Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Começa agora mais um Explicador da Rádio Observador. Esta manhã e a propósito do caso da FIFA e a suspensão retirada ao jogador dos Estados Unidos, lançamos a pergunta: quando o direito desportivo não é respeitado, põe em causa o valor econômico da competição? Para isso, são nossos convidados Miguel Poiares Maduro, ex-presidente do Comitê de Governação da FIFA, Daniel Sá, diretor executivo do IPAM e especialista em marketing desportivo.
Muito bom dia, obrigado a ambos pela presença neste Explicador. Miguel Poiares Maduro, deixe-nos começar por si. Trump ligou a Infantino, a FIFA recuou na suspensão automática a um jogador norte-americano. A FIFA diz que isto é um acaso, que está tudo a seguir os trâmites normais. Acha que essa visão deve ser acolhida ou isto é, por outro lado, revelador daquilo que são os padrões da FIFA?
Estão a seguir os trâmites normais da FIFA. O que não quer dizer que seja um caso normal. Na verdade, eu costumo dizer muitas vezes, a FIFA é um sistema de regras sem os princípios que nós olhamos quando olhamos para um Estado de direito. Ou seja, a aplicação das regras da FIFA, infelizmente, é uma aplicação frequentemente seletiva, e não de acordo com o princípio de igualdade, com o que essas próprias regras determinam. Esse é mais um exemplo disso. É um exemplo particularmente audiotório, até porque correu durante um campeonato do mundo, mas é a natureza, infelizmente, da FIFA e resulta da circunstância e daquilo que a FIFA, por exemplo, tem dito muito, que isto é a aplicação por um comitê independente, mas na realidade os comitês independentes da FIFA não são verdadeiramente independentes, porque quando eles atuam de forma independente, eu próprio vivi essa experiência com os meus colegas, o que acontece é que são substituídos. Nenhum de nós consideraria um tribunal constitucional cujos todos os membros fossem nomeados pelo governo do momento da conjuntura e pudessem ser livremente de determinar os seus mandatos por esse mesmo governo como independente. E portanto, as decisões da FIFA, e este é mais um exemplo delas, particularmente extremo, e eu poderia dar outras, resultam mais dos interesses econômicos e comerciais da FIFA do que da aplicação das regras. Neste caso, eu acho é que a FIFA sequer nem mediu plenamente as consequências da decisão que ia tomar e, portanto, teve uma repercussão pública que eles não estavam à espera.
Mas Miguel Poiares Maduro, a falta de pudor já chega ao ponto de se confessar sem qualquer problema este tipo de coisas? E Donald Trump foi absolutamente claro naquilo que fez.
Sempre se confessou. Eu posso dar um dos exemplos que determinou a minha saída e a minha horrível experiência, e com os meus colegas, foi na altura, foi um ano antes do Campeonato do Mundo na Rússia, e nós não aceitámos, porque uma das competências que nós tínhamos era fazer os chamados testes de integridade e de elegibilidade para os órgãos da FIFA, e o órgão principal da FIFA chama-se o Conselho da FIFA, e um dos candidatos era vice-primeiro-ministro da Rússia, e nós entendemos que um vice-primeiro-ministro não podia ser membro do Conselho da FIFA, porque era uma violação clara do princípio da neutralidade e da neutralidade em relação a organizações governamentais que os membros dos órgãos da FIFA tinham de ter. E o senhor Infantino, isto é uma matéria pública, há outras coisas das quais eu, com honra, não posso falar, mas ficou público. O senhor Infantino fez todo o tipo de pressão sobre o nosso órgão para que essa pessoa fosse eleita para o órgão da FIFA. Nós recitámos e acabámos por sair. Portanto, é um exemplo disso, mas podia dar a forma como foi atribuído recentemente o Campeonato do Mundo à Arábia Saudita. O Campeonato do Mundo que vai ocorrer em Portugal e Espanha, ocorre também em Marrocos e depois tem uns jogos na América do Sul. E foi isso que permitiu conceder o mundial a seguir à Arábia Saudita. Por quê? Porque os mundiais têm de rodar entre confederações. Como tivemos o mundial no Qatar, só vamos ter o mundial na Arábia Saudita a seguir àquele que também envolve Portugal, porque o nosso envolve, imaginem, três continentes. Foi uma clara manipulação das regras pra Arábia Saudita poder ter a seguir atribuído o Campeonato do Mundo. Portanto, são múltiplas as instâncias disso e portanto, por isso é que eu digo, verdadeiramente não há nada de novo. Há algo que ganhou um escândalo particular e temo também que infelizmente não vai mudar nada de fundo na FIFA sobre isso. Daqui a uma semana ninguém falará mais disso e a FIFA continuará com a forma de agir que sempre tem sido a sua.
Daniel Sá, bem-vindo. Bom dia também, bem-vindo a este Explicador. Este tipo de episódios não coloca em causa aquilo que é o principal ativo da própria FIFA, que é o valor econômico de uma competição como o mundial.
