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E no Explicador de hoje, vamos olhar para a intenção do governo de contratar novos funcionários públicos. São convidados do Explicador de hoje: Alexandra Leitão, Ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública, e os economistas Carlos Guimarães Pinto e João Ferreira do Amaral.

Muito bom dia e bem-vindos. Ficamos a saber isto há pouco. O governo vai abrir hoje um processo de recrutamento para mais 475 funcionários públicos, que serão técnicos superiores. Senhora Ministra Alexandra Leitão, bom dia. Para que áreas é que vão esses novos técnicos do Estado e quando é que devem entrar em funções?

Muito bom dia. É bom dizer que estes 475 técnicos superiores fazem parte do recrutamento centralizado, que já foi lançado em 2019 para mil técnicos superiores. Fizeram provas de conhecimentos, ficaram numa bolsa e à medida que vão sendo necessários na administração pública, são lançadas ofertas de colocação para a colocação em concreto nos serviços desses tais mil técnicos superiores que estavam numa bolsa. Já fizemos uma primeira oferta de colocação para cerca de 60 para o Centro de Competências em Relações Internacionais e Política Externa do MNE. Depois, lançámos uma outra oferta em que foram colocadas cerca de 300 pessoas em diversos serviços e agora esta nova oferta de 475 vagas para 60 serviços diferentes da administração pública, em função das necessidades que foram sendo apresentadas. Portanto, no fundo, esta contratação é o culminar, digamos assim, a colocação em concreto nos serviços dos tais técnicos superiores que estavam em bolsa há já algum tempo.

Alexandra Leitão disse ao Eco, em declarações publicadas ontem, que o objetivo, de facto, é melhorar a qualificação média da administração pública e, no fundo, recrutar um segmento de trabalhadores em que o Estado é, por regra, menos competitivo do que o setor privado. Como é que se atraem, que argumentos é que tem o Estado, de facto, para atrair para a função pública este tipo de técnicos superiores?

Sim, eu queria chamar a atenção do seguinte: mais do que focarmos na quantidade de trabalhadores da administração pública, aquilo que é importante é mudar o perfil dos trabalhadores da administração pública.

Já agora, a quantidade também é importante, porque depois há que fazer contas no final para saber qual é o peso orçamental.

Certo, mas eu queria chamar a atenção só neste sentido. Nós, falando apenas de carreiras gerais, ou seja, assistentes técnicos, assistentes operacionais e técnicos superiores, o perfil das nossas carreiras gerais é um perfil que em 51% de todos os cerca de 180 mil técnicos das carreiras gerais que existem, 51% são assistentes operacionais, 27% são assistentes técnicos e apenas 22% são técnicos superiores. É este perfil que nós temos que mudar, até porque com a digitalização, certo tipo de trabalhos vão ser cada vez menos necessários e são os trabalhos mais qualificados que nós precisamos. Quando nós falamos na regra do um para um, não quer dizer que seja imediato, ou seja, que o perfil da pessoa que saia é o perfil da pessoa que entra. Aquilo que nós paulatinamente temos, de facto, que fazer é ter mais técnicos superiores, atrair jovens qualificados e ir mudando este perfil da administração pública.

A questão é como é que se faz, como é que se atraem esses jovens e essas pessoas mais qualificadas. O que é que o Estado tem para oferecer?

Muito bem. O Estado tem tido pouco para oferecer aos jovens mais qualificados nos últimos anos. É isso que nós temos verificado. Por isso é que temos uma administração pública envelhecida e por isso é que temos este perfil menos qualificado. E para mudar isso, é preciso, quanto a mim, duas ou três coisas. A primeira é acelerar as contratações, isto é, não é acelerar só no sentido de fazer mais, é acelerar no sentido de os concursos não demorarem tanto tempo. Isso já fizemos com uma alteração à portaria do procedimento de colocação, mas é preciso também, mexendo na carreira e qualificando, e eu estou a falar especificamente dos técnicos superiores. Dou um exemplo de algo que está a ser estudado, que é os técnicos superiores licenciados que sejam detentores do grau de mestre ou do grau de doutor, quando entram para a administração pública, fazê-lo numa posição remuneratória acima, no caso do mestrado, e duas posições remuneratórias acima, no caso do doutoramento.

E isto é possível em termos de enquadramento legal do Estatuto da Função Pública e da evolução de carreiras?

