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São 9h13, começa agora o Explicador das manhãs 360, hoje sobre os discursos do 10 de junho. São nossos convidados Francisco César, do PS, e Pedro Frazão, do CHEGA. A moderação é do Paulo Ferreira e do Luís Soares.
Muito bom dia, bem-vindos ambos a este Explicador.
Bom dia, bem-vindos.
Um Explicador para o qual também tentamos ter um representante do PSD, mas não houve disponibilidade. Pedro Frazão, bom dia, bem-vindo.
Bom dia.
É raro assistirmos a um discurso aparentemente tão consensual como foi este do presidente da República. Isso também quer dizer, por outro lado, que pode ter sido muito pouco assertivo esse discurso.
Muito bom dia. Eu penso que além de ter sido muito consensual, foi altamente populista. Acho que António José Seguro ontem foi elevado ao cargo de maior populista de centro de Portugal, porque de facto o discurso dele, que apontava para as palavras do meio, são palavras do meio altamente populistas, que é aquele populismo central que não quer mudar nada, que quer deixar tudo exatamente na mesma e que quer agradar a tudo e a todos. E, portanto, não há maior populismo que esse. Ele tentou falar de reformas, é verdade, mas a pergunta que fica a seguir ao discurso do senhor presidente da República é uma pergunta muito simples e muito direta: mas quais reformas? É que, de facto, nós achamos que os portugueses estão mesmo fartos destes políticos populistas que dizem que é preciso dialogar, mas perguntam-se: dialogar sobre quê? É que é preciso decidir. Nós estamos há décadas e décadas a ouvir este discurso do dialogar, dos consensos, destes discursos vagos, mas que não avançam com decisões concretas. E, portanto, quando o presidente da República vem ter um discurso absolutamente redondo, sem apontar nenhuma direção, sem apontar nenhuma conclusão, sem apontar nenhum imperativo de liderança, nenhuma direção a seguir pelo país, é preciso perguntar o que é que o presidente da República estava a fazer.
Mas Pedro Frazão, deixa só questionar o seguinte: ontem, na primeira reação que fez Pedro Pinto, falava num discurso surrealista, um discurso com muitos alertas. Há aqui uma diferença ligeira, pelo menos de opinião, entre vocês os dois em relação a este discurso ou foi uma reação mais a quente do Pedro Pinto na altura?
Não me parece que haja diferença, porque de facto houve muitos alertas, mas o que eu estou a dizer é que é preciso ir além desses alertas. E é exatamente por isso que eu digo que António José Seguro fez um discurso do populismo do centro, que é alertar para algumas coisas muito redondas, mas sem apontar as direções e sem apontar o que são as conclusões. Por exemplo, relativamente à Justiça, o maior populismo de sempre é não ter coragem política para dizer que temos que acabar com a corrupção em Portugal. Como é que é possível que nós continuamos a ter casos de corrupção que continuam por ser julgados? Por exemplo, Ricardo Salgado não vai ter o serviço de justiça que os portugueses queriam. Há muitos doentes na prisão como Ricardo Salgado está doente. Portanto, António José Seguro foi um político plástico. Fez um discurso com frases bonitas, mas a meu ver, sem nenhum conteúdo e esses avisos não passaram exatamente disso. E volto a dizer, um presidente da República não tem que agradar a toda a gente, não tem que ser o político do centro que tem que dizer coisas bonitas e tentar agradar a toda a gente a partir do centro. Não, o presidente da República tem que ser um líder do país que tem que dizer ao país o que pensa e apontar uma direção. E, portanto, se todos concordam que é preciso mudar, se eu concordo que é preciso reformas, então não pode querer que tudo continue a ser feito de forma igual.
Deixe-nos pegar essa ideia. Francisco César, bom dia, bem-vindo também a este Explicador.
Bom dia.
Foi de facto um discurso de plástico com estes ingredientes que aparentemente conseguiram agradar a todos. Pedro Frazão agora colocaram um bocadinho em causa também esta ideia de que agradou a todos.
