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E quando o Eduardo faleceu, as pessoas não sabiam que nós éramos amigos. Mas a segunda pessoa a chegar lá à casa, primeiro foi a Alice, porque era o braço direito dele e hoje em dia é o meu braço direito. E o que me chateou foram as notícias que saíram logo, porque o corpo ainda estava em casa, ainda não tinham ido lá buscar, e as notícias eram: "A culpa disto é do Luís Borges", não sei o quê. Eu penso assim: a sério? O Eduardo estava numa depressão realmente profunda e eu sabia disso e tentei ajudar da melhor maneira. Hoje em dia, eu já passei por isso e se calhar teria ajudado de outra maneira, porque só quando tu passas é que tu percebes o que estás a passar e a sentir. E realmente, ter uma depressão é das piores coisas que tu podes ter. Mas a verdade é que eu sempre estive ao lado do Eduardo.

É um dos rostos mais conhecidos da moda portuguesa, mas para lá de tudo isso, das passarelas, das redes sociais e daquilo que se vê, é um homem que tem quebrado barreiras, criado a sua família com afinco e tem inspirado gerações com a sua coragem, autenticidade e sem medo de mostrar ao mundo aquilo que realmente é. Hoje conhecemos um pouco mais do homem por trás da imagem, alguém que deixa sempre uma marca por qualquer sítio em que passe. Luís Borges, sê muito bem-vindo aqui à Rádio Observador e ao 40 Minutos.

Obrigado.

É um gosto receber-te por aqui. Tenho já uma pergunta para te fazer, porque é uma curiosidade. Vamos falar aqui sobre música. É a primeira pergunta que eu tenho para te fazer. O "Please Don't Stop the Music", que é uma música que marca talvez muito a tua passagem no início por Lisboa e que te fazia sentir uma estrela por cá.

Sim.

Quero perguntar se, entretanto, o "Please Don't Stop the Music" já passou a outra sonoridade que não a Rihanna.

Não, imagina. Para mim, a Rihanna é daquelas artistas que eu oiço no ginásio, na rua e nunca me canso. Acho que dá para ouvir em qualquer lado. Realmente, ela marcou, porque na altura eu até tinha um MP3.

Sim.

E ouvia imenso quando eu descia ao Chiado, porque eu morava no Bairro Alto. Porque eu acho que as músicas da Rihanna, OK, se calhar se traduzimos as letras, às vezes não são as melhores, mas eu acho que a sonoridade é muito boa. Portanto, eu oiço muito Rihanna. Aliás, eu vinha ouvir Rihanna.

Olha, de propósito.

Sim. E isso tem a ver com o seguinte: eu, na altura, tinha feito uma montra viva numa loja nas Amoreiras, na Boss.

Sim.

E eles tinham dado um saco. Era tipo, pagavam-nos, mas davam-nos um saco de presente.

OK.

E eu tinha comprado umas calças vermelhas e azuis, há 17 anos atrás, ou seja, andar com umas calças dessas era um bocado impensável.

Isso na rua devia dar azo a muitos olhares.

É sobre isso, sim. Mas eu realmente sentia-me muito bem quando vestia essas calças e ouvia a música da Rihanna, porque eu venho de Cachaú Branco, que é uma terra ao meio, um bocado fechado, e a partir do momento em que eu mudo para Lisboa, realmente eu consigo ser o Luís Borges que eu sou hoje em dia. Claro que eu era um bocado tímido, hoje já não sou, mas consegui realmente transformar-me naquilo que eu sou hoje, sem dúvida alguma.

Eu dizia na introdução que tu és uma pessoa que deixa uma marca por onde quer que passe. Tu também sentes isso? Para o bom e para o mau, isso acaba sempre por acontecer.

Olha, eu deixo uma marca porque eu sou muito alto.

Também, mas para além disso.

Eu acho que há uma coisa que eu gosto, e não vou mentir, e as pessoas se calhar vão dizer que sou maniante, mas eu gosto de estar nas vistas, mas eu acho que é uma coisa natural. E muita gente, por exemplo, os meus amigos que me conhecem muito bem, sabem os meus momentos maus e dizem: "Tu não transpareces que estás mal".

Nunca ouves aquela expressão: "Tu hoje não estás nos teus dias", por exemplo.

Se estiver com os meus amigos, se calhar, sim.

Os mais próximos.

Sim, mas, por exemplo, sei lá, se eu for a um evento ou a um restaurante, as pessoas não vão perceber. E eu sei que deixo essa marca a nível visual, mas ao mesmo tempo também sei que deixo a marca por todo o meu percurso de vida, de carreira e por toda a minha história, que eu acho que é impossível não deixar.

Sim.

Não me quero achar, mas acho que é impossível não deixar.

E nós já vamos abrir o capítulo dessa tua história e como eu disse na introdução, é altamente inspiradora para muitos jovens que até querem falar e apostar neste mundo da moda.

Sim.

Mas ia-te só perguntar, para quem pensa e olha para o Luís Borges, pensa numa pessoa muito sem filtros, desempoeirada, que diz aquilo que tem a dizer. Ainda há bocadinho disseste: "Eu vou dizer isto e se calhar vão achar que eu sou maniante", mas acabaste por dizer. E eu queria te perguntar se essa tua forma de ser já te favoreceu ou penalizou mais por seres assim uma pessoa que diz o que tem a dizer mais ou menos sem filtros.

Então, ao início eu dizia tudo sem filtros e prejudicou-me, porque sei lá, eu não pensava.

Mas no meio profissional ou também na vida pessoal, em tudo?