Nós hoje já temos uma norma na Lei de Trabalho em Funções Públicas que permite ao dirigente da administração pública negociar a posição de entrada do técnico superior que recruta. Só não temos esta norma a funcionar porque os decretos leis de execução orçamental sucessivos têm bloqueado essa possibilidade.

Nos últimos anos, nomeadamente.

Mas essa possibilidade existe na Lei de Trabalho em Funções Públicas. Agora, naturalmente, que também estou a dizer que estas alterações que estamos a planear e que estamos a trabalhar internamente no governo, obviamente, muitas delas passando por alterações legislativas, que a seu tempo negociaremos com os sindicatos.

Mas está em condições de afirmar que estes novos 475 técnicos superiores vão já beneficiar dessa tabela salarial?

Não, estes estão a entrar ainda de acordo com as regras anteriores. Agora, a verdade é que se nós trabalharmos, por exemplo, na aceleração das carreiras, e eu tenho falado muito ultimamente que é preciso acelerar as progressões dos técnicos superiores da administração pública, não progredirem apenas de 10 em 10 anos, como hoje acontece em virtude das regras do SIADAP, e isso é algo que eu já há um tempo para cá venho dizendo que é preciso mexer, naturalmente que essa evolução mais rápida, se for aprovada, e estamos a trabalhar para isso, aplicar-se-á a estes que estão a entrar agora.

Alexandra Leitão, diz então que estes 475 novos técnicos superiores ainda não vão beneficiar desse regime, que será futuro, mas aos quais vai ser aplicado o anterior. Isso significa-

Não é exatamente isso. O que eu disse é: todas as melhorias da carreira que nós façamos a partir do próximo orçamento e a negociação com os sindicatos aproveitam a toda a gente que está na administração pública.

Nomeadamente estes que estão agora a ser recrutados

A regra da posição de entrada, designadamente para quem seja detentor do grau de doutor, não se aplica imediatamente, mas se vier a ser adotada, é óbvio que eu vou ter que puxar aqueles que já estejam na administração pública. Dito de outra forma, a partir do momento em que se altera a lei no sentido de quem entra com o grau de doutor entrar numa posição remuneratória à frente, quem já esteja na administração pública e seja detentora desse grau e ainda não esteja nessa posição, terá naturalmente que ser puxada, sob pena de isso criar uma desigualdade.

Ainda sobre essa matéria, em que fase é que estão em termos de negociações? Será preciso negociações com os outros partidos para o Orçamento de Estado e será preciso também negociações com estruturas sindicais. Em que fase é que estamos?

Vamos ver. O que nós temos que fazer, em sede de preparação da proposta de lei do orçamento, é ver quais são as opções do governo em matéria de administração pública. E ultimamente, tem sido muito claro e dito por mim várias vezes, mas o próprio senhor primeiroministro já referiu que há uma prioridade na valorização dos técnicos superiores à administração pública. Depois de estar previsto isso em termos financeiros no orçamento, depois, naturalmente, as alterações concretas da lei que seja preciso fazer serão, em momento próprio, negociadas com os sindicatos, claro.

Alexandra Leitão, no orçamento 2022, o que é que já vai estar previsto? E, nomeadamente, também em termos de verbas, tudo isto implica um aumento, obviamente, de gastos do Estado. O que é que vai estar previsto a esse nível?

Ainda é prematuro dizer, naturalmente. Estamos ainda no início de agosto. Esta valorização da carreira dos técnicos superiores é algo que já vem sendo preparado há algum tempo. Já foi, inclusivamente, objeto, em sede de SIADAP, de algumas conversas com os sindicatos, mas ainda é prematuro, em termos concretos do orçamento, antecipar o que quer que seja.

Em relação ao número, há pouco a senhora ministra disse que o importante não era olhar para o número total, mas para a qualidade. De qualquer maneira, se nós olharmos para a evolução do número de funcionários públicos nos últimos anos, vemos que passaram do final de 2015, 650 mil, para os 700 mil em 2019. Eu estou a falar 2019 para evitar o impacto da pandemia.

Certo.

Por que este aumento de 50 mil funcionários públicos não foi já feito com esse objetivo de qualidade que agora aparece como objetivo principal do governo?

Deixe-me dar-lhe exatamente os números. Quando nós comparamos o dezembro de 2015 com dezembro de 2020, nós temos um aumento de 50 e tal mil trabalhadores na administração pública, dos quais 40% foram no setor da saúde.

Eu estava a falar até 2019 precisamente para tirar o efeito pandemia das comparações.

