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Com 24 mulheres mortas só até novembro, com uma gap salarial absurdo, em que uma mulher começa a trabalhar no dia 1 de janeiro e só começa a receber em meados de fevereiro, enquanto que o homem começa a receber a partir do dia um. O fato de as mulheres estarem mais sujeitas a perder o emprego, trabalham não sei quantas horas por semana no serviço doméstico, sobrecarregadas e por isso também, por estarem sobrecarregadas com o trabalho doméstico e reprodutivo, cuidado dos mais novos e dos mais velhos, e nessa dupla jornada não conseguem competir no mercado de trabalho com os seus pares. E a desigualdade salarial, apesar de as mulheres terem mais qualificações, vai aumentando à medida que vamos subindo na pirâmide. Há uma minoria de mulheres nas chefias das grandes empresas, há um teto invisível pra progressão de carreiras. Todas essas coisas me parecem demasiado óbvias por serem evidentes e comprovadas estatisticamente, pra ignorar que, de fato, ainda não vivemos em igualdade plena. No dia que nós vivermos a igualdade plena, ninguém vai querer, obviamente, andar a fazer militância por uma causa que já está ganha.

Cresceu entre livros que lhe enchiam a casa de mundos possíveis, entre palavras que aprendia antes mesmo de saber escrevê-las, entre ritmos que descobriu sem imaginar que um dia fariam parte da sua identidade. Fez da sociologia uma lente para ler o mundo, da geografia humana, um mapa para o compreender e da escrita, a ferramenta para o transformar. Tornou-se voz de causas, rosto de inquietações, autora de versos que respiram coragem, esperança e luta. Hoje, numa altura em que o mundo parece girar mais depressa do que conseguimos acompanhar, ela continua a acreditar no poder da palavra para resistir, explicar e, quem sabe, cuidar. Uma vida inteira a escrever, a cantar para reparar, a pensar para não desistir. Ana Matos Fernandes, Capicua, em "40 Minutos". Bem-vinda, aqui é a Rádio Observador.

Olá, muito obrigada por essa introdução tão lírica.

Bem-vinda, Capicua. Olha, já sabes dizer Nova York?

Já sei, mas prefiro dizer Vaiorken.

Nós também. É incrível. Vaiorken é o nome da tua música mais ouvida no Spotify, do disco "Sereia Louca", e era o que tu dizias na tua infância, em vez de Nova York, porque não sabias dizer corretamente Nova York.

Troquei a sílaba, inventei uma palavra nova.

E fizeste bem. Eras muito trapalhona na infância, ou não?

Não, acho que não. Mas sempre gostei de palavras e meu pai dizia muitas vezes palavras ao contrário e temos ambos um sentido de humor muito ancorado na linguagem.

Será que vem daí?

Não sei se vem daí, mas acho que o fato de meu pai valorizar a linguagem é que fez com que essa palavra, Vaiorken, não se perdesse na memória familiar, porque passou a ser uma private joke.

Era uma coisa muito vossa.

Não, é como eu dizia, quando era pequena e meu pai achou piada, começou a repetir Vaiorken e a contar essa história. Eu não me lembraria de dizer Vaiorken se meu pai não tivesse assinalado essa palavra e acho que ele só achou piada e só memorizou e transformou aquilo numa private joke familiar, porque também, como eu, gosta da linguagem e do humor de linguagem.

Dos trocadalhos.

Dos trocadalhos do carilho.

Olha, quando é que tu percebeste: "Epá, isto de viver das palavras, cantadas ou não, pode ser aqui o caminho?"

Olha, não foi uma decisão estratégica, foi um bocadinho fruto do acaso, porque eu fazia investigação em ciências sociais, tinha acabado o doutoramento, estava nesse processo de me candidatar a bolsas de investigação.

Já agora, o teu doutoramento em Geografia Humana foi sobre o que?

Ai, vamos adormecer a plateia toda agora.

Não, diz lá. Tem um título de 55 palavras, é isso?

Era sobre os discursos urbanos em torno do desenvolvimento rural, nesta era pós-produtiva, em que o rural é mais um cenário de fruição e de consumo do que um espaço de produção. E como é que nas cidades se alimentam esses ideais rurais, que depois acabam por indiretamente moldar as políticas de desenvolvimento rural.

Ok, há muita visão fantasiosa sobre a realidade.

Sim, sobretudo nesta era de turistificação de tudo e mais alguma coisa. Mas a pergunta era antes dessa?

Era sobre as palavras, quando é que tu percebeste? Tu estavas a estudar, não é?

Sim, eu estava nessa fase e coincidiu com os anos da troika, em que não havia propriamente dinheiro pra fazer investigação científica, muito menos em ciências sociais. E calhou que eu comecei a ter cada vez menos trabalho como socióloga e paralelamente, por sorte do destino, tinha saído o meu primeiro disco há pouco tempo e comecei a ter muitas oportunidades de trabalho na música e uma coisa foi levando à outra e de repente estava num processo de profissionalização na música, que foi uma coisa que eu nunca ambicionei. Não só porque sou de uma geração que cresceu com o hip-hop mais underground e que nunca achou que o hip-hop fosse uma coisa que desse dinheiro no futuro, porque só nos dava despesa.

Pois, era contracultura, não é?

E fazíamos por amor à camisola, portanto, nunca foi uma coisa assim que nos ambicionássemos.

Ainda por cima sendo mulheres, ainda há essa questão.

