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Agora chamamos a esta emissão especial da Rádio Observador três dos quatro membros permanentes do Fora do Baralho. Temos o João Marques de Almeida, o Luís Aguiar-Conraria e o Jorge Fernandes. Luís Aguiar-Conraria, estiveste particularmente atento às sondagens e no radar das sondagens tiveste uma participação crucial neste processo. As sondagens enganaram-se? Não conseguimos prever isto?
Parece-me que se enganaram, especialmente em relação ao PS e ao Chega. O PS tem menos do que aquilo que estava previsto e o Chega tem mais. As sondagens davam ele 18% e vai provavelmente ser o segundo partido. Ou se não ficarem segundos, se ficarem em terceiro, vai ficar empatado com o PS. De resto, aquilo que eu vou percebendo, as outras estão mais ou menos de acordo. A AD ali nos 32, 33%, provavelmente. A IL cinco, seis, sete no máximo, acho que está tudo mais ou menos certo. Mas de facto, há ali uma subestimação do Chega, que é interessante, e é isso que me leva a perguntar se o Chega não se ficará também em segundo. Se há uma subestimação durante a campanha, é por quê? Porque na amostra não apanharam pessoas do Chega? Se foi isso, nas sondagens à boca da urna, não há problema. Mas se a subestimação é porque as pessoas mentiam quando estavam a responder às sondagens, então também é possível que as sondagens à boca da urna estejam a subestimar os votos no Chega e nesse caso é mesmo preciso esperar pra ver se não ficarão em segundo.
Vamos ver quão surpreendido está João Marques de Almeida. Bem-vindo, João.
Olá, boa noite a todos. Estou um pouquinho surpreendido com o resultado do Chega e do PS. Não estou desagradado, mas estou surpreendido. Desagradado não estou. O meu primeiro ponto é que eu acho que já podemos tirar algumas conclusões, não todas, longe disso, porque ainda não temos os resultados finais. Mas o primeiro ponto, parece-me indiscutível, é uma grande vitória da direita, do espaço da direita. Os três partidos de direita, incluindo a AD, que são dois partidos normalmente, podem ter mais de 60% dos deputados, o que é uma coisa espantosa. Eu não me lembro, nunca desde 25 de Abril a direita teve tanta força no Parlamento como agora. Esse é um dado a ter.
Eu não punha de parte a hipótese de ter os dois terços.
Sim, isso não sei, mas à volta de 60% parece-me quase evidente. Dois terços ainda não sei. Pode ser, o Luís pode ter razão, não sei. Não quer dizer que esta votação, esta grande vitória da direita, tenha depois uma expressão política ou governamental, porque como sabemos, há problemas profundos entre a AD e o Chega, mas já lá vamos. Em segundo lugar, parece-me também que há uma vitória da AD e do governo e do Luís Montenegro. Uma vitória no sentido em que aumentaram a votação, isso significa muito simplesmente que há mais portugueses satisfeitos com o governo do que a esperança que tinham na AD quando governaram há um ano. Também significa que o caso da empresa de Montenegro não foi muito relevante. Não podemos ter a certeza absoluta, porque pode-se argumentar que se não fosse a empresa, a AD teria tido ainda melhor resultado. Não sabemos. Mas a verdade é que não foi penalizado. Montenegro não foi penalizado em termos de perder votos por causa da sua empresa, o que nós sabemos que foi um dos grandes temas da campanha. Vale a pena agora também falar nisso, já que tivemos as eleições. Em terceiro lugar, há uma grande derrota da esquerda e há uma grande derrota do Partido Socialista. E eu aqui queria dizer, porque vai haver a tendência, e já se verifica, aliás, em muitos comentários na televisão, de culparem exclusivamente Pedro Nuno Santos. Eu acho que Pedro Nuno Santos fez uma campanha muito fraca. Eu sempre disse, acho que ele é um político fraco, que era uma ilusão de muita gente no PS que ele seria um grande líder. Sempre disse isso, desde o início, desde que ele chegou a líder do PS, mas acho que não se pode pôr as culpas apenas em Pedro Nuno Santos. Este resultado mostra que há um cansaço em Portugal com o socialismo e com o PS e com a esquerda em geral. E isso também é um dado muito importante e resta saber se os partidos de direita sabem utilizar isso.
