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Este é o Explicador das manhãs 360 esta segunda-feira sobre o acordo entre os Estados Unidos e Irão e a reabertura do Estreito de Ormuz. São nossos convidados o economista António Nogueira Leite e o comandante Gonçalves Alexandre. A moderação é do Paulo Ferreira e do Bruno Vieira Amaral.
Obrigado a ambos pela disponibilidade para estarem conosco esta manhã. Gonçalves Alexandre, começando por si, ao longo de muitas semanas recentes tivemos vários anúncios de acordos iminentes entre os Estados Unidos e o Irão. Temos motivos para pensar que desta vez é mesmo a sério?
Bom dia, muito obrigado pelo convite. Eu julgo que sim, julgo que foram 39 as vezes que foi anunciado que este pré-acordo estaria próximo. Julgo que desta vez há indícios claros que apontam nesse sentido. Em todo caso, penso também que será necessária alguma prudência relativamente a todo este processo, porque neste momento é muito mais o que não se sabe do que aquilo que se sabe sobre este pré-acordo. Para já é um pré-acordo que eventualmente levará a 60 dias, a extensão do período de cessar-fogo por 60 dias e negociações subsequentes sobre dossiês muito delicados, designadamente sobre o programa nuclear iraniano. Portanto, eu julgo que sim, as partes estão a dar passos concretos e quem está a negociar, a fazer a intermediação, passos concretos, mas manda a prudência ou aconselha a prudência alguma contenção até percebermos os termos finais desse acordo.
Estamos a falar ainda, Gonçalves Alexandre, de um memorando de entendimento que vai definir os termos em que vai ser negociado o acordo, é isto?
Sim, em função da pouca informação que ainda se sabe, o que está em cima da mesa para já é que na próxima sexta-feira possa ser então formalmente assinado esse pré-acordo, esse memorando de entendimento, que fará no imediato, aparentemente, cessar os bloqueios, pelo menos o bloqueio americano do Estreito de Ormuz e aparentemente o início da livre circulação da navegação por aquele importante ponto de congestionamento no domínio marítimo. Também se sabe que no prazo de 60 dias, os pormenores desse acordo futuro relativamente ao programa nuclear é que irão ser debatidos, e também o levantamento, eventualmente, de sanções, des congelamento de ativos. Tudo isso são vários dossiês que serão analisados a posteriori. Por isso é que eu digo que é preciso alguma contenção para percebermos, de facto, os termos em que isso vai acontecer.
Ainda assim, António Nogueira Leite, bom dia, bem-vindo também a este Explicador. Temos, naturalmente, o petróleo já a descer no mercado como reação a esta notícia. Isto pode aliviar as nuvens carregadas que estavam a formar-se sobre a economia, nomeadamente com a inflação a subir e os juros também?
Bom dia também, obrigado pelo convite. Sim, no princípio, sim, mas tudo depende, primeiro, que efetivamente o memorando de entendimento seja assinado na sexta-feira, e depois dos termos concretos como ele vai evoluir. Sendo que admito que, a haver um acordo final, que se espera que haja, esse acordo tenha que envolver todos os items em aberto e não apenas aquilo que nós já tínhamos antes da guerra, que era a livre circulação em Ormuz. Os termos como isso vai acontecer ainda não são muito claros. O Irão ontem à noite, já depois de se ter reconhecido que havia um acordo quanto ao memorando de entendimento, falava em livre circulação sob controle de Omã e do Irão, que não me parece que seja a ideia dos Estados Unidos. Portanto, neste momento ainda existe bastante fog of war, muito nevoeiro de guerra, muita contrainformação, mas penso que o caminho será, caso se consiga assinar o memorando de entendimento, tal como está previsto, que depois se avance e, tendo sucesso, fique resolvido este problema, que terá necessariamente, ao ficar resolvido, um impacto positivo na evolução do preço do petróleo. Sendo também que o restabelecimento absoluto vai demorar tempo, embora tenha havido já bastante substituição da produção do Golfo e tenham surgido outras alternativas, colocado reservas no mercado, etc, temos que perceber também que boa parte da capacidade de refinação, e parte do que saía do Golfo não era apenas petróleo bruto, era também produtos refinados, está afetada e vai demorar algum tempo a ser totalmente restabelecida. Mas de qualquer das formas, será uma melhoria e uma perspectiva mais simpática para a evolução de tudo que tem a ver com o petróleo e custos a ele associados e aos seus derivados daqui para frente, partindo do princípio que tudo vai acontecer como se antecipa e como é previsto.
Gonçalves Alexandre, olhando para os pontos deste memorando de entendimento, quem é que entrou mais pressionado para que este acordo se formalizasse?