Certo, mas o perfil não se altera, porque foi no setor da saúde e no setor da educação que houve mais reforço de trabalhadores no período, se quiser, do mandato do anterior governo, portanto, 2015 a 2019. E por quê? Porque são setores de prestação, setores fundamentais ao Estado social de direito e setores que quando chegamos, na altura noutras funções, como é sabido, mas já fazia parte do governo, verificamos que eram áreas que estavam profundamente descapitalizadas. E portanto, se nós pensarmos que foi essencialmente nessas duas áreas que o aumento se verificou, 24 mil trabalhadores para a saúde, sendo que em 2021, e aí já com a pandemia, tivemos mais 8 mil trabalhadores só para a saúde, mas que se explicam, repito, não só pela pandemia, mas que se explicam pela necessidade de aumentar o número de trabalhadores nessas áreas. Estou a falar essencialmente de assistentes operacionais e docentes para as escolas e das várias carreiras no âmbito da saúde. O que isso significa? Significa que uma vez estabilizadas essas áreas, que são áreas fundamentais, repito, ao Estado social, é preciso agora, e tenho mesmo esta convicção profunda, olhar para estas carreiras gerais e, em especial, para a mudança do seu perfil, contratando mais técnicos superiores. Em todo caso, também deixe-me dizer que o número de 725 mil trabalhadores, que tem sido muito referido a propósito do último sistema estatístico de DGAEP, que saiu em março de 2021, é um número que, esse sim, tem um efeito muito relevante conjuntural da pandemia e, portanto, é um número que nós analisaremos melhor quando essa dimensão se estabilizar.

Muito bem, senhora ministra Alexandra Leitão, deixe-nos agora alargar esta conversa no "Explicador" aos dois economistas que convidamos também para estar conosco esta manhã, Carlos Guimarães Pinto e João Ferreira do Amaral. Bem-vindos. Carlos Guimarães Pinto, faz sentido esta abordagem que acabamos de ouvir de mais qualidade para a função pública e de tabelas salariais mais interessantes?

Bom dia, muito obrigado pelo convite. Eu ouvi falar muito aqui em número de trabalhadores, contratações, carreiras e salários, mas estou mais interessado em saber o porquê.

Carlos Guimarães Pinto, estamos com dificuldades na ligação, vamos restabelecê-la e enquanto isso ouvimos também João Ferreira do Amaral. Bom dia, também bem-vindo. A pergunta é a mesma: este é o caminho certo? O Estado vai conseguir, de facto, ter uma administração pública de maior qualidade?

Bom dia. Sim, é desejável, evidentemente, que aumente a qualidade e penso que essa deve ser uma das prioridades. Também o rejuvenescimento em certos segmentos da administração pública é importante, porque em muitos segmentos está envelhecida. E penso que já se percebeu que, de facto, um Estado para poder funcionar bem E para a própria atividade econômica poder funcionar bem, precisa de uma administração pública eficiente e com qualidade. Isso nem sempre foi assim compreendido nos anos 70, 80 e parte dos 90. Entendeu-se um pouco por todo lado que tudo o que o Estado fazia era malfeito e, portanto, não valia a pena que o Estado funcionasse. A verdade é que isso deu uns desequilíbrios profundos a nível mundial e a nível de cada Estado. Portanto, hoje, penso que há uma visão mais equilibrada, que sem pôr no Estado funções que ele não deve ter, mas que garanta o mínimo ou até preferentemente o máximo de eficiência naquelas funções que têm de existir. No nosso caso, isso é visivelmente necessário, para isso, que haja uma administração pública muito mais qualificada do que tem sido até agora.

João Ferreira do Amaral, e este é o caminho, aquilo que ouvimos há pouco da ministra Alexandra Leitão, é por aqui?

Sim, eu penso que sim. Agora, eu estou preocupado não é tanto com as ideias que me parecem boas, mas com os diversos bloqueios políticos que podem existir, quer a nível interno do governo, e evidentemente, o Ministério das Finanças, que tem uma responsabilidade imediata com o dinheiro, pode bloquear muita coisa e tem-no feito no passado várias vezes. Não estou a criticar o Ministério das Finanças, muitas vezes tem mesmo que ser assim, mas é uma realidade. Ou então um bloqueio também em termos políticos nas maiorias que se conseguem para alterar a situação. Penso que neste último caso, as coisas estão um pouco mais simplificadas, porque a consciência de que de fato é preciso uma administração mais qualificada e, portanto, com mais recursos e melhores recursos, penso que neste momento já é quase consensual.

