulheres e movimentos muito conservadores tentam já apelar ao público feminino e a tentarem inverter essa facção liberal do público feminino, que são os movimentos trad wives, que eu apanhei isso. Eu tenho TikTok meu, de artista, mas basicamente é para eu também perceber o que é que se passa ali no TikTok. É mais o observador.
E lá com muitas coisas também começam desses movimentos que muitos jovens acabam por ser aliciados para esses movimentos.
Vou dizer, são recrutados. Já nem digo aliciados. Eu acho que isto é mesmo ideológico, é político, é uma questão de luta de poder, é uma reação, reacionário. A palavra reacionário vem de reação. Em primeira análise, será de um magote de pessoas, maioritariamente homens, muito assustados com o novo poder e liberdade das mulheres, não sabem o que fazer com aquilo, não têm ferramentas, não lhes foram dadas ferramentas, nem eles querem, nem estão interessados em adquirir ferramentas para lidar com esse novo mundo e com essas novas formas de relação entre homem e mulher. E portanto, eles reagem tentando seduzir hordes de Rapazes novos que não têm experiência da vida. Para aquele meio, a dizer que um homem é assim, assim, assim e tem de ter uma mulher submissa. E depois, se for a espiolhar mais essa primeira horda dos tais influencers, tem por trás movimentos políticos, ideológicos, ultra mega religiosos e ultra mega conservadores, que têm os vários peões que vão jogando para irem arregimentando estas novas gerações. Portanto, eu estou preocupadíssima, porque para mim, a minha visão é que na diversidade é que está a riqueza. Tanto na diversidade do que é o masculino, que tem muitas faces, deve ter e tem. E também do que é o feminino, que também tem muitas faces. E na diversidade humana, no sentido em que a nossa sociedade, nós só temos isto tudo que nos é querido. Imaginem mesmo o jovem mais conservador que nos esteja a ouvir, conservador, mas radical, que nos esteja a ouvir. Tudo o que é querido a alguém, só aconteceu porque alguém pensou de forma diferente. Se não, ainda estávamos em uma caverna. Se todos pensássemos igual, estávamos em uma caverna. Teve de vir uma cabeça ou várias a dizer: "A gruta é chata, vêm os ursos e comem-nos. Isto tudo é frio, a gente morre de frio. Vamos fazer uma coisa que tenha paredes e telhado. E temos uma porta. Assim só entra quem nós queremos. Os ursos ficam lá fora, com o telhado já não apanhamos chuva, vamos chamar a isto de casa."
A diversidade é boa, desde que não nos condicione, é isso?
Sim. A pluralidade, e é uma coisa que eu também gosto da rádio e gosto de programação. Por quê? Porque eu acho que o pensamento único é a coisa mais perigosa que pode acontecer. E o que está a acontecer hoje em dia? Nós, com esta curadoria própria das coisas, nós é que escolhemos o que queremos ouvir e o que queremos ver. À primeira análise, pode parecer uma cena muito de liberdade. O problema é que nós depois só queremos ouvir ou ver as coisas que nos dão razão, que confirmem as nossas crenças. O que acontece quando nós levamos com programação, como eu levava quando era miúda na televisão e na rádio? Nós ouvimos coisas com que concordamos e coisas com que não concordamos. Não vivemos isolados numa bolha.
Existe logo uma oposição de ideias.
E habituamo-nos a que há coisas diferentes daquelas em que acreditamos, em sermos confrontados com ideias diferentes. E desse confronto percebemos que ou reforçamos os nossos valores e crenças, ou somos convencidos pelos argumentos que são melhores do que os nossos. Eu acho isto uma riqueza. Estarmos aqui enfiados em bolhas não é bom. O pensamento único, eu acho muito mais perigoso e acho que a diversidade é uma coisa bastante mais interessante.
Diversidade também há neste teu novo álbum, tens aqui algumas colaborações. Já falaste numa delas com a Garota Não, também tens Mimi Froes, Cláudia Pascoal, vozes emergentes de uma nova geração. O que é que sentes, Ana Bacalhau, que tens aprendido com estas novas vozes no panorama da música nacional?
Muita coisa.
Ou ensinas mais?
Não sei. Se o faço, não é consciente.
Involuntariamente?