Sim, também não havia uma referência. Homens, havia algumas referências de rappers que fizeram algum percurso de profissionalização, já nessa primeira geração, como o Bossa CC, os Mind da Gap, etc. Ainda assim, eram muito poucos e, portanto, não era normal nós ambicionarmos algum dia ganhar dinheiro com rap, muito menos sendo mulher, obviamente, porque não havia nenhuma mulher que tivesse feito esse percurso de profissionalização ou pelo menos, volta e meia aparecia uma, mas não acontecia consolidar uma carreira longeva e de muitos discos no nosso mercado, que é um mercado pequeno e difícil, e onde o rap na altura também não era propriamente mainstream, até havia um certo preconceito. E, portanto, foi uma surpresa também pra mim o fato de começar a ter cada vez mais oportunidades profissionais e quando percebi que isso estava a acontecer, também me dediquei de corpo e alma e com muita intensidade. Apesar de que, até hoje, acho que depender da música é um bocadinho como depender do marido, é má ideia, é desaconselhada e misturar romance com sustento nunca vai correr muito bem, mas pronto.

Mas lembras-te do primeiro texto que te pagaram?

Lembro-me de começar a ter propostas de concerto e de começar a criar uma agenda de concertos, ainda era na altura eu que tratava tudo. E depois lembro-me de ter tido, exatamente no dia em que soube que não ia ter a minha bolsa de pós-doc, tive uma reunião com a Valentina de Carvalho, que queria assinar um contrato comigo e comecei a ter a oportunidade de gravar num estúdio profissional, de eventualmente ter uma agência que vendesse meus concertos, começar a ter condições pra ter uma equipa técnica, começar a fazer o circuito dos festivais mais Profissionais, dos auditórios municipais, etc.

Isso assustou-te na altura? Do nada, ter essa-- Do nada, não, foi um caminho que foi construído.

Sim, acho que precisamente por não ter sido do nada que não me assustou. Eu vinha de um percurso muito dentro do underground, já há alguns anos. Quando o meu primeiro disco saiu, comecei a furar a bolha do hip-hop mais underground, mas ainda assim dentro do circuito da música alternativa. E comecei a ter algumas oportunidades também de divulgar o meu trabalho nos media, mas ainda assim com certo exotismo, do tipo: "Uma miúda que faz rap e que é do Porto".

Tinhas tudo contra ti.

Não.

Desculpo várias coisas nestes termos.

Por um lado, sim, acho que no início era contra mim, mas depois esse exotismo também me deu muita visibilidade, no sentido em que nesses primeiros anos, quando saiu o meu primeiro disco, depois o segundo, sentia que também para os media, essa estranheza era interessante.

Eras uma espécie de alien.

Sim, e havia essa curiosidade.

A mulher barbuda.

É tipo isso, havia uma certa curiosidade e acho que obviamente eu aproveitei isso. Claro, depois se a minha música não tivesse consistência e eu não conseguisse fazer um percurso longo a partir daí, também tinha caído por terra esse período de atenção e esses cinco minutos de fama, digamos assim. Mas acho que isso jogou a meu favor, o fato de ser um bocadinho distante da ideia que as pessoas fazem de um rapper.

A tua rebeldia também ajudou nesse sentido. E também as tuas referências, porque eu sei que antes do rap veio também o reggae brasileiro, o primeiro contacto com a música negra. Foi isso que também depois inspirou para aqueles primeiros trabalhos que fizeste e tudo aquilo que tens até hoje, a nível de herança musical, não é?

Sim, eu acho que antes de eu começar a interessar pela cultura hip-hop, e interessei-me primeiro pelo grafite, eu costumava ouvir muito reggae, é verdade. E MPB também, e obviamente a música que os meus pais ouviam na infância, que era aquela geração de Abril, os cantautores de Abril, e que até hoje são uma grande referência para mim. Mas acho que quando encontrei o rap, houve um sentido de identificação, não só por essas referências dos cantautores de Abril e da forma como eles davam protagonismo à palavra, e à palavra não só como objeto estético, mas como veículo de mensagem. E depois, obviamente, esse meu interesse pela música negra, que também me tinha feito interessar pelo reggae em primeiro lugar, e que depois também fez sentido que derivasse para o hip-hop. Estavas a falar de rebeldia. Eu não sei se se chama rebeldia.

Eu digo isto porque o grafite na altura era muito associado a uma coisa rebelde, não é?

Mas eu acho que esse interesse dos media veio numa fase posterior, porque nessa altura em que eu fazia grafite, foi mesmo uma fase muito embrionária da minha relação com a cultura hip-hop. Nessa altura, uma pessoa se tinha um interesse, tinha que estar presencialmente com pessoas que partilhassem o mesmo interesse que nós, porque não havia internet como há hoje, no final dos anos 90. Então eu, se me interessava por grafite, tinha que encontrar outras pessoas que tinham o mesmo interesse e eram as pessoas que costumavam ir às festas de hip-hop num barzinho pequenino na Rua de São Luis, no Comics. E foi aí que eu comecei a ouvir mais rap e comecei a interessar-me pelo rap e pelo rap do Porto, pelos Mind Da Gap, pelos Dilema. Foram assim uma grande referência, porque eu pensei: "Se eles fazem isto, eu que gosto de escrever desde a infância, se calhar também posso fazer". Fiz todo um percurso ainda no underground, só no meu primeiro disco, que saiu em 2012, já bastante tempo depois, é que eu tive esse contacto com os media e acho que aí não só esse exotismo foi importante, mas também, obviamente, o fato de eu me dedicar a algumas causas e fazer um rap mais poético, mais metafórico, mas também mais social e político. E acho que isso, de certa forma, também criou algum interesse, porque as pessoas, mesmo fora do espectro do hip-hop, identificaram-se com essas causas ou com essas ideias ou com essas mensagens. E sobretudo, depois, a partir dessa visibilidade inicial, começaram a perceber que toda a minha discografia vai sendo pontuada por essas minhas preocupações sociais.

Portanto, para ti, a música tem que ter um propósito.

Quer dizer, eu não tenho essa arrogância de dizer que tem que ter, porque acho que a liberdade deve começar por ser um ímpeto de liberdade e de concretização de uma visão artística. Por isso, cada artista sabe como é que se cumpre. No meu caso, acho que ter o microfone na mão é uma oportunidade, mas também traz uma responsabilidade e eu acho que faz sentido para mim aproveitar essa oportunidade para contribuir, de certa forma, para aquilo que eu acho urgente debater e assinalar e denunciar. Até porque, como eu disse, as minhas referências fundadoras já o faziam.