É quase consensual que é necessária uma administração pública mais consensual. Será, Carlos Guimarães Pinto, agora com a ligação retomada, continuamos de fato a precisar de ter uma administração pública com maior qualidade?

Muito bom dia, espero que me estejam a ouvir agora.

Sim, não está nas perfeitas condições, mas pelo menos já conseguimos ouvir o seu raciocínio, talvez aproximando-se um pouco mais do telefone.

Muito bem.

Melhorou. Obrigada.

Eu ouvi aqui muito falar de números, de contratações, salários e carreiras, mas como contribuinte, aquilo que eu gostava mesmo de perceber é o porquê destas contratações. Se estamos a substituir os trabalhadores aposentados, se estamos a substituir trabalhadores atualmente a contrato ou se são novas funções. E se são novas funções, o que levou à necessidade de abrir estas novas funções? Que indicadores de performance é que justificam estas novas funções? Por que foi preciso abrir este conjunto de funções ou então alargar estas equipes? Porque não podemos falar simplesmente em números, salários e carreiras, porque o objetivo da função pública não é servir os trabalhadores, mas servir o público e utilizar da melhor forma o dinheiro dos contribuintes. Por exemplo, era importante perceber se a redução do horário para 35 horas vem acrescer a estas necessidades e faz com que sejam precisos mais trabalhadores ou não. Até porque temos aqui a ministra, que também é a ministra da Modernização. Será de esperar com a modernização dos serviços, com a automatização do conjunto de serviços, que é bom, tem sido positivo isso acontecer, que as necessidades diminuam em vez de aumentar. Portanto, seria importante perceber se estes trabalhadores vêm efetivamente substituir outros que estavam a contrato a prazo ou que se aposentaram, ou se são novas funções. E se são novas funções, o que levou à necessidade destas funções. Porque eu ouvi aqui, e concordo em parte, que a função pública não é particularmente atrativa para os jovens mais qualificados. É verdade, que é sim, mas não se valoriza a função pública contratando mais. Valoriza-se a função pública podendo pagar mais. E olha, como a massa salarial não estica, ou se usa a massa salarial para contratar mais, para ter mais pessoas, ou para valorizar mais aqueles que estão na função pública, para ser capaz de reter os melhores quadros e eventualmente atrair também bons quadros. Mas aumentando o total da função pública, não se está a subtrair recursos que seriam úteis para efetivamente remunerar melhor e tornar mais atrativa as carreiras na função pública. Portanto, as questões que ficam, para além dessas questões que são internas, que obviamente quem está dentro da função pública se preocupa com salários, carreiras e por aí fora, quem está do lado contribuinte tem é que perguntar por que.

Carlos Guimarães Pinto.

Que objetivos é que tem e que acontecimentos é que levaram à necessidade, por exemplo, de contratar mais uma série de pessoas para o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Deixe-nos pegar nessa deixa, Carlos Guimarães Pinto. Alexandra Leitão, ministra da Modernização do Estado e Administração Pública. Então por quê? Vamos responder a estas duas questões colocadas, quer pelo Carlos Guimarães Pinto, quer pelo João Ferreira do Amaral. Estamos a substituir trabalhadores, são novas funções, por que estão a entrar?

Muito bem. Vou cumprimentar o senhor professor Ferreira do Amaral, o Carlos Guimarães Pinto e dizer o seguinte: três coisas muito rápidas que eu acho que se podem esclarecer. Em primeiro lugar, vou dar um número. No atual ano, até 2023, temos uma estimativa de aposentações na administração pública de 38 mil pessoas

