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De um lado, um apoiante de Henrique Gouveia e Melo, que acaba de desfazer o tabu, é candidato à Presidência da República. Do outro, um apoiante de Luís Marques Mendes, que se antecipou na corrida a Belém. Os dois social-democratas, Carlos Carreiras e Carlos Coelho, são convidados neste Explicador moderado pela Judite França e pela Vanessa Cruz.
Muito bem-vindos, obrigada por terem aceitado o nosso convite. Carlos Carreiras, vou começar por si. Gouveia e Melo justifica o anúncio agora em plena campanha eleitoral com os convites que tem de enviar. Para o senhor, enquanto apoiante do almirante, tem mesmo necessidade de receber um convite via correio ou bastaria uma mensagem do WhatsApp ou por outra via?
Muito boa tarde. Permita-me que, para além de a cumprimentar, cumprimente também o meu amigo e companheiro Carlos Coelho, ainda para mais companheiros de há muitos anos a esta parte. Ainda penso que era do tempo em que ambos tínhamos cabelo, veja bem o tempo que já passou. Portanto, uma relação que já é de bastantes anos. E uma relação saudável, sempre de grande respeito pela minha parte, penso que também por parte do Carlos, e de grande admiração pelo trabalho que o Carlos tem vindo a desenvolver na política portuguesa e também na europeia, que foi um grande deputado europeu em representação do PSD. Em relação à pergunta que me coloca, eu não faço a mínima ideia de quais são. Eu não estou na organização da campanha, não sei quais são as questões logísticas que se colocam. Eu não precisarei de receber nenhum convite, porque eu próprio me farei convidado quando chegar o dia, que será dia 29 deste mês.
Foi o próprio Gouveia e Melo que invocou esse argumento para anunciar já a candidatura, embora seja apresentada só depois das eleições, nesse dia 29.
Sim, mas quer eu, quer até o próprio Carlos Coelho, temos experiência de outras organizações de campanhas e de lançamentos de campanhas. Portanto, sabemos que há toda uma componente logística que é preciso preparar atempadamente, mas não estou dentro da logística da própria campanha do senhor almirante Henrique Gouveia e Melo.
Mas olhando para este timing do anúncio, é atendível, tendo em conta que o próprio Gouveia e Melo tinha remetido anúncios só para depois das eleições?
Tinha remetido que apresentaria ou não a candidatura depois das eleições, e isso é o que vai acontecer.
Mas tendo em conta que esperou tanto tempo, por que agora em cima da campanha, em plena campanha?
Se me permite também, essa conversa pode ser colocada ao contrário. Toda a gente criticava o senhor almirante Henrique Gouveia e Melo por não apresentar a candidatura, por estar a demorar a apresentar a candidatura. Quando agora apresenta o anúncio de que a vai apresentar no próximo dia 29 de maio, já depois das eleições legislativas, então agora toda a gente vem criticar por que é que o vai fazer nessas condições. Portanto, isso não faz muito sentido, quando ainda para mais sabemos que existem já outros candidatos anunciados e que ninguém colocou, e bem, a questão de por que é que colocavam o próprio lançamento da candidatura antes de legislativas. Aqui o fator, diria, anormal é irem haver eleições legislativas, que é tudo aquilo que ninguém queria, os próprios dirigentes partidários pelas afirmações que vão fazendo também ninguém queria. E se pode ser feita uma interpretação da minha parte, o almirante Henrique Gouveia e Melo apresentou-se sempre como alguém que vinha supra-partidário. E, portanto, a partir do momento em que vai haver eleições no próximo domingo, não decorre do resultado dessas eleições que, de alguma forma, têm uma tendência a favor da Aliança Democrática, mas que são ainda incertas, ou seja, há sondagens que colocam ainda dentro da margem de erro da própria sondagem a questão da vitória, quer separar-se esta sua decisão de qualquer tipo de resultado que possa surgir a partir de domingo.
Separar, sim, mas o ponto é se a dois dias úteis de eleições não é desestabilizador para o normal funcionamento da campanha.
Não, penso que não tem nada a ver com desestabilizador, são eleições diferentes, campanhas diferentes. Repare, se fosse para desestabilizar, já o senhor almirante Henrique Gouveia e Melo teria tido muitas oportunidades. Até não é preciso ir muito atrás. Oportunidades neste tempo, que se viu até outros pronunciarem-se sobre esta matéria. Estou a relembrar, por exemplo, o apagão que sofremos há relativamente pouco tempo e, portanto, o senhor almirante Henrique Gouveia e Melo decidiu, e bem, no meu entender, nem sequer se imiscuir nesse tipo de discussão. Não houve nenhuma opinião da parte do senhor almirante Henrique Gouveia e Melo sobre questões que são do foro partidário, do foro da política digamos assim, governativa.