João, deixa-me interromper-te aí só pra te fazer esta pergunta: mas como é que tudo muda tão depressa de uma maioria absoluta do Partido Socialista para esta votação que tivemos hoje?
Precisamente, Ricardo, há um cansaço com o PS, com o socialismo, porque antes esteve oito anos no governo e se recuarmos, excluindo o governo de Pedro Passos Coelho, desde 1995 governaram até Montenegro ser eleito há um ano. Só durante seis anos é que o PS não esteve no governo, foram os dois anos de Durão Barroso, com os meses de Santana Lopes e os quatro anos de Passos Coelho. Desde 95, de resto, foi sempre o PS que governou. E depois, a culminar esta insatisfação, e houve vários problemas, como sabemos, não vale a pena agora falar deles, o PS tem uma maioria absoluta em 2022 e passado dois anos com a maioria absoluta, o seu governo cai E depois vão escolher como líder, e claro que Pedro Nuno Santos também tem a sua responsabilidade, mas foi o PS que o escolheu como líder. Não foram os militantes nem os simpatizantes da AD e do Chega que votaram nas eleições pra liderança do PS, foi o PS que escolheu Pedro Nuno Santos. Vão escolher um ministro que foi demitido por um primeiro-ministro que não acabou o seu mandato, que António Costa, na altura, deu a entender que preferia centenas a Pedro Nuno Santos como líder do PS. Tudo isto levou a um desgaste enorme e a um cansaço enorme do PS. Em política, os erros pagam-se e o PS cometeu demasiados erros e está a pagar por isso. E depois há um problema estrutural nas esquerdas, que não é só em Portugal, é na Europa em geral, que não conseguem ganhar eleições e têm que repensar bastante a sua mensagem, as suas políticas, o seu pensamento e não continuar a fazer, que é o que continuam a fazer e têm feito até hoje, que acham que chega ou que basta chamar os partidos de direita populista de fascistas, extrema-direita. Isso não chega, isso não assusta ninguém. Têm que fazer muito mais do que isso, isso não é suficiente para reduzir a votação desses partidos e para ganharem eleições.
Deixa-me ver também se está surpreendido ou não Jorge Fernandes. Jorge, boa noite, bem-vindo a esta emissão especial da Rádio Observador. Está surpreendido com estas projeções que temos nesta altura das televisões?
Olá, Ricardo. Olá a todos. Sim, claro que estou surpreendido, não posso dizer que não estou. Ninguém estava à espera disto. Todas as sondagens não estavam a mostrar este resultado acima de tudo tão mau do PS e o resultado tão bom do Chega. Eu quero comentar aqui algumas coisas que o João disse e que o Luís disse. Em primeiro lugar, eu concordo absolutamente com o João que vai haver esta tendência facilitista, digamos assim, de dizer: "A culpa disto é de Pedro Nuno Santos e que no fundo, se mudarmos de líder, as coisas podem voltar àquilo que eram." Se nós olharmos para aquilo que tem sido a história do desenvolvimento político da Europa ao longo da última década, década e meia, aquilo que vemos é que partidos como o Chega estão a conseguir no fundo canibalizar primeiro o Partido Social Democrata do respectivo país, que é o PS, digamos assim, e depois o partido de centro-direita. Se eu fosse do PSD, eu percebo que é muito difícil isto, quer dizer, neste momento, eu teria uma cautela extremamente redobrada com esta celebração, com a ideia de que o país rejeitou o socialismo, etc. Eu acho que se o PSD não tiver um juízo extremo, por um lado, e até porque o PSD tem aqui um papel agora especialmente relevante. O PSD, no fundo, com estes resultados de hoje, é o único grande partido dos tradicionais.