Eu acho que nos dois, mas na vida pessoal, como estou com os meus amigos, eles já me conhecem. Ou seja, já conhecem o meu humor sarcástico. Mas na vida profissional, sem dúvida alguma, porque sei lá, sou uma pessoa que odeia injustiças e se eu vejo uma injustiça no meio profissional, eu vou dizer. E acho que isso, eu dizer tudo aquilo que eu achava...

Isso já era assim desde o início, mesmo quando tu começaste.

Sim, porque eu vinha com aquela gaga de querer ser manequim, porque basicamente eu participei no Elite Model Look, através da minha irmã Gisela, que me inscreveu sem eu saber. Eu vi um casting ali no Chiado, era na altura aí. E eu menti aos meus pais a dizer que estava a estudar, a fazer um trabalho na casa de um amigo. O que aconteceu?

Em Lisboa?

Não, em Castelo Branco.

Em Castelo Branco, ok.

Com a minha irmã Gisela por trás. O que aconteceu? O autocarro atrasou. Então eu cheguei muito tarde a Castelo Branco e eu tive que contar o que aconteceu. E aquela coisa dos meus pais quando descobriram que eu queria ser manequim, que o meu pai me disse: "Se queres ser manequim, vais sair de casa". E foi isso que aconteceu, porque ele disse: "Isso é um touro e não podes ir, isso é um touro". E quando ele diz essas palavras: "Se queres ser manequim, vais ter que sair de casa, tens um mês", eu realmente comecei a pensar na minha vida e passado um mês do tempo que ele me deu, eu tinha as malas feitas. Mas na cabeça dele nunca passou tipo, o Luís vai sair de casa.

Ele achava que era aquela coragem de adolescente que mais tarde ou mais cedo ia perceber: "Bem, se calhar este não é o caminho". Achas que ele pensou isso?

Ia dizer uma palavra, mas não posso. Se calhar, posso. Ele achou que eu não ia ter tomates, basicamente, para sair de casa. Mas lá está, eu queria ser manequim. Eu nunca pensei, mas depois de vir ao casting e de perceber quando a Ana Borges me disse: "Mas tu tens todas as características, acho que devias apostar nisto". E de ver uma pessoa de fora a dizer isso, eu disse: "Ok, é mesmo isto que eu quero seguir". E acho que o pior que tu podes fazer é bagar os sonhos aos teus filhos.

Porque isso dá ainda mais vontade de desafiar tudo, não é?

Desafiar. E eu estando em Castelo Branco, eu na altura estava a trabalhar na Sofragens, que é uma empresa de materiais de construção, que eu estagia lá no meu curso de Contabilidade.

Que tem zero a ver contigo.

Tem zero a ver comigo, lá está. E pensei: "Vir para Lisboa, se calhar, é um grande desafio". E realmente foi o maior desafio da minha vida, porque eu vim para Lisboa com 600 € no bolso. Não falei com a minha família durante um ano e vim para a casa de uma amiga que não era assim tão minha amiga, do tipo, eu conhecia do hi-fi. Mas foi um risco. E aí foi que eu pensei: "Tu vais ter que sobreviver". E desde que eu vim para Lisboa, eu nunca pedi 1 € aos meus pais, porque depois também havia aquela parte do orgulho. Pensar: "Não, não vou pedir nada porque eles vão perceber realmente que eu consegui aquilo que eu queria".

E nesse prazo de um ano, nunca tiveste aquela necessidade de tentar chegar ao contacto com eles?

Imagina, eu falava com eles o básico dos básicos. Não havia aquelas ligações diárias como deveria acontecer entre pai e filho. Se calhar falava com eles duas vezes no Natal, no aniversário, que eles ligavam, mas não havia aquela partilha de: "O que é que estás a fazer, o que é que está a acontecer?" Não havia isso sequer. Aconteceu, que é triste, quando eu me tornei conhecido. E aí eu acho que eles perceberam realmente que eu tinha razão e que consegui ser aquilo que eu queria. É triste, por um lado, eles terem feito isso, mas se calhar se o meu pai não me tivesse dito: "Se queres ser manequim, tens que sair de casa", eu se calhar nunca tinha vindo para Lisboa, é que é a verdade.

Sim, e se calhar o teu caminho hoje ia ser completamente diferente. Tu dizes que a tua infância em Castelo Branco não foi propriamente um momento feliz da tua vida. Já o disseste em várias entrevistas. Ainda assim, que lugar é que ocupa Castelo Branco na tua vida? Ou seja, ainda consegues transportar-te para boas memórias nesse local?

Olha, imagina, eu passei muita coisa feliz em Castelo Branco, mas muita coisa má também. Eu acho que quando tu és gay, e eu achava que gostava de meninas, é a realidade. Mas depois percebes os comentários das pessoas quando tu passas na rua e não sei o quê.

Foi algo que tu começaste a lidar desde muito cedo.

Sim.

Só pela tua forma de ser.

Sim, e o facto do meu pai dizer em casa que não ia ter um filho paneleiro, isso para mim assustou-me um bocado. Mas lá está, eu em Castelo Branco fui muito feliz porque fiz boas amizades. Eu fui adotado pelos meus tios, ou seja, os meus primos são meus irmãos e eu tinha uma ligação muito grande com a minha irmã Gisela, que foi ela quem me inscreveu.

É ela a culpada disto tudo.

Mas é verdade.

Ela lucrou esta história aqui também contigo.