Eu, para já, antes de mais, bom dia. Eu, aliás, noto muito a diferença entre Pedro Pinto e Pedro Frazão, porque de facto há aqui uma diferença. Provavelmente Pedro Pinto esteve mais atento ao discurso do presidente da República. O discurso do presidente da República teve muito conteúdo, muito mesmo. E às vezes eu tenho pena que nós falemos de assuntos laterais ou de assuntos que não estão diretamente ligados ao dia e ao momento e não falemos daquilo que verdadeiramente foi importante falar. Para já, houve uma referência clara às autonomias regionais e à importância que elas têm nos últimos 50 anos e no trabalho que desenvolveram e na importância de serem financiadas e respeitadas pelo país. Essa é uma matéria que não vi o CHEGA referir. Era importante que isso fosse dito. Segundo lugar, falar sobre o posicionamento de Portugal. Qual é que deve ser o posicionamento de Portugal no âmbito internacional? Isto é importante. Nós devemos estar voltados para a Europa ou devemos estar voltados para os Estados Unidos? Qual é o nosso papel na NATO? O presidente da República foi muito claro. Primeiro, a afirmação da soberania nacional, a defesa da nossa aliança com os Estados Unidos e isso é compatível com a nossa autonomia estratégica europeia, portanto, a nossa ligação aos Estados Unidos como nosso aliado e como uma potência atlântica. Outro, dizer claramente que unidade nacional não é uniformidade, ou seja, Portugal é maior quando é plural, ou seja, quando afirma que há diferençasTermos um país que está unido e que tem uma vontade de se desenvolver, não quer dizer que tenhamos que ser todos iguais e devemos respeitar a diferença. E o Chega devia aceitar isso, porque inclusive ele é respeitado neste discurso, porque quando há pluralidade, há também lugar pro Chega. Também dizer que a polarização e a crispação política criam muitas vezes trincheiras, muros, e isso faz com que muita gente fique excluída do discurso político. E nós devemos ter diálogo, fazer pontes, haver tolerância, haver negociação e haver compromisso. Deixe-me só terminar de dizer isso.
Sim, rapidamente e passamos ao Pedro Frazão depois.
Coragem pra decidir e dizer a verdade. Os governos devem ter a coragem de dizer que há matérias que são difíceis de resolver. Nós não devemos dizer que tudo é fácil de resolver. Por exemplo, o Pedro Frazão falava aqui de Ricardo Salgado. Não é da competência do governo do presidente da República condenar ou não Ricardo Salgado, essa é uma competência dos tribunais. E isso é uma das maravilhas que a democracia nos deu, a separação de poderes. E dizer a verdade é ter a coragem de dizer: nós podemos ou não concordar, mas a justiça tem uma autonomia que ainda bem que o poder executivo, nem o poder legislativo, interfere diretamente.
Pedro Frazão, uma das ideias também deixadas pelo presidente foi a de ter coragem pra defender o interesse de longo prazo, mesmo quando o ciclo eleitoral empurra para o curto prazo. Esta é uma mensagem que claramente é para o governo, mas queria lhe perguntar se também encaixa na oposição de também querer defender os interesses de longo prazo e não empurrar para um ciclo eleitoral mais de curto prazo.
É verdade, claro que encaixa na oposição, mas o Chega sempre se tem demonstrado altamente responsável nesse sentido, estando disposto a estar com, por exemplo, agora, logo em 2024, quando nós estivemos dispostos a estar ao lado do governo para fazer, de facto, estas reformas que foram faladas pelo presidente da República e de que Portugal precisa. Agora, nós não podemos olhar para o presidente da República como o mais alto magistrado da nação, mas depois dizer, como disse agora o Carlos César, que não pode falar sobre justiça. É claro que o presidente da República tem que falar sobre justiça, porque é populismo permitir que a corrupção continue sem uma resposta eficaz no nosso país.
Mas alguém é contra a corrupção?
É populismo manter uma justiça lenta, é populismo não apontar que a justiça em Portugal é lenta, é incapaz de dar confiança aos cidadãos e continua a ter casos absolutamente paradigmáticos por julgar durante décadas e décadas sem fazer um serviço de justiça. Eu falei do Ricardo Salgado, mas também podia falar de António Sócrates, de José Sócrates, ou também podia falar de outros temas como o presidente da República evitou, porque o presidente da República evitou todos os temas sensíveis da nação. Por exemplo, os problemas de saúde que existem no nosso país, em que a grande maioria da população se vê com uma denegação do Serviço Nacional de Saúde, porque não consegue ter acesso ao Serviço Nacional de Saúde. Outro, por exemplo, o José Seguro também não falou, não teve uma posição clara sobre aquilo que se está a discutir hoje em dia em Portugal, que é a possibilidade da descida da idade da reforma e sobre a própria sustentabilidade da Segurança Social, que implica também aquilo que andaram a vender ao país sobre imigração. Temos dois milhões de imigrantes em Portugal que supostamente vieram salvar a Segurança Social e trazer uma enorme sustentabilidade para a Segurança Social, mas ao mesmo tempo, afinal, não podemos descer a idade da reforma.
Francisco César...
