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Vai ficar na história do país e esta semana ficou na história dos jornais quando, após uma sessão de julgamento do caso BES, a juíza lhe perguntou se sempre ia avançar para a Presidência da República. Pedro Passos Coelho foi primeiro-ministro durante a derrocada do Banco Espírito Santo e prestou declarações sobre esse período no âmbito do processo que envolve Ricardo Salgado. Mas o inusitado aconteceu neste final de sessão, quando a juíza, investida de uma capa de jornalista, talvez, decidiu tirar teimas em relação ao futuro político de Passos Coelho. Desta, como de outras vezes, voltou a dizer não.

Estou fora da atividade partidária e política e assim me tenciono manter. Não quero fazer declarações políticas. Se quisesse, fazia-o, evidentemente, mas não quero estar a fazer pronunciamentos.

Está a garantir a 100% que não avança para as presidenciais.

Obrigado.

É por isso e porque finalmente o depoimento no caso BES está dado por concluído, ao final de muitos meses de greves judiciais e adiamentos, que Pedro Passos Coelho é a figura da semana.

Nos próximos minutos, vamos nesta viagem pelo top de sons, o pódio de sons associados a Pedro Passos Coelho. Ao longo de tantos anos de política, há muitos, podíamos escolher por muitos, mas há um que poucas pessoas esquecem: o episódio do irrevogável.

Tudo começou com um comunicado no qual Paulo Portas dá conta da sua demissão do governo, saído da coligação PSD/CDS, no verão de 2013, logo depois da demissão do Ministro das Finanças e em desacordo absoluto com a escolha de Maria Luísa Albuquerque para suceder a Vítor Gaspar. Seguiram-se dias de crise política e o líder do CDS acabou por recuar na decisão, revogando o irrevogável e ficando como vice-primeiro-ministro. Foram os dias mais tensos do governo de Pedro Passos Coelho e, como veio a saber-se depois, na biografia autorizada "Somos o Que Escolhemos Ser", Passos tinha sido informado da demissão do seu ministro dos Negócios Estrangeiros por mensagem de telemóvel, mais concretamente até por SMS. Num golpe de magia, Passos Coelho virou a mesa e deixou Paulo Portas encostado entre a espada e a parede e de todas as soluções que os analistas anteviam naquela época, Passos escolheu aquela que ninguém tinha pensado. A crise foi superada, Portas ficou, foi promovido a vice-primeiro-ministro e durante uns tempos, Pedro Passos Coelho terá guardado aquelas mensagens de balões azuis no seu smartphone. Mas o low profile primeiro-ministro surpreendeu umas quantas vezes. Honesto, mas não modesto, respondeu assim no Cinco para a Meia-Noite, num jogo em que tinha perguntas com escolha múltipla.

Portugal não precisa de um FMI, precisa é de: dois ou três, um milagre, de mim.

Não, de mim, sem dúvida. Até porque o FMI sem mim vai ser um insucesso. Vão nos emprestar dinheiro e depois a malta não vai pagar. Portanto, o melhor é pôr alguém mesmo competente para poder ganhar isso.

É assim, eu também vou lhe dar uma tática pra malta não ter que pagar e não ser sancionada. Pegam o doutor Oliveira e Costa do BPN, põem a gerir o FMI e pronto, depois não temos que pagar, que aquilo vai à falência antes. O que acontece se não pagarmos?

E depois quem é que paga?

O que acontece se não pagarmos? Imaginemos. Puxão de orelhas, réguada, é o quê?

Digamos que se não pagarmos...

Nos poucos anos em que esteve à frente do governo, foi obrigado a mudar o país pelas condições negociadas com a Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional, as entidades que asseguraram o resgate financeiro de um país em bancarrota. Implementou uma política de austeridade com algumas medidas, cortes salariais na função pública, subida de impostos, eliminação de feriados e outras igualmente pesadas a gerarem forte contestação. A grande vitória política do seu mandato dá-se a 17 de maio de 2014, com a saída de Portugal do programa de resgate, sem recurso a qualquer programa cautelar de crédito.

Três anos depois, estamos a poucos dias de terminar o programa de assistência. O 17 de maio de 2014 ficará na nossa história como um dia de homenagem a todos os portugueses, porque sem o esforço de todos, não teria sido possível chegar até aqui. Não será o dia nem do governo, nem de nenhum partido político. O dia 17 de maio será o vosso dia.

Mas quem é, afinal, Pedro Passos Coelho? A biografia publicada por Sofia Aureliano, que falávamos há pouco, revela a vida privada e pública, escrita com a recolha de opiniões e testemunhos, tentando dar uma imagem geral de um homem pouco consensual. Era, se pudesse, cantor, e esse é outro dos sons que não podia faltar nesta escolha. É o famoso momento da cantoria com que Passos brindou o país. Numa visita em que estava presente uma tuna académica, o então primeiro-ministro pegou da sua experiência de capa e batina enquanto tuno e decidiu usar a sua voz de barítono. A verdade é que tem a voz bem colocada, isso temos de dizer. Não era para menos, gostaria de ter seguido a carreira de ópera.

