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Rui Reininho, o que é que lhe vai na alma?
Estou a olhar aqui desta janela, pois o Fernando, como ternamente os amigos de Leça lhe chamavam, espero não ser ofensivo, mas a gente ouvia quando ele andava aqui na zona, da minha casa via o apartamento em cima, e era o querido Cara de Cavalo. Os antigos companheiros chamavam-no de Cara de Cavalo, hoje não vem almoçar. Portanto, essa cumplicidade que eu via entre outros jogadores, mesmo os do tempo dele e os mais recentes, consideravam-no, de facto, uma referência e um companheirão. Lembro-me de coisas que as pessoas não referem, das noites na discoteca Indústria, com a sua mulher e com o outro Rui Aires. Era um homem muito dado, era um homem de farra, já pós-futebol. Posso-te meter também outra inconfidência, porque na minha última análise endoscópica, quando eu abri os olhos, vejo o Fernando na cama em frente. Diz: "Não, Reininho, estamos velhotes para fazerem-nos estas coisas". Mas ele sempre bem disposto, pelo visto o caso clínico dele era bem mais grave, mas ele sempre bem disposto. E tive a oportunidade de lhe dar um último abraço ali na Câmara do Porto, aquando da comemoração do último dos três troféus em que ele ainda estava ligado ao clube. Acho que o clube fez muito bem em continuar a mantê-lo, e ele com certeza não queria desistir e por vezes eu via na televisão, se calhar já com a saúde um bocado debilitada, mas sempre ali ao Dragão, sempre ali a acompanhar a equipa. Era de facto uma pop star, não só aqui como internacionalmente. Eu creio que ele falha por lesão aquela final de 87. E foi pena, porque senão tínhamos dado 4 x 1 ao Bayern, não duvido.
Não era só disso. Rui Reininho, há algum jogo, algum golo de que guardes memória que te desperte um sorriso?
Muitos os de miúdo, pois era uma altura em que eu ia imenso à Bola. Nós temos praticamente a mesma idade e eu ia numa altura em que eu ia bastante às antes e era sempre aquela maneira sólida de comemorar. Com os pés, com a cabeça e eu soube através do Domingos, também um homem aqui de Leça da Palmeira, curiosamente, e vi a cara triste do Domingos. Também vi o Domingos ali a crescer e creio que, no caso do Domingos Paciência, também bebeu muito daquela maneira fatal, aqueles números nove que, inclusivamente agora, acho que de certa maneira reencarnou um pouco no Taremi, aquela maneira de ir para cima das defesas, os penáltis também, a marcá-los com frieza. E ele realmente era, como se costuma chamar, um matador. Se a morte o levou, de certeza que está lá em cima no Valhala, com aquele sentido de humor e sempre com sorriso. E de facto aquele número nove, para quem gosta de futebol, é sempre mágico.
Era também uma característica do Fernando Gomes, o sentido de humor?
Sim, sempre, pelo menos que eu encontrava. Nós somos quase da mesma idade, creio eu. E ele sempre com graça: "Estamos velhotes" e tal. Tu lá continuas ali nas tuas aventuras e andas por aí. Portanto, era um tipo muito descontraído, sempre um sorriso franco. E também não me posso esquecer que ele deu uma ajuda num jogo a favor da Abraço, quando a iniciativa apareceu ali no Estádio do Bessa, em que ele alinhou logo. Era contra uma equipa feminina e achei graça que ele e o Sá Pinto eram dois organizadores com o João Loureiro. Os jogadores a sério viraram-se para nós e disseram: "Isto é sério? Vamos mesmo para cima das miúdas?" E nós também rimos e dissemos: "São miúdas, o que estamos à espera? Vamos para cima delas." E foi um jogo convívio muito engraçado. Portanto, era sempre um homem divertido e realmente é uma pena não haver tantos matadores daqueles. Boa viagem, Fernando, ficamo-nos aqui na recordação realmente da presença dele e da força que ele teve nestes últimos tempos, de facto, que é extraordinário.
Para enfrentar a doença