Claramente os Estados Unidos. Há aqui uma questão que não referi há pouco, mas que é uma questão sensível, é que este memorando de entendimento prevê o cessar-fogo por 60 dias em todas as frentes, incluindo no Líbano E aqui é que a questão é bastante sensível, porque isso tem que significar duas coisas. Tem que significar que os Estados Unidos conseguem controlar Israel, o que não tem sido fácil, como bem sabemos, nos últimos tempos. E, por outro lado, também que o Irão consegue controlar o Hezbollah. Isso também é um aspecto muito sensível. Agora, quem entrou mais pressionado claramente foram os Estados Unidos. Os Estados Unidos precisavam de algo concreto, ainda que o grande pacote só venhamos a conhecer daqui a 60 dias, a contar da data da assinatura deste pré-acordo, mas claramente os Estados Unidos estavam muito mais pressionados do que o Irão, que aparentemente estava a conseguir, pese embora todas as dificuldades que eram evidentes na sua economia, com inflação a atingir os três dígitos, por exemplo, e uma vida muito difícil para as populações, mas estava a conseguir sobreviver. E os Estados Unidos estavam a ver que não estavam a conseguir controlar este assunto, ter uma solução, por pouco que fosse, mas uma solução concreta que pudesse, de alguma forma, amenizar as consequências, sobretudo deste bloqueio.
E os Estados Unidos sairão melhor deste acordo do que entraram no conflito. Ou seja, Barack Obama, o antigo presidente dos Estados Unidos, disse que provavelmente, no que se refere ao programa nuclear iraniano, não haverá grandes melhorias com o novo acordo do que existia anteriormente. Concorda com esta ideia?
Eu concordo. O acordo que existia era um acordo em que o próprio Irão se tinha comprometido a não criar uma arma nuclear, a não enriquecer urânio para além de uma determinada porcentagem, com controles periódicos da Agência Internacional de Energia Atômica e também dos Estados que faziam parte da troika que negociou esse acordo. E é difícil que agora seja possível encontrar ou definir ou alcançar um acordo melhor. Eu diria que, no limite, se calhar, o presidente Trump poderá negociar um acordo muito próximo daquele que já existia com o presidente Obama. E portanto, nesse aspecto não vai haver uma grande vantagem, tal como não há, e concordo com o que já foi dito, o estreito Ormuz estava aberto. Só na sexta-feira é que vamos saber se, de facto, estão previstas quaisquer taxas a serem suportadas pelos armadores dos navios que transitam por aquele estreito. Aparentemente, os Estados Unidos dizem que não, que será livre circulação, mas isso é o que já existia. Mas o Irão, sobretudo a sua ala mais radical, que se tem oposto a este memorando, tem dito claramente que essas taxas irão existir, negociadas com Omã, que é o outro Estado do estreito, cuja passagem é nas águas de Omã e, portanto, também do Irão, que tem uma parte emprestada. Tudo indica que isso poderá ser negociado, essas taxas, sejam elas quais forem, ambientais, de segurança, o que quer que venha a ser decidido. Também aí há uma grande expectativa de percebermos o que é que vai ser assinado na sexta-feira.
António Nogueira Leite, os danos que o conflito está a provocar na economia, nomeadamente na economia norte-americana, serão um fator de pressão ou têm sido um fator de pressão para um acordo e pode-se concluir que os Estados Unidos correm o risco de sair deste acordo numa situação pior do que aquela que tinham à partida quando se iniciou este conflito?
Bem, isso é o que ainda vamos ver. Eu diria que embora nós falemos muito sobre os danos da economia americana, os danos na economia europeia são maiores. Pela sua profundidade e pela nossa maior dependência do petróleo. Não é o caso de Portugal, onde também os danos já são visíveis, mas muitos países europeus dependem bastante da produção do Golfo. Os Estados Unidos são superavitários na produção de petróleo e gás. De qualquer das formas, há um movimento de inflação que tem a ver com o aumento geral dos preços, portanto, não pode haver preços diferentes no mercado, que é um mercado mundial para os consumidores americanos. E aí há alguma pressão que está a pressionar o presidente, nomeadamente em função de um aspecto que é muito relevante, que é a existência de eleições em novembro para uma parte do Congresso.
Das eleições intercalares dos Estados Unidos.
