Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
"Fora do Baralho" na Rádio Observador, que reúne os ases do comentário: Susana Peralta, Luís Aguiar-Conraria, Jorge Fernandes e também o Nuno Garoupa. A jogada da semana, na segunda parte, será sobre os exames nacionais e o papel do Ministro da Educação em tudo isto. Eu sou o Ricardo Conceição e este é o "Fora do Baralho". Vamos primeiro aos naipes e temos que fazer aqui um breve enquadramento histórico. Temos de falar da doutrina Monroe. Há um episódio do "E o Resto é História" precisamente sobre isto. A doutrina Monroe esteve no topo da atualidade quando Trump prendeu Nicolás Maduro. No fundo, a doutrina Monroe é uma espécie de visão geopolítica do presidente James Monroe para a América do século 19, que se vai mantendo viva. Depois da doutrina Monroe, vamos ter Luís Montenegro, o primeiro-ministro de Portugal, que iniciou o que a Susana Peralta chama de doutrina Corato. Susana, onde é que a pele de porco entra na geopolítica?
É um nome que eu cunhei efetivamente nesta semana no nosso magnífico grupo do WhatsApp. Porque, de facto, Luís Montenegro, como é sabido, deslocou-se não uma, não duas, mas três vezes aos Estados Unidos, portanto, voos de ida e volta aos Estados Unidos, ao continente americano, para ir ver jogos da seleção. Jogos desses, pelo menos dois deles eram ainda na fase de grupos, nem sequer eram jogos especialmente decisivos. Não estou aqui a dizer que era suposto ele estar nos jogos decisivos, mas quero dizer, pelo menos aí poderia ter um pretexto adicional. E quando foi confrontado com dívidas, designadamente porque fugiu do país no meio da vaga de calor e do problema dos incêndios, etc., deixando o país literalmente a arder e vai para os Estados Unidos ver jogos, disse que o que fazia sentido era o primeiro-ministro representar Portugal nos jogos de futebol da seleção. E eu achei que realmente tínhamos agora aqui uma nova doutrina de política externa, que eu desconhecia, não me apercebi em que momento é que entrámos nesse debate fundamental acerca da representação institucional ao mais alto nível em jogos de futebol, mas apraz-me, sinceramente, que agora ao menos ela esteja de facto escrita preto no branco pela pena do primeiro-ministro e deste governo da AD e por isso eu sugiro como título, caso eles ainda não tenham pensado no nome, a doutrina Corato da política externa.
Convém explicar que o Corato está vulgarmente associado aos jogos de futebol, portanto antes de entrar ou depois de sair do jogo de futebol, há bifanas e coratos. Nuno Garoupa, não há coratos nos Estados Unidos ou há na roulotte?
Não, repara, nos Estados Unidos o que acontece é que também não há um hábito de haver um grande envolvimento da política no futebol. Nesse aspeto até podemos dizer que o presidente Trump até tem sido ao arrepio de tradições anteriores, pois tem estado bastante metido neste mundial, em diferentes níveis, mas não há esta tradição. Agora, o que eu acho em tudo isto é que isto reflete também aquilo que tem sido a cultura política nacional. Nós há muito tempo que temos uma enorme confusão entre a bola e a política. Não é só este primeiro-ministro, obviamente. Em parte, o anterior presidente da República introduziu muito ruído nesse aspeto, com a mania de comentar os jogos da bola e de se intrometer no mundo da bola. Aqui estamos a falar do primeiro-ministro e muito bem, mas também tivemos, por exemplo, esta anedota de ter um ex-candidato presidencial a comentar jogos da bola num canal de televisão, quer dizer, um ex-candidato presidencial não é suposto andar metido em comentários da bola. Portanto, eu acho que isto reflete uma cultura política. Por que é que reflete essa cultura política? Porque acho que há nos agentes políticos um entendimento de que isto dá votos e portanto, desse ponto de vista, não me parece particularmente surpreendente quer a agenda do primeiro-ministro, quer a forma como quem defendeu o primeiro-ministro argumentou na defesa do primeiro-ministro.
Luís Aguiar-Conraria, para citar aqui o Hugo Soares, não achas que a Susana e o Nunes estão a ser um pouco queques?