Há temas muito importantes para os portugueses que não vale a pena dizer genericamente que são precisas reformas. Eu percebo que o presidente da República tenha ido tentar dar uma beliscadela no governo, mas assim não consegue, porque é preciso apontar um caminho. E é verdade que falou dos regionalismos, portanto, falou das regiões autónomas, mas até mesmo olhando para o cenário que se via nas televisões, uma pobreza atroz do ponto de vista das paradas militares e do nosso efetivo das Forças Armadas. Mas além disso, teve uma parca adesão popular. Portanto, quer dizer, este modelo de Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades está absolutamente esgotado, não tem adesão popular. E isso foi manifesto ontem. Mesmo falando de autonomias e mesmo dando toda a importância de autonomias, fazendo a comemoração numa região autónoma, ainda assim não conseguiu ter a adesão popular que se esperava e foi até um pouco constrangedor ver aquilo nas televisões, ver que o Dia de Portugal é assim comemorado sem nenhum tipo de adesão popular.
Deixe-me passar a palavra também ao Francisco César e Pedro Frazão, porque senão vamos esgotar rapidamente o nosso tempo. Também colocando em análise também esta frase da coragem prática para fazer escolhas difíceis sem ceder ao populismo. Podemos olhar para esta frase também, Francisco César, como António José Seguro, dizendo o mesmo que, por exemplo, Pedro Passos Coelho tem repetido, de que o executivo deve fazer reformas e não pensar em eleições?
Bom, eu acho que qualquer político responsável dirá o mesmo. Nós devemos fazer as reformas sem pensar em eleições. A grande questão é que reformas é que nós queremos fazer. Eu acho profundamente injusto dizer que o senhor presidente da República não falou de assuntos importantes. Falou de jovens, de salários, de imigração. Deixe-me só dizer e dizer que o presidente da República, por exemplo, ou Pedro, desde dizer que nãoNão se preocupe com a saúde. Basta dizer que o Presidente da República pediu um pacto do regime em matéria de saúde e pediu aos partidos políticos, também ao Chega, que indicasse representantes para que se pudesse discutir a salvação do Serviço Nacional de Saúde.
Indicámos e já apresentámos as nossas propostas.
Dizer que o Presidente da República não tem esta preocupação, a meu ver, é profundamente injusto.
O que eu disse foi que ele evitou os assuntos difíceis no discurso do 10 de Junho.
Eu sei, eu compreendo. Ele pode não ter falado deste assunto, mas nós sabemos que o dia de ontem não pode esquecer o dia de anteontem. O Presidente da República sobre esta matéria tem preocupações. Ele falou um assunto que para nós é importante e calculo que para o Chega também seja, que é o facto da qualificação dos nossos jovens ter aumentado, os salários não acompanharem, da habitação ter-se tornado praticamente inacessível. E permita-me que diga o seguinte, e ao Pedro Frazão também. Eu estive nos Açores, até porque sou de lá, mas estive na ilha Terceira. O Presidente da República esteve lá dois dias. Num dos dias, no dia 9, ele esteve com milhares e milhares de pessoas na rua, na comemoração do 10 de Junho. E também na zona onde foi feito o 10 de Junho estavam muitas pessoas a assistir. O espaço era difícil, mas tinha muita gente. Agora, no dia antes, esteve com milhares de pessoas na rua. As câmaras de televisão às vezes têm o seu ângulo e, portanto, não me parece que seja justo. E outra coisa que eu acho que foi importante dizer, que é o papel que o Estado deve ter e que todos nós concordamos. Temos de ter um Estado que simplifique, ou seja, não crie dificuldades às pessoas, que planeie e que antecipe os problemas. Eu posso até citar: "Simplifica em vez de complicar, antecipe em vez de reagir, planeie para além do mandato e não se limite a gerir urgências." Alguém discorda disso? Eu julgo que não, e eu acho que é um discurso que foi apropriado ao momento e para os desafios que nós temos. E quando se está a falar na ilha Terceira, que tem uma posição importantíssima no Atlântico, a Base das Lages, com a sua centralidade nas rotas marítimas, a afirmação de Portugal e da aliança transatlântica, ao mesmo tempo que não se abandona as costas dos seus parceiros europeus, parece-me que foi um discurso apropriado ao momento. Teremos outros momentos para discutir também outros assuntos.
E cá estaremos nessa altura também para olhar para esses discursos. Neste caso, dois olhares de Francisco César e Pedro Frazão para o discurso de António José Seguro nas comemorações do 10 de Junho. Obrigado a ambos pela presença neste Explicador. Bom dia e bom resto de semana.
Bom dia. Obrigado.
Muito obrigado. Bom dia.