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Locutor da Rádio Observador. Dois sismos muito violentos em menos de um minuto. Um fenômeno raro que semeou a destruição na Venezuela e afetou Caracas nas últimas 24 horas. O número de vítimas mortais é muito provisório. Há já notícia de vítimas portuguesas entre os mortos, luso descendentes também. Temos aqui notícia recente avançada pelo governo regional da Madeira de dois luso venezuelanos que morreram nesta catástrofe que atingiu a Venezuela. Estamos a falar de abalos de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, com um elevadíssimo potencial destruidor num minuto, no espaço de 40 segundos. Há milhares de portugueses na Venezuela. Os números apontam para uma comunidade de pelo menos 200 mil pessoas. Convidámos Hélder Teixeira, luso venezuelano, que está em Caracas, para nos ajudar a tentar perceber a dimensão desta catástrofe aqui na Rádio Observador. Eu sou Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.
Hélder Teixeira, muito obrigada pela sua disponibilidade, sobretudo num momento como este. Deixe-me perguntar-lhe onde é que está agora.
Olá, muito boa tarde lá. Eu estou em Caracas. Por acaso saí do prédio onde eu moro. Não aconteceu nada grave, mas por medidas de segurança, eu preferi sair e ficar em casa de uns familiares, porque há também informações que vão chegando de possíveis réplicas que podem acontecer durante o dia ou amanhã. Nós já temos presenciado aqui no pequeno-almoço de manhã e no avanço do dia, várias réplicas mínimas, com pouca força, mas sente-se o movimento. Muito pessoal aqui em alerta. Como vocês perguntaram, estou aqui em Caracas. Na zona onde eu moro, está tudo bem.
Dada a instabilidade dos edifícios e das estruturas afetadas pelos abalos fortes de ontem à tarde aí em Caracas, é óbvio que as réplicas, por mais fracas que sejam, podem trazer novos problemas, não é?
Sim, poderia. Olhe, eu tenho três filhos, a minha família, e não sei exatamente a estrutura do prédio como está neste momento e não quero correr riscos.
Claro.
Porque bem sabemos, é questão de conhecimento básico que a gente tem da escola, as estruturas às vezes ficam fracas depois de um terremoto e depois aquilo, se vem algum segundo episódio, pode vir abaixo e não vou correr esse risco. Aparentemente, no meu prédio, está tudo bem.
Deixe-me recorrer ao momento dos abalos. Foram dois abalos muito intensos, muito próximos um do outro. Foi às 18h de Caracas, portanto, um momento de grande azáfama ainda. Como é que foi esse momento?
Olhe, estava andando outra vez agora. Estou aqui fora.
Está a sentir uma réplica agora?
Está. Está também a correr. Mas a questão para dizer a experiência vivida, obviamente, como aquilo foram dois terremotos instantâneos, numa diferença de segundos, aquilo sentisse como todo num só episódio. Foi muito forte. Eu, por acaso, no meu telemóvel, com o aplicativo do Google, chegou um alerta e eu estava na sala, nesse momento, com a minha família, como era dia de folga ontem, e estávamos todos aí na conversa. Minha mãe passou por casa, estávamos a falar. E então chega aquele alerta no telemóvel e eu digo: "Estranho, um alerta de terremoto". Quando a minha esposa ouve aquilo, ela logo começa a dizer: "Vamos sair, que vem terremoto". E nesse instante saímos. Já quando estamos a descer as escadas, o prédio começa a abanar tudo de um lado para o outro. Foi bastante preocupante nesse momento e conseguimos sair. Graças a Deus, só algumas peças e as baldisses de alguns sítios do prédio estralaram e paredes, pelo menos no meu apartamento, depois eu fui lá cima, e algumas paredes têm algumas rachas, mas é uma questão normal, que aquilo vai de um lado para o outro e começa a romper às vezes as estruturas.
E esse, Hélder Teixeira, foi o primeiro ou segundo abalo? Porque num minuto houve dois abalos muito potentes, não é?
Sim, eu penso que esse foi o primeiro. Nós já estando embaixo, voltou a replicar, mas uma que foi depois a outra. Mas eu penso, porque nós sentimos aquilo, abanou, foi num instante, foi muito rápido. Depois já tivemos mais à frente réplicas, mas eu penso que já quando nós estávamos na escada a descer, foi a segunda que foi a mais forte, foi 7,5 Não é qualquer coisa.
E nesses momentos, apesar de todos sabermos algumas normas em teoria, é difícil reagir, é preciso perceber o que está a acontecer.
É, sem dúvida alguma. E a norma diz que tens que buscar alguma estrutura sólida, o marco de uma porta, qualquer coisa assim, uma mesa forte, uma estrutura. Mas nesse momento, eu estou no quinto andar, nesse momento reagi daquela maneira e fui logo pelas escadas abaixo, eu tenho um filho recém-nascido, tem cinco meses, e eu preferi já logo tentar sair o mais depressa possível do prédio. Mas graças a Deus nós estamos bem.
Sim, felizmente. Daquilo que consegue ver à sua volta e daquilo que viu enquanto fez esse percurso de casa para casa dos seus familiares, qual é o grau de destruição?