Exatamente. E eu acho que esse é o principal efeito. Quando estamos a falar de dano, os danos são muito maiores ainda no Irão, onde a economia está totalmente destruída. O país só se mantém uno porque é uma ditadura ferocíssima em que o sofrimento da população é mantido pelas armas e pelo terror. Mas sim, ele tem essa pressão e é o facto de ter mais um conjunto de taticismos do que propriamente uma visão estratégica que levou a este problema e a ser colocado nessa situação, depois do que foi uma grande destruição que existiu no Irão. Nesse sentido, sim. No sentido de ser uma região particularmente atingida, não. Há regiões muito mais atingidas. Eu até diria que os Estados Unidos são, dos grandes blocos mundiais, aquele que está menos atingido, mas Trump sabe que a inflação é um problema. Ele foi eleito, em parte, por causa do fenômeno e de ele não ter conseguido resolver a tempo Pelo presidente Biden. A inflação estava a baixar, mas não tinha baixado o suficiente e isso foi importante pra eleição de Trump, pra nova eleição. Ele agora sabe que também se virou o feitiço contra o feiticeiro e, portanto, a classe baixa, a classe média baixa, onde está uma parte muito importante dos seus apoiantes, essa sim, está a sofrer alguma coisa, porque o seu rendimento real disponível está a cair em função do aumento do preço do petróleo e dos produtos que incorporam a cadeia que começa no petróleo. Mas digamos que é uma razão muito importante que pesou sempre, do meu ponto de vista, na sua avaliação. Não são os Estados Unidos o país que estão a sofrer mais com isso, longe disso. Nós, na Europa, estamos a sofrer mais.
Gonçalo Alexandre, há pouco falou também do papel de Israel. Israel é aqui, neste momento, o maior fator de incerteza. O acordo poderá ou irá mesmo condicionar a ação de Israel? O país deveria ter participado de forma mais ativa também na negociação deste acordo.
Sem dúvida, na minha perspectiva, Israel é um ator-chave em todo este processo, tanto neste pré-acordo como no acordo final. Naquele acordo que se pretende que venha a ser alcançado, um acordo de longo prazo entre todos os atores da região e extrarregional. E, portanto, Israel é absolutamente fundamental. E o seu papel no Líbano, em princípio, só a partir de sexta-feira, é possível que venham a existir ainda alguns ataques no Líbano, porque isto só entra em vigor a partir da assinatura deste memorando, que será sexta-feira, mas Israel e Netanyahu, neste caso, terá que ser mais comedido nas suas ações em território libanês, porventura recuar pra posições mais próximas da fronteira com o Líbano e evitar ataques. E, portanto, deveria ter sido envolvido, talvez, tal como também o Hezbollah. O Hezbollah é outra das partes críticas. Portanto, há aqui duas partes críticas, uma é Israel e outra é o Hezbollah. E por isso é que eu digo que tanto os Estados Unidos num caso e o Irão no outro caso, têm que ser capazes de exercer um controle efetivo sobre esses dois atores, por forma a que tudo isto não seja colocado em causa.
António Nogueira Leite, na Europa tivemos já na quinta-feira uma subida de juros do BCE, a primeira em muitos meses, e o mercado tinha expectativa de que até o fim do ano pudesse haver pelo menos mais uma subida, talvez até duas. Até que ponto é que estes desenvolvimentos não podem colocar em causa, no fundo, essas expectativas que foram sendo criadas?
Poderão, se as nossas boas expectativas e aquilo que eu julgo que a generalidade das pessoas pretende, que é que se chegue a um acordo final nos 60 dias, o que vai ser muitíssimo difícil, mas se a tendência for globalmente no sentido das notícias de ontem, teremos de estar atentos, olhar para os dados e verificar o que vai acontecer. Mas o mercado, quando há um mês e meio eu disse que a taxa de juro ia subir antes do verão, tinha a ver com a ideia, porque havia sinais de inflação e o mercado já estava a fazer o pricing dessas subidas, claramente. E está, de facto, ainda hoje a descontar mais subidas, mas é cedo para garantir, porque a situação, da mesma maneira que resultou neste problema, também pode ter algum alívio e esse alívio pode levar a que o número, o timing e a dimensão desses ajustamentos seja diferente. Portanto, neste momento, temos que olhar pra situação geoestratégica, olhar pra situação política no Golfo, ir vendo em que medida é que as economias também evoluem, olhar para os dados, quer o BCE, quer a Federal Reserve têm insistido que estão particularmente atentas a toda a informação relativa ao processo de difusão da inflação nas economias europeias e norte-americanas e, enfim, nas outras haverá processos idênticos. E, portanto, eu acho que ainda é cedo, mas sim, há haver algum sinal se as coisas correrem bem, é no sentido que o Paulo está a dizer e não no contrário.
Muito bem, vamos ter que aguardar. Vai haver muita incerteza, certamente nas próximas horas e dias. António Nogueira Leite, Gonçalo Alexandre, obrigado a ambos pela presença no Explicador. Bom dia e boa semana.
Muito obrigado.
Muito obrigado. Bom dia.