Até 2023, portanto, 21, 22 e 23. Trinta e oito mil pessoas é a estimativa, portanto, pessoas que atingem a idade de reforma, poderão não sair. As pessoas não são obrigadas a sair quando atingem a idade de reforma. Como sabemos, podem ficar até aos 70 anos, mas atingem a idade de reforma. Portanto, isto explica, em boa parte, porque estamos a fazer contratações. Desde logo, substituir aposentados. Em segundo lugar, há novas funções. Por exemplo, é sabido que hoje, e já há uns anos para cá, a Administração Pública tem uma necessidade, por exemplo, de especialistas técnicas da informação e de comunicação, de TICs, que não tinha há uns anos. Mas aquilo que verdadeiramente é importante, e porque, como disse também o doutor Carlos Gomes Pinto, a automação, a modernização torna alguns trabalhos menos necessários, estou-me a lembrar de algumas funções de assistente técnico, mas precisamos cada vez mais de gente qualificada, até para operar, até para poder produzir essa mudança qualitativa que é a modernização. E, portanto, primeiro, temos este número de aposentações que eu acabei de dizer. Segundo, tivemos um aumento, sobretudo em áreas sociais, saúde e educação, e agora precisamos de recuperar ao nível dos engenheiros, juristas, economistas, sociólogos, especialistas em estatística, técnicos de informática. São estes os perfis que agora a Administração Pública precisa, até para estar capacitada para levar a cabo um conjunto de procedimentos que são necessários, por exemplo, para executar fundos europeus. É óbvio que há um maior imediatismo na ausência de um professor ou na ausência de um médico ou de uma enfermeira, é evidente, e é por isso que privilegiou-se essas áreas nos anos transatos, mas se calhar a ausência, por exemplo, de juristas na Administração Pública explica que certos procedimentos sejam mais lentos do que aquilo que nós todos desejaríamos. Portanto, permitia-me dar aqui o efeito combinado das aposentações, cujo número eu já referi, e da necessidade de reforçar certas áreas, eventualmente em detrimento de outras. E quando digo em detrimento de outras, não me estou a referir à saúde e à educação, estou-me a referir, por exemplo, ao número de assistentes operacionais. Eu acho que hoje em dia faz menos sentido ter nas carreiras gerais mais assistentes operacionais, faz menos sentido, e faz mais sentido ter pessoas qualificadas. Já agora, quanto ao MNE, o MNE, quanto ao Ministério dos Negócios Estrangeiros e em geral, dizer que é um objetivo deste governo, que aliás está no seu programa, a criação de centros de competências em determinadas áreas especializadas. Dois que vinham expressamente referidos no programa de governo era em relações internacionais e política externa, e o outro era o centro de competências em planeamento. Ambos estão criados. O do MNE com as tais pessoas que os foram reforçar, que eu há pouco referi, e no caso do centro de planeamento, já na última oferta de colocação, foram também colocados técnicos superiores. Portanto, estes perfis foram pessoas para áreas muito concretas, que são os centros de competências, que, como digo, estavam no programa de governo prevista a sua criação, e que já fazem parte desta ideia de qualificação em áreas especializadas, para dar apoio transversal a todas as áreas do governo. O centro de planeamento vai ser um centro de planeamento do governo e não do ministério A, B ou C, embora esteja na presidência, que é onde deve estar. E o mesmo também com o centro de competências dos negócios estrangeiros.

Ora, senhora Leitão, já ouvimos aqui esta manhã também, esta evidência de que o dinheiro não estica e é preciso negociar já a pensar no próximo orçamento do Estado. João Ferreira do Amaral temia aqui que esta evolução pudesse não ser concretizável por bloqueios políticos, não só dos partidos com quem o governo tem sido parceiro no Parlamento para a aprovação deste documento, mas também, eventualmente, até por elementos do governo que têm a função de que as contas batam certas no fim do ano, a começar pelo Ministério das Finanças. Esta é uma dificuldade com a qual também vai ter que contar?

Eu, relativamente às negociações em termos parlamentares, não me pronunciarei. Como disse há pouco, é muito prematuro. Relativamente ao que disse antes, eu queria começar por dizer que a importância relativa às contas públicas e ao seu rigor é obviamente uma preocupação do Ministério das Finanças, mas é uma preocupação comungada por todos os membros do governo e, portanto, não é uma preocupação exclusiva das finanças, que têm nessa matéria, naturalmente, a nossa colaboração e a nossa partilha de preocupação. Agora, claro que como tudo, aquilo que nós vamos ter que ver, e fazer um orçamento é fazer escolhas, é fazer opções. E, portanto, acho que em termos de administração pública, e não estou a falar de outras áreas, mas em termos de administração pública, é perceber se a nossa prioridade é, de facto, nesta atração de jovens qualificados ou se é noutras áreas. E a mim parece-me, e tudo se encaminha para ser esta a prioridade, e depois isso ser naturalmente espelhado de alguma forma no trabalho que se faça. Não só no orçamento, mas depois também em sede da legislação que for preciso alterar durante o ano de 2022.

Muito rapidamente, a caminhar para o fim deste Explicador. João Ferreira do Amaral, pedia-lhe alguma brevidade nesta resposta. De facto, há sempre o equilíbrio aqui entre aquilo que é necessário e os meios financeiros ao dispor. Até que ponto é que nós estaremos novamente a aumentar a despesa rígida e a despesa com o pessoal da função pública tem um grande caráter de rigidez, que mais tarde nos possa causar desequilíbrios financeiros no Estado?