Não, eu aí não consigo concordar com o Hugo Soares. Bem, aí nem em quase nada. Mas esta coisa do futebol dar votos, eu por acaso acho que não dá. De facto devem andar ou todos convencidos disso ou então de facto gostam de ir à bola e portanto gostam de se sentir importantes e de serem convidados para ir para as tribunas presidenciais. Porque quer dizer, quando nós tivemos o Rio no Porto, os seus mandatos todos foram em guerra aberta com Pinto Costa e Pinto Costa era um poder do Norte e um poder do Porto. A verdade é que eleitoralmente não teve qualquer custo para Rio. Portanto, eu não consigo entender isto. Acho que se calhar é mais provável que eles simplesmente gostem de ir à bola e sintam-se nesse direito e usam os recursos do Estado com esse fim e pisgam-se do calor, portanto escusam de estar aqui a sofrer o calor connosco e aproveitam para ir ao futebol. Agora, a Susana estava a dizer que não sabia quando é que esta doutrina tinha começado. Esta doutrina começou com Marcelo Rebelo de Sousa. Acho que isso é perfeitamente claro. Marcelo Rebelo de Sousa era aquela pessoa que se comportava como o comentador-mor da seleção portuguesa
Jorge.
Certo, mas não estava lavrada, não é? Não tinha sido lavrada na pedra e agora está lavrada com o Arato.
Ele gostava de ir para os balneários com os jogadores nus à volta dele. Portanto, até que é uma coisa que pode ter.
Susana, eu ainda não percebi que naipe é que tu tens para esta doutrina.
Não há nenhum naipe Corato, não há nenhum naipe orelha do porco.
Copa. Para não seres elitista.
Não vou querer ser elitista. Dou copas para-
Tem que ser do povo, não é?
É isso. Dou copas para a ligação dos nossos políticos ao povo.
Desculpa, Jorge. Nuno, também não tiveste um naipe para a doutrina Corato?
Não, eu aqui também só posso ser positivo ou copas ou ouros, porque eu acho muito bem que os políticos estejam com o povo e o povo com os políticos. Como isto é apresentado como parte do povo, por acaso acho que o Luís tem razão. Eu também concordo com o Luís. Eu não sei se isto dá votos, mas também não tira votos e, portanto, se calhar é utilizar recursos públicos para financiar um hobby privado e isto é uma coisa do povo e nesse sentido só posso dar copas ou ouros.
Jorge Fernandes, ainda não te ouvimos sobre a doutrina Corato.
Sim, eu acho que aqui há duas dimensões que podemos olhar para isto. Por um lado, a dimensão cômica e de falta de total noção, por exemplo, quando o Hugo Soares, defendendo Luís Montenegro, diz que eles são do povo, por eles entenda-se Hugo Soares, Montenegro, portanto, no fundo a liderança do PSD é do povo e que o povo vai à bola. Mas quer dizer, o povo não vai à bola, o povo vai à bola ao Estádio da Luz ou a qualquer estádio em Portugal, mas o povo não vai à bola a Dallas, nem a Atlanta, nem a Toronto. O povo sonha eventualmente um dia ir ver um jogo de mundial, muito menos nos Estados Unidos, onde os custos são, não só para assistir de fato aos jogos, mas também viagens, etc, são custos absolutamente proibitivos. Portanto, fazer uma analogia entre alguém que vai aos Estados Unidos ou mundial de futebol como sendo uma atividade digamos popular, é absolutamente extraordinário e realmente uma total falta de noção. Dito isto, agora numa análise, tentando ser um bocadinho mais sério nisto, eu acho que de fato isto é mesmo grave. Eu acho que o Luís ficou no ponto absolutamente central disto, que isto é pura e simplesmente elite extrativista a utilizar os recursos públicos para alimentar hobbies privados, puro e duro. Eu acho lícito que Luís Montenegro, enquanto cidadão, goste de ir a futebol, perfeitamente normal, e que use o seu dinheiro para pagar todas as viagens, hotéis, tudo. É perfeitamente possível e acho muitíssimo bem. O mais interessante disto tudo está de tal maneira normalizado que a população não entende que isto tem nenhum custo político, portanto, as pessoas não se revoltam contra isto, não há uma sanção política ou sanção social quando