Tenho imensa pena de não me ter dedicado à ópera, porque gosto muito de cantar e acho que tinha algum jeito para isso.

E já não tem condições.

Mas já não vou a tempo.

Pronto. O Pavarotti já não é novo.

Terei mesmo de me dedicar a outra coisa qualquer, se aqui não me safar.

Não tivemos um Pavarotti à portuguesa, mas foram muitos, em vez disso, os momentos difíceis durante os quatro anos em que esteve à frente do governo, entre 2011 e 2015. O pior, talvez a tentativa de baixar a taxa social única para as empresas, que muitos traçaram como o momento de viragem.

A ideia de que nós precisamos de fazer. O que esta medida também permite, que é uma desvalorização fiscal, estava prevista no memorando de entendimento que Portugal assinou com a troika e estava no programa eleitoral do meu partido.

Mas depois, senhor primeiro-ministro, vou só interrompê-lo para dizer o seguinte: depois disso, quando o senhor chegou ao poder, encomendou um estudo ao Banco de Portugal e ao Ministério das Finanças e de acordo com esse estudo, na sua página três, concluiu o seguinte: a desvalorização fiscal não tem, por si só, quaisquer impactos nas características estruturais da economia. E o impacto inicial desta medida é recessivo.

E no ano passado, em entrevista à Maria João Vilas, aqui na Rádio Observador, Pedro Passos Coelho recordou a governação em tempos de troika e, claro está, sobre a TSU.

Foi um erro político, manifestamente, que me cabe a mim.

Reconhece, sim.

Sim, com certeza, que só me cabe a mim, porque eu é que era o chefe do governo, eu é que tinha de tomar a decisão. O presidente da República alertou-me para os riscos políticos que a medida continha.

E não concordou com ele.

E, na verdade, o problema não era esse. Eu até percebia que esses riscos existiam. O problema é qual era a alternativa.

Perante as dificuldades, Pedro Passos Coelho demonstrou que entre a espada e a parede, quando não vê alternativa, escolhe a espada. Mas de onde vem um dos políticos que mais marcou o século XXI em Portugal?

Vem de Coimbra. Nasceu em Coimbra a 24 de julho de 1964. Passos Coelho viveu em Angola até aos nove anos de idade. Regressou a Portugal com a família após o 25 de abril de 74. Passou a adolescência em Vale de Nogueiras, concelho de Vila Real, de onde o seu pai é natural e completou o ensino secundário na Escola Secundária Camilo Castelo Branco, no concelho onde residia. Sempre que lá regressou, até em campanha, era recebido com grande entusiasmo e era mútuo. Na década de 90 rumou a Lisboa e em 2001 licenciou-se em Economia pela Universidade Lusíada.

E desde muito cedo esteve ligado à política. Pedro Passos Coelho aderiu à Juventude Social-Democrata no final da década de 70. Foi líder da J entre 1990 e 1995. Entre 91 e 99, foi deputado à Assembleia da República pelo círculo eleitoral de Lisboa.

Casado em primeiras núpcias com Fátima Padinha, cantora, elemento da primeira girls band nacional, as Doce, de quem tem uma filha. Casaria mais tarde com Laura, Laura Coelho, de quem tem também uma filha e de quem viuvou há cerca de 10 anos.

Em 2008, candidatou-se pela primeira vez a lugar, em eleições que perdeu, a lugar de presidente do PSD, em eleições que perdeu para Manuela Ferreira Leite. No entanto, dois anos mais tarde, acabou por ser eleito presidente do partido, o que o levou a disputar as legislativas de 2011, antecipadas pelo governo socialista de José Sócrates, num contexto de grave crise financeira, como candidato a primeiro-ministro. Um ato eleitoral em que o PSD foi o partido mais votado, com mais de 38% dos votos, permitindo a Passos Coelho tomar posse como primeiro-ministro a 21 de junho de 2011, liderando um governo de coligação com o CDS-PP.

No ano seguinte, a coligação eleitoral formada por PSD e CDS consegue vencer as eleições legislativas, embora não consiga a maioria parlamentar e empossado como primeiro-ministro do 20º Governo Constitucional a 30 de outubro de 2015, Passos Coelho passa para a liderança da oposição logo a 10 de novembro. Foi um curtíssimo governo, na sequência da aprovação de uma moção de rejeição ao programa do seu governo.

Na sequência do fraco resultado eleitoral do PSD nas autárquicas de 2017, Pedro Passos Coelho anuncia a intenção de não se recandidatar à presidência do PSD nas eleições diretas de 2018. O sucessor foi Rui Rio.

Entretanto, não andou por aí. Saiu zangado e frustrado com a habilidade de António Costa de lhe retirar a maioria relativa. A esquerda uniu-se no formato geringonça, que todos conhecemos, e Passos Coelho seguiu a vida académica. É professor catedrático convidado do ISCSP. É aí que passa os seus dias, tentado a ser quase tudo, desde regressar ao governo até Belém, tirando algumas intervenções, tem se mantido mesmo afastado.