Ela encobria-me em tudo. E eu hoje posso dizer isto porque eu tenho 37 anos, portanto, o meu pai não me vai fazer nada. Eu fumava com 15 anos à varanda da minha casa e a Gisela avisava-me quando o meu pai vinha lá. Eu saía à noite e o meu pai achava que eu ia sair com a Gisela, mas eu ia sair com os meus amigos. Ou seja, essas memórias todas são muito divertidas pensando hoje em dia. Mas tenho momentos bons, claro, como é óbvio, mas é aquela parte da infância em que tu sentes que a família que te foi buscar, se calhar, não te deu o amor necessário. Acho que tem a ver com isso. E tu vês as pequenas injustiças quando tens mais três irmãos e tu és como se fosses a ovelha negra. Mas esse assunto para mim já está na caixa que ele tem que estar, porque é para isso que servem os psicólogos hoje em dia. Mas sim, já está resolvido, sem dúvida alguma.

E houve alguma coisa em criança que tu precisasses de ouvir dos teus pais, que não chegaste a ouvir?

Olha, eu acho que nunca falei sobre isto, mas os meus pais nunca me disseram "amo-te". E é uma coisa assim um bocado estranha. E eu vejo isso pelos meus filhos. E o Edu está-me sempre a dizer "amo-te", o meu mais novo. Mas é muito estranho pensando, eles nunca disseram: "Olha, eu amo-te" ou sei lá, "que orgulho teres feito isto". Percebes?

Nem mesmo depois de...

Depois, sim, mas lá está. Não, nós queremos ouvir é isso antes. Nós queremos a força da nossa família antes, não é depois de conseguirmos as coisas por nós próprios, de repente já somos os maiores.

Isso na escola, por exemplo, temos o Dia do Pai, o Dia da Mãe, são datas em que se festejam nas escolas e na altura acredito que se festejavam e assinalavam. Tu tendo essa, não queria dizer mágoa, mas se calhar sim, por não teres esta questão de nunca teres ouvido um amo-te, como é que tu vivias também esses dias?

Eu era um miúdo.

Tentavas distrair-te disso, abstrair-te dessa realidade?

Imagina, eu hoje em dia penso nisso Já tenho 37 anos. Na altura, eles não me dizerem "amo-te" era uma coisa normal. Mas quando era o Dia dos Pais e se houvesse atividades, eles iam. Era mais no tratamento quando estávamos os quatro irmãos e era sempre aquela coisa. Dou-te um exemplo, fomos a uma pastelaria, eu queria um bolo e a minha mãe dizia: "Não há dinheiro". Depois vinha o meu irmão e ela já dava. E tem a ver com isso. Eu acho que essas pequenas coisas marcam uma pessoa. E eu sei que cresci um Luis revoltado, sem dúvida alguma. Mas eu acho que com o tempo e com a terapia em dia, muito dinheiro gasto, tu consegues depois ficar bem.

A terapia entrou na tua vida em que altura? Ou seja, tu dizes-me que viveste esta fase enquanto criança, depois veio a adolescência e vieste para Lisboa. Quando é que sentiste que havia essa revolta em ti e que precisava de ser amenizada?

A terapia entrou muito tarde, sei lá, depois talvez da morte do Eduardo, porque eu acho que dizer que ia ao psicólogo era para malucos. Então era aquela coisa de ter medo. A partir do momento em que eu percebi que realmente já não aguentava mais todos os problemas que eu tinha à minha volta e realmente as minhas amigas disseram que eu tinha que procurar ajuda, e foi aí que eu comecei a ir a um, aliás, nem foi psicólogo, foi um psiquiatra mesmo. E realmente foi a melhor coisa que eu fiz da minha vida, porque o meu psiquiatra deu as diretrizes certas para eu conseguir desbloquear certas coisas que eu tinha na minha vida, que eu achava que não era capaz de fazer.

E se calhar tratar primeiro coisas que estavam para trás do que aquelas que estavam mais presentes.

Não, por acaso foi ao contrário. Nós tratamos primeiro o mais presente, que era o que me incomodava naquele momento.

E depois foste fazer a viagem toda para trás.

Sim. Que aí acho que é aquela parte que é mais dolorosa, porque é reviver e pensar em coisas que aconteceram, mas que têm que ser faladas, porque se não conseguires resolver isso, depois não estás bem com a vida e eu quero estar bem com a vida e quero estar bem para os meus filhos.

Falaste já dos teus filhos, a tua infância e aquilo que tu viveste ajudou a moldar também o pai que tu és hoje. Aquilo que tu não tiveste, tu passas a dar o triplo aos teus filhos e preocupas-te com que eles também se sintam bem.

Olha, sem dúvida alguma, amor não lhes falta. Isso é uma coisa que eles não podem dizer. Agora, a nível material, sou muito regrado, porque acho que a Lu e o Edu vieram da Guiné-Bissau, o Bernardo é português, mas eu vejo tantas crianças que não têm nada e o Edu e a Lu não tinham nada. E eu acho que aquela coisa de darmos tudo aos nossos filhos, por exemplo, sei lá, no aniversário, no Natal, eu acho que isso é um exagero e eu não faço isso em casa.

Como é que tu fazes essa gestão? Porque as crianças acabam por ter contato com outras crianças e percebem: "Ah, eu tenho isto. Ah, mas eu afinal não tenho". Como é que tu fazes essa gestão?

