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Está a chegar ao fim uma semana em que Donald Trump anunciou um cessar-fogo entre Israel e o Irão, naquela a que chamou a guerra dos 12 dias. Ao fim de semana, por aqui, são os ouvintes que questionam os ases do Fora do Baralho e um dos nossos ases responde. Desta vez é o Luís Aguiar Conraria. Bem-vindo, Luís. As horas a seguir a esse cessar-fogo anunciado por Donald Trump foram agitadas. Houve troca de ataques entre Israel e o Irão e o presidente dos Estados Unidos surgiu quase que revoltado e desiludido a dar uma espécie de murro na mesa. A Anabela Sousa tem uma dúvida para te colocar exatamente sobre isso. Donald Trump pode sair como o pacificador do Médio Oriente depois desta semana?

Eu acho que nós neste momento temos muito pouca informação e não sei se alguma vez a teremos, mas objetivamente pode. É difícil fazer previsões e, portanto, acho que ninguém consegue verdadeiramente prever o que Israel ou o Irão irão fazer nas próximas semanas, mas de facto com aquela posição de força que tomou, dando o murro na mesa e dizendo que os governantes daqueles países, "they didn't know what the fuck they were doing", tenho que dizer isto em inglês, que realmente as hostilidades pararam e portanto, se de facto isto se mantiver, acho que sim.

A forma como ele falou também o levou a mostrar ser o homem forte das negociações.

Não sei. Eu, por acaso, acho que aqui mostrar algum desespero nunca é uma boa política nessas coisas. Eu acho é que objetivamente é um homem forte, independentemente do resto. A partir do momento que todos nós conhecemos e todo o mundo conhece o poderio militar dos Estados Unidos, e a partir do momento em que Donald Trump sinalizou que está disponível para intervir militarmente, digamos que a posição de força está lá por natureza, independentemente de qualquer declaração mais ou menos disparatada que ele faça. Aliás, eu aqui nem sequer acho que é disparatada, é simplesmente grosseira. Uma pessoa não está habituada a ouvir um presidente a falar assim, mas de resto quase que dá vontade de dizer que ele tem razão.

Eu estava a perguntar também porque houve muito quem dissesse, até também à boleia do que aconteceu relativamente à Ucrânia, que Donald Trump, durante a campanha eleitoral, disse que ia acabar muito rapidamente com a guerra. Parece que ele foi um pouquinho descredibilizado quando isso não aconteceu e aqui aconteceu tudo de forma bastante diferente.

É verdade o que estás a dizer, mas o meu problema com isto é que eu, de facto, sinto-me muito pouco informado. Eu não sei qual é a realidade. Os Estados Unidos lançaram umas bombas daquelas que supostamente penetram na terra, no solo, e que vão por ali abaixo uns 100 metros ou uma coisa assim do gênero, antes de explodirem, para destruírem infraestruturas militares, ou pelo menos passíveis de contribuir para o programa atômico do Irão. Mas é impossível nós verificarmos isto. O que eu penso aqui nisto? Imagina que o ataque foi um fracasso. Nós, conhecendo Trump como conhecemos, sabemos que Trump iria dizer que tinha sido um enorme sucesso. E agora imagina o contrário. Imagina que foi um enorme sucesso. Também faz parte da natureza das coisas que o líder do Irão venha dizer que foi um enorme fracasso. E portanto, quer as declarações do Trump, quer as declarações do líder do Irão, peço desculpa não me lembrar agora do nome, são vazias, porque eles tinham de dizer aquilo acontecesse o que acontecesse. E depois, não temos aqui a possibilidade de haver um fact check dos jornalistas. Quando há um hospital que explode e uma parte diz que é por engano, ou uma parte diz que é civil e a outra parte diz que era uma base militar, costuma haver ali jornalistas que acabam por fazer alguma triagem e nos permitem pelo menos suspeitar de quem está a dizer a verdade. Aqui neste caso, não há mesmo informação nenhuma, não é possível haver, faz parte da natureza das coisas, dado que as instalações eram subterrâneas. E, portanto, eu não sei. Se Trump forçou o fim da guerra, se o tiver feito, não tendo destruído a capacidade do Irão para construir ou para avançar rapidamente com o seu programa militar, então, na verdade, isto é um fracasso. Só que nós não temos possibilidades de saber isso. E claro, o contrário, se de facto destruiu a capacidade do Irão nos próximos três, quatro anos de seguir com o seu programa para uma bomba atômica, para as suas armas nucleares. Nesse caso, foi um enorme sucesso. Agora, eu não me sinto minimamente capaz de dizer qual é que é o caso.

Pela falta de informação, sim. Ainda sem esse.

