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Hoje, nas manhãs 360, no Explicador, é nosso convidado o presidente da Recovery IPSS, Miguel Durães. Bom dia e muito obrigada por estar na Rádio Observador.
Olá, muito bom dia. Agradeço já o convite e transmito os meus cumprimentos a todos os nossos ouvintes e a toda a redação do Observador, que é um jornal de excelência em nosso país.
Muito obrigada. A instituição Recovery IPSS trabalha muito com crianças e jovens. Miguel Durães, já há dados, ou pelo menos alguns indícios, sobre o impacto da pandemia na área de saúde mental dos mais novos?
Sim, os dados são aqueles que são conhecidos, mas a verdade é que a Recovery IPSS teve as primeiras unidades de cuidados continuados integrados de saúde mental da história do nosso país na área da infância e adolescência. E aquilo que nós assistimos, também nos adultos, não só nas crianças e adolescentes, fomos nominar para adultos, é que há um aumento muito significativo de pessoas a precisarem de apoio psicológico, de saúde mental grave e menos grave, por assim dizer, para determinados quadros clínicos, como a ansiedade ou como sintomatologia depressiva, que estão relacionados muito ao sistema e ao contexto que estamos a viver. Há uma relação causal muito significativa.
Já agora, esta relação causal, será que podemos identificar mais precisamente a origem? As pessoas ficaram confinadas, muitas delas, outras porventura terão perdido o emprego ou perdido rendimentos. Houve uma alteração de hábitos muito grande. Há o receio também da própria epidemia e de eventuais problemas de saúde. No meio deste caldeirão todo, o que acha que pode estar a contribuir mais para esses problemas psicológicos?
Muito bem. Disse muito bem, são vários fatores e é multiaxial. Isso é o que torna esta situação ainda um pouco mais preocupante, porque há situações que estão fora da esfera da responsabilidade individual de cada um, ou seja, dependem de outros. Mas sim, a incerteza profissional, o desemprego, os problemas acrescidos na prestação de cuidados básicos, como alimentação, educação, habitação, rendas, sentimentos de burnout, de esgotamento, porque estamos a assistir a famílias multitarefas. Depois estão dois momentos, algum momento do confinamento, e houve consequências muito particulares desta situação sanitária que estamos a viver, uma situação de crise que levou algumas pessoas e algumas famílias ao burnout, ao esgotamento. Porque realmente as famílias e as próprias crianças e adolescentes que estão na sua formação desenvolvimental não foram feitas para viver 24 horas sobre 24 horas dentro de quatro paredes. E depois, tudo isto, no que diz respeito também às dinâmicas familiares e conjugais, trouxe problemas acrescidos, e que pode potenciar ambientes familiares mais tensos, pouco equilibrados e, como nós sabemos, mediante a idade e a faixa etária em que as crianças e os jovens possam estar, a verdade é que elas são como esponjas, absorvem toda a água que lhes dão ou que os rodeia. A verdade é que nos ambientes caóticos ocorre aquilo que se chama de estresse tóxico. E nós estamos perante uma crise por tempo indeterminado, e este é se calhar o busílis da questão, está no tempo indeterminado, é nós sabermos que isso só se resolve completamente quando houver uma vacina ou um tratamento eficaz. Há um princípio da incerteza aqui no meio, que leva a um estresse forte, frequente e com a ativação prolongada no organismo, sem mecanismos de proteção que possam reduzir os impactos desses efeitos e eventos estressores.
Miguel Durães, está aqui a elencar uma série de preocupações que praticamente todos nós teremos, de vários níveis e de vários contextos. Quando é que entramos no campo das perturbações ao nível da saúde mental?
Se formos ver no espectro das classificações dos manuais diagnósticos que existem, ou seja, o europeu, o ICD, ou o DSM, mais da escola americana, por assim dizer, nós falamos de um espectro muito grande de perturbações. Pois há as perturbações que são graves, consideradas estruturalmente graves, e há outras que são menos graves, mas não deixam de ser distúrbios ou perturbações, ou dificuldade ou problemas que as pessoas têm que enfrentar. Por isso, a verdade é que, se eu via pessoas com problemas de saúde mental grave, esta situação em si vai trazer consequências e vai agravar a situação delas, porque estamos perante situações que se chamam de sintomatologia negativa ou crônica, ou seja, que são os efeitos da doença no próprio doente, que estão paralisadas, como as relações interpessoais, a socialização, os espaços públicos, tudo o que diz respeito a programas que possa haver na reabilitação da autonomia e psicossocial dessas pessoas. Se for para pessoas que normalmente não tinham nenhuma manifestação clínica, por assim dizer, estamos a falar de quadros mais ligados à ansiedade e à depressão, que são uma consequência e são decorrentes da situação que estamos todos a viver, na humanidade e no nosso país, em particular.