Mas eu acho que estares a comparar com outra pessoa não é bom, e é isso que eu explico aos meus filhos. Nós somos todos diferentes, e cada pessoa é uma pessoa. Que é a mesma coisa, por exemplo, quando a Lu levava amigos lá à casa e que eu ouvia: "Ai, tu tens uma sala gigante". E eu explicava à Lu: "Há amigos teus que não têm o que tu tens, e tu tens que perceber isso. E tudo o que está aqui em casa foi porque o papá trabalhou para conseguir ter". Porque eu acho que eles têm aquela ideia de: nós temos esta casa, temos uma boa casa, e nós não vamos ter que fazer nada porque o meu pai faz tudo. E não é isso, não, a educação não é essa. Eu tenho uma empregada, mas eu já lhes disse: "A empregada não é vossa, a empregada é minha. Vocês um dia se quiserem ter empregada, vão ter que trabalhar para isso". Porque eu acho que é aquela coisa dos miúdos terem as coisas muito fáceis e com os meus filhos não é assim. Por exemplo, no Natal, eles só têm presentes se tiverem boas notas. Já aconteceu dois Natais disso não acontecer. Não há boas notas, não há presentes. No aniversário, a mesma coisa. As férias dependem das notas finais. E eu acho que com isso eles começam a perceber: "Ok, eu realmente tenho que me aplicar", porque eu sou um pai muito brincalhão, gozão, imagina, não sou aquele pai. A Lu que é menina, se ela quiser usar um crop top, uma minissaia, não vou proibir. Não sou esse pai.

Sim.

Mas quando é em relação à escola, sou muito duro com eles, sem dúvida alguma, porque eu quero realmente que eles sejam alguém. E porque, por exemplo, eu tirei o nono ano, ia passar para o décimo ano e fui obrigado a ir tirar um curso profissional, porque os meus pais não queriam pagar os estudos. E eu não quero que isso aconteça com os meus filhos. Lá está, eu não quero que por aquilo que eu passei, que eles passem, mas eles também têm que fazer o mínimo, como é óbvio. Eu desde os nove anos que eu limpava a minha casa em Cachoeira Branco, que eu cozinhava. E aquela coisa de eles terem tudo tão fácil: "Não, mas porque eu tenho alguém para fazer". Não. Ok, tu não vais cozinhar, mas tu vais lavar a louça do jantar ou do almoço, tu vais arrumar o teu quarto. E eu acho que nós temos que incutir isso nos nossos filhos e nas crianças, porque pode existir uma empregada, mas eles têm que aprender a fazer as coisas.

Exato, um dia pode acontecer, como aconteceu contigo, aos 18 anos quererem sair de casa e é preciso.

Vão sair de casa, vão. O único que fica é o Bernardo.

Como é que tu reages com essa possibilidade de um dia chegar? Porque não estamos assim tão longe, mais um tempão.

A Lu tem 13. Sim, o Edu tem 10 ainda. Imagina, assusta-me um bocado, sem dúvida alguma, mas eu acho que é um processo natural. Eu também não quero que os meus filhos fiquem a morar comigo. Eu acho que Eles têm que ser independentes e se fazer à vida. Eu tive que me fazer à vida e eu quero que eles façam isso, porque eu vou estar sempre aqui para eles, mas estares a morar na minha casa só porque sim, sem fazer nada, não vai acontecer, sem dúvida alguma. O único que pode fazer isso é o Bernardo, porque não vai trabalhar nem nada. Mas em relação aos outros dois, não.

Eles têm em casa um belo exemplo, portanto daqui a uns cinco anos para a Lu e oito para o Edu, vamos ver onde é que eles estarão.

Eu acho que sim, porque eu acho que eles têm que lutar pelos sonhos e têm que lutar por aquilo que eles querem. Como é óbvio, eu nunca vou expulsar os meus filhos de casa com 18 anos. Provavelmente, ainda estão a estudar na universidade, se quiserem ir para a universidade, mas se quiserem ir trabalhar para outro sítio, claro, se eles não tiverem dinheiro, o ordenado não chegar para alugar um quarto, claro que eu não vou fazer isso, mas eu acho que eles têm que perceber que eles têm que ser batalhadores e trabalhadores acima de tudo. Não podem esperar que: "Ah, não, tenho ali o meu pai e o meu pai paga". Não, não é isso, porque eu mato-me a trabalhar para lhes dar o essencial para eles conseguirem ter as coisas deles.

Luís Borges, vamos só fazer aqui uma curta pausa para as notícias. Já voltamos para a segunda parte do Bem 40 Minutos. Até já. Segunda parte do Bem 40 Minutos. Continuamos com Luís Borges. Luís, estamos aqui a falar dos teus filhos, ainda neste final da primeira parte.

Espero que eles oiçam este podcast.

Vão ouvir, se calhar. Quem sabe? Agora se calhar não, mas daqui a uns aninhos vão ouvir o que o pai andava a dizer sobre o facto de eles quererem voar. Queria te perguntar qual foi a conversa mais difícil que tiveste com eles até hoje. Já falamos aqui de alguns exemplos, mas aquela conversa que te fez perceber a posição de pai em que estás e essa responsabilidade que tens na tua vida.

A conversa mais difícil, sem dúvida alguma, foi com a morte do Eduardo. Explicares aos teus filhos que o pai, porque ele é o pai e eu sou o papá, que o pai não vai voltar para casa e que eles nunca mais vão ver o pai. Sem dúvida alguma, foi a conversa que me custou mais, porque eu não sabia como é que havia de fazer. A Lu era muito ligada ao pai. O Edu também, mas o Edu era muito pequenino. Ou seja, quando eu contei, eu lembro-me perfeitamente que o Edu se começou a rir. E só começou a chorar quando a irmã começou a chorar. Mas foi a conversa mais dura, porque é uma morte, é aquela coisa que tu não sabes como é que tu vais explicar àquela pessoa. O Bernardo não entende, como é óbvio, tem trissomia e autismo, para ele está noutro mundo. Mas à Lu e o Edu, como é que tu vais dizer: "Olha, o teu pai, Eduardo, não vai voltar para casa, vocês nunca mais o vão ver". E essa foi, sem dúvida, a conversa mais dura. E depois, em relação, por exemplo, à Lu, a Lu era uma menina muito fria comigo. Ou seja, a parte do afeto quase nem existia, porque ela era muito ligada ao Eduardo. E depois conseguir ganhar essa confiança foi algo um bocado duro para mim. Hoje em dia já não. Ama-me e eu também te amo, minha filha. Mas sim, foi difícil. Essa foi a conversa mais difícil.

