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Fora do Baralho, edição extra de resposta às perguntas dos ouvintes. Podem sempre escrever-nos para foradobaralho@observador.pt. Esta semana capto a ti, Jorge Fernandes, vamos a isto. Temos perguntas mais do plano internacional, embora a segunda pergunta tenha a ver com Portugal, mas já lá vamos. A Maria Helena Pereira quer falar sobre o novo primeiro-ministro da Hungria, que fez a primeira visita a Bruxelas esta semana, reuniu-se com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e também com o presidente do Conselho Europeu, António Costa. Podemos dizer que com Péter Magyar há mesmo um virar de página da relação dos húngaros com o bloco comunitário?

Olá, Vanessa. Eu penso que sim, aparentemente há um virar de página, até porque há aqui um interesse mútuo em que esse virar de página aconteça. A Hungria, convém relembrar, os últimos 16 anos em que Orbán foi primeiro-ministro, teve um desempenho econômico pífio. Convém relembrar para os nossos ouvintes, que não sei se sabem, a Hungria não está no euro. A moeda tem um mecanismo de valorização e desvalorização autónomo, portanto, pode jogar com a força da moeda e com a valorização da moeda para ganhar competitividade, mas, por exemplo, quando há crises inflacionárias, também está muito mais exposta do que, por exemplo, Portugal, que tem uma moeda forte e que nesses momentos está sempre muito mais protegido de grandes problemas, começando pela importação de matérias-primas como o petróleo ou gás, etc. A Hungria sofreu particularmente, por exemplo, nos últimos quatro a cinco anos, desde a pandemia até hoje, a Hungria teve uma inflação acumulada de cerca de 50%. Estamos a falar de uma coisa que não é de somenos. Existe um grande interesse por parte dos húngaros, independentemente de considerações ideológicas que o novo primeiro-ministro possa ter, do ponto de vista puramente estratégico, de receber o pacote financeiro que a União Europeia tem à espera. A União Europeia terá cerca de 35 mil milhões de euros a fundo perdido que são destinados à Hungria. E esse dinheiro é absolutamente fundamental para o país e irá certamente ajudar a Hungria economicamente, quanto mais não seja no curto prazo. Haverá ali um choque econômico com a entrada de todo esse dinheiro e a economia certamente verá benefícios da entrada desse dinheiro, que é muito dinheiro. Sob esse ponto de vista, há um grande interesse por parte de Budapeste. Da parte de Bruxelas, é evidente que o interesse também é muito forte. A Hungria estava a ser até agora um ponto de veto importante, especialmente em matérias relacionadas com a Ucrânia. É preciso dizer e ter a noção exata de que o novo primeiro-ministro não é propriamente um grande entusiasta da Ucrânia. Existem problemas históricos entre os dois países, nomeadamente as minorias húngaras que estão espalhadas nos países a leste do país, portanto, na Roménia, na Ucrânia, etc. Existe um conjunto de minorias etnicamente húngaras que tem a ver com as questões históricas no centro da Europa, as divisões que aconteceram depois da Primeira Guerra Mundial, o fim do Império Austro-Húngaro, a Segunda Guerra Mundial, as grandes movimentações de população que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Isto é para sublinhar que mesmo sem Orbán, a Hungria não é propriamente uma grande entusiasta, por exemplo, da entrada da Ucrânia na União Europeia.

Mas já houve este desbloqueio do empréstimo de 90 mil milhões de euros. Este é um primeiro passo.

Claro, é isso. Mas entre a opção maximalista, que é o apoio incondicional à Ucrânia, ou um apoio mais cético, mas mesmo assim um apoio, estamos a falar de situações muito diferentes. E de facto, o novo primeiro-ministro já indicou que a Hungria vai levantar o veto ao empréstimo europeu que se destina ao esforço de guerra ucraniano e como se costuma dizer, é preciso dois para dançar o tango e neste caso, naturalmente, ambos querem dançar o tango, a Hungria tem coisas que Bruxelas tem e vice-versa e estrategicamente, naturalmente, pelo menos no imediato, haverá aqui uma aproximação entre as duas partes. Veremos como é que a médio e longo prazo esta relação evolui e percebemos de maneira mais clara como é que o novo primeiro-ministro da Hungria se quer posicionar.