Sim. Mas eu acho que todos nós temos coisas a ensinar e a aprender. É uma troca constante. Mas o que eu recebo destas novas gerações? Eu recebo muita coisa. As novas gerações, e falaste de mulheres, portanto, vou falar das gerações de mulheres, mas as novas gerações têm uma confiança no seu trabalho e nas suas capacidades maravilhosa. Não têm os preconceitos musicais que a minha geração e gerações anteriores tinham. Ouvem de tudo. A minha geração era, se eras do rock, eras do rock. Se eras do metal, eras do metal. Tudo em caixinhas. E se saías de uma dessas caixinhas ou se não sabias em caixinha onde estava, era um dramalhão. E estas gerações estão se a borrifar para essas caixas. São fluidas em todo o sentido. E isso é maravilhoso, porque eu sou assim também. Na verdade, se me perguntarem que tipo de música é que eu faço, eu não consigo definir com uma caixinha. E portanto, ensinam-me isso, a ser aberta, receptiva, a não ter problemas nenhuns com essa indefinição, a ter confiança nas minhas capacidades, na minha voz, não só na voz enquanto instrumento musical, mas naquilo que eu trago. O artista é um todo, um combo. Não é só a voz que canta ou a pessoa que escreve, é também o universo estético, de valores, a visão que a pessoa tem.
Tudo importa, não é?
Tudo importa. Portanto, ter confiança, defender isso com unhas e dentes e não ter medo de o expressar.
E esta nova geração
Ensina-te também a olhar para a música de uma forma diferente?
Também, com certeza. Eu estou com 46 anos, portanto eu ainda entendo o mundo em que estou, mas já não é o meu mundo. Já é o mundo das novas gerações. E isto é assim que tem de ser. Não sinto nada amarga nem nada em pânico com isso.
Sentes que aproveitaste?
Aproveitei muito, enchi bem o barriguinho. Mas o que eu quero dizer com isto é que eu faço parte, mas já preciso desse olhar fresco para continuar a perceber o mundo em que estou, porque as referências já não são as minhas referências, as referências que as gerações a seguir-
Tu hoje já és uma referência. É verdade.
Nem penso nisso. Mas as referências que os mais novos utilizam já não são as minhas. Eu digo aqui uma referência minha do tal canal, não sei o quê, o pessoal pode até saber, mas não viu. Portanto, naturalmente, a visão do mundo e a música que fazem, depois a expressão artística vai ser diferente. É natural. E o que eu também aprendo e apreendo é isso, é entender o mundo de hoje que está a ser construído pelas novas gerações.
Nós ainda temos muito para falar contigo. Vamos só fazer aqui uma pequena pausa para as notícias e já voltamos para a segunda parte. Ainda temos de ir até às tuas origens, ainda temos muito para falar. Até já. Segunda parte do "Em 40 Minutos", de volta com Ana Bacalhau. Já nos levaste aqui numa viagem pelo teu novo disco, "Mundo Antena". Ouçam, está em todas as plataformas. Também passamos algumas das tuas canções aqui na Rádio Observador. Eu estava a falar do "Agosto", mas também o "Imperial é Fim" passa por aqui com a Cláudia Pascoal. Portanto, temos sempre a tua música para nos alegrar um bocadinho. Agora, vamos até às memórias de infância e para um lugar que acredito que traga boas recordações. Em Tondela, Carvalhal de Mouraz. Só pela tua cara já percebi que sim. E os nossos ouvintes depois também podem ver o vídeo no YouTube. Estas boas memórias deste olhar que tiveste agora aqui perante mim e perante o Zé, levam-te até que lugar? Que lugar é este?
É um lugar de criança. Primeiro, fui para aí com oito anos, que é o que a minha filha agora vai fazer.
A Luz.
A Luz. Foi com oito anos que eu fui lá pela primeira vez, que os meus avós fizeram obras, compraram as partes aos irmãos, as partes da casa da minha bisavó. A casa da aldeia, compraram aquelas partes todas aos irmãos e fizeram obras na casa e passámos a ir lá todos os verões. Eu ficava lá com a minha avó, os meus pais vinham quando tinham férias. Eu, citadina, sou de Benfica, em Lisboa, acordava com a trepidação do autocarro pelas fundações do prédio. Aquilo era música de embalar para mim, o barulho das pessoas, as buzinas dos carros, os pássaros, também tinha umas árvores.
E depois o inverso.
E depois vou para um cenário rural em que sou acordada com a motosserra, com uma bela de uma Famela. Havia uma pedreira lá longe, tinha umas explosões, mas também com os sons, os barulhos do campo, que também tem os seus barulhos diferentes. Da água, há um ribeiro lá ao pé de casa da minha avó. E portanto, o tempo é diferente, o tempo psicológico é diferente, o ritmo é diferente. Até o próprio sotaque é diferente. A vida é diferente, porque o tempo da escola era em Lisboa, o tempo das férias, maioritariamente era lá.