Eu não queria transportar-te para este momento, mas acaba por ser inevitável. Esta pergunta era no objetivo de perguntar no sentido do dia a dia, ou seja, de coisas que têm acontecido, mas claro que percebo isto que me dizes, porque é de facto, para uma criança, e falando claro do Edu, que é ainda mais pequeno, essa realidade e ele só perceber depois quando a irmã chora, que realmente está mesmo a acontecer, é difícil.

Eu acho que as conversas mais difíceis têm a ver com a escola, com o que acontece no facto dos miúdos dizerem: "Ah, mas tu és adotado. Ah, mas tu és preto, tu tens um pai gay". Quer dizer, não são difíceis.

Eles já ouvem isso na escola?

Sim.

Talvez mais a Lu?

Não, e o Edu também. Ainda há dias falou sobre isso. Mas lá está, eu sempre falei com eles muito abertamente sobre isso, que eles são adotados, que têm dois pais, que eles não têm que ter vergonha sobre isso, que eu também sou adotado, que o mais importante é haver amor na nossa família. Mas lá está, nós somos sensíveis, ainda para mais as crianças têm mais sensibilidade. E o Edu é extremamente sensível.

Dos três, é o mais sensível, aquele que tu percebes que tem ali...?

Sim, é o mais sensível, sem dúvida alguma. A Lu é, mas a Lu é um bocado fiteira, às vezes.

E se calhar é mais racional, não é?

Sim. Eu não me posso queixar da filha que tenho. Só me queixo, ouves tu, Lu, na parte...

Do nada, isto é um queixume.

A Lu não é uma menina de dar muitos abraços. Hoje em dia já dá mais, porque eu expliquei: "Olha, eu sou o teu pai, teu papá, eu vou estar aqui sempre para ti e acho que a parte que tu demonstras, para além de outras, amor, é dares-me um abraço sentido. E eu acho que o abraço é a melhor coisa que tu podes receber". Eu tenho amigos que me dão abraços que eu percebo que realmente eles são mesmo meus amigos. E eu gosto dessa energia. E a Lu não era uma miúda de dar muitos abraços, muitos afetos. Hoje em dia já é completamente diferente e, por exemplo, imagina, às vezes estou no quarto e ela vai sentar ao meu lado na cama E eu pergunto: "O que é que queres?" E ela: "Não, só quero estar aqui contigo". Mas o Eduardo é, sem dúvida, o meu filho mais sensível. Depois de dizer essas coisas na escola, nós tivemos que ter a mesma conversa várias vezes. É um bocado triste, porque eu acho que isso devia partir de casa e os pais explicarem que somos todos diferentes.

Da mesma forma que tu explicas e os educas, isso também devia começar em casa.

Sim, como é óbvio, eu acho que a educação parte de casa, depois cada um aplica como quer. Se calhar, não tive a melhor educação, mas depois ao vir para Lisboa e estar com outros amigos, por exemplo, a Ana Sofia, que tem uma história de vida parecida comigo, nós realmente levamos a vida de outra maneira. Mas é chato teres que estar sempre a explicar ao teu filho que não tem que ter vergonha de ser adotado, de ser negro, de ter dois pais. Às vezes é saturante.

Nós estamos aqui a falar muito dos teus filhos, eu espero que não leves a mal.

Não. Eles vão adorar.

Eu vejo o teu Instagram e qualquer pessoa vê o teu Instagram, e fui ver também alguns comentários e muitas pessoas elogiam o teu cuidado, a tua parentalidade perante três crianças que foram adotadas. E vi um comentário que me chamou a atenção e que dizia que tu eras um superpai.

Se calhar podiam fazer a série outra vez, eu era o otimista.

Mas queria perguntar se tu também sentes essa responsabilidade e de que forma é que ela se manifesta no dia a dia, porque estamos a falar aqui de três crianças e temos a questão do Bernardo, que tu dizes que é um grande desafio na tua vida e emocionou-me, posso dizer-te isto, numa entrevista que tu deste, penso que foi à Júlia Pinheiro.

À Júlia, sim.

Em que tu disseste que no momento em que estiveste doente, foi das primeiras vezes que sentiste realmente o abraço do teu filho e ele abraçar-te.

Porque ele sente, essas crianças sentem. Mas em relação à tua pergunta de ser um superpai, eu acho que há muitos superpais espalhados pelo mundo. Aqui a diferença é que eu estou mais exposto. As pessoas conhecem mais, estou nas redes. E eu fico feliz das pessoas acharem isso, mas ao mesmo tempo, eu acho que é normal tu seres um superpai. Percebes o que eu estou a dizer?

O objetivo devia ser sempre esse.