Mas também falamos de, por exemplo, nos doentes novos, esses sintomas, acredito que por muitos não tenham sido identificados facilmente. Por exemplo, uma alteração do sono ou da alimentação. Tendo em conta o tempo que se vivia e o estresse inerente ao tempo que se vivia, se calhar foram desvalorizados, não é?
Fomos desvalorizados, porque na situação excepcional que vivemos, se calhar a sociedade acabou por dar mais visibilidade a outras coisas. É quase como aquela dicotomia, aquele debate dos doentes COVID e os doentes não COVID. Centrou-se a sociedade toda em combater os doentes COVID, mas os doentes não COVID acabaram por não ter acesso ou ter mais dificuldades no acesso aos cuidados de saúde. Neste caso, em particular, da psicopatologia, da psicologia, da psiquiatria, a verdade é essa. A curto prazo, para especialistas como nós, como a nossa instituição, como eu, como um psicólogo, é fácil ver que a curto prazo já podem ser observadas situações como a irritabilidade, medos que causam um transtorno significativo ou um desconforto significativo, transtornos do sono, uma dificuldade ou uma diminuição significativa na imunidade, no sistema imunitário dessas crianças e jovens. E a médio e longo prazo, estamos a falar de transtornos de ansiedade, atrasos no desenvolvimento e de depressão.
Miguel Torneiro, há pouco, logo no início desta conversa, disse que isto era um problema transversal em termos etários, não afeta só as crianças e os jovens. E muitas destas patologias são, de facto, também vividas pelos menos jovens, digamos assim. Acha que quando se olha para esta questão da saúde mental, as crianças e os jovens ainda assim são parente pobre, porque tendemos menos provavelmente a perceber ou a valorizar os distúrbios que possam ter?
Não querendo generalizar, porque nestas situações, às vezes, o que dizemos pode até ser mal interpretado, mas a verdade é que se formos a ver, no cômputo geral, a saúde mental tem sido um parente pobre no seu geral. No que diz respeito à infância e adolescência e até ao plano nacional para a saúde mental, aquilo que eu posso dizer é que Portugal tem o melhor plano para implementar no país. Agora, de facto, o investimento que tem sido feito, e indo ao encontro até daquilo que é o tema da Federação Mundial para a Saúde Mental, da qual nós somos membros eleitores, falta investimento na saúde mental no mundo inteiro. Mas o nosso país em particular é uma reforma que agora com a crise sanitária acaba por estar um pouco estagnada, um pouco como todas as outras áreas da vida portuguesa. Mas no que diz respeito à infância e adolescência, é óbvio que as crianças e jovens estão sob um guarda-chuva que se chama família e outros microssistemas, como as próprias escolas. E de facto, se nós não endereçarmos ou adressarmos as nossas preocupações para elas, podemos vir a ter, a curto e a médio prazo, alguns problemas estruturais na sociedade e até no próprio desenvolvimento dessas crianças. Por exemplo, a família é o primeiro microssistema, onde se constroem as relações próximas e realizadas face a face entre aqueles que são os cuidadores principais das próprias crianças que estão em desenvolvimento. E se houver ambientes familiares com condições adversas para aquelas que já falamos, podemos realmente criar microcontextos caóticos, que associados ao macrocontexto que já estamos a viver, numa situação de pandemia, pode realmente levar a algumas consequências significativas.
O que diria que era prioritário implementar nesta altura?
