Ao contrário daquilo que parece preocupar a maioria das pessoas quando se fala em Inteligência Artificial, que está relacionado com a possibilidade de um dia, as máquinas poderem atingir uma capacidade de criação autónoma que poderia destruir a humanidade, a mim preocupa-me a centralização de poder em meia dúzia de pessoas, que não são escrutináveis na sua moral, nas suas convicções e nos seus interesses, e que poderão, muito antes de destruir a humanidade, disromper as sociedades que criámos ao longo de milénios e maltratar, abusar e escravizar populações.

Esta mesma preocupação é levantada pelo Papa Leão IV, na sua encíclica Magnifica Humanidade, em que refere o enorme risco da transferência do poder dos países para os privados.

A principal apreensão está na incapacidade de garantir, por parte destes privados, a centralidade do Bem Comum em todos os desenvolvimentos desta nova tecnologia e a fácil tentação do abuso da vida das populações pela procura da satisfação dos interesses individuais, principalmente na procura absoluta do enriquecimento.

Como dizia, numa palestra recente, Miguel Morgado, apesar de assistirmos hoje a uma perda de consciência sobre o Bem Comum por parte dos políticos em geral, a circunstância de estes estarem sujeitos ao escrutínio das eleições dão-nos uma confiança de que teremos uma capacidade de intervir no desenvolvimento da sociedade, que nunca teremos se este poder ficar dominado por privados, que nunca terão de prestar contas a ninguém.

A realidade hoje já nos dá uma visão de uma sociedade que caminha a passos largos para uma crise existencial.

A evolução da riqueza como objectivo e medida última do sucesso, desprezando o conceito do objectivo fundamental da vida de cada ser humano, que é ser feliz, traduziu-se numa cada vez maior obsessão de acumular riqueza e no abandono cada vez maior da sua distribuição, a par do desleixo sobre a integração de todos na responsabilidade do desenvolvimento da sociedade.

Assistimos hoje a enorme aumento da riqueza individual de uns poucos e ao crescimento de uma massa populacional que sobrevive a custa de apoios do Estado, sem ter qualquer responsabilidade de participar na sua manutenção, cuidado ou desenvolvimento.

Os primeiros deixaram de se preocupar com a sociedade pois acreditam, erradamente na minha perspectiva, que a sua riqueza os protege de tudo e apenas pretendem utilizar essa mesma sociedade para os seus benefícios.

Os segundos sentem que a sociedade apenas lhes deve e que nada têm que fazer para a sustentar.

No final será a sociedade que acabará por se destruir, seja através de uma revolução ou uma guerra e tanto uns como outros perderão tudo pois é, ainda hoje, esta sociedade que os alimenta.

E assim, antes que a humanidade acabe, acabará a Inteligência Artificial, a riqueza, os subsídios e, acredito eu, só nos restará voltar a procurar ser felizes.