Sim. Aquela coisa de: "Tiveste muita coragem em adotar três crianças". Não, eu acho que as pessoas que pudessem, também deviam adotar crianças. E essa conversa, às vezes eu fico a pensar: "Mas eu estou a fazer alguma coisa de tão diferente?" Para mim é uma coisa normal. Como eu também fui adotado, portanto, adotar crianças para mim é normal e tomar conta delas, são meus filhos. Claro que o Bernardo, como é um menino especial, que tem trissomia e autismo, dá muito mais trabalho, mas há outras famílias que têm crianças com deficiência. Por exemplo, o Bernardo anda numa escola que tem uma unidade especial para crianças com deficiência. E o Bernardo fez 15 anos no dia 13 de maio. Normalmente eles fazem o bolo e os pais vão lá cantar os parabéns. Eu fui lá e eu fiquei chocado. Chocado, coração partido com as crianças que estão lá, porque eu pensei assim: "Eu acho que já tenho muito trabalho com o Bernardo, mas eu não quero imaginar os pais que têm com estas crianças que estavam lá". Que eu pensei: é uma dor de cabeça, mas lá está. Eu acho que o fato de eu estar mais exposto, as pessoas veem-me como um superpai, com exemplo, isso é bom, mas ao mesmo tempo há tantos pais iguais a mim. Percebes o que eu estou a dizer?

Sim.

E acho que tem a ver com isso.

Mas acabas por ser um bom exemplo daquilo que é a parentalidade.

Eu acho que passo a ser um bom exemplo no sentido de: eu tinha uma relação com o Eduardo, nós casamos, entretanto separámo-nos, o Eduardo faleceu e as pessoas achavam que eu não ia ficar com os meus filhos. Mas o quê? Os meus filhos são o quê? Lixo? Ok, agora adoto e depois o outro pai morreu e eu vou o quê? Pôr os meus numa instituição? E a partir daí é que as pessoas dizem que eu sou um superpai, mas isso está errado, porque eu sempre fui um superpai desde que eles nasceram.

Sentes que isso foi uma narrativa mais ou menos criada para também explorar essa fase, que foi uma fase má e também te colocaram em xeque nessa situação.

Imagina, eu acho que foi sempre e é uma coisa que a mim me deixa triste.

Por seres mais jovem também?

Que é desde o início. Eu andei oito anos com o Eduardo, e desde o início que eu sempre fui muito apontado como: "É um miúdo que quer se aproveitar do Eduardo". E as pessoas nunca deram valor à outra parte, que é o meu trabalho. Eu tenho 18 anos de carreira de manequim. Eu fiz trabalhos que nenhum português fez.

Internacionais?

Internacionais. Eu estive no ranking dos 50 melhores do mundo. E as pessoas, cada vez que saía uma notícia minha, era sempre: "O outro que estava com o velho. Ele quis explorar o velho". Não, o Eduardo tinha o trabalho dele, eu tenho o meu trabalho, eu ganhava muito dinheiro. Eu não tenho que estar a falar quanto é que eu ganho na moda ou deixei de ganhar, mas essa coisa das pessoas quererem atacar só porque o Eduardo era 21 anos mais velho do que eu e eu era a criança aos olhos deles, a mim deixava-me muito triste, realmente. Hoje em dia sai uma notícia e continuo a ver comentários por causa do Eduardo Eu penso assim: gente, por quê? E tem a ver com isso. Eu acho que as pessoas, desde o início, porque o Eduardo já era uma pessoa famosa, e quando eu entrei na vida, lá está, é aquela coisa que tu não podes andar com alguém mais velho que tu, porque é logo por interesse. Não, porque realmente eu e o Eduardo apaixonámo-nos, vivemos uma bonita história de amor, construímos aquilo que nós tínhamos em mente, mas chegou a um ponto que percebemos que não dava. Óbvio que o Eduardo expôs-se muito na internet e disse coisas que não eram verdade. Como eu não reagi, as pessoas acreditaram que tudo que ele disse era a realidade. Paguei por isso, lá está, mas se as pessoas acham que eu sou herói, do tipo, tão bom pai, não sei o quê, mas por que também não veem o outro lado? Não, ok, eu sou o Luís, que sou pai, mas eu também tenho uma carreira de 18 anos. E é isso que me deixa magoado com Portugal, com os portugueses, sem dúvida alguma.

E essa mágoa também existiu, por exemplo, com a imprensa. Ou seja, quando essa situação aconteceu, tu tiveste muita dificuldade em depois estabelecer essas relações e até dar entrevistas.

Imagina. Sim, eu estive quatro anos sem dar entrevistas. A mim o que me deixou chateado foi, na altura, eu tinha uma relação com o Eduardo de amigos, porque nós tivemos que chegar a um acordo por causa dos nossos filhos.

Três crianças envolvidas.

Como é óbvio, mas foi uma coisa que eu lhe pedi que era: não vais postar nada nas redes sociais. Quando eu estou em casa contigo, quando eu estou com os nossos filhos, porque isso ia dar asas às especulações. "Ah, eles voltaram". E eu não queria isso. Eu queria estar na minha vida, fazer o meu trabalho e ganhar o meu dinheiro. E quando o Eduardo faleceu, as pessoas não sabiam que nós éramos amigos. Mas a segunda pessoa a chegar lá a casa, primeiro foi a Alice, porque era o braço direito dele e hoje em dia é o meu braço direito. Ela tinha a chave de casa e basicamente ela depois ligou-me. Eu estava no casamento da Matilde Breiner, porque eu tinha que ir lá a casa, que ele tinha falecido. E o que me chateou foi as notícias que saíram logo, porque o corpo ainda estava em casa, ainda não tinham ido lá buscar, e as notícias eram: "A culpa disto é do Luís Borges, não sei o quê". Eu penso assim: a sério? O Eduardo estava numa depressão realmente profunda e eu sabia disso e tentei ajudar da melhor maneira. Hoje em dia, eu já passei por isso, e se calhar teria ajudado de outra maneira, porque só quando tu passas é que tu percebes o que é que tu estás a passar e a sentir. E realmente ter uma depressão é das piores coisas que tu podes ter. Mas a verdade é que eu sempre estive ao lado do Eduardo. Eu e a Alice. Posso dizer que eu e a Alice sempre estivemos ao lado do Eduardo. As outras pessoas que eram tão amigas dele, onde é que estavam? Nunca falei disto, mas é uma mágoa, porque eu sempre estive lá. As pessoas não sabiam, mas eu sempre estive lá. Mas os outros amigos que ele tinha, que enchia a casa, que pagavam, que iam ao salão dele, que ia às festas, e esses amigos onde é que estavam quando ele mais precisou? Eu sempre estive lá. E eles? Essa é a minha questão. Portanto, as pessoas, em vez de me atacar e de falarem disto ou daquilo do Luís Borges, se calhar deviam era pensar onde é que estavam os outros amigos. E é isso.