Já te arrependeste de um verso dito ao microfone?

Não, não me arrependi, até porque os discos são coisas que eu faço de forma espaçada, ponderada, é quase como um retrato de uma época.

No teu rap não há improviso.

Não, eu gosto de escrever, esse é o meu ímpeto e é isso que me aproxima do rap, mas gosto muito do rap de improviso. Temos a Eva Repdiva agora no Parlamento, que é a rainha do rap de improviso, e uma grande amiga minha, e ela sim, é que domina essa arte. Eu gosto da escrita.

Estás a falar da Eva Cruzeiro.

Exatamente. Ela é que é a rainha do improviso. Eu gosto da escrita.

Já agora a política seduz-te, a política ativa?

Não.

Ter um cargo, ser eleita. Uma vez tu falaste sobre os comentadores políticos e do facto de gostares de ver, de acompanhar.

Tenho uma compulsão, é a minha telenovela.

Mas estar naquele papel, não.

Do comentário político? Eu escrevo crónicas semanais no Jornal de Notícias e divulgo umas das minhas laraças, as minhas opiniões.

Mas de estar, por exemplo, no espaço televisivo, não é algo que te seduz.

Nunca ambicionei essa situação, porque estou muito feliz como cronista, primeiro na Visão, durante alguns anos, agora no Jornal de Notícias, e cargos políticos ainda menos, porque acho que hoje em dia precisa muita coragem para estar numa função pública, não só porque o escrutínio é implacável, as pessoas vão rever todas as multas de estacionamento que a pessoa tem desde 1985.

Estás a querer dizer que há um passado negro.

Não tenho nada a esconder tirando o grafite. Tirando o grafite, nunca fiz nada de ilegal.

Vamos iniciar moldes.

Já prescreveu. Não, mas o que eu quero dizer é o escrutínio não necessariamente justo, porque às vezes, como sabemos, há muitos julgamentos de tabacaria, mas também Sobretudo no contexto em que vivemos de tanta polarização, tanta toxicidade no debate público, e esse ódio online muito orientado também especificamente para as mulheres de esquerda ultimamente, acho que é um desporto de combate muito arriscado. Só por muita dedicação, muita convicção, muito sentido de missão é que a pessoa aguenta aquele tipo de visibilidade.

Então excluis liminarmente a possibilidade de um dia desempenhar um cargo político.

Excluo. Aliás, se isso acontecer, já disse às pessoas próximas que é melhor marcar uma consulta.

Sabes o que é que tem acontecido às figuras públicas que dizem que não publicamente.

Vão lá parar? Não, não tenho acompanhado.

Mas isso também não te assusta?

Não. Eu na minha adolescência fiz associativismo, participei no SOS Racismo, depois no PSR, que entretanto derivou para o Bloco de Esquerda. Desde a fundação do Bloco de Esquerda que eu deixei a militância política e foi importante para a minha formação cívica fazer parte da esquerda, esquerda feminista, ecologista, internacionalista. Foi uma grande escola. Mas sinto que cumpro um papel de cidadania ativa muito mais interessante a partir da minha música e do meu trabalho como cronista e das minhas conversas em escolas, em conferências, em entrevistas, em projetos sociais e comunitários, e que a minha palavra tem mais impacto nesse âmbito do que propriamente se estivesse numa instituição política tradicional e na política partidária. E até agora, até ver, a atualidade só confirma essa minha intuição.

Tu já disseste aqui, feminista, ecologista e de esquerda. Alguma destas identidades, vamos pôr assim desta forma, te levou a ter mais medo de assumir? Ou tu sendo a mulher que és hoje, também nunca tiveste medo de assumir qualquer uma destas facetas?

Não, não tenho medo de assumir. Aliás, é muito óbvio no meu trabalho, no meu posicionamento público.

Eu digo mais até no início, quando estavas no underground e fizeste essa depois passagem.

Eu tenho como referências não só aquela geração de Abril, o Zé Cafonso, Sérgio Godinho, Zé Mário Branco, o Fausto, mas também a Maria Teresa Horta, Maria Vale da Costa, as Três Marias, a Natália Correia. Muitas mulheres que abriram caminho arriscando a sua vida e a segurança da sua família para eu poder estar aqui hoje a falar no microfone. Qualquer consequência que possa advir do meu posicionamento político e público no meu trabalho, nas minhas opiniões, é pequeno perante as consequências que essas pessoas realmente enfrentaram para eu poder estar aqui hoje. Acho que isso seria um desperdício de liberdade de expressão e democracia. Eu andar a autocensurar-me ou a temer que impacto pode ter na minha carreira ou se não vou marcar concerto ali, ou sou patrocinador do festival X. Se eu andar com esses pruridos, eu não serei livre e não honrarei a gratidão que tenho por essas pessoas.

É interessante falares do passado e desse legado. Hoje em dia há grandes discussões sobre o passado em Portugal. Achas que nós andamos a perder muito tempo com o passado?

Acho que andamos a cair nas armadilhas da extrema-direita, a fazer guerras culturais completamente divisivas, quando temos tanta coisa importante para resolver.

Isso não foi a esquerda que começou, Capicua?

Especificamente o quê? As guerras culturais?

Sim.

Eu acho que as pessoas muitas vezes confundem o ativismo de algumas minorias e as causas que as pessoas chamam de identitárias, e que foram muito importantes para haver, até na nossa Constituição, a consagração da igualdade e de uma série de direitos cívicos que estavam obviamente em falta, e confundem essa luta legítima com as tais guerras culturais.

Dá um exemplo de uma guerra legítima.