Bom dia. Obviamente que sim, ou seja, nós temos que pensar que o desporto vive da emoção, e tivemos muita ontem, mas ele sobrevive, sobretudo, pela credibilidade. E, portanto, o resultado de uma competição é imprevisível e deve parecer imprevisível pra toda a gente. Portanto, qualquer adepto aceita perder, o que não aceita é suspeitar que as regras não são iguais pra todos. E, portanto, olhando para o mundial como um negócio, como um produto, eu responderia que a credibilidade é o principal ativo que uma competição tem. E, portanto, quando há uma percepção de interferência externa, o valor da marca e da competição fica em risco. Portanto, do meu ponto de vista, esta interferência clara de Donald Trump não traz aqui um problema desportivo, até porque a Bélgica acabou por vencer o jogo aos Estados Unidos, mas claramente o risco aqui é reputacional. Portanto, a FIFA até pode ganhar aqui uma batalha midiática de curto prazo, um episódio que daqui a uns dias vai passar despercebido, até porque, de novo, os Estados Unidos Estão fora da competição, mas arrisca perder o valor reputacional a longo prazo. Estas competições, como nós sabemos, valem muitos milhares de milhões de euros e de dólares, porque os adeptos acreditam na integridade das regras. Quer dizer, se isto desaparece, isto claramente pode afastar pessoas.
E afastar marcas também.
Obviamente.
Atualmente, fala-se muito da questão reputacional das marcas. As marcas têm muito cuidado com outras entidades com que se envolvem, até com indivíduos que acabam por dar a cara por essas marcas. Neste caso, situações como esta podem afastar os principais patrocinadores?
Podem e afastam. As marcas quando decidem apostar neste tipo de eventos, vão basicamente procurar duas coisas. A primeira é a visibilidade, que uma competição destas dá, e como nós sabemos, dá muita, porque é uma competição global que chega a todo lado. Mas o segundo aspecto que as marcas procuram é uma associação de valores às coisas positivas que o futebol e que uma competição deste gênero tem. A parte bonita do futebol, a alegria, a adeptos, ao vodinha, a gol, dá esforço. Esta é a parte que as marcas gostam de estar presentes. Se as marcas sentem que entram num jogo viciado e as marcas sabem como medir o efeito prático disto, então elas podem claramente afastar-se dessas competições e gerar menos receitas pra a própria FIFA também.
Miguel Poiares Maduro, no início deste Campeonato do Mundo, disse em entrevista à Rádio Renascença, que acreditava na integridade das arbitragens, que isso não estaria em causa. Mas um caso como este, não sendo uma situação de arbitragem dentro do campo, não revela que existem problemas ao nível dessa integridade por parte da FIFA?
Eu disse isso precisamente por aquilo que o vosso convidado acabou de mencionar agora. Ou seja, se bem que eu acho que a FIFA tem problemas sistêmicos profundos, eles não podem ir demasiado longe em termos de colocar em causa a integridade, por exemplo, das arbitragens, sob pena daquilo que a FIFA também pretende, que é maximizar o seu lucro econômico, a natureza comercial do evento ser colocado em causa. Mas o comportamento da FIFA resulta desse equilíbrio e dessa tensão difícil, porque por um lado, esse mesmo objetivo de maximizar as receitas que a FIFA tem, é fundamental para manter de pé o sistema de poder da FIFA e do presidente da FIFA, em que ele mantém o seu poder, sobretudo porque tem vindo a amplificar, e isto já não vem de agora, já vem de presidentes anteriores, que, aliás, permanecem quase eternamente no poder, amplificando as receitas que obtém das suas atividades, eles alimentam uma rede clientelar que é aquela em que assenta o poder da FIFA. Portanto, eles também não têm interesse em agir de tal forma que coloque em causa a perceção e a confiança pública na competição. Foi por isso que, a seguir ao escândalo de 2015 de corrupção, houve muita pressão, e em particular dos sponsors da FIFA, para fazer algumas alterações e algumas reformas. O comitê que eu presidi veio na sequência disso, mas durou muito pouco tempo, porque ao mesmo tempo, como eu explicava, a cultura interna é o oposto de que essas reformas existem. É essa a tensão que existe na FIFA. E a FIFA quando faz isso, faz aquilo que se chama de window dressing. Portanto, adota regras que parecem ter de acordo. Todas as decisões, aliás, se virem toda a linguagem que eles utilizaram relativamente a este caso, é uma linguagem de regras. Mas na verdade, isso é limitado. E é limitado porque ao mesmo tempo eles sabem que é uma competição em que eles são monopolistas e, portanto, a elasticidade do consumidor é bastante limitada e eles sabem que continuam a ter um grande controle econômico. E outra coisa que se tem passado também, é a transferência dos sponsors, de quem apoia, para países, muitas vezes e para ligações até a fundos soberanos de determinados países, que têm menos preocupação com esses custos reputacionais do que sponsors anteriores da FIFA. É isso que explica, no fundo, que a FIFA continua a agir como age em muitas matérias, embora não o possa fazer de uma forma tão extrema que se perca a confiança na competição.
Mas Miguel Poiares Maduro, este é um tema que se arrasta há muito tempo. O que permite que pouco ou nada mude, apesar dessa tentativa de aparência da FIFA? A FIFA é supranacional, vive à margem dos Estados, isto é, não é regulada por nenhum Estado em concreto. Este é o modelo de governança ideal, de fato, para que também se coloque à margem do Estado de Direito?