Jorge, então rejeitou o quê? O país rejeitou hoje. Não, mas está bem. Diz-me depois.
Deixa-me falar, calma. O PSD, no fundo, é o único partido dos dois grandes partidos que está de pé. Mas se o centro-direita pensa que o Chega fica por aqui, deve não estar a olhar para o que está acontecendo no resto da Europa, porque o que tem acontecido no resto da Europa tradicionalmente é muito simples de ver. Há uma eleição em que o partido, funcionalmente equivalente ao Chega, a direita populista, coloniza os partidos de centro-esquerda, mas o que vem a seguir é a colonização do centro-direita. Se o PSD acha que isto é ótimo, que rebentaram com o PS e que agora tem o bloco do Chega à sua frente, eu aconselho a ler alguns jornais internacionais e alguns livros, porque é muito claro o padrão que se está a seguir em Portugal é exatamente o mesmo que se segue no resto da Europa.
Jorge, Luís...
Deixa-me só dizer uma coisa, muito rápido. Termino só com isto. E o problema do PSD neste momento é o seguinte: o PS tem imensos problemas, atenção, mas o que eu quero sublinhar, o problema do PSD é o seguinte: em primeiro lugar, já gastou a margem orçamental toda que tinha. Em segundo lugar, não tem maioria remotamente pra poder fazer reformas e pra poder mudar coisas no país. Eu se fosse à direita, atuava com muita cautela e pensaria com muita cautela, porque podemos estar em eleições daqui a um ano e aí podemos estar a falar do Chega a canibalizar o PSD e a ser o partido mais votado.
Quero ir ao Luís, mas João tu estavas a tentar dar uma resposta.
Não, eu concordo com este último ponto do Jorge. E tenho mesmo que concordar, porque eu defendo antes das últimas eleições que as linhas vermelhas eram um disparate. E se a AD tivesse feito o entendimento com o Chega há um ano, não tínhamos tido estas eleições e o Chega ia crescer cada vez mais. E mais, eu há pouco ouvi a Helena Matos dizer, e concordo em absoluto, a grande decisão que a liderança do PSD tem que fazer é saber se faz uma coligação com o Chega enquanto é maior que o Chega, ou se vai ter que fazer uma coligação com o Chega daqui a uns anos quando for menor que o Chega. E aqui também concordo com o Jorge, que há esse perigo.
Deixa-me pegar nesse ponto. Luís Filipe Correia, a tática do cordão sanitário das linhas vermelhas falhou?
Falhou. Sim, a resposta é...
Ou seja, o Chega já deveria estar no poder, é isso?
Têm de conseguir chegar a acordo, que pra já não há condições pra isso e também isso depende das lideranças e depende das boas vontades e depende até de relações pessoais. E também não há como fugir a essa realidade. E é perfeitamente possível que em 2024 a AD não tivesse ganho as eleições se não tivesse dito não é não. É perfeitamente possível que isso tivesse acontecido. E também acho que todos nós concordamos que o Chega para apoiar alguém só a AD, não é?
Pelo menos nessa noite, toda a gente disse, ou pelo menos pareceu concordar que realmente o não é não resultou
Agora resultou nisto. Eu sei que aqui os meus colegas estão mais preocupados com a direita, mas eu estou mais preocupado com a esquerda. Posso puxar aqui um bocadinho para a esquerda?
Ó Luís.
Aqui a nossa conversa.
Como se diz: o chão é teu.