É isso, é pela falta de informação e pela ideia que tenho que nos próximos dois, três meses ou dois, três anos, será impossível eu saber qual é a informação correta, porque eu não estou a ver aqui nenhuma forma de escrutínio que seja fiável.

Claro. Sem sair deste tema, outra pergunta: o presidente dos Estados Unidos aparentemente conseguiu resolver este problema, mas continua sem sucesso no que à questão de Gaza diz respeito. Por que razão é que é mais complicado Donald Trump convencer Israel neste caso?

Eu também acho que o caso de Gaza é diferente. Até do ponto de vista externo, de pessoas como eu, é uma situação menos óbvia. Enquanto que no caso do Irão, acho que é mais ou menos consensual que eles não podem desenvolver um programa militar a nível nuclear e, portanto, que têm de ser travados. No caso de Gaza, eu acho que as questões morais e éticas já há muito que desapareceram e não é há muito de meses, é de décadas, e que neste momento aquilo é, de facto, uma enorme confusão, é difícil opinar sobre o que ali se passa. Agora, a minha primeira impressão é: enquanto houver reféns, não será possível convencer Israel do que quer que seja.

Se calhar, esse devia ser o primeiro passo de Donald Trump, convencer, neste caso, o Hamas a libertar os reféns.

Como é que se faz isso?

Seria difícil.

Como é que se faz isso? Honestamente, e isto que é um julgamento de intenções, que eu não tenho também, mais uma vez, forma de validar se está correto ou não, para mim, nem sequer é óbvio que do ponto de vista do poder político de Israel, lhes interesse que os reféns sejam devolvidos, porque acho que neste momento eles têm, de facto, um objetivo que é liquidar completamente o Hamas e enquanto isso não acontecer, acho que pesando os prós e os contras, que neste momento o poder político e militar de Israel está disposto a sacrificar alguns reféns, em troca de conseguir destruir completamente o Hamas. Portanto, aqui não vejo um fim à vista.

Aliás, há um momento esta semana em que as Forças de Defesa de Israel acabam por dizer que o assunto da tal guerra de 12 dias está tratado e vão virar-se novamente para Gaza. Isso também diz muito sobre o que se passa ali no Médio Oriente.

Pois, nem tinha ouvido essas declarações, mas mostra, de facto, que neste momento essa é a prioridade. Do ponto de vista também do Irão e da questão do Israel e Irão, o facto de os Estados Unidos sinalizarem que estão dispostos, disponíveis para intervir militarmente, ainda mais, nós agora soubemos que a própria França também interveio militarmente, interceptando alguns drones do Irão, que eram dirigidos a Israel. Portanto, essa sinalização de dois países poderosos da NATO para intervirem numa guerra contra o Irão, de facto, também, de certa forma, deixa Israel descansado em relação a esse lado dos seus conflitos. E portanto, centram-se em Gaza. Mas Gaza, a situação penso que é eticamente muito mais dúbia, moralmente muito mais questionável.

Só para terminar, há aqui uma pergunta final da nossa ouvinte Filipa Nogueira para este "Fora do Baralho" especial ouvintes, também relacionada com o Médio Oriente. Numa semana em que o preço dos combustíveis disparou, qual é que é o impacto que a guerra Israel-Irão tem no preço do petróleo?

Como foi curta, o impacto é temporário, passa. Admitindo que as tréguas se mantêm. Não penso que haja mais consequências do que essas. Aliás, se eu vi corretamente os dados, os combustíveis devem aumentar agora, mas da semana a seguir já vão baixar. Portanto, aliás, os nossos ouvintes que consigam aguentar uma semana sem pôr combustível, devem esperar pela próxima semana para voltar a reabastecer os seus automóveis. Este efeito é temporário. Agora, claro, uma guerra que durasse mais tempo, em que o Irão, de facto, conseguisse bloquear o Estreito de Ormuz, por onde grande parte do petróleo que é fornecido para o mundo inteiro passa, é evidente que o impacto era de disparar os preços de combustíveis no imediato, nos primeiros meses, e depois o resto do mundo reagiria, poderia aumentar a produção de petróleo, mas o impacto seria sempre muito grande. Para as pessoas terem noção, o Irão é o terceiro ou quarto maior produtor mundial de petróleo. Tem um peso muito grande na formação do preço internacional do petróleo. Portanto, isso seria inevitável.

Muito obrigada, Luís. Esta semana ficamos por aqui. Quanto aos nossos ouvintes, já sabem que os Quatro As respondem às perguntas e também podem ser desafios ou curiosidades que queiram saber. Escreva-nos para foradobaralho@observador.pt. Bom fim de semana.