Esse é o problema. A FIFA, na realidade, é regulada por um Estado, é pela Suíça, onde é uma associação reconhecida. A Suíça tem uma lei que para atrair esse tipo de associações desportivas, lhes dá uma autonomia quase absoluta. E portanto, são organizações que, na prática, não estão sujeitas a nenhum tipo de responsabilização. E não existindo incentivos internos suficientes pra reforma, ela não vai ocorrer. A única forma que pode ocorrer é por organizações internacionais como a União Europeia. As poucas reformas que a FIFA tem sido obrigada a fazer, resultam, curiosamente, de decisões do Tribunal de Justiça da União Europeia. Mas as instituições políticas, incluindo na União Europeia, que seriam das poucas que teriam poder para regular a FIFA, não o têm feito. E isso tem a ver com outro problema, que é uma captura grande dos agentes políticos pelas organizações desportivas. Este problema não é apenas com a FIFA. O Comitê Olímpico Internacional tem problemas seríssimos também nesta matéria. E, portanto, por isso é que eu costumo dizer, e ultimamente eu tenho dado muitas entrevistas, até colegas vossos estrangeiros nessa matéria que me têm perguntado isso, eu costumo dizer que nós temos que começar a dirigir A nossa indignação não é para a FIFA, porque ela não vai responder perante essa indignação, nada vai mudar, mas para as nossas autoridades públicas, do ponto de vista, em particular, para a União Europeia, para que esta finalmente faça alguma coisa.
E as federações nacionais também, Miguel?
As federações nacionais, nós vimos ainda agora, a Bélgica foi a única que reagiu e foi de forma mitigada. A UEFA fez um comunicado, aliás, a própria UEFA tem comportamentos idênticos à FIFA. Há algumas decisões, por exemplo, o comitê disciplinar da UEFA, do meu ponto de vista, também muito seletivas na aplicação, mas fez um comunicado pela indignação que este tema gerou na Europa, mas não vão fazer nada que não podem fazer. Há pessoas e federações de futebol e pessoas dentro do mundo do futebol que sabem que há problemas sérios que gostariam que fossem diferentes, mas aquela natureza clientelar do poder e o poder tão forte e absoluto da liderança da FIFA torna impossível. Se eles o fizerem, o que acontece é que eles são afastados e, portanto, do ponto de vista interno, não há mecanismos, infelizmente, que permitam essas reformas, elas só podem vir de fora.
Daniel Sá, apesar de todas as críticas que são dirigidas à FIFA, ao modelo de governação da FIFA, ao preço dos bilhetes, até ao facto de os jogos em muitos países já não serem transmitidos em canal aberto, a verdade é que olhamos para o mundial e tem sido um sucesso de público, também ao nível da organização. Isto de certa forma valida a atuação da FIFA. Vamos continuar a ter os mesmos procedimentos e até outros que agravem, de certa forma, esta situação nos próximos anos?
Num mundo que não é perfeito, claramente que estamos perante o maior mundial da história e o mundial mais rico da história. As contas ainda não estão feitas, o mundial não terminou, mas é indiscutível que vamos ter um pico absolutamente claro do que aconteceu com esta competição e com esta estratégia que a FIFA tem levado a cabo. Vale a pena também dizer que estes grandes eventos tornaram-se demasiado importantes para a política ficar de fora. Isto já não é apenas uma competição desportiva, é uma plataforma de influência política, econômica e diplomática, e portanto, este é um circo valente com impacto em todo o mundo. E olhando para o passado, não é a primeira vez que os políticos tentam interferir com estas competições. Aqui numa retrospectiva muito rápida, nos Jogos Olímpicos de 36, Hitler enfrentou Jesse Owens, com esta tentativa de promover uma narrativa política de superioridade. Portanto, isto já vem muito de trás. Tivemos os Estados Unidos a boicotar os Jogos Olímpicos de 80 e a União Soviética a devolver a ausência nos Jogos Olímpicos de 84. Tivemos a África do Sul afastada de várias competições por causa do apartheid. Temos a Rússia afastada há vários anos. Portanto, vamos ver. De novo, volto ao início da resposta. O mundo não é perfeito. A mim o que me preocupa muito desta competição, independentemente de chegarmos aos valores mais altos de sempre, é chegarmos a um patamar de preços que tornem possível com que o adepto popular de um desporto popular não consiga comprar um bilhete para entrar no estádio. E portanto, estamos a correr o risco de se tornar um desporto de elite e isto não me parece saudável no longo prazo para uma modalidade como o futebol.
E é a isso que temos assistido, a esse paradoxo. Continua a ser, de facto, o desporto mais popular do mundo. Ao mesmo tempo, parece reservado, pelo menos na assistência nos estádios, para uma elite. Miguel Poiares Maduro, Daniel Sá, agradeço a vossa participação neste Explicador. Um bom dia.
Bom dia, obrigado.
Bom dia. Obrigado.
Bom dia. Muito obrigado.