um político objetivamente usa dinheiro público, e não é pouco dinheiro público, convém sublinhar, isto não são 100 nem 200 euros, são milhares e milhares de euros. E é muito curioso, de resto, e aqui quero sublinhar isto, nós estamos a falar de Luís Montenegro, mas há um vastíssimo consenso político-partidário institucional em tudo isto. António José Seguro foi representar Portugal ao mais alto nível nesse grande jogo de futebol contra o Uzbequistão ou Colômbia, enfim, certamente defender os interesses de Portugal. Portanto, António José Seguro aqui a embarcar com Luís Montenegro e seus muchachos também no turismo de futebol. E o interessante ao mesmo tempo disto é que há partidos a fazer política, mas não excessivamente como o CHEGA ou Iniciativa Liberal, sem levantar muitas ondas. Quando eu vejo o CHEGA super indignado porque alguém que recebe o RSI, enfim, que nem imagino quanto é, 200 ou 300 euros por mês, mas mantém-se relativamente num tom baixo, digamos assim, e sem grandes sobressaltos cívicos. Quando Luís Montenegro e António José Seguro e Aguiar Branco, e eu vi a ministra do Desporto e da Cultura gastarem milhares e milhares de euros, inclusive depois com outras necessidades, por exemplo, Luís Montenegro chegar à Turquia para cumprir as obrigações mínimas de Portugal numa cimeira bastante importante da NATO, mas mesmo o CHEGA que se preocupa muito com o dinheiro público e dos contribuintes nestas coisas da bola, realmente há aqui um consenso e eu quero dar ouros claramente para a bola e para o consenso político-partidário que toda a gente na classe política em Portugal comunga.
Ainda conseguimos dar.
Só que eu acho que claramente o CHEGA é mais contra que o presidente vá comer hambúrgueres do que o presidente vá a um jogo de futebol.
Luís, também ainda no mundial, tens um naipe honorífico para Cabo Verde?
Cabo Verde e África em geral, mas deixa-me só voltar atrás só para qualificar ligeiramente aquilo que eu e os outros ases disseram. Eu penso que no caso da ida a Toronto com aquela comunidade imigrante toda, pelo menos o secretário de Estado das Comunidades faz sentido lá estar. E aproveitar uma reunião de muitos portugueses, naquele caso promovida pela presença da seleção, para haver um contacto com os imigrantes. Mas tirando esse caso concreto do jogo em Toronto e, mais uma vez, com o secretário de Estado das Comunidades, não é preciso o primeiro-ministro ou presidente. Tirando essa exceção, acho que estamos todos de acordo com tudo o que foi dito. Eu não consigo resistir a dar copas e um coração enorme a Cabo Verde. Aliás, foi o jogo com que eu vibrei mais neste mundial, foi Argentina-Cabo Verde, e a forma como encostaram a Argentina às cordas foi extraordinária e que logo a seguir se voltou a repetir no jogo do Egito novamente com a Argentina. Portanto, é uma coisa impressionante. E Marrocos também teve uma performance notável, foram afastados ontem pelo provável campeão mundial, mas temos aqui as equipes africanas a jogarem muito bem e a serem eliminadas por um dos dois favoritos ao mundial. Acho isso extraordinário e mostra que o futebol em África está a atingir outro nível de maturidade e está a cumprir o seu potencial. Acho que isso também é agradável de ver, especialmente quando daqui a quatro anos vamos ter Marrocos também a organizar o campeonato mundial.
Ainda temos tempo para olhar para um outro desafio, o dos 900 anos da Batalha de São Mamede e do comissário Paulo Portas, que foi a pessoa escolhida para estas celebrações. Nuno Garoupa, tens um naipe também para Paulo Portas?
Tenho um naipe, não é tanto para Paulo Portas, porque acho que essa discussão de Paulo Portas, enfim, as pessoas que gostam de Paulo Portas acharam bem, as pessoas que não gostam de Paulo Portas acharam mal, como é evidente. Nem vale a pena discutir se os 900 anos da Batalha de São Mamede, se é de 1139 ou de 1143, como andai essa discussão. Decidi quando é que Portugal-
Qual é o momento fundador.