Neste momento, nós realmente estamos numa situação completamente excepcional da humanidade, em particular no nosso país. A verdade é que eu acho que o próximo debate ou o debate que nós vamos ter nesta área será sempre o que é melhor: o distanciamento físico ou o isolamento social? Ou seja, nós sabemos que o isolamento social dentro de quatro paredes traz várias consequências, seja a nível de ansiedade, seja a nível desenvolvimental e a nível psicológico, nas crianças e jovens. Será melhor elas ficarem em casa ou será o mal menor elas manterem um distanciamento físico, mas manterem alguma estrutura e alguma relação com aquilo que se chama de normalidade, entre aspas.
O que responde a essa dúvida?
Eu respondo que é muito melhor que se enfrentem os problemas. É muito melhor que se vá à escola, que se tente manter uma certa normalidade dentro de algo que compreensivelmente não é normal, nem nunca será enquanto estivermos nesta situação, do que estarmos no meio de uma ponte para lado nenhum, dentro de quatro paredes, isolados do mundo.
Miguel Abrães, qual é o impacto de pedir a uma criança de 10 anos, porque é a partir do quinto ano, que não se aproxime de um colega e que nem troque, nem partilhe uma caneta ou um manual? Isso tem uma implicação muito grande.
Implicações, sempre. Por isso é que eu disse, estamos numa situação de crise, é como numa catástrofe, num tsunami ou uma coisa deste género, mas de uma forma continuada. Por tempo indeterminado, ainda por cima, não sabemos ainda quando se vai resolver. E isso realmente cria uma espécie de entorpecimento mental nas pessoas. As pessoas sentem-se numa espécie de trapézio sem rede. As crianças e jovens ainda mais. Ainda por cima na idade, nos 10 anos, que estão a terminar a segunda infância, por assim dizer, a primeira infância até aos sete, a segunda até aos 10, 12 anos, é de facto difícil Mas nós não podemos retirar o contexto da análise dessas situações. Ou seja, é muito melhor, na minha opinião, enquanto especialista, que se mantenha uma rotina, que eles possam ao menos sair de casa e estar com colegas, ainda que com distanciamento físico e percebendo que a segurança aqui está em causa. Porque há necessidades básicas que esta crise, esta pandemia do Covid-19, veio pôr em causa. Necessidades básicas como a segurança e a própria saúde pública individual de cada um.
Digamos que há aqui várias necessidades básicas em confronto, talvez. Porque a socialização também é uma delas, sobretudo quando se fala de crianças e jovens, que têm mais dificuldade, de facto, em perceber as tais regras ou em cumpri-las.
Sim, porque estamos na matéria daquilo que se chama de responsabilidade individual. Quando nós passamos por uma situação como aquela que nós estamos, e a verdade é que há dois momentos de análise que nós podemos ter sempre nesta situação, que é se numa primeira situação nós tivemos um contexto oposto, em que estávamos fechados, o país fechou-se. Nesta segunda situação, em que realmente estamos a assistir, se calhar, a uma taxa de crescimento de casos confirmados significativa, que abra a possibilidade de uma segunda vaga, se já não estivermos numa segunda vaga, o contexto aqui é o oposto. Nós abrimo-nos, não estamos fechados. O que realmente faz com que nós tenhamos que ter estratégias de resiliência e de coping para fazer face a estes problemas. E eu acredito que a capacitação destes jovens, embora seja em idades mais precoces, seja sempre o mal menor. Cuidado, eu não estou a dizer isto como se fosse o ideal, porque o ideal não existe nesta situação. É óbvio que vai haver consequências psicológicas e desenvolvimentais nessas crianças, umas mais significativas, outras menos, porque estamos a enfrentar uma situação adversa, ainda por cima invisível, ainda por cima por tempo indeterminado. No entanto, estar em casa parece-me ainda pior, porque faz com que as rotinas sejam completamente rasgadas, faz com que o padrão de sono seja ainda pior, faz com que os picos de ansiedade possam ser piores, porque estamos fechados em casa e assistimos tudo pela televisão ou pelas redes sociais e pelos média, que têm feito um trabalho excepcional nesta pandemia para nos informar. Mas, de facto, reagir e fazer face ao problema parece-me ser psicologicamente mais adaptativo do que ficar a pensar como seria em casa.
O presidente da Recovery IPSS, Miguel Durães, no Explicador das manhãs 360. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite e obrigada pelos esclarecimentos.
Eu é que agradeço.
Um bom dia, muito obrigada.
Bom trabalho, bom dia.
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