Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Começa agora mais um Explicador da Rádio Observador, esta manhã sobre a segunda volta das presidenciais e para isso são nossos convidados Carlos Carreiras e Rui Moreira. A moderação é do Paulo Ferreira e do Bruno Vieira Amaral.
Muito bom dia. Dois convidados que estiveram em candidaturas diferentes na primeira volta e que nas últimas horas anunciaram, entretanto, o seu apoio a António José Seguro. Rui Moreira foi o seu caso. Disse que vai apoiar firmemente Seguro. Acha que esta é uma decisão óbvia e natural até para quem foi o mandatário nacional de Marques Mendes?
Muito bom dia a todos, ao auditório, também ao meu amigo Carlos Carreiras. Creio que sim, Paulo. É óbvio que eu gostaria mais que o eleitorado tivesse escolhido Luís Marques Mendes. Não tendo sido esse o desenlace da primeira volta, nós estamos agora confrontados com uma segunda volta entre dois candidatos, o doutor André Ventura e o doutor António José Seguro. Claramente entre os projetos dos dois, eu entendo que o doutor António José Seguro é aquele que perfaz mais pontos no meu totobola, se assim quiser. Ou seja, quando olhamos para as características dos dois candidatos, aqueles que projetam aquilo que nos propõem, eu prefiro claramente António José Seguro e passo a explicar por quê. Em primeiro lugar, porque o projeto dele se aproxima muito mais do Luís Marques Mendes. É um homem de consensos, é um homem que tem essa capacidade de mediação e ao mesmo tempo quer claramente ser presidente de todos os portugueses. O doutor André Ventura, legitimamente, quer avançar para uma Quarta República, seja lá isso o que for. Ou seja, quer introduzir aqui uma ruptura no sistema, o que sendo legítimo, não é a minha preferência. E, portanto, eu acho que, independente como sou e desligado como sou de questões partidárias, não tenho que pedir autorização a ninguém, entendo que concluída a minha missão com o doutor Luís Marques Mendes, que sou livre de fazer essa opção que ontem à noite anunciei. Não precisei pensar muito no assunto, se quer que lhe diga.
Carlos Carreiras, bom dia. Esteve ao lado de Gouveia e Melo, também apoia Seguro, também não precisou pensar muito para tomar essa decisão.
Antes de mais, bom dia a todos. Também um cumprimento ao Rui Moreira. Depende muito da forma como nós analisamos e perspetivamos a envolvente, e nomeadamente a envolvente não só a nível de Portugal, mas também muito especialmente da Europa e também a nível global. E de fato, vejo que neste momento Portugal tem uma possibilidade de, nestes tempos conturbados, permitir que se possa projetar. E essa possibilidade tem como premissa base o estarmos unidos, ou seja, não termos aqui mais clivagens do que aquelas que já o mundo nos apresenta, que a própria Europa nos apresenta. E, portanto, temos aqui um momento único, eu diria até patriótico, de criar um consenso mais alargado do que estarmos, de fato, aqui a dividir-nos ainda mais. E por isso mesmo, esta foi uma das análises que refleti. Eu reagi imediatamente logo após os resultados, porque penso que está neste momento em causa não só o presente de Portugal, mas muito especialmente o futuro próximo e com projeção para prazos até mais alargados em termos de afirmação de Portugal, quer na Europa, quer no mundo. E por isso mesmo, não tinha qualquer tipo de dúvida em manifestar que iria votar em António José Seguro, muito especialmente também porque apoiei uma candidatura que se colocou exatamente ao centro e não é nos extremos. Sempre foi algo que combati, quer a extrema-direita, quer a extrema-esquerda, mas não colocar uma candidatura que nesse caso se situa na extrema-direita, de fato é aquela que está muito mais afastada daquilo que foi a candidatura que acabei por apoiar e me envolver, que foi do almirante Henrique Gouveia e Melo.
Rui Moreira, já explicou as suas razões para o apoio a António José Seguro, mas pesa mais essa adesão ao perfil e às ideias de António José Seguro ou uma rejeição de André Ventura? E no seguimento desta pergunta, perguntava-lhe também se, assim sendo, Luís Montenegro, enquanto primeiro-ministro e líder do PSD, deveria também manifestar apoio a algum dos candidatos?