O momento fundador. A questão fundamental para mim aqui é um princípio de consensualidade democrática que foi perdido. Isto é, a AD, na minha opinião, com muita razão, criticou o Partido Socialista por ter roto esse consenso quando nomeou Adão e Silva para o cargo de comissário para o aniversário de 25 de Abril, em que se queixaram que isso excluía o PSD e o CDS das comemorações e nomeava-se alguém que não era consensual aos principais partidos, e agora fazem exatamente o mesmo, mas com argumento. Tanto o primeiro-ministro como o MN vieram dizer que escolhem Paulo Portas porque ele é altamente consensual no país. Ora, eu só queria dizer que acho que ainda bem que ele é consensual na AD. Já lá vai o tempo em que os cavaquistas, Cavaco, Nobless e outros não gostavam de Paulo Portas e Paulo Portas não era consensual na AD. Mas ele não é consensual, certamente, à esquerda da AD, nem à direita da AD, nem na IL. Portanto, eles têm todo o direito de escolher quem eles entenderem. Agora, não podem é criticar o Partido Socialista por romper convenções da nossa democracia e depois fazer exatamente o mesmo ao lado e vir dizer que eles não, porque eles estão a escolher pessoas consensuais. Portanto, fica aí as copas para o descaramento da AD nesta escolha.
E fica também o desafio aos ouvintes para partilharem pensamentos ou perguntas para o episódio extra de domingo, em que um dos membros do painel responde aos comentários. É muito fácil, basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt. Este fim de semana, a resposta cabe ao Luís Aguiar Conraria. Na segunda parte do "Fora do Baralho", vamos à jogada da semana sobre os exames nacionais. Até já. Segunda parte do "Fora do Baralho", com Luís Aguiar Conraria, Jorge Fernandes, Susana Peralta e Nuno Garoupa. Eu sou Ricardo Conceição e na jogada da semana olhamos para os problemas com os exames nacionais e para o papel do ministro da Educação, mas temos que começar aqui por uma declaração de interesses. Luís Aguiar Conraria, queres fazer uma declaração de interesse sobre este tema e o ministro?
Neste caso, estou envolvido em todas as frentes. Digamos, eu tenho conflito de interesse em todas as frentes. Em primeiro lugar, sou muito amigo do Fernando Alexandre e portanto os ouvintes podem querer dar desconto ao que eu vou dizer a seguir sobre isso. Depois, simultaneamente, também tenho uma filha que está no 12° ano e a concorrer ao ensino superior e portanto também está envolvida nesses exames e também estamos ansiosos à espera dos resultados e de confirmar se as provas foram bem corrigidas ou não. E depois também tenho a minha cunhada, que é professora de Português e que já corrigiu 200 perguntas, ou lá o que é, ou lá quantas foram. E portanto, tenho acompanhado esta saga do lado dos professores e dos corretores também desde o início e portanto, de certa forma, isto dá-me bastante informação.
Tens uma visão do lado do utilizador, quase.
Tenho aqui a visão do lado do utilizador, que é minha filha, e do lado do corretor, que é minha cunhada. Com o Fernando Alexandre nunca falámos sobre isto, portanto aí não há nenhuma informação privilegiada.
E é com esta transparência que eu te pergunto o que achas de tudo isto.