Sobre esta mágoa que tu tens, mas que acredito que com o tempo também...

É porque eu acho que as pessoas são muito injustas e na internet as pessoas não têm noção.

Não têm noção dos comentários que muitas vezes escrevem e do poder que as palavras podem ter na pessoa que está do outro lado, nem no estado em que a pessoa pode estar naquele momento, porque há dias em que podemos ler um comentário e em que aquele comentário não faz mossa. Há dias que um comentário, que até pode nem ser tão mau, pode nos deixar destruídos.

Sim, como é óbvio.

E esse é um lado das redes sociais que as pessoas deviam, se calhar, instruir-se mais e perceber o poder que isso tem, porque de facto é...

Não, e falamos tanto de empatia e olhar para o próximo, não sei o quê. E quando acontece alguma coisa de mal na vida de alguém, são as primeiras pessoas a escrever comentários de ódio. E é isso que eu me pergunto: onde é que nós vamos chegar?

Olha, vamos caminhar aqui para as redes sociais. Tu és uma pessoa muito interventiva e que nunca deixa de dar as suas opiniões. É o que eu sinto quando olho para o teu Instagram e para as tuas redes sociais. Tu sentes que tens uma responsabilidade social, podemos dizer mais ou menos política, nesta questão das redes, por seres alguém conhecido, e isso alguma vez já te fez silenciar alguma opinião por seres alguém conhecido?

Olha, eu acho que às vezes temos que ter cuidado com o que escrevemos ou dizemos nas redes, não é? Voltamos ao ponto. É amplificado de uma maneira, uou! Hoje em dia tenho mais cuidado com aquilo que escrevo e que digo, porque a comunicação social escreve muita coisa. Mas eu acho que realmente nós temos uma responsabilidade e temos que lutar por aquilo em que nós acreditamos. A mim faz-me mais confusão ter pessoas que têm voz em Portugal, maiores que eu, de seguidores, e tu não veres elas manifestarem-se sobre assuntos que são muito importantes. Comunidade LGBT, racismo, xenofobia. Isso para mim faz-me impressão, porque são assuntos importantes, a guerra. Não, não dá. E isso a mim incomoda-me. Eu falo daquilo que eu acho que tenho que falar, partilho aquilo que eu acho que tenho que partilhar. Às vezes, é um balance, não é?

Sim.

Mas sem dúvida alguma, eu tento Com as minhas redes sociais, ajudar outras pessoas e apoiar, sem dúvida alguma, a causa LGBT, é uma causa que me diz muito respeito. Tenho muitos amigos que eu nunca vi um story sobre a causa LGBT. Why? Por quê? Isso deixa-me a pensar.

Dá que pensar.

Por que tu não publicas sobre isso? Porque vais perder seguidores? A verdade é que cada vez que eu publico alguma coisa, por exemplo, sobre transexuais, eu perco seguidores. Mas e então?

Mas não deixas de o publicar.

Como é óbvio. Mas eu não posso pensar só que os seguidores são importantes, porque depois fazem parte do meu trabalho e dos valores.

E também quando se constrói uma comunidade, vamos falar aqui de seguidores, tu queres pessoas que se identifiquem contigo e com o teu conteúdo.

Como é óbvio.

Que interajam contigo nesse sentido.

Sim.

Portanto, é importante teres as pessoas.

Sim, mas o problema é que se tu tens muitos seguidores e tens a tua faixa etária, homens e mulheres.

A diferença entre homens e mulheres.

Que vês e se calhar é muitos homens e são homofóbicos, se tu publicas uma coisa sobre os gays, eles vão-te já desseguir. Percebes? E às vezes isso faz-me um bocado de confusão. Desculpem, desabafos do Borges aqui no Observador.

No E40 Minutos. Em matéria de direitos, de igualdade e de percepções, e se calhar até podemos falar aqui de preconceito, tu acreditas que Portugal é um país tolerante ou é um país mais educado? São coisas diferentes.

Eu acho que...

Tu sentiste um bocadinho do preconceito no início do teu caminho na moda.

Sim.

E falámos agora aqui da questão também dos direitos LGBTQIA+, que é uma questão que ainda suscita aqui muitas reações e há muitas lutas ainda a travar.

Sim. Eu acho que Portugal está mais tolerante, diria eu. Mas acho que realmente temos muito que aprender. E aprender a respeitar o próximo, mas não é só dizer, é respeitar. Porque eu acho que isso é o mais importante, quando tu dizes: "Eu respeito". Não. Eu vou perceber pelas tuas ações se tu me respeitas ou não.

E aqui não falamos só de redes sociais, falamos no mundo da sua globalidade enquanto sociedade.

