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Foi enquanto eurodeputada a negociadora da reforma do mercado elétrico europeu, é desde o último ano a ministra do Ambiente e Energia do governo de Luís Montenegro. Maria da Graça Carvalho é entrevistada agora no Explicador, edição da tarde política, depois do apagão vivido ontem em Portugal, a primeira entrevista que dá depois desse apagão. Uma entrevista conduzida pelo Miguel Cordeiro e pela Raquel Abrucassys.

Bem-vinda, Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente e da Energia. Já vamos falar sobre a resposta do governo e sobre o trabalho que está a ser feito para perceber a origem deste apagão, mas não a escutamos, de fato, desde o início desta crise. É a primeira vez que fala publicamente desde esse apagão. Por quê? Que trabalho fez desde às 11h30 da manhã desta segunda-feira?

Muito obrigada por esta oportunidade. É, na verdade, a primeira entrevista que dou, exatamente, porque desde às 11h30 que estou a trabalhar sem parar, durante a noite e até à hora do almoço. E até que começámos agora este Conselho de Ministros às 11h30, e que nos sentimos mais confortáveis com a situação. Só para relembrar, no meu ministério, tenho a responsabilidade da energia elétrica, dos combustíveis, foi declarada uma crise energética, do gás e da água. Todas matérias muito sensíveis que era preciso acautelar, que era preciso ter a certeza que tudo iria correr bem. E nós, ontem às 23h33, que foi quando isto aconteceu, não sabíamos a origem e durante bastante tempo, até ao meio da tarde, foi muito difícil antever como é que tudo iria decorrer. Portanto, da parte de energia elétrica, estivemos sempre em contacto, primeiro, muito em contacto com a REN, que era aí que estava a solução, depois com a E-Redes, ao mesmo tempo com os combustíveis, porque o declarar a crise energética permitiu-nos redirecionar os combustíveis para as infraestruturas críticas que precisavam mais de combustível, portanto, para alimentar os geradores, os hospitais, as prisões, as entidades da água, que passadas seis, oito horas iriam deixar de funcionar se não tivessem combustível para funcionar os geradores e poder bombar a água, e também ter a certeza que todo o sistema de gás estava a funcionar. Portanto, foi muito difícil.

Senhora ministra, deixe-me fazer-lhe uma pergunta. O primeiro-ministro ontem, na última comunicação que fez ao país, disse exatamente que a situação mais crítica tinha sido essa de manter ou garantir o abastecimento de combustível aos hospitais. Olhando agora para trás, essa declaração do estado de emergência energética ocorreu atempadamente ou deveria ter sido decretado mais cedo? Ou se soubesse o que sabe hoje, ele teria sido decretado mais cedo? Eu pergunto isto porque ao fim de 10 horas nós voltamos todos a ter energia, mais ou menos, todo o país, mas poderia ter demorado mais tempo.

Não, o decretar de crise energética foi logo que começámos o Conselho de Ministros ontem. E aliás, eu comecei a atuar e os meus colegas que me ajudaram a atuar em contacto, nomeadamente com a Galp e com outros fornecedores, e a dar as indicações, dizendo que íamos mesmo decretar a crise energética e, portanto, dando as instruções que eles aceitaram e colaboraram. Eu quero agradecer a todos os fornecedores e distribuidores de combustíveis que foram incansáveis e que seguiram as nossas indicações.

Mas isto não foi comunicado à população. Pode ter sido decretado entre o governo e os operadores, mas a população que se estava a deslocar com longas filas para as bombas de gasolina não sabia que o país estava em crise energética.

Sim, porque foi muito difícil comunicar com a população, mas estivemos em contacto constante com os operadores. Pediram-nos auxílio para poder circular mais rapidamente. Nós tivemos o auxílio das Forças Armadas, da GNR, até da própria Polícia Judiciária, para ajudar a transportar os combustíveis, para ter a certeza que os combustíveis chegavam onde eram necessários. Portanto, foi o trabalho mais crítico, como disse o senhor primeirom-ministro, mas conseguimos. Alguns hospitais estiveram muito à beira de ter problemas, não tiveram, conseguimos que chegasse a tempo e a horas aos hospitais. O senhor primeiro-ministro visitou, ao fim da noite, um dos mais críticos, a Maternidade Alfredo da Costa, e foi este um dos grandes problemas que tivemos. Ao mesmo tempo, tínhamos que, numa luta contra o tempo, ter a certeza que tudo isto se resolvia se tivéssemos energia elétrica. E, portanto, estive em contacto constantemente com a REN, estive presente na REN, o senhor primeiro-ministro também esteve na REN, e aí fizemos todo um trabalho de primeiro cortar as interligações com Espanha. Nós temos duas centrais que podem arrancar sozinhas, o que se chama o black start, Castelo de Bode e a Tapada do Oteiro. Demoraram algum tempo a arrancar, mas conseguimos arrancar. Castelo de Bode arrancou só na sexta tentativa e começou a fornecer a linha do Norte.