Acho que isto correu mal e Acho que não há forma de não considerar que o Fernando, o Ministro da Educação, é a pessoa politicamente responsável, e não só, quase que até operacionalmente. E por que eu digo operacionalmente? Neste momento é conhecido e já todos percebemos que no ano passado houve uma experiência piloto com as provas de Filosofia, que correu mal e que as queixas que está a haver este ano são as mesmas que houve no ano passado, só que neste caso a uma escala muito maior. Pode ser uma decisão política, mas a decisão política de alargar as operações este ano para todos foi uma decisão imprudente. E eu estou a dizer imprudente de propósito, porque Fernando Alexandre usou a palavra imprudência para classificar as pessoas que tinham marcado férias para esta altura. Aqui a pessoa mais imprudente terá sido ele nesse momento. E faz isso numa altura em que fez uma enorme remodelação no seu Ministério da Educação, onde está em diversas frentes. Houve ali uma redução de organismos do Ministério da Educação. Ele disse outro dia, passou de 17 ou 19 para cinco ou seis, uma coisa assim do gênero. O IAVE, que era o instituto que antes era responsável por administrar os exames, acabou. Existe agora um novo que é o Educa e tem dirigentes escolhidos por ele, é um organismo escolhido por ele. Se isso funciona mal, a responsabilidade não há volta a dar, é dele. E depois também acho que durante todo este processo, ele esteve mal. E esteve mal no início ao desvalorizar as queixas que havia, dizendo que a maioria delas eram falsas ou erradas. Podia dizer que algumas eram erradas ou falsas, podia dizer que eram exageros, mas aquilo que eu ia conhecendo da minha cunhada, de facto, é que a maioria das queixas que havia desde o início eram verdadeiras. Ela teve vários dias para conseguir acceder à plataforma, depois quando acedeu à plataforma, acedeu aos exames errados. Todas essas queixas que se ouviram, a minha cunhada passou por isso e esse desvalorizar inicial correu mal. Correu mal e fez com que os professores se revoltassem. E depois a gestão política tem sido assim. Acho que agora finalmente está a dar a cara e está a assumir que o processo correu mal e está obviamente a querer garantir que corra bem e que acabe bem. Para mim, o que neste momento se passa é: claramente a responsabilidade política é dele, mesmo do ponto de vista operacional há aqui decisões operacionais que foram da responsabilidade dele. Claro que no fim de tudo, se as notas saírem no dia 17 e sair tudo direitinho, sem problemas e a segunda fase correr tudo bem, então de facto no fim de tudo será apenas um atraso de três dias, mas é aquele caso em que as coisas podiam ter corrido muito mal.
Já vamos olhar mais pra frente, deixa eu fazer aqui uma primeira ronda por todos, também sobre a vossa opinião sobre toda esta confusão. Susana?
Eu acho que o Luís já disse o essencial, ou seja, eu acho que Fernando Alexandre esteve mal no momento de avançar para este alargamento da correção, enfim, da digitalização dos exames para posterior correção. Já falei até disto aqui na semana passada e já disse as vantagens desse processo se ele tivesse corrido bem, mas de facto precipitou-se. Sabemos agora que houve um piloto, isto é uma experiência no ano passado com o teste de Filosofia, onde estes problemas já tinham sido aparentes. Sem um relatório técnico, sem se perceber que mudanças é que foram realizadas para se escalar para 300 mil exames de um exame que era apenas de uma disciplina. Eu não percebo nada de plataformas informáticas, como deves imaginar, mas certamente que havia aqui especialistas que podiam dizer: "A plataforma está ou não está preparada para a envergadura desta operação", etc. Fernando Alexandre avança, avança quanto a mim com um voluntarismo que não é admissível e que não é desculpável para uma política pública tão crítica. Voluntarismo em política pública é sempre mau, neste caso dos exames nacionais é de facto uma enorme irresponsabilidade. E desde que isto começou a surgir, desde que começam a vir a público as várias dificuldades que o Luís já referiu, a conduta de Fernando Alexandre foi desrespeitosa, na verdade. Faltou ao respeito aos professores, às pessoas que estavam ali a bater-se diariamente com os problemas da plataforma, desvalorizando as queixas, faltou respeito aos diretores de escolas, que culpou por causa de uma série de problemas, faltou respeito, como é evidente e acima de tudo às famílias e aos jovens envolvidos. Andamos aqui no passa-culpas, nós costumávamos ter aqui a rúbrica no Fora do Baralho, o passa-culpa para o PAS, agora é passa-culpas para o PS. Fernando Alexandre é ministro há mais de dois anos. Ele manteve a pasta, manteve até acho eu uma parte substancial da sua equipa e fez uma reforma que ele próprio chamou de uma reforma muito substancial no ministério, com fusão, ele extinguiu 18 entidades, meteu no lugar sete, fez uma coisa muito substancial. Aliás, foi até usado, quando o ministro Saraiva Matias entra no governo com a pasta da reforma do Estado, dá o exemplo do ministério de Fernando Alexandre como exemplo das reformas que quer implementar, porque ele ainda não tinha tido tempo de planear nenhuma. Não sei se entretanto já conseguiu ou não, já agora, porque esta reforma de Fernando Alexandre foi aprovada no Conselho de Ministros há cerca de um ano. Na altura, Saraiva Matias aparece como está aqui o exemplo e agora vamos avançar para os outros. Não sei se entretanto já conseguiu, fica aqui a pergunta. Seja como for, foi de facto dado como grande exemplo, portanto, Fernando Alexandre não pode obviamente vir dizer que a culpa foi do PS. Já seria estranho dizê-lo, mas quando ele mudou tudo e um par de botas naquele ministério, certamente para melhor, eu confio em Fernando Alexandre que ele tenha feito uma boa reforma, mas não pode agora vir dizer que a tua culpa é do PS. E depois disse e desdisse. Disse que as alterações eram marginais, que no fundo não tinham grande importância. Até disse já esta semana, numa das suas múltiplas entrevistas televisivas, que podíamos não ter mudado o calendário. Mas o que é isto? Muda-se o calendário, mas afinal podia não ter mudado. E depois disse que as famílias eram imprudentes, agora já quer compensar as famílias. Eu nem quero imaginar a entropia que aí vem se as famílias resolveram pedir as famosas compensações. Claramente ele é o responsável político por isto, não há nenhuma maneira de vir dizer. Já agora, há um spin, só pra terminar, que é: "Mas então a pessoa não pode fazer reformas?" Pode fazer reformas e até deve, desde que as planeie como deve ser e que as faça de cabeça fria.