A calmaria era em Tondela.
A calmaria, o ser livre, no sentido de estar o dia todo fora de casa a correr, só ia a casa comer. A correr, a ser criança, a brincar, a ser livre, a estar com a natureza. Na altura, nos anos 80, ainda havia casas que antigamente tinham lojas. Lojas, mas não é lojas de comprar.
Sim, a minha avó tinha uma loja.
Tinha animais.
Sim, exatamente.
Tinha animais, que para além de terem animais, serviam para muita coisa. O ter animais por baixo aquecia os andares de cima.
Exatamente, isso mesmo.
Pronto. E então eu tive contacto com animais, com a vegetação, com o respeito que há, através da agricultura, pela natureza e das várias fases. E portanto, isso deu-me uma riqueza, deu-me um olhar mais completo, trouxe-me essas memórias todas de andar a correr e ser livre. E depois, na adolescência, também deu outra coisa. Quando eu estava em Lisboa, eu sou filha única, os meus pais eram muito chatos com sair à noite, não me deixavam sair à noite. Mas eu lá andava com a minha prima. O Solo é todo meu primo lá na aldeia. E íamos sair à noite na boa, portanto também era a liberdade para mim sair à noite, ainda por cima em Viseu, na altura, nos anos 90.
Era um sonho.
Era, havia uma discoteca, era a maior discoteca da Europa, que era a Day After. Nós íamos para Viseu curtir, era espetacular.
Tu às tantas querias te mudar mesmo para Viseu.
Não, é verdade. É que os invernos eram frios. Os invernos estavam bons em Lisboa, que não eram assim tão frios.
"Serei sempre uma gaiata". É uma frase tua, acho que ficou aqui bem patente essa questão e que espelha muito daquilo que também queres ser como artista, é a primeira pergunta. E segundo, o ser gaiata na tua arte manifesta-se de que forma?
O ser gaiata. Ser gaiata é uma coisa que eu acho que herdei da minha avó Luz. Ela tinha essa energia de criança no sentido em que, obviamente, era uma pessoa, e eu também considero que estou mais madura, já percebo algumas coisas do mundo, mas isso não me tornou cínica. Sinto que ainda tenho aquele olhar esbugalhado de gaiata, de garota.
Uma certa inocência?
Sim, acho que não ficou maculada. Essa inocência com as pancadas que a vida foi dando, não ficou maculada. Ficou mais avisada, mais esperta, mas não maculada. É engraçado que essa coisa da minha energia é referida pelas pessoas. Muitas vezes é uma palavra que vem ter comigo, que é a minha energia, em palco, enfim, aquilo que passa. E eu atribuo essa energia a uma coisa que a minha avó me passou, que ela também acho que tinha uma energia parecida com a minha. Que é isto, uma pessoa cresce, aprende coisas, mas nunca cala a sua criança. E a criança que foi e que é ainda, que é isso que eu tento preservar, esse lado.
É isso que tentas passar à tua filha?
Sim, tento. E ela tem muito isso. Ela também tem essa energia fixe. Espero que mantenha, que saiba manter. Vou tentar ajudá-la no que ela precise. Mas eu acho que isso passa. Quando estou em palco, eu levo muito a sério o que faço, mas não me levo zero a sério. E eu acho que isso me ajuda a estar com as pessoas. Eu não estou num pedestal, apesar de estar num palco que é, na maior parte das vezes, elevado em relação-
Elevado, sim, ao público.
Eu não me sinto aí, nesse sítio elevado. Eu estou no meio, eu só faço parte. E acho que essa energia, que essa forma de ser, essa gaiatice, me ajuda a que as pessoas percebam isso em mim e estejamos sempre próximos.
E sempre foi assim, imagina. Gostaria de recordar o teu primeiro concerto. Lembras-te dele? Já tinhas essa energia?
Não! Engraçado. Espera. A memória está a vir. O meu primeiro concerto para pessoas que eu não conhecia, porque até aí, claro, fazia reféns na família e amigos. Mas foi em 2000, no dia 4 de novembro, eu sei isto.
Ah, tu lembras desta data.