Eu acho que o mundo está de pernas pro ar. O mundo está de pernas pro ar e eu realmente quero que os meus filhos cresçam num mundo melhor e a minha contribuição é tentar educá-los da melhor maneira em relação a todos os temas e todos os aspectos. E o respeito pelo próximo é algo muito importante. E se tu não tens respeito pelo próximo, eu acho que então tu estás muito mal, sem dúvida alguma, porque eu acho que isso é a base de qualquer coisa, respeitares a pessoa que está ao teu lado. Sem dúvida, sem ódio.

Vamos falar ainda sobre a tua marca. Quero perceber em que ponto é que estamos.

Talvez não conversa tão caíra.

Sim, mas temos de falar. Acho que é também quando falamos sobre ti, Luís Borges, claro que a marca Fucking Gorgeous está aqui associada. Eu sei que há esse desejo de projeção internacional, de estar lá fora, noutros mercados, de dar a conhecer a outros públicos. É esse o teu grande objetivo para este ano de 2025 e quem sabe para 2026?

A Fucking Gorgeous eu quero que seja várias coisas. Quero que seja uma marca internacional, sem dúvida alguma, mas ao mesmo tempo, eu criei a Fucking Gorgeous também para mostrar que as pessoas que têm menos oportunidades possam ter o holofote. Eu vou dar exemplo. Eu fiz o desfile na Moda Lisboa, com a antiga Call Me Gorgeous.

Eu vi esse desfile.

Pronto. E o que eu pensei foi: há tanta gente que gostava de pisar esta passarela. E não tem oportunidade, porque os castings da Moda Lisboa, nós sabemos, ou tens altura ou não tens, não desfilas. E ao mesmo tempo, eu sendo negro e vendo tanta beleza negra, pensei: "OK, vou fazer um casting aberto a pessoas só negras". E eu queria corpos diferentes, alturas, tudo, e mostrar que realmente é possível tu teres corpos, pessoas, atitudes diferentes numa passarela. Porque é muito ir quando nós dizemos: "Agora vamos meter uma manequim plus size". Mas por que as pessoas querem meter uma manequim plus size? Porque lá fora vieram: "Não, nós agora vamos meter uma manequim plus size, porque internet disse que não havia manequins plus size e nós não vamos comprar". E esse é o problema. E Portugal, desculpem dizer isto, em relação à moda, acho que funciona um bocado assim, no sentido, eu acho que é para tapar os olhos, areia para os olhos. E eu não quero isso, eu quero realmente mostrar que é possível. Imagina trans nos desfiles. É um tema muito delicado.

Mas é delicado porque fazem disso um tema delicado?

Sim, claro, mas tem a ver com: "OK, eu vou meter uma mulher trans". Mas depois tu vês o desfile e essa miúda está com um fato que é meio masculino e de sapatos masculinos, quando as outras estão de saltos altos. Por quê? Porque uma mulher trans às vezes calça 43 ou 44. Mas tu tens de pensar antes: "OK, vou meter uma mulher trans, então eu vou comprar, vou mandar vir não sei de onde, porque há essa possibilidade, uns sapatos pra ela calçar, pra ela se sentir realmente mulher e que realmente é respeitado." Percebes o que eu estou a dizer? E a Fucking Gorgeous, quando eu criei, é pra mostrar realmente Que as pessoas podem ser tudo aquilo que elas quiserem, que podem ser fucking gorgeous. E o conceito da marca é esse, ter uma comunidade fucking gorgeous.

Só mesmo aqui para terminar, eu tenho mais uma pergunta.

Desculpa, eu falo muito.

Não, não te preocupes com isso. Perguntar-te se tu alguma vez, até mesmo no teu início, não sentiste que te usaram como uma prova, entre aspas, de diversidade. Mostrar, nós temos aqui o Luís Borges, isto já é diversidade.

Pois, imagina. Eu quando comecei, as pessoas achavam que o meu cabelo era falso.

Sim, chegaram a tocar-te o cabelo na rua.

Sim, na rua, no Colombo, uma miúda. Mas lá está, é verdade, porque quando eu comecei não tinhas muitos manequins negros na moda. Aliás, quando eu fui lá fora, internacional, e eu desfilei para a Dior, éramos três manequins negros. Com o passar dos anos é que eles perceberam que realmente tinham que meter mais e porque faz sentido. A época dos loirinhos de olhos azuis já acabou. Se me usaram aqui, se eu acho? Não, eu acho é que me deviam ter usado logo quando eu apareci.

E atenção, é bom que nunca tenhas sentido isso.

Não, nunca senti. Aliás, se eu tivesse sentido, já tinha dito, porque eu, Luís sem filtros, desculpa.

Conhecemos isso ao longo desta entrevista. Para fechar, estamos mesmo a ficar sem tempo. Imagina que daqui a 10 anos, ou se calhar até antes, porque já falaste sobre isso, que os teus filhos ouviam esta entrevista. O que é que queres que eles sintam ao ouvir aquilo que tu disseste muito ao longo deste caminho que também tens e da história inspiradora?

Olha, eu quero que eles sintam que têm um pai muito bom, muito bonito, que os ama muito. Mas que acima de tudo, que aquilo que eu disse, que faça sentido daqui a 10 anos e que realmente eles sejam boas pessoas e que se preocupem essencialmente com o próximo e não com o umbigo deles. Não quero de todo que isso aconteça.

Luís Borges, foi um gosto receber-te aqui.

Obrigado pelo convite.

Uma grande viagem pelas tuas memórias, pela tua vida tão inspiradora e uma história de vida que é digna de se assinalar. Continues com muito sucesso ao longo dos anos.

Só preciso de uma medalha, não sei, presidente, alguma coisa.

Um dia destes.

Um dia destes.

Podemos tratar disso. Luís Borges, muito obrigado de verdade.

Obrigado.