Está a vir também o Nuno Garoupa.
Deixa-me acrescentar aqui uma ou outras coisas. No geral, estou de acordo com o Luís e com a Susana. Acho que do ponto de vista operacional, talvez há aqui uma ou outra coisa que faz um pouco de confusão. A primeira delas é como sabemos, aliás, a Susana já o viu isso, supostamente, o Estado fez uma grande reforma há oito meses e para isso criou o lugar de, e vou dizer em inglês, Chief Technology Officer, que seria o grande guru e a pessoa que estaria à frente dos sistemas do Estado, passou aqui entre os pingos da chuva. Portanto, pelos vistos, essa grande reforma do Estado, agora quando toca um problema tecnológico e operacional, afinal, não tem nada a ver com o que se está a passar na educação. Não percebi muito bem como é que ninguém foi perguntar ao atual CTO o que é que se passa e como é que o CTO não sabe o que se passa ou não tem nada a ver com isto. E outra questão, não vou fazer comentários sobre a empresa que está por trás da plataforma, porque não tenho condições de avaliar a qualidade da empresa, mas faz um pouco de confusão que o Estado tenha contratos com empresas de €12 mil de capital social, repito, €12 mil, para fazer face a uma coisa desta importância. Porque repara, quando agora se diz: "Vamos compensar, vai haver compensações." Para além das entropias que a Susana já falou, a minha pergunta é: mas quem é que vai pagar essas compensações? Os contribuintes? Então os contribuintes é que vão ter que compensar? A empresa não assume nenhuma responsabilidade? Não vai haver da parte do Estado um processo contra a empresa? Mas claro, se uma empresa tem €12 mil de capital social, é muito pouco provável que tenha capital para fazer frente àquilo que seria o custo destas indenizações e destas compensações. Há aqui problemas muito estranhos. Só em relação ao ministro, eu acho que há aqui um problema mais genérico, é que o governo e a AD parece que não perceberam o problema, porque Fernando Alexandre é neste momento o ministro mais popular e com melhor imagem deste governo. Isso foi um tiro no porta-aviões. E o que não se viu foi qualquer unidade da AD à volta do ministro. O primeiro-ministro foi pros jogos, nem comentou, nem quis comentar. Os outros ministros andaram todos meio desaparecidos a resolver os seus problemas. Sebastião Bugalho, que é o porta-voz da AD, não veio em socorro do ministro. Não se viu ninguém da AD se mexer para vir em socorro do ministro. Eu acho que isto é um pouco estranho, porque tenta em conta que era o ministro mais popular do governo, não estamos a falar da ministra da Saúde, que já é coitada, a ministra mais impopular do governo. Agora o ministro mais popular, pareceu que a AD minimizou o impacto deste problema e não compreendeu a seu tempo o alcance que isto pode vir a ter.
Jorge, vou aproveitar já esta referência à ministra da Saúde para dar aqui um passo em frente no tema. A ministra da Saúde tem resistido ao fogo cerrado e aos problemas. Luís Montenegro não mostra deixar cair ministros, mesmo quando o governo sai chamuscado. Neste caso, Fernando Alexandre, sendo a estrela do governo, poderá, se houver problemas, se isto tudo não se resolver até dia 17, poderá não cair?