Lembro porque faço anos no dia 5 de novembro. Portanto, lembro que foi no dia anterior. Em 2000, ia fazer 22 anos. Ainda com 21 anos, portanto, meu primeiro concerto para pessoas. Com uma banda que fizemos. Não sei se foi o meu namorado na altura ou se foi algum amigo dele, que conseguiu o concerto em Cascais, no Gil Vicente, Teatro Gil Vicente em Cascais. Marcaram o concerto. Entretanto, era para ser a banda deles, mas o meu namorado e mais uns foram estudar em Erasmus para a Alemanha e tivemos de refazer a banda. E eu entrei para cantar. Fizemos uma banda com o pessoal da Faculdade de Letras e da Escola Alemã, que eu conhecia. Não andei na Escola Alemã, mas o meu namorado andou lá, na altura. Fizemos essa banda e tocamos nessa noite. Então o que é que se sucedia nessa altura? Eu era assim um bocadinho pseudointellectual. Faculdade de Letras. Era assim um bocadinho parva. Era parva.
Faz melhor uma letra que parva que eu sou. Mas isso é outra história.
Exatamente. E era mesmo, era parva. Então nessa altura achava que ia salvar o mundo, a minha música podia salvar o mundo. Claro que não. Mas talvez tenha passado por isso. Mas felizmente, rapidamente isso saiu de mim e eu aprendi a ser quem sou.
Olha, vamos falar aqui sobre uma questão. Tu já falaste algumas vezes sobre isto, a questão do bullying. Ainda que nessa altura não tivesse o significado que tem hoje, ainda que fosse a mesma coisa ou de maneira diferente, mas eu queria pegar neste tema para falar e para o inserir, porque tu tens uma filha, tem oito anos, e estamos numa fase em que as redes sociais, os ecrãs, começam a aparecer ou muito cedo ou os pais têm que ter um controle parental muito cedo para que não se torne uma realidade numa fase muito precoce da idade das crianças. Como é que isso ganha uma preocupação na tua vida enquanto mãe e como é que tu geres também esses momentos?
Eu e o Zé, já que falámos sobre isto, vamos tentar adiar ao máximo a Luz ter um telemóvel ou ter um acesso não controlado à internet. Sim, e às redes sociais. Redes sociais, então, vou tentar esticar o máximo. Gostava conseguir que ela só aos 16 é que entrasse nesse mundo, para já, que é 16 a idade. Mas eu acredito que até lá haja limites, porque eu acho mesmo que a forma como neste momento as redes sociais existem, é mesmo perigoso para a saúde mental de todos.
Tu viste a série Adolescência?
Vivi. Eu tive a sorte de, como estava numa altura de promoção do disco, pensar no disco, fazer as coisas todas, não sei o quê, estava numa altura em que quando aquilo saiu, que não consegui ver logo. As coisas que iam chegando, as pessoas que iam falando.
As pessoas foram se manifestando.
Eu fui percebendo o que era aquilo e já fui preparada pra série, OK? Não levei duas bofetadas logo a ver aquilo, saí já preparada.
Sendo que aquele primeiro episódio é logo um murro no estômago.
É terrível.
Para qualquer pai e para qualquer mãe.
É terrível. É de fato isso, as redes sociais. Se até para quem, como eu, tem 46 anos, é uma coisa que mentalmente é desgastante. A minha saúde mental já sofreu bastante com comentários que apanhei nas redes sociais sobre mim. Tive de aprender a lidar com isso.
Ainda falta uma regulamentação. Porque vivemos num país com liberdade e em que podemos exprimir a nossa opinião. Estivemos a falar sobre liberdade nesta entrevista, neste "Em 40 Minutos" contigo, mas não se pode dizer tudo, às vezes, e a forma como se diz também.
É assim, o que não se pode dizer cá fora é o que não se deveria poder dizer lá. Parece-me óbvio. Cá fora as pessoas chegam ao pé de uma pessoa e insultam-na. Não é bem assim.
E muitas vezes insultam nas redes sociais e depois estão com a pessoa e o comportamento é completamente diferente.
Tal e qual. Se és um imbecil ou uma imbecil, ao menos sê coerente. Sê uma imbecil dentro e fora das redes sociais, ao menos isso.
Sê coerente.