Tudo depende do crescimento económico. Repara, o peso da despesa no PIB, no Produto Interno Bruto, está dependente do crescimento do Produto Interno Bruto. Portanto, se estas medidas ajudarem a que o crescimento Do PIB seja maior em termos de proporção, não haverá aumento, até poderá haver diminuição. Do meu ponto de vista, uma má administração pública é um bloqueio ao crescimento econômico e portanto, tudo o que se fizer para melhorar a administração pública é sempre benéfico. É evidente que isso não significa contratar à louca, nem coisas desse tipo, mas é preciso entender que uma administração pública poupadinha demasiado, em que se reduza para além daquilo que é razoável reduzir os encargos, acaba por se tornar ela própria depois um bloqueio. E é também um fator de corrupção não negligenciável. Portanto, penso que a melhoria da qualidade da administração pública é, neste momento em Portugal, essencial para que o crescimento econômico seja mais rápido. Não é suficiente, mas é necessário.

Carlos Guimarães Pinto, a mesma questão e também pedindo a mesma brevidade. No seu entender, já atingimos o limite de peso no PIB do peso salarial da função pública ou ainda temos uma margem de manobra?

Acho que aquilo que falta é uma cultura de análise e rigor, que é perceber por cada contratação, o que é que vai ser atingido com essa contratação e o que é que pretendemos substituir também, porque como o dinheiro não estica e somos incapazes costuma esticar. Como não estica e somos incapazes de perceber por que essas contratações são feitas e qual é que vai ser o resultado dessas contratações e sermos capazes de, mais tarde, analisar se esses objetivos foram cumpridos ou não. Como não existem objetivos, vai ser muito difícil analisar se esses objetivos foram ou não cumpridos. E enquanto continuarmos com este tipo de critérios para contratação, basicamente é para cumprir um conjunto de funções, não se percebe qual o objetivo, para quem essas funções devem ser realizadas, os contributos. Enquanto não for possível fazer isso, nunca vamos perceber exatamente por que estas contratações se fazem e, acima de tudo, quais são os resultados de todas as estratégias de centros de competência, de automação, de modernização. Nós nunca saberemos, porque o resultado disso deveria ser menos funcionários públicos, mais bem pagos. E o que temos visto é sempre mais funcionários públicos.

Alexandra Leitão, para terminar também, há 11 anos, em 2010, das primeiras medidas de austeridade, quando o país estava a tentar evitar uma intervenção externa, foi um corte forte nos salários da função pública. Como é que se convence estes novos funcionários públicos qualificados que no futuro não vai voltar a acontecer?

Quanto a isso, permitam-me dizer que é relevante o que disse. A administração pública muitas vezes é apresentada como despesista, pouco produtiva, mas é de facto quem, nos últimos anos, e se pensarmos exatamente desse período em diante e durante o período da Troika, foi quem levou e teve os maiores cortes em termos da sua vida e dos seus rendimentos. Mas eu queria dizer duas coisas muito rapidamente. Uma é, primeiro: a administração pública não deve ser vista como despesa, deve ser vista como investimento. E investir em pessoas qualificadas é um investimento. É um investimento no país, é um investimento na administração pública, e será a administração pública para ter esse fim produtivo, esse efeito produtivo. Em segundo lugar, também dizer que não é verdade que as pessoas na administração pública, seja qual for a carreira em que estão inseridas, não tenham naturalmente um conjunto de objetivos que são mensuráveis, quantificáveis e analisáveis. Não só há um conjunto de instrumentos de gestão dos serviços da administração pública, que agora aqui, obviamente, não é o lugar para detalhar, como a circunstância de nós hoje termos, por exemplo, um objetivo nacional que é executar os fundos comunitários, traz naturalmente à colação a necessidade de pessoas com o perfil para levar a cabo essa tarefa, que obviamente vai beneficiar, antes de mais, o país todo e todos nós como cidadãos, sejamos nós administração pública ou sejamos nós cidadãos do setor privado. Acho que essa dicotomia deve evoluir no sentido de todos trabalharmos para o tal aumento do PIB a que muito bem se referia, se me permite, o senhor professor João Ferreira do Amaral.

Quero agradecer a vossa presença, a ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública, Alexandra Leitão, e também aos economistas Carlos Guimarães Pinto e João Ferreira do Amaral. Obrigada por terem estado no Explicador. Um bom dia.

Muito obrigada.

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