Por quê? Porque havia algum problema?

Não, porque é geralmente assim: Espanha também tem centrais de black start e não conseguiu que nenhuma começasse. É difícil começar, porque é começar do nada, é começar sem a rede estar sem carga e, portanto, é muito difícil que se aguente. Às vezes começam, mas quando injeta carga na rede, não aguenta. E Espanha não conseguiu nenhum, mas foi alimentada por França e um pouco por Marrocos e, portanto, conseguiu começar assim. Só que nós não tínhamos problema, quem nos ajudasse a fazer essa interligação, porque a única interligação é com Espanha e Espanha estava com problemas.

E hoje o governo já tomou essa decisão de alargar centrais que têm essa capacidade de black start.

Exato. Felizmente, a Tapada do Oteiro, nós tínhamos duas, Castelo de Bode e Tapada do Oteiro. Tapada do Oteiro, o contrato que temos, porque isto é um contrato fora do mercado, e tem que ser pago. Tapada do Oteiro, nós tínhamos um contrato que acabava a 31 de março e eu, por um despacho a 12 de fevereiro, prorroguei o contrato mais um ano e, portanto, ele estava disponível. Mas hoje já decidimos que vamos fazer o processo para prolongar até 2030 e entrar mais duas centrais hídricas.

E ficamos com quatro nessa situação de black start.

Ficamos com quatro e espalhadas no território, porque elas começam a dar energia à volta. E houve uma bolha à volta de Castelo de Bode, em Abrantes, outra bolha à volta da Tapada do Oteiro, foi por isso que o Porto foi das primeiras regiões a ter. Abrantes foi a primeira a ter, depois foi logo o Porto e depois estas ilhas começaram a crescer, uniram-se e aí depois foi muito mais rápido. Depois é cresce exponencial.

Só voltar um pouquinho à fase inicial. Já estamos com mais de 24 horas, já um dia, quase um dia e meio de tudo o que aconteceu. Há muito trabalho de investigação para fazer. Enquanto ministra da Energia e com a parte da energia em Portugal, que informação tem, neste momento, sobre aquilo que possa ter causado este incidente?

O senhor Primeiro-Ministro também já anunciou que pedimos à agência dos reguladores europeus para fazer uma averiguação e um estudo sobre aquilo que se passou, para termos a certeza, é uma entidade independente, para termos a certeza do que se passou. Tudo nos leva a crer que foi um evento em Espanha, na rede espanhola, uma diferença de tensões geradas que provocou um desequilíbrio na rede de transmissão de energia em Espanha e fez acionar o sistema de proteção, e houve um blackout em Espanha que imediatamente, em poucos segundos, se propagou para Portugal.

Mas isso é prestado por um evento raro, porque nunca tinha acontecido.

Sim, felizmente.

E está ligado a causas naturais?

Não, pode ser uma questão do controle da rede, do equilíbrio entre renováveis e outro tipo de tecnologias e, portanto, o controle de uma rede elétrica é algo muito delicado e que é preciso ser feito com muito balanço. Por exemplo, se há uma sobrecarga das renováveis num determinado momento, pode ter acontecido ali um desequilíbrio, mas tem que se averiguar. Tem que se averiguar exatamente o que aconteceu. É raro, mas aconteceu. No princípio deste ano, aconteceu um apagão deste gênero na América Latina, que demorou 24 horas, foi no Chile, mais de 24 horas. Tinha acontecido um em 2013 na Itália, também demorou mais de 24 horas. Nós, felizmente, conseguimos recuperar em 10 horas. E mais uma coisa, nós tivemos sempre o controle do sistema, nunca perdemos o controle do sistema. E isso é importante. Sabíamos exatamente o que estava a acontecer e por que não estava a funcionar e o que é que devia ser feito a seguir. E depois, a partir da meia-noite, no princípio da noite, começamos a ter o sistema, pelo menos da parte da REN, que é a parte da transmissão de energia, porque depois há uma segunda parte que é da distribuição, que é feita pela E-Redes.

Alta tensão, média e baixa tensão.

Exato. Tem que chegar mesmo à casa das pessoas, mas da parte da REN, nós tivemos, no princípio da noite, praticamente o país todo com eletricidade.

Ministra, deixe-me perguntar.

Produzida em Portugal.

Sim, produzida em Portugal.

Hoje estamos com eletricidade produzida em Portugal.

E não estamos ligados à Espanha durante o dia de hoje, no momento em que aconteceu este incidente?

Estamos ligados só por uma questão de transmissão de tensão. Não há trocas de energia através da ligação.

Muito bem.

O que estamos a conseguir é produzir em Portugal.

Gostaria então de voltar à questão das centrais de black start, porque referia que já houve essa decisão de prolongar uma das centrais até 2030. Portugal já fica com essas duas até 2030. Há outras duas que vão ser adicionadas. Quanto é que isto vai custar? Quanto podem custar estes contratos? Como é que isto vai ser pago? Que custo vai ter?