Exatamente, sê coerente. Se até eu tive de me regular a mim própria, e já tinha idade para saber regular-me, para não estar tão suscetível. Sim, refém. Então alguém que é uma criança, que ainda não tem o cérebro totalmente formado, que acho que é a partir dos 25 que está tudo formado. Vão apanhar com isto, sem moderação, sem controle. Os pais podem sempre controlar, mas é tão difícil, eles arranjam sempre maneira. É mesmo uma luta inglória, difícil. Temos de confiar, obviamente, na educação que lhes damos e temos de os ajudar a criar um centro forte para levar com embates. Mas também, se pudermos adiar ao máximo o embate, eu sou partidária disso. Cada vez mais, proibir telefones nas escolas. Para aderir a uma rede social é preciso algo mais do que só clicar num quadrado e dizer: "Sim, tenho mais de 16". Não, tentar que as coisas sejam verificadas. E as leis que existem cá fora serem iguais às leis que existem lá para dentro. E de facto, isso cumprir-se, porque uma coisa é um discurso livre, outra coisa é um discurso de ódio.
Ana Bacalhau, ainda sobre este tema da maternidade, és mãe, recordas a maternidade como um abanão, digamos dessa forma. Por vezes, existe também uma ideia de que esta fase da maternidade é muito romantizada. Foi esse o teu caso? Como é que viveste este período da tua vida?
Eu acho que é. Há todo um setor que vive dessa romantização, na verdade.
E muito também nas redes sociais.
Exatamente, tal e qual, essa romantização. Eu não contei comigo para romantizar. Romances é só mesmo na literatura. Tudo o resto, eu gosto de ser fiel àquilo que senti. E aquilo que senti quando vi a minha filha, foi uma coisa de fera, de animal. Não foi: "Ai, amor!" Não, foi um bicho. Naquele momento era um bicho, que é o oposto do romântico. E eu acho que é o que tem de ser. Uma pessoa vira bicho, sai de nós, o rosto, só vemos olhos. E olha para nós: "Ai, meu!" Mas é mesmo, não é aquela coisa do amor. Nasceu uma criatura para a qual eu vou dar até a minha vida. Bicho, não estou a pensar em nada, só mesmo sobrevivência. E depois, de facto, ser mãe, como ser pai, tem coisas maravilhosas e tem coisas muito difíceis. E não vou romantizar, nem nunca dourar a pílula isso. Acho que uma pessoa nunca está realmente preparada para o que é, na realidade. Podemos dizer que é difícil, mas a pessoa só leva com esse embate quando tem, percebe que tem de fazer um luto à vida anterior e que é uma vida nova e é uma pessoa nova, naquele momento. E, portanto, eu gosto mais disto. Eu gosto mais pés na Terra, ser lúcida. E as histórias da Carochinha não são para mim. E depois também vejo com alguma preocupação este afastamento da ciência. Em que temos pessoas que claramente não estudaram, não têm bases científicas para o que estão a dizer, é só: "Comigo resultou. De certeza que vai resultar para todos". É uma coisa empírica, é a antítese da ciência.
Quase como se fosse uma verdade absoluta.
Exato. E lá está, e depois essas pessoas não gostam de ser questionadas. A ciência não se importa de ser questionada, até vive disso. Enquanto que depois há aquele pessoal que vive destas verdades, lá está, os discursos únicos. E eu, tendencialmente, sou muito contra essas coisas, essas ideias únicas e coisas que não foram observadas cientificamente. Uma coisa é uma opinião. Outra coisa é uma verdade objetiva. Eu posso ter uma opinião sobre essa verdade, sobre esse facto. Posso ter uma opinião Mas a minha opinião não é um facto. Portanto, também vejo com alguma apreensão a subida desse pessoal que cultiva estes setores meio duvidosos.
Vamos voltar à música. Já falámos aqui do teu novo disco, "Mundo Antena", mas olhando aqui para o panorama musical, tu sentes que a partir de uma certa idade há um vazio de mulheres na música? Existe quase como uma espécie de, eu não queria usar esta expressão, mas acho que é aquela que pode ser mais elucidativa para quem nos está a ouvir, um prazo de validade para ouvirmos certo tipo de mulheres a cantar ou dar espaço a essas mulheres para aparecerem.
Sim. Basta olhar. Vamos recorrer aos números, factos, objectivos. Se pensarem em artistas masculinos nos seus 60, 70 e 80 que estejam a dar concertos com salas cheias e o público fiel, encontram alguns exemplos. Pensem em mulheres nos seus 60, 70 e 80 que estejam a encher salas. Não é porque elas não consigam ou não tenham nada para dizer. Pelo contrário, eu com 46 anos tenho tanto ou mais a dizer do que tinha com 26.
Ainda por cima há pouco tempo celebrámos os 51 anos do 25 de Abril.
Ora!
O que esse conceito de liberdade teve para ti?
