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Governo aprovado pelo Presidente da República. Os pratos fortes que Luís Montenegro escolheu têm como objetivo não serem politicamente comidos por polémicas, como aconteceu no anterior executivo. Há saídas e entradas e um novo ministério, o da Reforma do Estado. Dois ministros vão acumular pastas que até aqui eram ministérios distintos. Fora do Baralho, edição extra, hoje com a Susana Peralta e o Jorge Fernandes. Vamos ter cartas também, se houver tempo, para as presidenciais, mas temos mesmo de começar por aqui. Jorge, fora do baralho ficam Margarida Blanco, até aqui ministra da Administração Interna, Pedro Reis, que era o ministro da Economia. Agora Castro Almeida vai acumular esta pasta com a Coesão Territorial, que já tutelava. Dalila Rodrigues deixa de ser a ministra da Cultura, que passa a ser uma pasta acumulada por Margarida Balseiro Lopes com a Juventude e o Desporto. O que é que dizes destas saídas já antecipadas e também das acumulações?

Olá, Vanessa. Olá, Susana. Antes de mais, acho que globalmente o governo a mim desiludiu-me um bocado, sinceramente. No fundo, eu quis dar a desculpa a Montenegro, eu quis achar que o elenco ministerial que ele tinha arranjado tinha sido muito limitado pelo facto de haver uma grande incerteza no ar quanto à duração do governo. Aliás, de resto confirmado, o governo durou um ano.

Era um governo de combate.

Exatamente, era um governo de combate, mas eu percebo que muita gente não se quisesse, de alguma maneira, sair das suas vidas profissionais, suspender as suas vidas profissionais, seja na academia, na ciência, nas empresas, até mesmo na política, para se juntarem a Montenegro. Neste governo, eu acho que apesar de tudo, as desculpas são um bocadinho menores, porque Montenegro tem um panorama de estabilidade, pelo menos em teoria, um bocadinho maior, certamente, do que aquilo que tinha o ano passado. E eu estava à espera que ele conseguisse sair um bocadinho fora daquilo que é, em primeiro lugar, a área do PSD, ou enfim, pelo menos aquela área mais canónica do PSD, pessoas próximas do PSD, e conseguisse ir buscar algumas pessoas interessantes. De facto, isso não ocorreu. Acho que o único grande nome que eu acho interessante que ele foi buscar foi a Maria Lúcia Amaral. Acho que é uma pessoa muito interessante sob vários pontos de vista, embora tenha algumas dúvidas se a Administração Interna seja o melhor cargo para ela. Acho que as saídas, algumas tinham que acontecer, outras foram por motivos pessoais, como Pedro Reis, por exemplo, aparentemente terá pedido para sair. É um bocadinho mistério, por exemplo, por que é que não há, na minha opinião, um Ministério da Habitação. A habitação é simplesmente a maior crise que Portugal está a viver, a maior preocupação dos portugueses, a situação que é absolutamente deprimente sob vários pontos de vista. A não existência de um ministério que lide com a habitação é um mistério e, portanto, acho que aí é uma jogada errada de Montenegro.

Há aqui um novo ministério, gostava de te ouvir falar sobre ele, o da Reforma do Estado, com Gonçalo Saraiva Matias, que vem da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Que sinal é que dá aqui Luís Montenegro? Ouviu os recados de Passos Coelho e Cavaco Silva de que é preciso fazer reformas estruturais? Também a Susana Peralta, não sei se estás em mute, Susana, mas Jorge, acho que já te tenho aqui. Não. Este Fora do Baralho está aqui com algumas cartas fora do baralho, que são os nossos ases de serviço. E aqui o Jorge dizendo que este governo acaba por desiludir um pouco, apesar de haver aqui escolhas que possam ser interessantes. Estás aqui, Susana. Estava a perguntar sobre a reforma do Estado.

Sobre a reforma do Estado.

Quero que fales sobre aquilo que quiseres, claro.