Acho que depende um bocadinho. Acho que esse "se" que tu disseste, Ricardo, realmente é o ponto central. Depende um bocadinho. Se as coisas correrem bem e se de facto, no final, tudo isto se materializar apenas num atraso de dois ou três dias, penso que Fernando Alexandre poderá ter condições pra seguir em frente. À partida penso que poderá certamente aprendeu lições técnicas. E depois eu também gostava de dizer só uma pequena coisa sobre isso. O Luís tem aquela teoria, não sobre o Fernando Alexandre, mas em geral sobre a governação, que é a ideia de que um bom governo é um governo que não faz reformas. E eu, neste caso, confesso, quando eu comecei a ouvir falar disto, até posso perfeitamente ser convencido do contrário. Estou disponível pra ouvir argumentos a favor do contrário, mas eu fiquei um bocadinho, confesso, espantado, o que é que esta reforma traria de novo ou de benefícios à educação, globalmente, o fato de os alunos fazerem os exames normalmente, como sempre se fez, à mão, e depois haver um processo de digitalização por os professores corrigirem digitalmente. Sendo que ao longo das últimas décadas, que eu saiba, o processo de correção sempre correu relativamente bem, sem grandes problemas. Nunca soube falar, pelo menos que eu tenha visto, admito perfeitamente que possa ter acontecido, de algum estudo ou algum trabalho Que tenha mostrado que a correção manual ou que a correção nos moldes em que decorria trazia algum tipo de enviesamento, de pioria das notas ou de algum tipo de problema para determinados grupos socioeconômicos. Quando comecei a ouvir falar disso, fiquei espantado, porque por que se vai mexer numa coisa que funciona bem?
Jorge, posso dar aqui uma achega, se calhar. Não, aqui a questão é: quando tens de corrigir muitas provas, várias centenas ou vários milhares de provas, é mais justo, ou seja, tu consegues de uma maneira mais equitativa aplicar um critério quando pões a mesma pessoa a corrigir apenas uma pergunta. Ou seja, em vez de dar a um indivíduo um exame, dar uma pergunta para cada um.
Susana, há um contra-argumento a isso e tu também sabes, ou nós sabemos, que uma coisa é corrigir uma pergunta, outra coisa é ter a visão global de um exame, e os professores que corrigem perdem a visão global. Portanto, isso não é só prós, há aqui prós e contras.
Não, eu confesso que esse argumento que a Susana deu, eu já ouvi da Susana na semana passada e nunca tinha ouvido. E este que o Luís deu, para mim, como alguém que apesar de não ter alunos, estou na área da educação, globalmente falando.
Nós arranjamos, se quiseres.
É alguma coisa que pelo menos a ideia global da visão global do exame eu acho bastante interessante.
Não sei como é que recusas esta oferta tão simpática da Susana.
Não, dispenso.
Em todo o caso, para correções, Jorge, eu contrato, porque tem sempre muitas.
Não, mas o ponto para mim fundamental aqui que permanece é: eu acho que apesar de tudo, incluindo os gastos, digitalizar provas, será que isto é uma reforma que valha a pena um ministro como Fernando Alexandre, que objetivamente é altamente preparado, competente. Será que é isto que pediria que ele gastasse capital político desta maneira? Será que é esta a reforma da educação? Eu tenho as minhas dúvidas, pessoalmente.
Eu queria dar aqui mais uma achega. Relativamente à competência de Fernando Alexandre, eu também gosto de acreditar nela e também tenho uma relação razoavelmente próxima, não tão próxima, naturalmente, como o Luís, com o Fernando Alexandre, e já agora também fica aqui a declaração de interesses, mas de fato, isto é um flop monumental e a pessoa começa a pensar se isto, no fundo, é uma prova de uma grande incompetência. Até agora é um sinal de grande incompetência, portanto, vamos lá ver se ele consegue demonstrar a sua competência de outras formas. Eu só queria dizer uma coisa relativamente ao primeiro-ministro, que tem muita graça, que é: de fato, o Luís Montenegro finalmente falou, disse qualquer coisa lacônica: "O governo está a trabalhar na digitalização", mas sobretudo, o que tem muita piada, eu não sei como é que ele achou que isto era mesmo, mas para vocês terem uma ideia, Luís Montenegro prestou estas declarações num casinho da Solverde e há uma imagem de Luís Montenegro a circular nas redes sociais, que é o Luís Montenegro com um grande sinal luminoso Solverde por trás, a falar desta questão das provas digitais. Julgo que ele podia certamente arranjar um local melhor, porque isto é uma péssima imagem de uma pessoa que nós sabemos que foi para o governo ainda avençado pela Solverde.
