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Boa noite. Começamos com um escândalo no Serviço Nacional de Saúde, uma investigação do exclusivo da TVI que revela uma fraude de larga escala.
Um só médico de dermatologia, Miguel Alpalhão, não se ficou por aqui. Em 10 sábados ganhou mais de €400 mil nestas pequenas cirurgias pagas.
Miguel Alpalhão, 33 anos, entrou nas bocas do mundo depois de uma reportagem da TVI. Na passada sexta-feira, o canal de televisão dava conta de que um dermatologista do Hospital de Santa Maria tinha ganho mais de €51 mil num único dia de trabalho em 2024, ano no qual somou cerca de €400 mil em apenas 10 sábados de trabalho adicional.
A história de Miguel Alpalhão veio mostrar que não é caso único e deixou à mostra o descontrole financeiro das cirurgias no SNS fora do horário regular. E é por isso que o médico Miguel Alpalhão é a figura da semana.
Para perceber como Miguel Alpalhão desencadeou um tsunami no Serviço Nacional de Saúde, é preciso entender como o dermatologista foi apanhado. O médico terá beneficiado das condições do Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia, conhecido pela sigla SIGIC. É um sistema que permite fazer cirurgias fora do horário laboral, de modo a mitigar as longas filas de espera nos hospitais. Por um lado, diminui as listas de espera, por exemplo, para cirurgias, por outro, é um incentivo financeiro para os profissionais de saúde, que acrescentam assim um extra ao salário.
E segundo a TVI, o médico, além de introduzir os dados das pequenas cirurgias no sistema, era o próprio que as confirmava, o que permitiu passar sob o radar. Por quê? Porque Miguel Alpalhão é o único médico codificador do serviço de dermatologia e ao confirmar as cirurgias no sistema, gerava pagamentos para todos os que tinham participado nos atos médicos.
O caso de Alpalhão destapou o de outros médicos que estarão a usar o mesmo sistema. Entretanto, o presidente do Conselho de Administração do Santa Maria suspendeu as cirurgias em programa adicional, comunicou a situação à Inspeção-Geral das Atividades em Saúde, além de abrir uma auditoria interna. Em paralelo, o Ministério Público solicitou informações sobre esta matéria. Mas afinal, quem é e de onde vem Miguel Alpalhão?
Uma reportagem d'O Observador traça um perfil de um homem inteligente, sobredotado, o melhor da sua turma, apesar de nunca ter pensado que iria dedicar a vida à medicina.
Num depoimento que deu ao Expresso no dia em que fez o juramento de Hipócrates, no Coliseu de Recreios, há nove anos, admitiu que nunca sentiu o fascínio pela medicina. Miguel Alpalhão queria ser astrônomo, contemplar o céu. O que mais o fascinava era o desconhecido.
Nesse testemunho escrito, revelou que sofreu na adolescência uma doença que até hoje permanece sem nome. Relata que foi a especialistas em todas as áreas, fez todos os exames, mas nunca soube o diagnóstico. Desapareceu tão inesperadamente como surgiu e, apesar de não ter deixado sequelas, marcou Miguel Alpalhão. Foi mesmo o gatilho para escolher medicina, onde, e disse ao semanário Expresso: "Todos os doentes são, de alguma forma, um mistério para o qual a medicina procura respostas".
Um médico que trabalhou com Alpalhão revelou à revista Sábado que o clínico é um autêntico Dr. House, uma personagem de uma série de televisão que fazia diagnósticos difíceis com poucas pistas.
Já a escolha pela especialidade de dermatologia prendeu-se com o facto de estar entre as que proporcionavam uma vida melhor e também é das que exige uma nota mais alta de entrada, segundo o médico, que manteve o anonimato, explicou à Sábado. Ainda jovem, acabou o mestrado pela Universidade de Lisboa com média de 18 valores. Durante os seis anos de formação obrigatória, concorreu pelo menos duas vezes a uma bolsa para estudantes do ensino superior, através da Câmara Municipal de Borba, mas obteve resposta negativa.
O estilo Dr. House descreve essa tendência de Miguel Alpalhão para o ministério. Um médico revela à revista que o nível de brilhantismo e o faro apurado para as doenças fazia com que até os médicos mais velhos lhe colocassem dúvidas sobre casos difíceis. A peça final do curso foi orientada pelo professor Paulo Filipe, que, à época, já era o diretor de serviço de dermatologia do Hospital de Santa Maria, onde trabalha Miguel Alpalhão. A partir daí, foi sempre a subir, contou fonte hospitalar ao Observador.
Em maio de 2020, em plena pandemia, foi um dos autores de um estudo sobre o uso prolongado de máscara em profissionais de saúde, os que mais estavam a sofrer com doenças de pele. Concedeu uma entrevista ao Diário de Notícias, na qual foi identificado como interno de dermatologia, onde explicava quais as queixas mais comuns e como diversas lesões estavam relacionadas com o uso intensivo de máscaras e luvas.
Cedo se destacou dos colegas. Logo no estágio fazia diagnósticos como mais ninguém e entrou no radar de alguns laboratórios farmacêuticos que terão patrocinado parte da formação pós-universitária, sobretudo com congressos. É professor assistente na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e clínico no hospital privado CUF Descobertas e ainda outro em Torres Vedras.
Com este escândalo de que é o principal protagonista, o que será agora de Miguel Alpalhão? Pois bem, deixamos sempre algumas perguntas para o futuro da figura da semana. Primeiro de tudo, qual será o resultado da auditoria interna que foi aberta pelo Hospital de Santa Maria? Pode Miguel Alpalhão vir a ser alvo de alguma sanção disciplinar?
Há ainda um inquérito aberto pela Inspeção-Geral de Atividades em Saúde. Resultará em quê? E pode ter repercussões para outros médicos e para aquela que é a maior unidade de saúde do país?
E será que este caso pode ter também consequências judiciais? Para já, o Ministério Público pediu informações ao Santa Maria sobre o caso. Vamos ver o que acontece.
Vem este médico e outros provocar uma mudança no Serviço Nacional de Saúde? Desde logo, começar por corrigir as falhas do SIGIC, que esta semana entrou para o léxico comum?
Veremos. Miguel Alpalhão, médico dermatologista no Hospital de Santa Maria, foi a figura da semana escolhida pelo painel da Tarde Política. Na próxima sexta-feira, há mais um novo protagonista.