E uma das últimas intervenções que fez foi a entrevista na Rádio Observador. Revelações importantes saíram desta longa conversa com Maria João Vilas, em que Passos, mais uma vez, não foi modesto, mas foi honesto.

O ir além da troika significava ser mais ambicioso no plano estrutural do que aquilo que estava na troika. E em alguns pontos nós tentamos ser. Tentamos levar as privatizações um pouquinho mais longe, tentamos ir nas reformas de mercado um pouco além daquilo que estava previsto, mas isso foi distorcido, de modo que as pessoas achassem que nós queríamos fazer um brilharete perante a troika e, portanto, adotar mais medidas de austeridade para ir além das metas que estavam fixadas. Ora, isso é um absurdo.

Mas o ir além da troika ficou mesmo colado à pele de Pedro Passos Coelho. Há frases que ficam coladas aos políticos e o ir além da troika nunca deixará de estar indelevelmente ligado a Pedro Passos Coelho.

E ao contrário do que tem sido habitual com as nossas últimas figuras da semana, desta vez difícil foi escolher o amigo para falar de Pedro Passos Coelho. Fomos à procura de um amigo mais antigo e descobrimos Jorge Paulo Roque da Cunha, que antes de se notabilizar por presidir ao Sindicato Independente dos Médicos, onde muitas vezes teve de lutar com o amigo primeiro-ministro, foi número dois de Passos Coelho nos tempos da JSD.

Vamos ouvir o Roque desses tempos, Raquel.

Jorge Paulo Roque da Cunha, a nossa figura da semana é Pedro Passos Coelho, alguém que o Jorge Paulo conheceu bem, até porque foi o seu número dois nos tempos da JSD. Pedia-lhe que nos contasse um episódio que ache que o caracteriza.

Já passaram mais de 30 anos em que tive a oportunidade de ter sido vice-presidente Pedro Passos Coelho e que desde logo os seus traços de caráter, nomeadamente na defesa intransigente da JSD, naquilo que eram as suas ideias, mas sempre com muita serenidade. Nunca vi Pedro Passos Coelho perder as estribeiras, usar o tom de voz de uma forma desrespeitosa para quem com ele discordava. E recordo, também, que quando tinha a responsabilidade de fazer parte, por inerência, da Comissão Política Nacional do Professor Cavaco Silva, da sua intransigente atenção em relação ao acompanhamento do seu familiar. E também ficou célebre a necessidade de essas reuniões terem o horário que permitissem o seu acompanhamento, ir buscar as suas filhas à escola e teve ocorrido muitas vezes a sua saída das reuniões para ter essa prioridade. Isso demonstra claramente a forma como Passos Coelho encara a sua vida normal.

Prioridade à família é sem dúvida uma das principais características de Passos Coelho, mas Raquel, perguntaste também a Roque da Cunha o que antecipa para o futuro do ex-primeiro-ministro.

E o que é que acha que podemos esperar de Pedro Passos Coelho para o futuro?

Em relação ao futuro de Passos Coelho, alguém que retirou o país da troika, que mesmo num contexto de grandes dificuldades, no contexto, por exemplo, das eleições autárquicas, tornou claro que não iria hipotecar o país para ter ganhos partidários, é evidente que era muito importante que pudesse ser aproveitada pelo país. No entanto, o que eu acho é que se deve respeitar aquilo que Passos Coelho tem defendido desde que deixou ter participação na política ativa. A sua vida pessoal e política só dele depende. E tal como no passado, nós esperamos que o seu contributo possa ser reconhecido e que, naturalmente, a sua decisão seja respeitada.

E este é mesmo um traço comum a todos os mais próximos de Pedro Passos Coelho. Todos gostavam de ver um regresso à política, mas ninguém se arrisca a garantir qual é, de facto, a sua vontade.

E como sempre, terminamos com algumas perguntinhas para futuro sobre a nossa figura da semana.

Afastado da política e assim pretende continuar Pedro Passos Coelho, mas até quando? A verdade é que nas aparições públicas que tem feito também não fecha completamente a porta.

E em política, como sabemos, não se pode dar nada por garantido. Voltando quando e se quiser, será para funções executivas? Outra vez líder do PSD e primeiro-ministro, ou o próximo voto terá de ser mesmo até Belém, à partida, já não em 2026, mas noutras presidenciais?

E será que o tempo vai ajudar a descolar Pedro Passos Coelho do rótulo da troika, da austeridade, do enorme aumento de impostos levado a cabo quando foi primeiro-ministro e até daquele famoso conselho em que disse aos jovens professores para emigrar, quando havia muitos professores e poucas vagas?

E por último, será que a história vai dar a Pedro Passos Coelho outro lugar, o do primeiro-ministro que enfrentou um resgate financeiro com sucesso e conseguiu voltar a pôr o país e a economia à tona?

Algumas dessas perguntas podem ter resposta nos manuais escolares do futuro. Para já, no presente, e porque se destacou nos últimos dias com o testemunho no processo BES, onde nem a juíza conteve a curiosidade sobre o futuro do antigo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho foi a figura da semana.