Mas acaba por entrar agora, ser tema de campanha, não sendo esta a campanha para as presidenciais. Deixe-me chamar também, permita-me, Carlos Carreiras, chamar Carlos Coelho. Que leitura política que faz deste momento escolhido pelo ex-chefe do Estado Maior da Armada para confirmar que é candidato?
Vanessa, mais muito boa tarde a todos, aos nossos ouvintes
E em particular o Carlos Carreiras, que é um amigo de longa data e que, como presidente da Câmara Municipal de Cascais, é o meu presidente, portanto há um acento de simpatia e de grande consideração. O que eu vejo nesta declaração do candidato Henrique Gouveia e Melo é uma contradição, porque tinha dito que não faria nada até 18 de Maio e anunciou a sua candidatura antes. Mas isso não é o mais importante. Em bom rigor, quando fez o artigo para o "Expresso", julgo que há dois meses, na prática já tinha denunciado a sua candidatura. Aliás, recordo-me que o doutor Marques Mendes tinha saudado exatamente isso na altura. É bom que ele tenha surgido, é bom esta clarificação. Agora terá a ocasião de dizer o que pensa sobre Portugal, sobre a Europa, sobre o mundo, e de se pronunciar sobre tudo aquilo que é importante na esfera pública. E eu acho que esta oportunidade de clarificação de Henrique Gouveia e Melo deve ser usada também para esclarecer algumas das notícias mais recentes. Soubemos, por exemplo, que há uma decisão do Supremo Tribunal Administrativo, na sequência daquele problema que aconteceu com o barco Mondego, que levou o então chefe do Estado-Maior da Armada a ir até à Madeira dar um raspamento público aos marinheiros e aplicar sanções. Essas sanções foram anuladas pelo Supremo Tribunal Administrativo com o argumento de que o então chefe do Estado-Maior da Armada não cumpriu a lei. Agora, na qualidade de candidato a Presidente da República, esta acusação tem um peso próprio. Por que ele não cumpriu a lei? Em que medida é que a devia ter cumprido? Que explicações dá para não o ter feito? Eu acho que agora, já claramente na posição de candidato, é a oportunidade para dar estas clarificações. Para ser sincero, se me pergunta se eu estou muito preocupado com a contradição de ele ter dito que não faria nada até 18 de Maio e afinal ter anunciado a candidatura antes, acho que isto é uma contradição, mas não é aquela que me preocupa mais. Preocupa-me mais quando ele se afirmou publicamente a favor da reinstalação do serviço militar obrigatório e depois voltou atrás, quando ele disse que era necessário reforçar as verbas da defesa em detrimento do Estado Social e depois voltou atrás, ou quando ele elegeu o princípio da estabilidade como um princípio muito importante, mas veio dizer que admite dissolver a Assembleia da República se os governos não cumprirem as promessas, ou seja, constituindo o Presidente da República como um fator de instabilidade. Estas contradições eu acho mais complicadas, mais graves, a meu ver demonstram alguma impreparação, e essas sim preocupam-me na qualidade de cidadão.
Carlos Carreiras, queria dar-lhe a oportunidade para responder a estes pontos que Carlos Coelho apontou. Há várias contradições em Gouveia e Melo?
De uma forma muito sucinta, dizer que não há contradição rigorosamente nenhuma. O que o senhor almirante Henrique Gouveia e Melo anunciou é a apresentação da candidatura para depois das eleições legislativas, aquilo que sempre disse, até porque até determinada altura estava inibido pelas funções que desempenhava. E em relação àquilo que o Carlos Coelho agora invocou, e o Carlos sabe isso tão bem como eu, mau será alguém que para defender o seu candidato tem que fazer ataques ao candidato opositor. Eu penso que não é por aí que as eleições presidenciais devem decorrer, devem decorrer na capacidade que cada um demonstre de poder mobilizar todo o país, num momento muito especial que estamos a viver, quer em termos internacionais, quer de todos os conflitos que existem, também do ponto de vista geoestratégico, na defesa dos interesses de Portugal e da Europa. E portanto, cada um deve mostrar essa sua capacidade de mobilização do todo e não propriamente encontrar fatores de divisão que, a seu tempo, certamente serão completamente esclarecidos pelo almirante Henrique Gouveia e Melo.