Luís. A saída do estádio de futebol seria mais adequada.
Certamente.
Luís, tu não acreditas que Fernando Alexandre possa cair mesmo que isto corra muito mal?
Se for uma catástrofe completa em que seja necessário voltar a corrigir os exames de início fisicamente, provocaria um atraso de um mês ou dois e estragaria as férias dos professores todos durante agosto, claro que aí sim. Mas dentro do que é expectável quando se diz correr mal, eu acho que é muito difícil que ele saia, porque Fernando Alexandre, de fato, tem uma virtude ou um defeito, dependendo de se concordar ou não com as coisas que ele está a fazer, que é ele estar a mudar imensa coisa ao mesmo tempo. Era muito difícil alguém neste momento pegar na pasta dele. Era muito difícil, porque há tanta coisa a mudar no ensino superior, universidades novas a serem criadas, regime jurídico das instituições do ensino superior a serem mudados, diplomas dos investigadores a serem mudados, carreira docente a ser negociada. É tanta coisa neste momento que está a ser feita, que está a ser posta em cima da mesa, que era impossível substituí-lo, a não ser que fosse pelo seu secretário de Estado adjunto. Mas também acho que nesta situação em concreto, caindo o Fernando Alexandre, o secretário de Estado adjunto também tinha que cair, como parece que até terá sido ele mais próximo, terá sido o secretário de Estado até a estar mais envolvido nestas operações do que o ministro, que faz muito bem em assumir a responsabilidade e dar a cara.
Nuno Garoupa, como é que achas que vai acabar esta história?
Eu concordo, eu acho que o ministro não vai ter que sair, porque acho que apesar das coisas terem corrido mal e ainda poderem correr ligeiramente mal, não penso que vá ser catastrófico. Portanto, eu não vejo como provável a saída de Fernando Alexandre, até porque a saída de Fernando Alexandre, com base no que se passou até agora e do que é previsível, como eu disse há pouco, colocaria em xeque outros ministros do governo que, na minha opinião, têm um desempenho bastante pior que Fernando Alexandre. Agora, eu acho que representa um problema para a AD, porque isto era o ministro estrela, isto era a pessoa que de fato dava uma aura de competência e de visão ao governo. E quando esse ministro estrela é um ministro que tem agora uma estrela que está a cair e de fato a AD, por qualquer razão, atrasou-se a perceber este problema, incluindo o próprio primeiro-ministro, acho que isto cria alguma fricção. Agora, vamos ver o lado positivo disto. Se isto estiver acabado dentro dos dois, três dias fora do prazo, mas estiver acabado até o fim do mês, vamos para verão, vamos ter depois o discurso do Pontal e é possível que em setembro vamos ter novos problemas, problemas diferentes e tudo isto estará ultrapassado em setembro. Ao contrário, por exemplo, do que são os problemas na saúde, porque esses são recorrentes e voltam sempre e o ministro está sempre a apanhar bonés. Se não é o verão, o inverno, se não o inverno, é o verão, se não é o INEM, se não é o não sei o quê. Eu acho que isto pode ficar resolvido deste ano, depois logo se vê.
E fica por aqui o "Fora do Baralho" desta semana. Fica também aquela nota habitual para o nosso episódio extra dos domingos, em que respondemos às perguntas dos ouvintes. O endereço de e-mail é foradobaralho@observador.pt. No domingo será o Luís Aguiar-Conraria a responder às perguntas dos ouvintes. Eu sou o Ricardo Conceição. Só lembrar que o "Fora do Baralho" estreia na Rádio Observador às sextas-feiras, às 19h, e repete no sábado de manhã e no domingo à tarde na rádio. Para a semana, há mais "Fora do Baralho". Bom fim de semana.