Olhe, no horário perto de onde moro, não há grandes afectações. Por acaso, perto de onde moro, depois eu saio logo para a autoestrada e depois vou para ir até casa dos meus familiares. Mas em toda a via aqui até à casa dos meus familiares, não vi nada crítico, mas sim, sei, tenho conhecimento, em parte de Altamira, que aquilo fica muito perto da minha casa, questão de 10 minutos de carro, chega lá, ou até menos. E em Los Palos Grandes, San Bernardino, há muitas estruturas, sobretudo prédios velhos, vieram abaixo. E uma das zonas que está mais ou menos perto da nossa comunidade, que é a La Guaira, o estado La Guaira, aquilo sim está muito ainda. Agora, há bocado eu estava a falar com um familiar e temos amigo em comum que foi lá abaixo tentar analisar e saber um pouco. Ele diz que em comparação com o que foi a vaguada, que chama a vaguada de lado, que foi no 99, que foi aquela força d'água que ocorreu lá em La Guaira, não tem comparação com o que aconteceu ainda agora. Ele fala que é muito pior, porque naquele momento era água a correr e pedras grandes e tudo aquilo, muita gente só conseguiu chegar aos terraços das casas e conseguir se proteger lá em cima. Só que agora a diferença é que muitos prédios vieram abaixo e há muitas pessoas que não conseguiram sair.
E Alda Teixeira, as instituições estão a funcionar? A polícia, exército, há hospitais?
O exército está todo a funcionar. Graças a Deus, aqui se activou plano de contingência muito imediato. Em Altamira, o presidente da câmara activou a praça e igual na Guaira, há muitos pontos actualmente onde estão a ser atendidas pessoas. Mas há uma questão que é muito importante aclarar e que tem de ser comunicada. Este é um episódio de magnitude muito grande e nós ainda agora estávamos a ver um vídeo que mandou uma família nossa, e ela estava a falar que nós precisamos, sim, de muita ajuda humanitária, muita ajuda internacional, porque isto já está numa magnitude muito grande. Isto é, pelo menos nessas zonas, assim como La Guaira e em outras partes do país, estamos a falar de milhares de pessoas que podem estar mortas, pessoas desaparecidas, há muitos relatórios de pessoas que têm os seus pais, até sei de algumas pessoas que homens estavam com a sua mãe e a mãe ficou presa dentro do prédio.
A comunidade portuguesa é muito grande na Venezuela.
Os protocolos estão ativos. Desculpe.
Dizia-lhe que a comunidade portuguesa é muito grande na Venezuela e pergunto-lhe se estão a ter algum tipo de apoio, algum tipo de contacto com as autoridades portuguesas.
Sim. Por acaso aqui no Centro Português, hoje mandaram informação do consulado e de Portugal aqui na Venezuela, já tiveram protocolo também de comunicação, de número aberto para qualquer dificuldade ou qualquer necessidade que tenha a comunidade portuguesa, eles estão atentos. E igual o Centro Português está muito atento também com todo o pessoal, a nossa comunidade, para prestar apoio e tudo aquilo.
E o aeroporto está operacional, o principal aeroporto de Caracas?
O principal não, o principal foi muito afetado. De facto, há uns vídeos que mostram pessoal na parte de chegada ou de saída, a estrutura foi muito afetada, muitas partes, lâmpadas e tudo aquilo, as estruturas do gesso e tudo aquilo que tem de toda a parte do aeroporto. E até umas juntas, aquelas partes que Na parte, como se diz em espanhol, as juntas de dilatação.
Sim, as juntas de dilatação.
As juntas de dilatação, aquilo obviamente começou a abanar e aquilo começou uma poeira em tudo. Já ontem a presidenta daqui do país mandou um comunicado onde mandou fechar o aeroporto e está inoperativo. Por acaso, tinha um familiar que estava voltando ontem para cá para a Venezuela, o voo foi desviado para Curaçao e estava a me dizer que ia ser reprogramado e iam chegar por Valência. Valência, aparentemente, o aeroporto não teve maior estrago, mas o aeroporto de Maiquetía, que é o principal, esse sim, teve bastante estrago.
Sabe dizer-nos se há portugueses que querem regressar a Portugal?
Olha, essa é uma pergunta que está em análise, mas imagino que sim, deve haver algumas pessoas. Sabe que aqui há pessoas que ainda têm condições econômicas, que não estão muito bem, e depois disto, imagino que já há uns quantos que possam ter a intenção de voltarem para Portugal ou irem para Portugal, porque até estamos a falar de pessoas que perderam a sua propriedade e o pouco que tinham. Já aquilo foi tudo abaixo. Então vão precisar, sim ou sim, de ajuda, bem seja da comunidade, do Estado português.
E já está a chegar ajuda internacional ou não, Hélder?
Não tenho ainda agora a informação como tal disso, mas penso que a qualquer minuto.
Houve uma grande mobilização internacional para enviar ajuda.
Sim, já vários países se pronunciaram. Obviamente, isto é um protocolo que nem sempre está em uma emergência, mas às vezes demora certo. E também alguns países que se calhar estão aqui ao lado chega mais depressa, mas eu imagino que já devam estar a chegar muitas ajudas, já passaram mais de 12 horas.
Todos os minutos contam, não é, nesta altura. E agora tem energia elétrica, há luz, consegue carregar o telemóvel?
Nós, onde estamos, sim. Mas sei de alguns sítios que, obviamente, com a força do terremoto, não têm luz e ainda não conseguiram voltar a colocar o serviço elétrico. Mas por acaso nós, onde estamos aqui, temos luz elétrica, temos água, graças a Deus, estamos bem onde estamos.
Hélder Teixeira.
Sei que há alguns sítios que não. Obrigado.
Muito obrigado pela sua disponibilidade numa altura destas. Ajudou-nos também a perceber um pouquinho melhor o que se vai vivendo por estas horas em Caracas. Muito obrigado pela sua disponibilidade.
Obrigado vocês pela ostentação e aqui estamos a qualquer notícia ou qualquer informação, eu posso também compartilhar convosco.
Muito obrigado pela sua ajuda. Muito obrigado.