Carlos Coelho, Gouveia e Melo garante que vai ser muito diferente de Marcelo Rebelo de Sousa se for eleito. Não concretiza exatamente em quê. Agora que está na corrida, vai ter de dizer com maior clareza?
Não, com certeza, era isso que eu dizia, que é a vantagem desta declaração de Henrique Gouveia e Melo. O facto de ele agora oficialmente ser candidato. Todo o país, vamos ser claros, sabia que ele era candidato, não há aqui nenhuma novidade. Isso foi claro, sobretudo depois da publicação do artigo no "Expresso". Mas havia aqui um segredo mal guardado. Não quero especular sobre as razões que terão levado a isto. Acho que não faz muito sentido, mas finalmente, até que enfim, foi pública e notoriamente afirmado que ele vai ser candidato. Eu acho isto importante e a partir deste momento não há nenhuma razão para ele não clarificar tudo isso. Já não chega dizer que vai ser diferente, tem que dizer como. Já não chega dizer que tem a opinião de que este orçamento deve subir ou deve descer, tem que dizer como. A concretização da sua ideia sobre Portugal, sobre a Europa e sobre o mundo é aquilo que nós queremos nesta campanha eleitoral. A declaração de candidatura do doutor Marques Mendes foi muito clara sobre este ponto de vista. Eu aliás, acho que foi muito rica. Bem sei que sou suspeito, que sou apoiante do doutor Marques Mendes, mas acho que foi uma excelente declaração de candidatura. Há aí, na prática, um programa apresentado. Agora é importante que todos os outros candidatos, incluindo Henrique Gouveia e Melo, façam a mesma coisa.
Carlos Carreiras, depois da apresentação formal da candidatura de Gouveia e Melo, não há desculpas. Também como apoiante, e imagino, na esperança de que seja um candidato agregador, espera que o almirante detalhe mais o que pensa e que presidente seria?
O próprio senhor almirante Henrique Gouveia e Melo tem vindo, por um lado, a auscultar em várias sessões, que têm sido sessões públicas, e por outro lado, também já a manifestar muitas das suas ideias sobre toda esta matéria, sendo que há aqui também, a meu ver, um equívoco. O programa de qualquer candidato a presidente da República só pode ser um, que é cumprir a Constituição. O presidente da República não governa, mas tem o compromisso de cumprir a Constituição. E esse é o programa que é comum a todos os candidatos a presidentes da República. Depois tem é que demonstrar a sua capacidade de mobilizar, de unir o país, de não dividir o país, de centrar o país, porque nós não podemos estar a viver numa situação de deixar que haja, na sociedade portuguesa, um extremar de posições, porque isso não é bom para ninguém e muito especialmente não é bom para aqueles que estão socialmente mais fragilizados. Isso, naturalmente, o senhor almirante vai ter a oportunidade de, ao longo da campanha, poder incentivar e até ter um palco que lhe dará maior projecção nas ideias que defende e na leitura que faz do mundo e naquilo que pretende também fazer para essa capacidade de mobilização dos portugueses e da união dos portugueses para ultrapassar estes tempos. São tempos difíceis e são tempos muito complexos que muitas das vezes, eu pelo menos confesso-me da minha parte, tenho uma dificuldade grande em conseguir perspetivar o futuro, já que o que nós hoje temos como certo é o incerto. E aqui há qualidades, até qualidades do ponto de vista profissional do senhor almirante que o colocam, a meu ver, em vantagem em relação aos outros. Não levando com isso a tirar o mérito de qualquer outro candidato que se disponibiliza para ser o mais alto magistrado da Nação.
E o candidato que vai ser apoiado pelo seu partido, Carlos Carreiras, ao que tudo indica, é o Luís Marques Mendes. Carlos Coelho, há maior preocupação na candidatura de Marques Mendes com esta assunção de Gouveia e Melo?
Não, como disse, todo o país sabia que ele ia ser candidato, portanto, não há aqui nenhuma novidade.
Mas o facto de anunciar agora se eventualmente pode acelerar um pouco mais a campanha de Marques Mendes.