Quando nós apoiamos alguém, rejeitamos outro. Não há aqui nenhuma acrimônia, não tenho nenhuma acrimônia relativamente ao doutor André Ventura. Apenas há dois projetos políticos, há duas pessoas na nossa presença, temos que fazer escolha, cara ou coroa, e portanto, é uma escolha tão simples como essa. Relativamente ao governo, eu compreendo bem a posição do doutor Luís Montenegro. Ao contrário daquilo que eu tenho ouvido nas últimas horas, e que é um discurso que interessa claramente a alguns setores, nomeadamente da esquerda, Pedro Nuno Santos, etc. Nós vivemos hoje uma realidade parlamentar em que temos um bloco de centro-direita que tem uma maioria relativa E que tem que conviver com dois outros blocos. Nós hoje vivemos num sistema tripartido, um bloco em que está o Chega e outro em que está o Partido Socialista. Não havendo um acordo de governação que garanta que esta legislatura sequer vai chegar ao fim, é normal que o governo e o primeiro-ministro, nesta altura, não se entregue nas mãos ou nos braços de uma das forças políticas, porque isso poderia ter consequências graves para a governação. Portanto, parece-me que a posição do doutor Luís Montenegro é uma posição perfeitamente razoável à luz daquilo que é o nosso desejo de governabilidade, sendo certo que provavelmente será mais fácil para ele no futuro, se for António José Seguro do que seja André Ventura. Mas também não nos podemos esquecer que o próprio Partido Socialista e o Chega, em várias circunstâncias, tiveram a capacidade de se juntarem para impedirem reformas do governo e, portanto, não sejamos aqui inocentes. Esta clivagem que se tenta vender de que há uma direita e uma esquerda não é verdade, como também não é verdade que André Ventura, qualquer que seja o bom resultado que tenha, passe a ser o líder de toda a direita. Eu recordei ontem, e recordo com algum cuidado, o que foram as eleições de 1986, que se recordarão, com certeza, em que Diogo Freitas do Amaral teve 46% a 47% e foi derrotado por Mário Soares, mas nem assim se transformou no líder da direita, porque fazia parte de um partido que não era o partido dominante na área da direita e, portanto, o PSD nunca deixou que ele passasse a ser a força dominante. Também não me parece que haja aqui uma leitura que possa ser feita desta maneira. Nós vivemos hoje num sistema tripartido. Já não há esta dualidade da esquerda e da direita, do PS e do PSD. Vivemos hoje uma realidade diferente. Não sei se ela vai persistir, mas ela é a realidade em que nós vivemos hoje.
Carlos Carreiras, fazia-lhe a mesma pergunta: compreende a neutralidade de Luís Montenegro neste contexto da governabilidade ou o apoio já manifestado por muitas figuras do PSD a António José Seguro pode, de alguma forma, pressionar o primeiro-ministro a declarar apoio a um dos candidatos?
Em primeiro lugar, compreendo perfeitamente, até porque ele fez essas declarações enquanto presidente do PSD, mas também acumula com ser primeiro-ministro. Portanto, isso cria outro tipo de responsabilidades, nomeadamente a de garantir as condições mínimas de governabilidade. Criar aqui mais um fator de instabilidade no próprio país seria também altamente negativo. Por isso, considero que foi prudente de não se precipitar em manifestar alguma orientação de voto, até porque também tenho algumas dúvidas sobre essas manifestações de indicação de voto ou de orientação de voto. E, portanto, também o resultado que adviria daí não seria um grande resultado. Por outro lado, também considero que o primeiro-ministro ou, neste caso, o presidente do PSD, não é pressionável pelo fato de haver uma figura A ou uma figura B da parte do PSD que o leve a tomar uma posição diferente. De qualquer dos modos, também analiso e verifico que já há um conjunto de pessoas muito próximas de Luís Montenegro, com responsabilidades até há bem pouco tempo no próprio governo e responsabilidades elevadas, digamos assim, que já manifestaram também que irão votar António José Seguro. Portanto, isso é o ato normal. A acresça de tudo isto que, no caso do PSD, a acontecer, teria que ser convocado também um conselho nacional para manifestar esse tipo de apoio do partido. Isso não aconteceu e também não permitiria ao presidente do partido ultrapassar os próprios estatutos do partido e, neste caso, ultrapassar o órgão máximo do partido.
Carlos Carreiras, e aquela ideia que Rui Moreira já falou há pouco sobre estar ou não em causa aqui a liderança da direita. André Ventura já o afirmou e quer afirmar-se como o novo líder da direita. Acha que de alguma forma se pode fazer essa extrapolação, dar esse passo?