Por exemplo, quando foi a luta pelo direito ao casamento dos homossexuais ou da adoção de crianças, isso pela direita conservadora é tomado como uma causa woke, quando isso parece-me que faz parte do quadro dos direitos humanos básicos e da igualdade de oportunidades, que está aliás consagrada na nossa Constituição. E portanto, não me parece que isso possa ser enquadrado como uma guerra cultural. Agora, estarmos a discutir coisas como as burcas, o 25 de Novembro, coisas que têm muito mais a ver com um marcar de posição que é simbólico, do que propriamente uma coisa que vai mudar a vida das pessoas, como é o caso, por exemplo, dessas batalhas da esquerda, que aí realmente mudaram a vida de pessoas. Acho que as guerras culturais são simplesmente esse finca-pé simbólico que não muda nada no nosso dia a dia, a vida das pessoas, e que não cria oportunidades nem direitos a ninguém. É simplesmente uma forma de alimentar a polarização, o divisionismo, a toxicidade do debate público. Isso pra mim parece muito óbvio. E quando nós temos problemas como temos hoje no Serviço Nacional de Saúde, na educação, na habitação, que é um verdadeiro flagelo social. Tantas coisas que nós temos para debater e estamos a discutir as burcas ou o 25 de Novembro, a mim parece-me completamente frívolo e uma perda de tempo absurda e aquilo que de fato depois distancia as pessoas da política, que é pensar: "Mas essas pessoas estão aqui a perder tempo, horas a fio aos gritos uns com os outros no Parlamento, por este tipo de coisa?" Eu acho que esse é que é de fato o problema de estarmos a cair na armadilha. Parece aquela anedota da loira que havia nos anos 90, que ainda se podia fazer anedotas de loiras. Em que havia a loira que encontrava uma casca de banana no passeio e dizia: "Lá vou eu cair outra vez." E nós andamos a fazer isso todas as semanas.

Capicua, isto passa muito depressa. A primeira parte já terminou.

Eu falo muito, peço desculpa.

Vamos só fazer aqui uma pausa para as notícias e já voltamos com a segunda parte. Esta semana, em 40 minutos, é com a Capicua. Segunda parte do Em 40 Minutos. Estamos à conversa esta semana com Capicua. Já falamos tanto de política.

Pois é, ainda por cima estamos aqui no Observador, que é uma rádio conhecida por debater política.

És ouvinte do Observador?

Volta e meia. Confesso que os painéis de comentário do Observador normalmente são bastante à direita liberal.

Mas também é desafiante para alguém de esquerda.

Eu gosto de ouvir.

Ter pessoas com quem temos diferenças.

Obviamente, e acho que dentro do espectro democrático, todas as perspetivas são válidas.

São válidas. A política é uma coisa que está muito presente no teu dia a dia, Capicua?

Sim, eu gosto de estar informada.

Um jantar de amigos do universo Capicua envolve toda a gente de mangas arregaçadas a discutir os temas da atualidade com muito entusiasmo.

É verdade. Mas por acaso, apesar de nós debatermos política, às vezes de forma entusiasmada e furiosa, tenho tendência para ter grupos de amigos pouco diversos ideologicamente. O que eu acho que é pena, porque muitas vezes é quase como se a lógica do algoritmo se aplicasse à vida real e andássemos todos a pregar para os convertidos. E o ideal era sermos mais contraditórios. Mas eu gosto de debater política, desde que seja com honestidade intelectual e com pessoas que estão realmente no espectro democrático, porque isso pra mim é o chão comum. A partir daí, já é difícil.

Nas redes sociais, por exemplo, quando há essa, e há muito, essa diferença e esse choque ideológico, como é que tu lidas com essa parte? Porque também és muito interventiva.

É difícil, porque nas redes sociais normalmente não há choque ideológico. Há insulto quando a pessoa não concorda com o que a gente diz e muitas vezes, eu já disse, hoje em dia a tendência é que ser mulher de esquerda acaba por ser um alvo dessa onda de ódio online. Não me vitimizando, obviamente, porque eu estando no espectro da cultura até estou bastante protegida, mas vemos isso obviamente naquilo que são as nossas deputadas da Assembleia da República. E acho que isso se nota no ambiente de grande agressividade que se vai naturalizando a partir das redes sociais e depois vai escalando para as nossas instituições políticas, e acho isso muito triste. Portanto, não encontro nas redes sociais propriamente uma plataforma de debate. Mas obviamente gosto de ouvir programas de comentário político, ler jornais, crônicas, e faço também no meu espaço de crônicas à terça, no Jornal de Notícias, exercer esse meu direito também de opinar. E obviamente vou recebendo às vezes alguns e-mails, de pessoas que concordam, que discordam, e acho que isso é tudo saudável. Agora, nas redes sociais é difícil ter um debate edificante e profundo. Normalmente é mais na base do pregar pra convertido, como eu estava a dizer.

Ou depois és a sorte do algoritmo ou o azar para onde vão as tuas publicações também.

Sem dúvida.

Elas podem caminhar para um lado que não é o objetivo, a menos que o objetivo seja comum e total de chegar a toda a gente.

Claro, só que eu acho que a lógica do algoritmo também não é inocente. E acho que às vezes há posts que são catapultados para ter muita visibilidade, porque causam conflito e discórdia. Isso já está mais que provado, que quanto mais há discussão, mais o algoritmo alimenta a visibilidade daquele post. E às vezes acontece haver coisas muito interessantes e que não têm alcance nenhum, porque basta ter duas ou três palavras que há um shadow ban e porque existe a palavra violência ou guerra ou genocídio, alguma coisa do gênero, já passa a ser tolhido pelo alcance do algoritmo.

Tu que vens da sociologia, estudaste sociologia, Capicua, para onde é que tu vês isto evoluir?

É complexo.

E difícil de responder.

