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Começa agora mais um Explicador das manhãs 360, sobre o impacto da passagem das tempestades Cristina e Leonardo por Portugal. São nossos convidados o vereador de Alcácer do Sal, cupcedor da Proteção Civil, António Grilo, e o vice-presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras, Diogo Guia.

Muito bom dia, António Grilo. Obrigado por arranjar uns minutos para falar conosco esta manhã, em dias que são naturalmente muito ocupados. Pedimos-lhe, antes de mais, para fazer um ponto de situação. Será que o pior, pelo menos desta noite e deste dia, já passou em Alcácer do Sal?

Neste momento, não estamos seguros para fazer uma afirmação dessa natureza. A água continua a subir. A chuva deu-nos alguma trégua, mas estamos a retirar muita gente das suas habitações, porque houve muitas pessoas que optaram, porque durante a noite sentiram-se seguras ao ficar nas suas habitações, nomeadamente pessoas que vivem nos andares cimeiros e que agora, face ao aumento do caudal, sentem-se inseguras e acionam os nossos meios e estamos a retirar pessoas.

Peço desculpa, António Grilo, só para perceber, neste momento o trabalho que os serviços de Proteção Civil de Alcácer do Sal estão a desenvolver ainda é retirar pessoas de casa.

Nós estamos a retirar pessoas de casa, estamos a acompanhar as que já tinham sido retiradas de casa, onde temos que garantir a alimentação e todas as necessidades que as pessoas têm evidenciado, mas nós temos uma área enorme. Somos o segundo maior concelho do país em termos de área geográfica. Neste momento, temos muitas preocupações em localidades que estamos com dificuldade em aceder, nomeadamente Casa Branca do Sado, Santa Catarina, Vale de Guis, O Arej, São Romão do Sado, Rio de Moinhos do Sado, Bairro do Forno da Cal. Isto são tudo localizações onde temos pessoas, algumas isoladas, outras com acessos condicionados. Temos um conjunto de meios no terreno, temos muitas equipas a recolher informação telefónica, de contacto direto com instituições, com associações de moradores, no sentido de termos do lado de cá o máximo de informação possível para respondermos de uma forma efetiva e em tempo útil.

E que meios é que têm no terreno? Neste momento, acha que têm os meios necessários, nomeadamente o apoio de militares, para lidar com todas essas frentes?

Essencialmente estamos a falar de meios aquáticos e temos aqui apoio de meios aquáticos. Estamos à espera de ser reforçados e eventualmente ter que acionar outros meios para fazermos uma avaliação desses locais que estão mais distantes da sede de concelho, porque como lhe digo, a nossa preocupação não passa exclusivamente por Alcácer do Sal, passa muito por essas aldeias que se localizam nas zonas limítrofes do concelho. Nós estamos a operacionalizar e já requeremos mais meios e eles possivelmente serão encaminhados.

Esses meios, está a falar de meios da Marinha, concretamente?

Podemos estar a falar de meios aéreos, para fazermos um diagnóstico de toda a mancha afetada e podemos estar a falar de reforço de meios aquáticos.

Há um número, nesta altura, que percebemos que vai ser atualizado e que está a ser atualizado, um número mais certo de pessoas desalojadas?

Como disse, durante o dia de ontem, retiramos das suas habitações 137 pessoas. Agora nas primeiras horas da manhã, já retiramos mais umas 20 e poucas pessoas. Deste grupo de pessoas, 62 foram realojadas por nós, através do recurso aos nossos parceiros, nomeadamente à Santa Casa da Misericórdia, e a muitos privados que disponibilizaram alojamentos locais, hotéis, pensões. Isto é algo dinâmico que estamos constantemente a atualizar em termos de informação, mas o importante é que não se registem vítimas e até ao momento não se registaram vítimas.

António Grilo, e qual é a expectativa para as próximas horas, em função obviamente das marés e da chuva que pode vir aí ainda?

Nós tivemos a última atualização das descargas das barragens e efetivamente é uma informação que nos deixa extremamente preocupados. As barragens estão, neste momento, a descarregar como nunca descarregaram. Nós temos relatos de colaboradores destas barragens, que trabalham há mais de 50 anos nestas estruturas e nunca assistiram a descargas desta natureza. A massa de água que se desloca de Sado a baixo é brutal e aqui em Alcácer nós temos esse encaixe todo. Há aqui uma conjugação de uma série de fatores que nós não conseguimos controlar. A chuva, o caudal das barragens, apesar de neste momento não estar a chover, as barragens continuam a receber muita água das chuvas que se fizeram sentir nas últimas 24 horas. Isso tem um impacto brutal aqui na cidade de Alcácer e em todo o concelho neste momento.