Eu acho que isto é uma enormíssima derrota para a esquerda e para já, neste momento estou convencido que o PS vai ficar em terceiro lugar. E é mesmo possível que a direita tenha dois terços dos deputados na Assembleia da República. E acho que há aqui uma enorme responsabilidade do Pedro Nuno Santos. Eu percebo o que o João diz quando diz que a culpa não é só de Pedro Nuno Santos. Claro que não é só de Pedro Nuno Santos. Aliás, eu a culpar alguém, se calhar até culpava mais António Costa do que Pedro Nuno Santos. Mas a verdade é que houve estas eleições, por causa de uma moção de confiança que foi rejeitada. E houve dois partidos que puderam evitar estas eleições. Esses dois partidos foi o PSD e foi o PS. Quer um, quer outro, se quisessem, no último segundo, tinham evitado as eleições. O governo retirando a moção de confiança, o PS aceitando aquele negócio que foi proposto de ter a comissão de inquérito por 80 dias. E portanto, nós termos tido estas eleições, foi uma escolha destes dois partidos. E há um partido que escolheu isso e que foi brutalmente derrotado, tendo o pior resultado da sua história, se ficar em terceiro lugar e eu acho muito bem que se demita Pedro Nuno Santos.
E agora está reposta a legalidade democrática, porque já temos o nosso quarto elemento do fora do baralho, a Susana Peralta, que se junta também a esta emissão especial da Rádio Observador. Boa noite, Susana. Deixa-me fazer-te esta provocação: já foste acender uma velinha?
Já acendi várias velinhas.
Perante os resultados que poderemos ter esta noite.
Olá, boa noite Tasso, desculpem o meu atraso. Olá, Ricardo. Eu acho que realmente isto são más notícias em toda a linha. Nem temos uma maior governabilidade, portanto obviamente que o cenário de instabilidade vai permanecer. O Soares fez grandes declarações acerca de uma grande vitória, mas eu não percebo que grande vitória é essa, mesmo que haja um reforço no número de deputados. A verdade é que do ponto de vista estratégico no Parlamento, a posição da AD não fica melhor. Nem sequer o apoio da Iniciativa Liberal e já agora, eu acho muito arriscado e parece-me muito improvável que a Iniciativa Liberal se vá agora meter numa coligação com a Aliança Democrática, porque não garante a maioria, e portanto se não garante a maioria, fica com o poder negocial muito limitado, numa coligação muito arriscada, dadas as confusões de Luís Montenegro, que nós ainda não sabemos que coisa é que vai sair da cartola. E dado o desequilíbrio de forças entre AD e Iniciativa Liberal em termos de votação, não vejo como é que a IL vai entrar aqui. Sobretudo, lá está, não conseguindo a tal maioria. Temos um reforço do Chega, não só do ponto de vista da votação nacional, não temos os resultados finais, mas temos também reforços geográficos muito substanciais do Chega com resultados de contagens oficiais. E o terminal do PS é uma má notícia, parece-me.
E Pedro Nuno tem condições para continuar no Partido Socialista, Susana?
Acho que não, não vejo muito bem como é que isso vai acontecer. Se ele não se demitir hoje, vai ter que se demitir proximamente, porque isto é uma derrota, independentemente dos resultados finais, o facto de nós estarmos neste momento a discutir o taco a taco entre o Chega e o PS, é em si mesmo uma derrota demasiado expressiva para Pedro Nuno Santos não assumir as consequências políticas. Não quer dizer que sejam todas dele, mas neste momento é ele o líder e é ele quem tem que aceitar. Eu tenho uma simpatia muito grande, acho que isso é conhecido, pelo Liso e portanto, por exemplo, se realmente houver uma reconfiguração à esquerda do PS e que esse partido, que é a representação da esquerda europeia em Portugal, da esquerda europeia e europeísta, eu fico contente com isso. Mas é parco consolo em face deste cenário que eu aqui tracei, que nem há nem mais governabilidade. Há um reforço do Chega. Temos um primeiro-ministro que foi caucionado pelo voto popular, apesar das suas faltas de integridade, o que também dificulta acho eu, que haja parceiros que queiram negociar com ele. E estamos aqui numa situação que me parece bastante negativa para o nosso país.