Muito difícil. Primeiro, porque futurologia sai sempre furada, normalmente, e sobretudo num tempo tão rápido, acelerado e imprevisível como o que vivemos. Mas acho que temos muitas razões pra estar ansiosos e preocupados, como é óbvio. Aliás, o meu último disco, "Um Slalom Antes do Fim do Mundo", fala muito sobre isso, sobre a complexidade do nosso tempo, sobre o espírito da época, esta sensação de apocalipse iminente. Obviamente, com o poder da big tech e das redes sociais, a forma como elas influenciam as nossas democracias de forma prejudicial, com a ascensão da extrema-direita um pouco por todo o mundo, com a crise climática para a qual não há políticas à altura.

A ameaça também da inteligência artificial.

A ameaça da inteligência artificial e a sua total desregulação, até porque a big tech tem tanto poder que a regulação é complexa e vai sofrer muita resistência.

Achas que é evitável no futuro próximo?

Os conflitos bélicos na Europa e no mundo. São tudo razões pra estarmos muito preocupados.

Sim. Falaste da regulação da inteligência artificial, parece-te um caminho óbvio?

Acho que é preciso, é urgente. E acho que é preciso ter coragem política para fazer frente àquilo que pode ter consequências muito imprevisíveis e obviamente são empresas que têm um poder gigante e isso já é difícil de regular. Às vezes o direito de autor nas plataformas digitais ou até a fake news nas redes sociais, quanto mais regular a inteligência artificial. E também me preocupa o impacto ecológico da inteligência artificial. Há muitas pessoas que não sabem e andam a fazer pesquisas frívolas no ChatGPT, que uma pesquisa no ChatGPT gasta 10 vezes mais água do que uma pesquisa Google. E estamos a falar de data centers como se fossem uma coisa ótima pro nosso país. Temos que saber que isso é um impacto brutal na nossa pegada ecológica, no consumo de água e no consumo de energia. Por exemplo, já se fala muito do recrudescimento da energia nuclear pra fazer face às exigências de consumo desses data centers. E eu não vejo isso a ser falado. As pessoas ainda falam da inteligência artificial. Obviamente, há todas as questões de regulação que têm a ver com os dados. É difícil controlar um tipo de De crescimento exponencial e às vezes até um bocadinho obscuro daqueles sistemas e da forma como eles criam dados, e também como a própria substituição da realidade por uma realidade falsa que nos induz tantas vezes em erro e que reproduz fake news, e numa realidade próxima em que vai ser muito difícil distinguir o que é falso e o que é verdadeiro. Tudo isso me assusta e acho que devíamos estar mais protegidos do ponto de vista legal. Acho que a União Europeia tinha que fazer esse trabalho. O Brasil está a tentar resistir às big techs e acho que temos que continuar a fazer isso cada vez mais.

Muito bem. Olha, vamos falar mais sobre ti.

Sobre mim, claro. Estou aqui a opinar.

Estou a olhar para o teu pescoço, trazes uma mão pendurada, uma pequenina mão de cerâmica pendurada num colar dourado. Que mão é essa?

Foi um presente. Eu tenho um projeto de música para crianças que se chama Mão Verde. E isto foi um presente. É uma banda, um quarteto. Sou eu, o António Serginho, a Francisca Curtção e o Pedro Geraldes. É um projeto que tem 10 anos e que vamos agora para o nosso terceiro livro disco, e esta mão foi-me oferecida por causa disso. Essa dimensão do meu trabalho, também da literatura para a infância, da música para a infância, também responde um bocadinho àquilo que estávamos a falar há bocado, das nossas causas, das minhas causas, no caso. E a Mão Verde é um projeto de música para crianças que tem um pendor ecologista e que tenta tornar lúdico, dançável e engraçado um conjunto de conteúdos informativos, científicos e ecologistas em torno do que é o consumo, a alimentação, a agricultura. E tenho sido muito feliz a fazer esse projeto.

É proselitismo ou não?

Não.

Não estás a convencer ninguém a fazer qualquer coisa.

Não é preciso. Nós vamos pelo viés da poesia e da música, trabalhando muito o formato lengalenga e aquilo é superlúdico e pode ser absorvido apenas como tal. Mas é engraçado que as crianças têm muito interesse em tudo que tem a ver com a natureza. Depois também tem tido o enquadramento de muitas escolas que trabalham esses conteúdos, as letras e as canções, no âmbito escolar e usam como ferramenta para a educação ambiental. E eu acho que mais do que tentar evangelizar alguém, é disponibilizar a informação de uma forma lúdica, irônica, engraçada, e permitir que essas coisas, que são urgentes e às vezes até complexas, sejam absorvidas de uma forma divertida, não só pelas crianças, mas pela comunidade escolar e depois pelas famílias. Porque já se sabe que os pais são as principais vítimas da música para crianças.

São, sim.

E a verdade é que temos tido verdes e maduros nos concertos, todos a dançar muito, e as pessoas gostam muito. E vamos agora fazer o terceiro disco, que sai na primavera. E temos tido, de facto, um ótimo feedback. E não há nada mais punk do que uma plateia de crianças a dançar como se ninguém estivesse a ver. As crianças têm uma liberdade e um espírito punk.

E uma inocência acima de tudo.

Exato.

Tão pura.

Já vem no estado selvagem.

Sim. E manifestam-no.

É, sem pudor, sem filtro.

Tu escreveste um livro também há muito pouco tempo sobre um caracol, para falar sobre a crise habitacional e é um livro que, pelo que percebemos, é tanto para pais como para filhos.

Sim, eu tento fazer, sempre na literatura para a infância e na música para a infância, tento fazer esse crossover geracional, porque acredito que não só somos as principais vítimas da música para crianças.

Não basta a música, com os livros também.

Óbvio. Eu sou mãe de uma criança e sei muito bem que às vezes temos que repetir o mesmo livro 20 mil vezes.

Tens uma filha, não é?

É um filho.

Um filho, desculpa.

Tem seis anos e às vezes pode ser doloroso, porque há muita coisa de pouco interesse.

Faz muitas perguntas difíceis o teu filho?

Claro que sim, mas isso é que é bom.

Ainda está na fase dos porquês. Está menos ainda.