E como é que está a evoluir o mandato de António Costa à frente da presidência do Conselho Europeu? A Patrícia Carvalho dá aqui conta de que está quase a cumprir meio ano de mandato, o antigo primeiro-ministro português. Que avaliação é que fazes do papel e da influência de António Costa? Tens sido crítico do inglês de António Costa.

Posso dizer, relativamente ao inglês de António Costa, continuando a ser um inglês muito longe de qualquer qualidade, melhorou imenso. Outro dia ouvi-o a falar inglês na televisão, a ler, certamente, mas as coisas melhoraram imenso. Significa que ele está no bom caminho e que não há nada como uma bela exposição internacional e sair um bocadinho da paróquia para conseguir de facto internacionalizar-se. Dito isto, o mandato de António Costa está a ser um mandatoNa minha opinião, sem queixas. Não está a ser extraordinário, mas também não está a ser mau. Ele está a cumprir o seu papel. De resto, aliás, uma das críticas que eu fiz aqui no "Fora do Baralho" sempre foi às pessoas e a uma certa corrente que existe em Portugal, que tinha duas ideias. Uma, que António Costa ia para a Europa e que ia ser um negociador maravilhoso, que ia desbloquear um conjunto de dossiês e que ia ajudar a resolver um conjunto de problemas na Europa.

Até porque ele é muito conhecido por essas negociações de bastidores, que costuma ser bem-sucedido. Cá, pelo menos, era.

Cá, era isso que eu ia dizer. É conhecido cá, isso é o que se diz cá. Fora, António Costa tem boa imprensa, não vale a pena negar isso. É uma pessoa que tem boa imprensa a nível internacional, mas a ideia de que ele ia chegar à Europa e ser alguém que ia mudar as dinâmicas europeias, não aconteceu. No fundo, aconteceu aquilo que era esperado. E ao mesmo tempo, o segundo ponto era a ideia de que António Costa ia realmente ser uma figura marcante na integração europeia. Nada disso está a acontecer, António Costa está a fazer um mandato.

Passaram muitos meses, mas já dá para fazer esse primeiro balanço.

Na verdade, estes mandatos são curtos, são mandatos de dois anos e meio. Portanto, na verdade, daqui a uns meses já se estará a falar ou da eventual renovação do mandato ou da eventual substituição. São mandatos curtos, o que tiver que acontecer tem que começar a acontecer de forma relativamente rápida. Agora, eu acho que António Costa está a fazer um bom lugar, certamente melhor que o seu antecessor, Charles Michel, cuja antipatia e dificuldades de comunicação com a presidente da Comissão Europeia eram públicos e notórios. Eu acho que sob esse ponto de vista, as coisas naturalmente melhoraram. Acho que António Costa, claramente, tem uma relação boa com Ursula von der Leyen, pelo menos é o que passa publicamente, na imprensa e nas televisões. Sob esse ponto de vista, acho que António Costa está a fazer um mandato regular, mas será uma nota de rodapé quando terminar o mandato, será uma nota de rodapé na integração europeia. Não deixará qualquer tipo de marca, o que também não era suposto. Este tipo de lugar é um lugar pouco mais do que cerimonial e não havia grandes expectativas da minha parte, pelo menos, que houvesse aqui grandes mudanças. Mas acho que António Costa está a cumprir, está a aprender a falar inglês. Nota-se que em alguns temas internacionais já tem muito mais traquejo, isso sem dúvida nenhuma. Eu vejo-o regularmente a falar, do ponto de vista substantivo. Nota-se claramente que ele tem um conhecimento e um domínio das matérias muito superior àquilo que era e sob esse ponto de vista, está a fazer um bom mandato. Agora veremos se é renovado ou não e depois o que acontecerá. Estou certo de que algumas pessoas em Portugal diziam que isto talvez fosse o fim da carreira dele, que este mandato seria, no fundo, o culminar da carreira de António Costa. Veremos, talvez em 2031, quando serão as próximas eleições presidenciais, se não teremos aqui pela primeira vez uma primária à esquerda em que o incumbente é desafiado.

Fica essa carta lançada aqui no "Fora do Baralho", quem sabe. Jorge Fernandes, obrigada por ter respondido esta semana às perguntas dos ouvintes. Escreva-nos para foradobaralho@observador.pt, com perguntas, com críticas, com curiosidades, o que quiser, ou também por WhatsApp para o 910 024 185, mensagem texto ou mensagem áudio, esteja à vontade. Eu sou a Vanessa Cruz, bom domingo, boa semana.