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E na programação da Braga Capital Portuguesa da Cultura 2025, há um evento agendado para ser mostrado no mês de junho e que é o resultado de um trabalho de cocriação que ocorreu no ano passado. É o Desejar, Festival de Artes Participativas. Ana Bragança, o que são artes participativas? Boa tarde, antes de mais.
Muito boa tarde. É um gosto estar aqui, muito obrigada pelo convite. Artes participativas ou participação artística ou cultural é tudo que nos permite estar juntos, fazendo uso da prática artística para podermos imaginar novos futuros possíveis. E imaginar a partir da arte, que é um instrumento poderosíssimo para que juntos possamos reinventar as nossas cidades, reinventarmos a forma como lidamos com elas, mas também para derrubarmos uma série de muros e de preconceitos.
Que existem.
Que existem, exatamente.
E como é que isso depois se materializa, a arte performativa?
A arte participativa.
Deixe-me adivinhar, é uma espécie de cadáver esquisito, não em texto, mas com diversas manifestações artísticas, em que cada artista acrescenta qualquer coisa, é isso?
Cadáver esquisito, por acaso, é um bom instrumento para um gatilho, como gatilho de nova criação, mas não é exatamente isso. É a possibilidade de criarmos no coletivo, de criarmos em coletivo. Não sozinhos, não o artista isolado, mas em diálogo muito próximo e horizontal com diferentes pessoas ou diferentes comunidades ou com o grupo que se juntar e se quiser associar a essa criação coletiva. Habitualmente, este grupo, estas comunidades, não são profissionais da área. Habitualmente são orientados na arte participativa. A arte comunitária já nos leva a uma horizontalidade total, mas isso era uma conversa extensa. Tem muito a ver até com novos conceitos que se tem vindo a trabalhar, mas assenta nesta possibilidade de criarmos juntos a partir daquilo que nos inquieta e daquilo que nos aproxima.
Muito bem. Como eu dizia no início da nossa conversa, este é o resultado, este o festival Desejar, que vai começar em junho aqui em Braga, é o resultado de um trabalho de cocriação que ocorreu no ano passado. O que é que fizeram e o que é que vão mostrar ao público?
O caso do Desejar, Movimento de Artes e Lugares Comuns, mais do que só uma criação, é um conjunto de 13 novas criações. E o processo, a criação aqui coletiva, foi a mesma do programa, ou seja, arriscamos ir para além da criação só do objeto artístico. Então temos vindo a reunir mensalmente desde março de 2024, e respondendo à pergunta de como é que fazemos isso, em assembleias, a assembleia do Desejar, que foi convidando cidadãs e cidadãos de Braga a se juntarem mensalmente para juntos pensarmos os temas, pensarmos os lugares, pensarmos as verdades artísticas, pensarmos as comunidades com que iremos trabalhar este programa do Desejar. E ainda estamos, na verdade, em diálogo, nós mantemos estes encontros, o programa ainda não está totalmente definido. Quer dizer, já está desenhado, já está fechado.
E que manifestações artísticas é que estão envolvidas neste Desejar?
Em assembleia e de forma horizontal, passamos por diferentes temas ou que preocupam ou que fizeram mais sentido àquele conjunto de pessoas, desde a nossa relação com o meio ambiente ou, em particular, com o rio Este, que é o rio que atravessa a cidade. E por isso vamos ter um projeto que foca precisamente um diálogo, estabelece encontros com o rio, de forma a podermos questioná-lo e nos aproximarmos e o conhecermos melhor, e que resultará depois num percurso performativo. Temos logo na abertura, e também foi resultado da necessidade de celebrarmos e de homenagearmos as invisibilidades da cidade, de quem cuida da cidade, que habitualmente não está tão presente no seu dia a dia, e falo aqui de todas as pessoas que fazem a manutenção das nossas cidades, a limpeza das ruas. E temos um projeto que vai juntar uma artista americana, a Alison Hoar, com estes trabalhadores, os trabalhadores da AGER, que é a empresa municipal que faz precisamente a manutenção, e ainda junta a plataforma de Pandemónio, que é um coletivo artístico de Braga, para uma performance que é, mais uma vez, participativa, mas que assenta no movimento, na dança e nas características que este conjunto de pessoas, que são cerca de 50, e o movimento que é feito na sua rotina diária, trará a artista para passar e para interpretar num momento mais expressivo e performativo.
Portanto, deixe-me ver se percebi bem, os artistas no Festival Desejar, Festival de Artes Participativas, vão dar corpo e vão dar voz aos contributos que as tais assembleias lhes deram. É isso?