Tem fases. Mas eu acho que isso é que tem interesse, é fazer música que não seja patética ou simplista, ou literatura para a infância, que também traga alguns debates. Porque a partir da história, da narrativa, dos diálogos engraçados, vamos levantando questões que depois podem ser exploradas, não só no contexto escolar como em casa. E isso sim é que é interessante. E esta é a história de um caracol que quer fugir de casa porque está muito cansado de andar a carregar a sua carapaça, mas percebe que não pode fugir de casa, porque tem a casa agarrada a ele, decide tirar umas férias e vai em direção à praia. E nesse percurso, que é uma verdadeira saga, porque o caracol move-se de forma muito lenta, vai tentando interagir com uma série de animais e percebe que eles estão todos muito atarefados a construir um ninho, uma teia, uma colmeia, uma toca. Percebe que quando chega à praia e vê outros animais como ele, que têm habitação garantida, que de facto é um privilegiado. E essa história quer falar sobre a crise da habitação, mas sobretudo sobre a noção de privilégio próprio, que é uma coisa muito importante e que muitas vezes falta. E que eu acho que é uma coisa que é engraçado debater com as crianças e perceber até que ponto é que elas têm noção da sorte que têm por ter uma casa, por ter uma família, por ir à escola. Uma série de coisas que damos por garantidas, e ainda bem, porque é sinal que vivemos num contexto, felizmente num país democrático, em que nos últimos 50 anos fizemos todo um processo de desenvolvimento incrível, apesar de termos muitos desafios, obviamente.

Pois, era por aí que eu queria ir. Faltam casas e falta o quê ao país hoje, Capicua?

Olha, acho que falta corrigir algumas desigualdades, porque nos últimos anos as desigualdades têm aumentado em Portugal, e isso é uma coisa que está superdocumentada e comprovada pela estatística. Portanto, acho que devíamos falar mais sobre desigualdades sociais, devíamos falar mais sobre habitação, obviamente

Não falámos já o suficiente?

Falamos, mas ainda não temos os resultados.

Faltam soluções?

Acho que às vezes quando se levantam soluções possíveis, vêm uns desesperados: "Ai, vem aí o PREC!" A gente fala de soluções que muitas vezes são inócuas, porque o mercado continua totalmente livre e a especulação tem consequências.

Também partilhas da ideia de que vivemos todos amarrados a muitos interesses, independentemente da natureza e do seu hemisfério político?

Claro, nós vemos cidades insuspeitas de serem cidades governadas pela esquerda radical, a limitar o alojamento local, a pôr tetos a rendas, a tentar regular o mercado e achamos que isso tem tido resultados. Quando se fala isso em Portugal, parece que estamos a falar de nacionalizações ou do período revolucionário em curso e lá vêm os perigosos esquerdistas. Eu acho que às vezes falta um bocadinho de coragem para tomar medidas à altura do problema que temos. Neste momento, um país com salário médio muito baixo, é impossível alugar uma casa por menos de € 1000 em Lisboa. E eu não estou a falar de uma casa grande, estou a falar de um T0 ou um T1. Isso é uma coisa impensável. Como é que uma família monoparental a ganhar um salário médio consegue sobreviver? E isto é uma coisa que pra mim parece uma emergência social. Não percebo como é que temos um governo que ano após ano percebe que as suas medidas estão a ter o efeito contrário, porque o problema só se agrava, e continuamos todos a assobiar para o lado e a falar sobre burkas e o 25 de Novembro. Isso é o que me preocupa. Acho que temos também que falar sobre a delapidação do Estado Social, o facto do SNS e da escola pública estarem a precisar de uma atenção e de uma reforma. E o facto de termos estado tanto tempo a eliminar as chamadas gorduras do Estado e a tentar diminuir os funcionários públicos, agora faz com que não haja vontade nenhuma em ser professor ou médico, porque de facto não são carreiras atrativas e nós precisamos dessas pessoas. E portanto, se calhar temos que pensar outra vez como é que podemos atrair pessoas para o setor público.

Com estes problemas que aqui enumeraste: a educação, saúde, habitação.

É a lista de checklist do Sérgio Godinho. Fado, pão, habitação.

E a falta de soluções, muitas vezes. Estamos a passar por uma fase com falta de bons políticos em Portugal, acreditas nisso ou é mais do que isso?

Eu acho que falta trabalharmos de facto para mudar alguma coisa. Eu acho que as pessoas estão muito viciadas nos ciclos políticos cada vez mais curtos e numa lógica propagandística e eleitoralista de fazer as coisas. E temos pouco pensamento a longo prazo. E há coisas que só mesmo com alguma coragem, que se calhar num primeiro momento vão ser impopulares, mas que depois vão ter resultados. E acho que às vezes se cai muito nessa ideia de que estamos a apagar fogos e a tentar fazer umas medidas que agradem a gregos e a troianos e que funcionem ali para o próximo ciclo eleitoral, em vez de estarmos realmente a ter coragem de fazer alguma coisa de fundo.

Isto está tudo criado para aparecer um próximo D. Sebastião.

Mas o Sebastião se tivesse que aparecer, já tinha aparecido. Acho mesmo que somos nós que vamos ter que resolver o problema. Se estivermos à espera do Salvador, estamos só a perder tempo.

Era uma bucha sonsa da minha parte.

Sim. Não sei se é qualidade, eu não gosto dessa expressão, qualidade dos políticos, acho que também é um discurso um bocadinho pronto. Temos que trabalhar com o que temos. E acho que também hoje os políticos, obviamente, estão sujeitos a uma pressão muito maior, porque as notícias fazem-se ao minuto, 24 sobre 7, e o escrutínio de tudo é muito mais minucioso e há mil polémicas e todas as semanas tem que haver uma coisa qualquer para alimentar os programas de comentário político e para estarmos todos a falar no mesmo.

A propósito disso, até queria introduzir aqui um tema, a questão do feminismo. Tu assumes-te como uma mulher feminista.