Eu penso que há um equívoco que de alguma forma estamos a alimentar e eu não quero alimentar. André Ventura já é o líder da extrema-direita e, portanto, não se coloca aqui a questão do espaço do centro e do centro-direita. O André Ventura já conseguiu aquilo que queria, que era afirmar-se como líder da extrema-direita. Aliás, a sua própria declaração logo no início, quando anunciou que se iria candidatar a presidente da República, ele também não disse que queria ser presidente da República, nem que iria concorrer para ser presidente da República. Ele o que afirmou é que queria afirmar-se como o líder da tal direita, na tentativa que ele tem de se moderar e chegar ao centro. Mas isso nós estamos habituados por parte do doutor André Ventura, de dizer algo e o seu contrário de uma forma muito rápida e, portanto, de uma inconsistência de afirmação também muito grande. Mas o que é certo é que tem tido subida a sua situação. Nesta última eleição para presidente da República, o que estava de fato a concorrer era o partido Chega. E o partido Chega, nestas eleições presidenciais, teve menos 100 mil votos do que tinha tido o partido Chega nas eleições legislativas. Portanto, aqui já há talvez uma inversão de tendência dessa mesma subida. Aliás, eu já tive a oportunidade de dizer isso O deputado André Ventura é o político em Portugal que mais eleições perdeu, porque já concorreu a tudo. Concorreu duas vezes a presidentes da Câmara, porque colocou a sua cara nos cartazes para tentar iludir o próprio eleitor de que era ele que estava a concorrer. Já concorreu a Presidente da República, já concorreu a Primeiro-Ministro em eleições legislativas e até hoje não ganha nenhuma eleição e certamente não será esta que vai ganhar.
Rui Moreira, nós assistimos nesta eleição a uma divisão muito forte do eleitorado que votou AD no ano passado. Aliás, a candidatura de Marques Mendes é vítima também dessa divisão. Acha que pode estar em causa, de alguma forma, aquilo que é o futuro do PSD? Pergunto-lhe isto como comentador externo, uma vez que não está ligado aos partidos.
Paulo, eu acho que o PSD foi sempre assim. O PSD, ao contrário do Partido Socialista. O Partido Socialista é um partido mais do poder do que o PSD, que é mais um partido de poder. Eu recordo-me das eleições de Mário Soares em que o PSD excluiu, até expulsou, salvo erro, Carlos Carreiras saberá melhor, alguns dos seus militantes. Felizmente que não é o caso. Parece-me que essa é a contingência do PSD, com as suas várias tendências. O Carlos Carreiras não deixou de ser do PSD por apoiar o almirante Gouveia e Melo. Eu acho que o PSD é isso mesmo, teve sempre esta particularidade, o que tem vantagens e tem desvantagens. O que não permite é fazer leituras, porque voltando a André Ventura, quando nós olhamos onde é que André Ventura tem pescado eleitorado, não tem sido preferencialmente no centro-direita. Isso é uma história que Pedro Nuno Santos nos tenta contar. André Ventura tem crescido muito à conta dos eleitores da esquerda e até da extrema-esquerda, que procuram uma solução que, apesar de tudo, seja estatizante como é o Chega, porque o Chega nessa matéria é um partido estatizante, mas que procuram algum autoritarismo e têm algum sentimento securitário. Portanto, parece-me que esta tentativa que se vai fazendo e que ouço no comentariado de que há uma direita que envolve o PSD, o CDS, a Iniciativa Liberal e o Chega toda junta e depois uma esquerda, parece-me uma visão completamente deturpada, que pode convir a uma história que nos querem contar, porque objetivamente as razões pelas quais o Chega também cresceu, e cresceu muito no país, têm a ver com alguma inação e com alguma ação por parte de governos da esquerda, e principalmente da geringonça, que nós sabemos que trouxeram para o país uma determinada preocupação com matérias que o Chega soube captar.
Carlos Carreiras, para uma última pergunta, Gouveia e Melo teve cerca de 700 mil votos. Acredita que o almirante estará motivado para formar um partido ou um movimento político?
Não, sinceramente penso que não. Aliás, o próprio já o afirmou. Agora exercer os seus direitos de cidadania, isso penso que sim.
E isso também passará por declarar o apoio a um dos candidatos nesta segunda volta?
Isso eu não me vou sobrepor àquilo que será a posição do senhor almirante Henrique Gouveia e Melo. Ele próprio diz que iria também fazer um período de reflexão e que se iria manifestar. E, portanto, aguardemos por essa manifestação por parte de Henrique Gouveia e Melo.
Ainda haverá tempo, cerca de três semanas até à segunda volta das eleições. Carlos Carreiras, Rui Moreira, agradeço a vossa participação neste Explicador. Um bom dia e uma boa semana.
Bom dia.
Obrigado e bom dia.