Não é só dar voz. Em todos estes projetos, nós vamos juntar artistas com diferentes comunidades de Braga. Vamos ter cerca de 13 novas criações, passando assim por números
Vamos lá.
13 novas criações que vão desde assentos no espaço público, numa relação com o espaço público, isso está muito ligado à arte participativa, mas muito ligado a estas assembleias, em particular. Portanto, iremos ter muita ocupação das ruas e das praças da cidade. Vamos envolver mais de 60 artistas, pensadores, ativistas, de seis países diferentes, com diferentes parceiros e comunidades que fomos identificando e com quem nos fomos cruzando em Braga, num total de cerca de 600 pessoas que são envolvidas. Por isso, as performances ou os objetos artísticos a serem apresentados não são só o artista a dar voz a um tema em particular, vai ter em cima do palco todas estas pessoas. Portanto, é um cruzamento entre artistas.
Portanto, as assembleias participam.
Não só as assembleias, outras comunidades a que nos fomos aproximando e que vão integrar estas novas criações. Por exemplo, há um trabalho que é só com crianças e pré-adolescentes, numa visita pelos olhos delas à cidade, que nos vai juntar a uma artista italiana, que vai conduzir esse grupo, formado de 30 crianças que vivem e têm uma relação com Braga, mas também teremos a oportunidade de olhar para a nossa mobilidade, para a forma como nos movemos na cidade a partir de um grupo de 10 ciclistas que já fazem uso regular da bicicleta, com o Cado Lucinelli, que é um artista que tem vindo a trabalhar esta dimensão nos percursos afetivos, as narrativas. Portanto, temos diferentes formas de fazer estes cruzamentos e de criar estes diálogos.
Qual é o grande benefício deste modo de produzir arte através da participação do público? É criar novos públicos, é dar novos inputs aos artistas, Ana?
Eu diria que é isso, claro, também, mas eu diria mais do que isso, e a palavra "desejar" aqui não é por acaso. Ao escolhermos o desejar, nos tempos desconcertantes que vivemos, achamos que resgatar o desejo e resgatar a possibilidade de desejarmos em coletivo, em conjunto, era muito importante. E este trabalho, feito assim em conjunto e feito com este tempo, na verdade, contribui para uma melhoria da qualidade das nossas vidas e das nossas relações, porque provoca encontros, encontros entre pessoas que, se não fosse por estes projetos, provavelmente não se conheceriam e não conheceriam as características e até as diferenças umas das outras. Portanto, eu atrevo-me a dizer que melhora a nossa capacidade empática, derruba preconceitos, faz-nos ter também mais consciência dos nossos direitos, mas das nossas responsabilidades na construção de uma cidade melhor, mais interessante para vivermos. Acho que nos compromete enquanto cidadãs e enquanto cidadãos na construção de uma democracia mais saudável. Portanto, eu diria que é absolutamente necessária nos dias de hoje.
Encontra muitos benefícios nas artes participativas, Ana. Quando é que podemos ver o resultado destes processos de cocriação? A partir de junho? E onde?
De 10 a 14 de junho, nas ruas da cidade, como disse. O Mercado Municipal tem sido o coração do Desejar, é onde temos feito as assembleias. É lá o ponto de partida e o ponto de fecho, também. Portanto, diria que de 10 a 14 é encontrar-nos no Mercado Municipal para depois cruzarmos outros lugares do rio Este, que já falei, entre o Parque da Rodovia e o Parque da Ponte, mas também os taleiros da AGER, as ruas da cidade em percurso com as bicicletas ou sob o olhar da criança. Portanto, eu diria que nas ruas da cidade, a partir do Mercado Municipal.
Muito bem. Ana, sendo agente cultural, o que acha que vai resultar aqui da Braga 2025?
Eu acho que já há muitos frutos, já há resultado deste processo todo, que já tem vindo a ser, eu não diria longo, porque nunca é o necessário, mas eu diria que essa capacidade de melhorarmos a nossa vida na cidade e de ficarmos mais capazes de construirmos em coletivo uma identidade e uma cultura para a cidade.
Muito bem. Ana Bragança, muito obrigado por ter vindo aqui ao Café Viana, no centro de Braga. Ana Bragança, que é responsável ou dirige o Desejar, festival de artes participativas. Sim, Ana?
Não, só para corrigir, porque o Desejar é feito com três pessoas. O Cruz é o diretor artístico, a Ana Bragança, que sou eu, faço a direção de participação e animação, e a Simone Almeida, que faz a direção executiva.
Está feita a correção. Desejar, pode ver aqui de 10 a 14 de junho, na Cidade de Braga.
A partir do Mercado Municipal. Obrigada.