Sem dúvida.

E temos tido alguns casos, até na Assembleia da República, de desrespeito perante mulheres. Como é que tu respondes à crítica de que o feminismo hoje em dia já não faz assim tanto sentido?

Olha, com 24 mulheres mortas só até novembro, com uma gap salarial absurdo, em que uma mulher começa a trabalhar no dia 1 de janeiro e só começa a receber em meados de fevereiro, enquanto que o homem começa a receber a partir do dia um. O fato de as mulheres estarem mais sujeitas a perder o emprego, trabalham mais não sei quantas horas por semana no serviço doméstico, sobrecarregadas e por isso também, por estarem sobrecarregadas com o trabalho doméstico e reprodutivo, a cuidar dos mais novos e dos mais velhos, e nessa dupla jornada não conseguem competir no mercado de trabalho com os seus pares. E a desigualdade salarial, apesar de as mulheres terem mais qualificações, vai aumentando à medida que vamos subindo na pirâmide. Há uma minoria de mulheres nas chefias das grandes empresas. Há um teto invisível para a progressão de carreiras. Todas essas coisas me parecem demasiado óbvias, evidente, e comprovadas estatisticamente, para ignorar que de fato ainda não vivemos em igualdade plena. No dia em que nós vivermos a igualdade plena, ninguém vai querer, obviamente, andar a fazer militância por uma causa que já está ganha. E acho que também há uma falta de consciência coletiva histórica daquilo que foi a luta feminista e das liberdades e dos direitos que consagrou na nossa Constituição. Se pensarmos que há 50 anos, as mulheres não podiam votar, não podiam trabalhar sem autorização do marido, não podiam ter uma conta bancária, não podiam chegar a demasiadas profissões. Quer dizer, a diferença é abismal.

Mas ainda há esperança?

Obviamente, acho que ainda temos muito trabalho a fazer. Há muitas coisas que já fizemos. Por exemplo, hoje a maior parte das pessoas licenciadas em Portugal são mulheres. Há muito mais mulheres a doutorarem-se neste momento do que homens. E mesmo assim, tendo mais qualificações, o gap salarial continua e não conseguimos ascender nas carreiras. Portanto, não é uma questão de mérito, é uma questão de desigualdade. E isso é que me faz acreditar que de fato ainda temos muito trabalho pela frente. Ou seja, temos que celebrar o que fizemos. As mulheres estão nos espaços públicos, as mulheres estão nas universidades, as mulheres têm esses direitos, mas depois faltam as oportunidades iguais.

Tu és a favor de políticas de correção das desigualdades, como por exemplo, cotas?

As cotas na política, por exemplo, acho fundamentais e a prova que mesmo assim não são suficientes, é que ainda continuamos a ser minoria nos órgãos de representação. Agora, eu acho que há muitas outras medidas de correção que podem ser mais simples. Desde logo, uma coisa muito simples, ter uma licença de parentalidade igual para mãe e pai. Aí acabava essa desigualdade laboral, no mercado laboral. Seria igual contratar uma mulher ou um homem em idade fértil, porque ambos teriam que ficar ausentes durante o mesmo tempo, exatamente igual. Esse tipo de medidas, para mim, parecem simples e intuitivas, e estão a anos-luz de serem sequer discutidas, porque a gente ainda está a tentar discutir uma licença de parentalidade de seis meses, que é o mínimo que a OMS aconselha a amamentação exclusiva. Portanto, quer dizer, nós estamos ainda a gatincar, quanto mais para falar de coisas realmente mais progressistas e que têm um impacto na vida das pessoas. Porque eu acho que há muitas medidas de políticas públicas que podem fazer essa diferença de corrigir as desigualdades e acho que, obviamente, celebrando tudo que conseguimos desde 25 de abril, nos direitos e nas oportunidades das mulheres, temos muita coisa ainda por conquistar e sobretudo, temos muita coisa por defender, porque esta direita radical quer fazer muitos retrocessos e não é à toa, e vemos isso em vários países do mundo, que quando eles chegam ao poder, as mulheres são um dos alvos preferenciais, assim como as minorias, os imigrantes, etc. E, portanto, não só temos que conquistar, como temos que defender. E se há mulheres que desvalorizam as conquistas da luta feminista, então abdiquem do seu cargo político, abdiquem do seu tempo de antena e vão para casa lavar a loiça, que é como elas gostam que as outras estejam.

Nós vamos ter agora eleições em janeiro, presidenciais. Na lista dos grandes partidos, daqueles candidatos que são apoiados pelos grandes partidos, que têm representação na Assembleia da República, temos apenas uma mulher, a Catarina Martins. Isto vem validar aquilo que disseste até agora?

Obviamente, acho que sim. Acho que é engraçado pensar que se estamos assim tão em pé de igualdade, como é que ainda não tivemos, tivemos até hoje uma única mulher primeira-ministra, nunca tivemos uma mulher presidente da República. Em Lisboa e Porto, não houve presidentes da Câmara mulheres até hoje. Quer dizer, eu acho que não é preciso estar aqui a enumerar as mil evidências de que ainda não estamos em pé de igualdade.

Já se apresentaram candidatas.

Já!

E não foram eleitas.

E não foram eleitas.

A vontade do povo assim o determinou.

