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Sr. Presidente da República, Sr. Presidente da Assembleia da República, Sr. Primeiro-Ministro, Sr. Presidente do Tribunal de Justiça, Sra. Presidente do Supremo Tribunal Administrativo, Sr. Representante dos Capitães de Abril, Sr.as e Srs. Convidados, Sr.as e Srs. Deputados. A Revolução de Abril é património do povo e é patrimônio do futuro. Celebramos hoje aqui com a confiança que o melhor do seu caminho histórico ainda está por vir e que mais tarde ou mais cedo, a luta dos trabalhadores e do povo, a luta dos democratas, o concretizará na sua plenitude. Decidiu, e bem, a Assembleia da República comemorar a Revolução de Abril. Em nenhum momento difícil da nossa vida coletiva, mesmo enfrentando as maiores dificuldades e transportando as mais densas inquietações, podemos deixar de celebrar Abril. E se há momento em que o 25 de Abril não pode ser apagado, é este, para confirmar e reafirmar a importância do seu projeto libertador e a atualidade dos seus valores e dos seus ideais de liberdade, emancipação social e nacional. Sim, impunha-se estar aqui para exaltar a determinação do nosso povo, que ama a liberdade e a reconquistou. E que hoje, tal como nós, aqui vai às 15h por todo o país cantando Grândola e o hino nacional, dando expressão à ação valorosa de grande coragem do movimento das Forças Armadas e a essa unidade construída de firmes vontades que juntou povo e MFA para realizar o ato e processo mais moderno e avançado da nossa época contemporânea. Um tempo novo, em rutura com o passado fascista, opressor e obscurantista, que hoje alguns, vestindo novas e dissimuladas vestes, pretendem branquear, denegrindo Abril. Tempo novo, que permitiu transformar a realidade vivida e com ela transformada e em transformação, mudar a forma de ver o mundo e a própria sociedade. Sim, foi uma revolução que quis ir longe no quebrar de muitas grilhetas e opressões seculares e da exploração. Uma revolução que optou e decidiu criar esse bem precioso que hoje tanto valorizamos e que o surto epidémico tem mostrado indispensável: o nosso Serviço Nacional de Saúde, que precisamos de valorizar e reforçar. Que optou pela consagração de direitos sociais e universais à educação, à segurança social, à cultura, pela valorização do trabalho dos trabalhadores e dos seus direitos. Pelo fim ao domínio da economia, pelos monopólios e latifúndios, que optou pela paz contra os interesses dos que faziam a guerra. Confrontou-se a Revolução, desde muito cedo, com a resistência de interesses econômicos e políticos poderosos e muitas das suas realizações andaram pra trás. Ficou tanto por fazer. Está muito por fazer e mais do que nunca é preciso, neste tempo inquietante, seguir no trilho de Abril, renovando o apego aos seus importantes valores. São os valores de Abril que podem iluminar o caminho de Portugal. Os valores da liberdade, da democracia e da natureza do Estado, concebida para responder aos interesses e necessidades do povo e do país, em oposição à conceção do Estado, instrumento para servir o capital e a exploração. São os valores do desenvolvimento econômico, que deve ter como objetivo a melhoria das condições de vida dos portugueses, o pleno emprego, uma justa e equilibrada repartição da riqueza nacional, a soberania e a independência nacional. São os valores de Abril que nos fortalecem como povo e nos podem ajudar a ultrapassar os problemas que anos de políticas negaram e que a atual situação epidémica agravou. Valores que podem e devem ser traduzidos num programa político concreto, patriótico e de esquerda, dando expressão ao conjunto das dimensões da democracia de Abril, que queremos e propomos dever ser simultaneamente política, econômica, social e cultural. Vivemos tempos difíceis. Os que há pouco diziam que vivíamos acima das nossas possibilidades estão de volta, empolando dificuldades reais. Regressaram a debitar as suas velhas receitas, agigantando catastróficos cenários para justificar o aprofundamento da exploração. Ei-los, ensaiando o discurso das inevitabilidades de corte nos salários, das pensões e dos direitos e a pensar manter intocáveis os seus instrumentos de exploração. Não o podemos aceitar. Não é inevitável que o surto epidémico se traduza em regressão na vida dos trabalhadores e do povo. A resposta às dificuldades passa por valorizar salários e por políticas dirigidas à defesa e criação de emprego. Habituados a ter o seu lugar reservado à mesa do orçamento do Estado, os grandes grupos econômicos e financeiros aí estão já a reclamar milhões aos cofres públicos. Dizem-nos que estamos todos no mesmo barco Os mesmos que estão na origem das gritantes desigualdades existentes passaram a arvorar-se campeões do consenso nacional. Não, os portugueses não estão todos nas mesmas condições. Não estão os que permanecem de cofres cheios e os que empobrecem trabalhando e se endividam. Os que estão em lay-off e no desemprego, os que trabalharam uma vida inteira e têm parcas reformas e pensões, porque sempre tiveram salários baixos. Não estão muitos pequenos e médios empresários. Não estão aqueles que continuam a colocar milhões na Holanda e nos offshores para fugir ao fisco e aqueles que vão passando de emprego precário a emprego precário e sem meios de vida. Sim, senhor Presidente, senhoras e senhores deputados, os direitos não podem ficar de quarentena. A situação que vivemos mostra a importância dos serviços públicos para servir o povo e o país e mostra bem a falácia do discurso da diabolização do Estado e do investimento público ou da despesa pública. Mostra as erradas políticas de subalternização da produção nacional que o fundamentalismo neoliberal justificava e que a União Europeia aprovoava e impunha. Este é o tempo de reconhecer que o caminho se faz cumprindo a Constituição da República e não contra ela. Sim, precisamos de produzir cá o que nos impuseram comprar lá fora, modernizando e diversificando as atividades econômicas. Precisamos de recuperar para o país o que nunca devia ter sido privatizado. Precisamos de acelerar o investimento, adquirir os equipamentos que o país carece, construir infraestruturas, assegurar serviços públicos essenciais. Precisamos de concretizar Abril e celebrá-lo pensando no Maio de quem trabalha, que saudamos. Uma saudação, particularmente, às centenas de milhares que estão neste dia e todos os dias nos hospitais, nos serviços públicos essenciais, nas fábricas, nos campos, para assegurar que o país não para. Sim, que viva Abril sempre, agora mais do que nunca.

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