Foi feito um concurso, uma consulta pela REN, e temos o Baixo Sabor, 2,9 milhões por ano, e para o Alqueva é mais, cerca de 5 milhões por ano. A Tapada do Outeiro, por ser térmica e ter outras características, é mais. Já estamos a pagar mais do que vamos pagar nas hídricas. O Alqueva cerca de €5 milhões e o Baixo Sabor 2.9.

Está a falar de preços por ano?

Por ano. São duas hídricas com muita capacidade e que nos vão dar um conforto grande. Vamos ficar com a Tapada do Outeiro na zona do Porto, Baixo Sabor em Trás-os-Montes, o Castelo de Bode no centro, zona de Abrantes e o Alqueva no sul. Cobrimos geograficamente o país e é interessante, ficamos com um sistema muito mais resiliente.

Mas todas elas são independentes? Só para perceber. Como me disse, por exemplo, ontem houve uma das centrais de Tapada do Outeiro que foi preciso seis vezes para reiniciar.

Sim.

Tendo quatro no território continental, uma regressando não consegue depois alimentar as outras, como é que isto funciona para quem não é especialista neste tema?

O nosso problema ontem era começar com a primeira. A partir de ter uma a funcionar muito bem, ela iria começar a dar energia às outras e ia começar as outras, principalmente as hídricas. Agora, tendo duas é mais rápido. Começa uma no sul e outra no norte. O tempo é muito crítico. Eu quando tenho seis horas de independência do sistema de água, eu preciso mesmo de reativar o sistema elétrico em seis horas.

Muito bem.

Se passa as seis horas, eu vou ter que ter um sistema muito complexo de abastecimento de combustíveis a todas as empresas de água espalhadas pelo país.

Muito bem. Maria da Graça Carvalho, só para terminar então, que trabalho essencial e urgente que ainda está a ser feito? Uma resposta curta, o que é que ainda está a ser feito para voltar mesmo tudo à normalidade?

A curto prazo, os sistemas estão a funcionar. Havia hoje de manhã ainda sistemas de água que estavam com pouco caudal e que ainda era preciso um pouco mais de tempo, mas neste momento está tudo a funcionar. Agora temos que avaliar o que se passou, para ter a certeza que há remédios para que não volte a acontecer, e isto muito também do lado de Espanha. Um diálogo com Espanha e esperar os resultados é importante, e esperar os resultados desta avaliação independente. E depois, temos que tornar a nossa rede mais resiliente, com estas quatro centrais a trabalhar como black start e redundâncias, mas que são importantes para nos dar essa segurança. Isto é como um seguro, pagamos um seguro, mas depois precisamos também de mais armazenagem, seja ela de baterias ou bombagem e das hídricas. Ainda agora fizemos um concurso de €100 milhões do PRR para baterias, mas temos que continuar para ter um sistema de armazenamento. E vamos também ter um grupo que vai refletir sobre o desenho do sistema de energia e, por exemplo, a intervenção das renováveis. As renováveis, nenhuma delas neste momento está a fazer estes serviços do sistema, podem também funcionar como black start e haver aqui uma maior contribuição das renováveis, não só para produzir eletricidade, mas também para contribuir para estes serviços do sistema e para dar segurança do abastecimento ao sistema.

Senhora Ministra, deixe-me só fazer-lhe uma pergunta final, que tem que ver com o efeito que isto teve no país. Há pouco dizia que houve grande dificuldade em comunicar com os portugueses, e isso foi um facto. Que lições é que tira daquilo que aconteceu e considera ou não que o país não estava preparado para um evento deste tipo, tendo em conta que as pessoas ficaram incomunicáveis, que houve faltas de água, que houve escolas a fechar e mesmo a questão dos hospitais, segundo nos disse, conseguiu resolver-se, mas quase num tempo limite.

Sim, nós do ponto de vista da energia, dos combustíveis, do gás e da água, eu fazendo um balanço, penso que correu bem, fizemos tudo o que tínhamos a fazer e queria agradecer a todos os profissionais envolvidos e todas as entidades que nos ajudaram no transporte, Polícia Judiciária, o Exército, a GNR, portanto, essa parte correu bem. Agora, há aqui muito por fazer nas comunicações. Na verdade, temos que pensar nas telecomunicações, em um sistema fiável de comunicar entre os órgãos de soberania. Há aqui uma reflexão a fazer do ponto de vista das comunicações e termos uma maior resiliência dos nossos sistemas de geradores.

Será essa a principal lição, a principal aprendizagem?

Sim, eu penso que sim.

Maria da Graça Carvalho.

Foi a maior dificuldade para nós comunicarmos, a pedir ajuda para isto ou para aquilo, muitas vezes tínhamos dificuldade em comunicar.

Maria da Graça Carvalho, Ministra do Ambiente e da Energia, muito obrigado por estar conosco aqui na Rádio Observador.

Obrigada.