Não, Marques Mendes já foi o primeiro candidato a apresentar-se. A candidatura do doutor Marques Mendes já estava no terreno, não há aqui nenhuma precipitação de calendário porque as coisas já estavam a andar. Eu queria sublinhar aquilo que Carlos Carreiras disse, que me parece correto, que é a ideia de que o presidente da República não governa. Não tem de apresentar um programa de governo, mas tem que justificar como é que entende o exercício dos poderes presidenciais e qual é o compromisso que estabelece com o país. Porque, evidentemente, que ao votar por um candidato A ou por um candidato B, significa que há uma expectativa de aproximação àquilo que ele pensa sobre as suas funções e a maneira como interpreta o seu mandato. É isso que se espera que possa acontecer durante a campanha, que os candidatos tornem evidente qual é a sua leitura da realidade de Portugal, qual é a sua leitura da nossa inserção na Europa Comunitária e qual é a sua leitura dos riscos que o mundo oferece hoje. E como é que o presidente da República vai interpretar os seus poderes para ser um fator que ajude a pôr Portugal em cima e não a pôr Portugal em baixo. Eu creio que é isso que se espera na campanha eleitoral.
Carlos Carreiras, agora que o almirante se apresenta na corrida, mais nomes da ala do PSD vão surgir a apoiá-lo?
Não faço a mínima ideia. Acredito que sim, pelo menos alguns têm-me transmitido exatamente essa posição. Eu diria aqui que, de facto, a própria classe política tem que, de uma vez por todas, ter uma consciência efetiva dos tempos em que nós estamos a viver. Porque, por exemplo, só este ano, nós vamos ter, no espaço de menos de um ano, eleições legislativas, autárquicas e presidenciais. E se levarmos à letra muito daquilo que eu ouço agora criticar, vai haver aqui uma sobreposição, diria eu, de candidaturas a presidentes de câmara com candidaturas a presidentes da República, o que também não é, a meu ver, muito saudável. De qualquer dos modos, aqui o que me parece é que cada um é livre de expressar os seus apoios e de se sentir motivado e convocado para este esforço, que tem que ser um esforço nacional, de evitar exatamente a divisão da sociedade portuguesa, de fazer tudo para criar pontes e relações que levem a que Portugal tenha uma estabilidade para poder enfrentar a situação em que estamos a viver a nível mundial, a nível europeu, e inclusivamente, e aqui é que eu penso que tenho só uma pequena discordância do que o Carlos Coelho disse, é que não basta só tudo aquilo que ele disse, é que é preciso também ter a capacidade de mostrar esta dinâmica, de motivar Portugal, de aproveitar também do ponto de vista dos interesses nacionais, estes momentos, que são momentos de crise, e em momentos de crise também, a forma como cada um firmar, pode inclusivamente levar ao maior desenvolvimento do próprio país. Isso é também aquilo que eu penso que irá preocupar todos os candidatos.
Carlos Coelho, tem receio de que fique a ideia de um PSD dividido na corrida a Belém?
Não, eu acho que os militantes do PSD são pessoas responsáveis, naturalmente. Cada um decidirá numa eleição presidencial, que é uma eleição própria, qual é o candidato que apoia. Não tenho dúvidas que a esmagadora maioria dos militantes do PSD vão apoiar o doutor Marques Mendes.
Tenho só aqui uma última questão para os dois, até porque acaba por marcar este dia no país e na campanha eleitoral. Estado de saúde à parte, porque não é isso que nos compete aqui, tem havido aqui algum aproveitamento político por parte do CHEGA e do próprio André Ventura, dos episódios clínicos que o líder do Chega está a viver por estes dias, Carlos Carreiras? Muito rapidamente, estamos mesmo a terminar.
A última coisa que eu queria fazer é estar aqui a fazer algum processo de intenção e, portanto, só me resta, até porque passei por situações idênticas àquelas que o deputado André Ventura está a passar, desejar as melhoras e que tudo corra pelo melhor, como felizmente também correu comigo. Enfim, não quero aqui cometer alguma inconfidência, como sei também que o Carlos há relativamente pouco tempo também teve alguns sobressaltos nesta matéria de saúde e, portanto, aquilo que podemos desejar é que o deputado André Ventura recupere o mais rapidamente possível.
Carlos Coelho.
Faço minhas as palavras do Carlos Carreiras.
Muito obrigada aos dois por terem participado neste explicador. O tema principal foi este anúncio de Gouveia e Melo, que está na corrida a Belém, e também aqui com um apoiante do almirante Carlos Carreiras e com um apoiante de Luís Marques Mendes, Carlos Coelho. Fica por aqui este explicador. Ainda vamos ter mais um daqui a pouco.