Não, mas eu ouvi a tua pergunta e tu estavas era aqui com problema que tu não me ouvires. Sei lá, se ouviu ou não. Eu não sei que credenciais é que, com todo o respeito por Gonçalo Saraiva Matias e pelo seu trabalho à frente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, eu não sei que credenciais é que Saraiva Matias, que foi diretor da Faculdade de Direito e que é uma pessoa conhecida, penso eu, apesar de tudo, pelo seu trabalho em migrações, não sei muito bem que credenciais é que ele tem para fazer uma reforma do Estado e eu também não sei muito bem o que é uma reforma do Estado verdadeiramente, Vanessa. E esse é o meu grande problema. Eu acho que nós temos um problema na qualidade das políticas públicas, eu acho que nós temos um problema na lentidão da máquina do Estado, eu acho que nós temos um problema na capacidade do Estado de atrair quadros e até de investir em sistemas de informação que coloquem a máquina a andar. Agora, não me parece que isso se dê de uma pessoa. Depende muito mais de tu teres capacidade de recrutar e de motivar as pessoas que estão na função pública, de tu teres programas de formação dentro do contexto da função pública, teres concursos de maneira mais estruturada. Eu aqui há tempos tive num podcast até com a Mariana Vera da Silva e ela falou disso, eu acho que é importante que hajas um calendário de abertura de concursos para as pessoas que se formam e que têm qualidade e eventualmente interesse em entrar na função pública, saibam que existe esse calendário e que as regras sejam, não vou dizer não que não sejam claras, porque eu acho que elas são claras, mas que elas sejam previsíveis e que as pessoas saibam com o que contam. Eu não sei que reforma do Estado é que Montenegro tem em mente, não me parece que isso tenha sido discutido por ele ao longo da campanha eleitoral. Não sei muito bem quais é que são os pergaminhos de Gonçalo Saraiva Matias para esse domínio. Portanto, não tenho assim grande expectativa relativamente a este ministério, se queres saber.

Jorge Fernandes, já estás aqui conosco, se quiseres retomar o teu raciocínio. Estavas a falar de Maria Lúcia Amaral.

Eu acho que Maria Lúcia Amarela anda muito interessante, não sei é se ela tem o perfil para o Ministério da Administração Interna.

Sim, essa parte ainda ouvimos.

Que é um ministério objetivamente muito difícil. Ainda para mais, há um problema claríssimo, não vou dizer que é um problema de imigração, mas há um problema claríssimo com a máquina do Estado e com a capacidade da máquina do Estado em lidar com a imigração. E depois eu estava também a dar só mais dois apontamentos, que é a questão da despromoção do Ministério da Cultura. A falta do Ministério da Cultura, para mim, acho que simbolicamente é importante e acho que não tem qualquer sentido aquela junção.

Mas temos, por exemplo, habitação e infraestruturas também juntas, que já tínhamos antes. É assim tão grave a cultura estar aqui com o desporto e a juventude?

Na minha opinião é. Não só simbolicamente, porque simbolicamente tem interesse, mas acho que merece ter um ministério à parte. Dalila Rodrigues tinha um pensamento, quer gostasse ou não, e havia muita gente no setor que não gostava, etc. Mas Margarida Balseiro Lopes não tem rigorosamente pensamento nenhum sobre cultura. Ela foi líder da JSD, foi deputada, uma pessoa certamente estimável, mas certamente de cultura, pelo menos que se tenha ouvido intervenções públicas, que eu tenha ouvido, pelo menos, se aconteceram, passaram-me completamente ao lado. E portanto acho realmente uma pena que isso tenha acontecido. E acho que Montenegro perdeu também uma oportunidade importante de separar a educação e a ciência, que era um erro que eu já achava que já vinha do governo anterior. Acho que o Fernando Alexandre é um bom ministro, claro, mas o dia só tem 24 horas, e não é possível, por muito bom que o ministro seja, não é possível dar atenção em igual medida à educação e à ciência. E no fundo, isto é que é interessante. Eu acho que Montenegro, no olhar para o futuro, portanto, na habitação, na ciência, aspetos estruturantes daquilo que podem vir a ser o país do futuro, Montenegro falha completamente. E aqui acho que o governo é completamente equivocado sob esse ponto de vista. E por último, deixa-me deixar esta nota sobre Carlos Abreu Amorim nos assuntos parlamentares. Alguém que tenha visto Carlos Abreu Amorim no tempo, por exemplo, dos blogs, no Twitter, etc. Os insultos que deixa, a linguagem absolutamente carroceira. Não é pessoa própria para estar nos assuntos parlamentares, que é um lugar onde tem que se ter uma fineza de trato e uma fineza negocial, pelo menos com a personalidade pública que ele há muitos anos aparenta. Eu não o conheço, só estou a falar daquilo que ele fala em público e de que muitas vezes o modo como se dirige aos adversários é em público.