Óbvio, mas o que eu quero dizer é que há um caminho também daquilo que é encontrar nas mulheres essas figuras de liderança, quando temos ainda uma cultura em que o duplo critério faz com que uma característica que é valorizada num homem seja desvalorizada numa mulher. Uma mulher que é assertiva, que tem espírito de liderança, que fala com convicção, é uma mandona, é autoritária. Quer dizer, estamos a ver isso, é óbvio. E há um perfil de mulher que ainda passa como figura de poder, que é aquele arquétipo Margaret Thatcher, mas tudo que saia um bocadinho dessa figura, mais, por exemplo, senatorial, como a doutora Ferreira Leite, por exemplo, tudo que saia um bocadinho desse espectro, merece uma desconfiança. E eu acho que em Portugal temos esse sexismo tão arraigado culturalmente, e a prova disso são os números absurdos que nós temos de violência doméstica e a fraquíssima divisão de tarefas domésticas que ainda continuamos a ter. Esse 25 de abril que falta fazer dentro de casa, também determina muito a forma como as mulheres são valorizadas e avaliadas no espaço público e como podem competir também com os seus pares. Por exemplo, a maior parte das reuniões políticas partidárias são feitas em horário pós-laboral. Uma mulher que tenha filhos a seu cargo e que não possa dividir as suas tarefas e que não tenha uma rede de apoio, não pode participar na vida de um partido da mesma forma que os seus pares.

Às vezes também não pode participar na vida da empresa, porque não há em que hora.

Da empresa, exatamente. E é óbvio que o líder da empresa, sendo um homem que, novamente, não precisa se preocupar com as horas a que chega à casa, não tem essa sensibilidade de perceber que essas pequenas coisas fazem com que haja uma diferença de possibilidade de competir de igual para igual.

São um travão.

E isso tem tudo a ver com essas causas culturais e com essa desigualdade que nos atrasa depois do ponto de vista profissional, político e também no tempo que temos para dedicar aos nossos hobbies, às atividades artísticas, ao desporto, a um sem-número de atividades em que realmente partimos de um lugar de desvantagem. Agora, isso também é um processo que leva algumas gerações e temos feito esse percurso. Espero que não haja grandes retrocessos, até porque está provado que não é por falta de mérito e competência, e portanto, é uma questão de tempo, eu acredito, até termos mais mulheres em lugares de liderança, que também nos ajudem a acelerar esse progresso e essas transformações.

O dia vai chegar. Olha, explica-me uma coisa, tu relacionas-te com os teus fãs, ouvintes, o teu público?

Sim, sem dúvida.

A fan base.

Não só nos concertos. E sinto muito que este último disco, "Um Gelado Antes do Fim do Mundo".

Veio despertar esse lado, não é?

Sim, super. É um disco que fala muito sobre o nosso tempo e as pessoas apropriaram-se muito do disco. Eu lembro-me que o disco saiu em março e na manifestação do 25 de abril eu vi imensas pessoas com frases nas camisolas, nos cartazes.

E tu já eras para ter estado aqui nessa altura, só que não conseguimos e é este agora, mas muito a tempo.

E sinto muito também nesta temporada de festivais que fizemos no verão, que as pessoas tinham uma relação emocional com as canções. E isso é muito bonito de perceber, porque mesmo que estejamos a pregar para os convertidos, como eu falava há pouco, é bom sentirmo-nos acompanhados, sobretudo num tempo tão difícil, em que há tanta necessidade de encontrarmos esse sentido de identificação, esse espírito de comunhão, de partilha, quase esse espírito comunitário, que a experiência de estar numa plateia a ouvir um concerto, num espaço de cultura, de encontro, proporciona.

Há ali uma espécie de generosidade coletiva para com o artista. Achas que falta amor hoje em dia?

Eu acho que vivemos num momento em que o cinismo e a tecnocracia vigoram e que o lado utópico, romântico, empático, está muito desvalorizado. Aliás, vemos isso nas redes sociais, a forma como as pessoas comentam as coisas, a lógica do quem é que mandou, posta jeito. É uma falta de solidariedade, fraternidade, que é gritante. E acho que isso tem a ver muito com esta robotização em curso. Há uma espécie de esvaziamento do espírito coletivo e o individualismo é o grande motor. Até porque acho que há uma espécie de neoliberalismo cultural que valoriza esse lado individualista.

O homem ou a mulher que triunfa.

Exato. E sobretudo, ao contrário do que aconteceu no século XX, em que admirávamos os heróis, os beneméritos.

Os cientistas.

Os líderes, os cientistas, os artistas. Hoje admiramos os bilionários. Isso é uma coisa tão desinteressante. E acho que o espírito coletivo, essa ideia do bem comum estar acima de tudo, está totalmente démodé. E também por isso a crise da esquerda, porque de facto, falar do bem comum para uma geração que está preocupada com o seu umbigo, é complexo.

É falar para o lado. A propósito desta questão dos bilionários, incomodou-te o facto de Ronaldo ter se encontrado com Donald Trump na Casa Branca?

Lá está, é a polêmica da semana.

Já não é desta, é da anterior.

A partir do momento em que ele está a ser pago para promover um regime totalitário e que não respeita os direitos humanos, a partir desse momento, seja na Casa Branca ou no Instagram, não me surpreende.

Capicua, há bocadinho falávamos aqui do teu último trabalho, "Um Gelado Antes do Fim do Mundo". Para terminar, se o mundo estivesse mesmo a acabar, qual seria o último gelado e qual seria o sabor desse gelado?

Isso é uma pergunta. Seria certamente um gelado italiano de morango e chocolate negro, mas eu acho que a ideia do gelado tem muito mais a ver com esse momento de contemplação e de pausa no meio do caos, para recuperarmos o espírito utópico e a capacidade de nos encantarmos pelas coisas do mundo, porque eu acho que não é o desespero que nos mobiliza, é a esperança. E se nós não encontrarmos à nossa volta coisas pelas quais vale a pena lutar, não nos mobilizaremos. E, portanto, este disco falando muito sobre os problemas do nosso tempo, quero falar muito sobre essa capacidade de limparmos as lentes que o tempo foi embaciando e voltarmos a ver a poesia, encontrar encantamento nas coisas para nos mobilizarmos e para conseguirmos construir novos futuros, que não sejam apenas uma distopia ou alien, ou uma catástrofe ambiental.

Capicua, muito obrigado por teres vindo aqui à Antena 3, no "Oriol em 40 Minutos". Para a semana regressamos com um novo convidado para uma entrevista devida.