Portanto, não conseguem, neste momento, ainda estimar quando é que a situação atinge o seu pico máximo e começa a melhorar.

Não, neste momento, não.

E pode ainda subir, o que está a dizer pelas descargas, isto pode subir ainda mais o nível da água.

Pode subir, porque neste momento não estão em causa a ventura estrutura das barragens, mas se por algum motivo, alguma dessas barragens estiver com a sua infraestrutura em causa, as descargas serão muito mais agressivas.

Esta situação é extremamente anormal, António Grilo. Sabemos que os rios transbordam em invernos mais rigorosos. O nível a que a água está a chegar neste momento é extraordinário, é fora do normal.

Sim, totalmente fora do normal. Nós estávamos preparados para que o Sado galgasse as suas margens, mas não nesta escala.

O estado de calamidade, como está decretado neste momento, termina no domingo. Acha que, pelo menos em relação a Alcácer do Sal, ele deve ser prolongado?

Neste momento, como disse há pouco, isto é um diagnóstico que temos de estar a fazer uma monitorização constante. Isto é algo dinâmico, será para futuro dizê-lo, mas possivelmente é um cenário que terá que ser colocado em cima da mesa.

Faltam três dias para as eleições. Também deve ser colocada em cima da mesa a possibilidade de não se poder realizar eleições no domingo?

Existem várias localidades que estarão condicionadas para o ato eleitoral.

António Grilo, sobre isso não sei se nos pode avançar mais dados. Como é que neste momento a autarquia está também a preparar esse ato eleitoral? Vai encontrar espaços novos naqueles que eventualmente não possam ser utilizados para colocar as assembleias de voto?

O desafio é exatamente esse. Obviamente, nós temos consciência que a disponibilidade das pessoas neste momento não é essa. As pessoas neste momento estão a tentar salvaguardar-se e manter-se em segurança. Nós vamos tentar proceder de forma a arranjar alternativas. Durante o dia de hoje vamos estabelecer uma estratégia nesse sentido, mas percebemos que a motivação das pessoas neste momento é muito reduzida para o ato eleitoral.

Nesse sentido, esse assunto está a ser tratado com a CNE, com a Comissão Nacional de Eleições e com outras entidades?

É o gabinete de apoio à senhora presidente que está a tratar desse assunto. Eu neste momento não tenho informação atualizada. Estou aqui no teatro de operações há nove dias. Hoje é o nono dia que me encontro aqui na frente ribeirinha de Alcácer do Sal. Não tenho informação detalhada sobre esse assunto, mas seguramente que há esse contacto.

São muitas preocupações ao mesmo tempo e pela forma como nos está a descrever a situação. De facto, a situação é muito preocupante e desesperante. Sente-se devidamente apoiado pelos outros poderes e com as ajudas possíveis? Elas estão todas aí.

Neste momento, o plano que assumimos e que temos em vigor, com todos os parceiros envolvidos, estão a conseguir dar resposta com os meios que estão à disposição. Portanto, eu diria que sim. Eu diria que neste momento não sentimos. Há aqui algumas necessidades pontuais que nós vamos atualizando e vamos solicitando, mas não sinto que haja aqui uma falta de apoio à coordenação. Haverá questões depois para aferimos numa fase posterior, não tem necessariamente a ver com a operação de socorro, tem a ver com outras operações, mas sim, neste momento não nos sentimos desapoiados de forma alguma.

Ainda bem. António Grilo, muito obrigada por, perante toda esta situação de socorro urgente, ter ajudado a Rádio Observador e os ouvintes da Rádio Observador a perceber o que nesta altura se passa em Alcácer do Sal. Muito obrigada, um bom dia. Ouvimos o vereador.

Se me permite, eu gostava de deixar uma última mensagem.

Claro.

É importante para todos os residentes, para todas as pessoas que circulam no nosso território, garantirem a sua segurança e não arriscarem, porque neste momento o que interessa são as vidas humanas e, portanto, é muito importante as pessoas manterem a segurança.

Muito obrigada, António Grilo, que essa mensagem fique aqui muito sublinhada. Desejo-lhe um bom dia. Agradecemos muito ao vereador, copelouro da Proteção Civil de Alcácer do Sal. Tentámos também, neste explicador, ouvir o vice-presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras. Não foi possível. Presumivelmente, Diogo Guia estará neste momento também a tentar resolver situações mais urgentes, mas vamos aqui na Rádio Observador continuar a olhar para os efeitos do mau tempo.