Terá eventualmente Hugo Soares maior protagonismo do que Carlos Abreu Amorim e maior peso, apesar de Hugo Soares continuar como líder parlamentar?

Não sei, mas apesar de tudo, eu acho que o Hugo Soares naturalmente tem um papel muitíssimo importante e acho que apesar de tudo, independentemente de outras qualidades que tenha, já mostrou ser um líder parlamentar eficaz e alguém que sabe mexer muito bem nos bastidores, quer entre o governo, a bancada do PSD e a própria bancada do CHEGA. Mas eu acho que apesar de tudo, ser ministro dos negócios dos assuntos parlamentares acho que é absolutamente central. Acho que as credenciais de Abreu Amorim não deveriam descansar o primeiro-ministro, especialmente quando tem André Ventura, que é alguém que sabe perfeitamente aproveitar qualquer polêmica para tirar partido político.

Há aqui também uma manutenção que está a dar que falar, a da Ministra da Saúde, Susana Peralta. Luís Montenegro faz finca-pé com Ana Paula Martins.

É incompreensível, na verdade. Foi dos maiores flops do primeiro ano da governação da AD. Eu recordo que julgo que era em 50 dias que ia haver um plano de urgência, que ia correr tudo muito bem. Na verdade, nós vemos bem que os problemas da saúde se mantêm, e a verdade é que eles se mantêm porque eles são complexos de resolver. Portanto, nenhum plano de emergência ou nenhuma subcontratação aos privados vai resolver um problema que é um problema fundamental de falta de recursos no conjunto do sistema de saúde em Portugal, não apenas no público, mas também no público, porque os privados sugam os recursos do público por razões que não vale a pena estarmos aqui agora a discutir e que não tem nada de maniqueísta. E também no conjunto dos hospitais, que no fundo o que nós temos aqui é quase um jogo de soma nula, onde os privados e o público vão tentando retirar recursos uns aos outros. E aliás, o suposto escândalo que apareceu na semana passada com pessoas a ganharem por horas extraordinárias no sistema público, é só um reflexo também desse problema. Houve ali também uma amplificação mediática populista em torno daquilo, quando se os médicos não estiverem a ganhar aqueles milhares para fazerem as operações extra no público, vão ganhar nas mesmas horas extraordinárias para os privados os mesmos médicos e nunca ninguém se indigna com isso. E muitas vezes isso também é financiado pelo público por causa das listas de espera. Enfim, portanto, são problemas estruturais, dizia eu. E de facto, eu acho que esta ministra já mostrou que não tem um pensamento muito estruturado. Estou aqui a ser um bocadinho pleonástica, mas eu julgo que é essa a ideia. Ela vê as coisas de maneira demasiado casuística e aquilo que faz falta é alguém que perceba isto como um sistema de saúde, com os recursos a não irem de um lado para o outro e que consiga ter uma visão estratégica e também uma visão de regulação do setor privado, porque se nós não regularmos o setor privado, nós não vamos conseguir resolver os problemas do público, que não vai ser a Ana Paula Martins. É um bocadinho esquisito como é que Luís Montenegro, que deixa cair, por exemplo, Margarida Blasco, que quanto a mim tem se calar pior imprensa do que propriamente ser uma má ministra e mantém Ana Paula Martins, e parece-me também um grande risco. Nós lançámos hoje o nosso relatório anual da equipa da Nova SBE e lá cai o balanço social e uma das situações do país das quais ressalta o maior descontentamento das pessoas, tanto dos ricos como dos pobres, é a saúde, a par da educação, mas a saúde muito forte. E, portanto, Luís Montenegro está aqui a correr um risco.

Ainda vamos continuar, naturalmente, a digerir este novo governo de Luís Montenegro, que de resto toma posse já amanhã, às 18h. Vamos naturalmente acompanhar aqui na Rádio Observador e na sexta-feira vamos distribuir as cartas com os nossos ases. Hoje foi a Susana Peralta e o Jorge Fernandes que estiveram conosco. No domingo, de resto, é o Jorge que vai responder às perguntas dos ouvintes, às dúvidas, interpelações, críticas, os desafios. Envie para foradobaralho@observador.pt. Ficamos à espera. Eu sou a Vanessa Cruz. Até lá.