O conceito de liberdade? Tudo.
Enquanto artista.
Exatamente. Ora bem, eu não tenho de pensar se vou para a prisão por cantar certas músicas.
Mas sentes que tens mais responsabilidade por causa disso?
A minha responsabilidade é com a minha obra de arte, a minha obra. As músicas que canto, os autores que eu interpreto, os músicos que me acompanham, o público que me está a ver naquele concerto.
Todas as influências que também chegam até ti.
De certa forma. Não posso deixar que isso seja uma prisão, é uma falsa liberdade. Portanto, eu quando crio, só sirvo aquilo que me agrada a mim. Eu não posso servir uma ideia que eu acho que tenho do que as pessoas querem de mim. Se me faço entender. Não sei se me estou a fazer entender. Agora, lá está, a liberdade, uma sociedade mais igual, mas vamos a ver, encontramos poucos exemplos de mulheres mais velhas. E isso preocupa-me. Eu tenho 46 anos, na verdade, já me estou quase a sentir um dinossauro. E não faz sentido nenhum estarmos nisso da idade ainda.
Mas isso deve-se a quê, propriamente? Ou seja, por que é que existe esta, não queria chamar limitação, mas acho que acaba por ser uma palavra que se adequa aqui.
Vamos falar de como a validade da mulher sempre foi tida ou achada através da sua fertilidade, da sua aparência jovem. Se parecia jovem, estava em idade fértil, podia contribuir para a sociedade. Quando deixava de estar fértil, portanto, aparentava os primeiros sinais de envelhecimento, a não ser que fosse para avó, para cuidar dos netos, mas de resto já não tinha grande utilidade nem voz na sociedade. Portanto, uma mulher mais velha. Depois as mulheres mais velhas, é muito achado, porque nós ficamos com menos filtros, ficamos com menos medos. Não temos problema nenhum em que não gostem de nós.
Isso já se via mesmo no tempo dos Deolinda, ainda.
Mas aquilo que achavam de mim ainda me pesava e tudo isso. É claro que não tirava a liberdade de cantar o que eu queria, mas pesava-me. Agora não estou muito importada. Não estou grandemente importada com aquilo que acham de mim. E tenho uma voz que quero utilizá-la e dizer coisas já sem grande medo.
Essa voz está mais forte agora ou nos tempos dos Deolinda?
Sim, agora. Muito mais forte.
Agora está no ponto.
Não, agora está no ponto. Cada vez mais. E isto tem a ver também com a idade. A mulher ganha isto com a idade e isto é um bocadinho assustador. Mulher sem filtros. Então eu acho que a sociedade tem alguma dificuldade em lidar com estas mulheres livres e soltas e que não pretendem agradar. Ainda não sabem bem onde nos colocar, o que fazer conosco.
Não dá para meter na caixinha.
Não dá para meter na caixinha, exatamente. E portanto tentam dizer: "Esta já passou, já está velha, não encontro aqui nenhum elemento que me seduza." A mulher tem de seduzir. O homem é charmoso, a mulher tem de seduzir.
Estavas aqui a falar de exemplos de pessoas que enchiam salas, neste caso mulheres, e eu lembrei-me de uma, entretanto, que esteve cá há muito pouco tempo.
Lena?
A Lena d'Água, precisamente.
É o nome a que nos agarramos.
E que é a pessoa sem filtros, a mulher que diz o que tiver a dizer e continua a encher salas e tem um novo trabalho que saiu no final do ano passado que está muito bom.
Portanto, vale a pena sermos livres, vale a pena termos uma palavra a dizer. Mas é uma luta, ou seja, ainda não é natural, normal para a sociedade. Portanto, eu acho que é uma luta que a minha geração vai, naturalmente, agora vou tentar arrepiar um bocadinho caminho eu e as minhas colegas da mesma geração, para depois as gerações mais novas já terem um caminho mais largo.
Ana Bacalhau, estamos mesmo a chegar ao fim. Queremos saber onde é que te podemos ouvir. Já sabemos que te podemos ouvir neste "Mundo Antena", mas por onde é que vais andar?
Vou andar pelo país todo! De Monchique a Guarda, Salvaterra de Magos, Porto. Isto são as datas que eu me lembro.
E qualquer coisa é só buscar-te nas tuas redes sociais, que ajudam nesse aspeto e são boas para isso e também para divulgares o teu trabalho. Muito obrigado por teres vindo ao "40 Minutos". Um grande beijinho e muito sucesso. Obrigado.