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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos debater nos próximos minutos o conflito na Ucrânia, também a situação no Médio Oriente, mas hoje com grande destaque para a Ucrânia, até porque há um acordo a ser desenhado entre a Ucrânia e os Estados Unidos da América para ser enviado para a Rússia. Zelensky falou disso hoje mesmo. Durante os próximos minutos converso com Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais. Muito boa tarde, boas festas e obrigado por estar conosco na Rádio Observador. Vamos começar por este acordo, mas antes com uma situação que não está propriamente no acordo de 20 pontos que Zelensky detalhou e que está detalhado também numa conferência de imprensa de Zelensky ainda durante esta manhã. Mas Zelensky, para além de avançar com este acordo de 20 pontos, deixou algo que não está dentro desse documento, que é a disponibilidade da Ucrânia para criar uma zona desmilitarizada em Donetsk. É a primeira vez que a Ucrânia admite isto, mas diz: "Lá está, a Rússia tem que fazer exatamente o mesmo". Como é que isto poderia funcionar e como é que vê esta posição por parte de Zelensky?

Olá, Miguel, muito boa tarde. Já também a si, aos seus e a todos os nossos ouvintes, um santo e feliz Natal. A sua pergunta é extremamente pertinente, mas ela vem ao encontro daquilo que tem sido a estratégia, quer da Ucrânia, quer também da União Europeia, que é apresentar todas as condições para que os Estados Unidos possam apresentar à Rússia uma proposta de cessar-fogo. Estes 20 pontos, se nós formos analisar ponto a ponto, nós encontramos ali imensas coisas que eram pretensões e que sempre foram pretensões por parte da Rússia, como a obrigatoriedade de marcarmos eleições imediatamente a seguir à assinatura do acordo, que as escolas ensinassem o russo e o ucraniano, e a cultura russa e ucraniana, e de alguma forma pudesse prevalecer a situação de que as crianças vão aprender na escola que são dois países que apesar de terem muito em comum, são duas culturas diferentes. Há a questão das garantias de segurança, que efetivamente uma das garantias é a Ucrânia não entrar na NATO, mas fica sob uma proteção muito parecida com o artigo quinto. Isto é uma forma de a Ucrânia dizer duas coisas. Primeiro, mostrar à Rússia e ao mundo de que está disposta efetivamente a chegar a um cessar-fogo. E esta é a grande diferença daquilo que seria a visão de Donald Trump e a visão de Vladimir Putin, que no momento de enorme fragilidade de Zelensky, quando Zelensky teve aquela semana muito complicada, com as questões de corrupção que levaram à queda do seu chefe de gabinete, a questão no Donbass, os avanços que os militares russos faziam no terreno, e portanto, era uma semana extremamente complicada. A União Europeia não sabia muito bem como é que iria continuar a financiar a Ucrânia e portanto, nesse momento, parece-me a mim, que Donald Trump e Vladimir Putin pensaram que poderiam efetivamente derrubar Zelensky, obrigar Zelensky a aceitar um modelo de proposta de paz, de acordo de paz, muito parecido àquilo que era o processo de paz na Faixa de Gaza. E veja, Miguel, curiosamente, que o 19º ponto deste acordo é que será criado um conselho de paz presidido por Donald Trump com a Ucrânia, a Europa, a NATO, a Rússia, e que os Estados Unidos farão parte deste mecanismo. Isto é exatamente aquele famoso conselho de paz que ia ser criado para o Médio Oriente, especialmente para a questão da Faixa de Gaza, e que até hoje não foi. Portanto, o que nós vimos aqui, se nós analisamos, é uma abertura enorme, e eu já lá vou ao Donbass, é uma abertura enorme por parte da Ucrânia, da Europa, da chamada coligação de vontades, para mostrar que efetivamente a Ucrânia está disposta a um cessar-fogo, mas é um cessar-fogo que permita, em primeiro lugar, parar as hostilidades e num segundo ponto, sentarem-se à mesa os líderes russos e ucranianos sob a supervisão da Europa e dos Estados Unidos, e que possamos então ir ponto a ponto encontrar uma solução para a paz. Agora, não é isto que o Trump quer e não é isto que Vladimir Putin quer também. Esta oferta da questão do Donbass de criar uma zona desmilitarizada, nós estamos a falar criar aquilo que mais ou menos vínhamos a falar, que era congelar a linha da frente e fazer exatamente como acontece aquela linha entre as duas Coreias, que é uma zona desmilitarizada de vários quilômetros que separa a Coreia do Norte à Coreia do Sul, ou então, muito mais perto, aqui bem dentro do coração da União Europeia, nós temos os Chipres, que têm exatamente a mesma coisa. Também têm uma zona desmilitarizada entre o Chipre que é turco e o Chipre que é grego. E portanto, essa zona desmilitarizada seria também controlada por uma força. Nessa força, não sabemos ainda muito bem que tipo de exércitos poderiam fazer isso, que países poderiam fazer isso, quando nós sabemos que a Rússia nunca vai aceitar exércitos e militares da NATO dentro da Ucrânia.

Nesse sentido, naturalmente, vamos ter de esperar agora uma posição da Rússia perante este acordo. Para já, certo é que o Kremlin não comenta o plano de paz desenhado pelos Estados Unidos da América com o apoio da Ucrânia. Vamos ter de aguardar por novas reações a este entendimento entre os Estados Unidos e a Ucrânia, um plano de 20 pontos Certamente já se fizeram muitos planos de paz e de cessar-fogo para este conflito. Vamos ver o que dá este e o que dá também este período de conversações que está em andamento. Houve um ataque em Moscovo, um ataque na Rússia, polícias russos mortos. Foi noticiado depois que eram suspeitos de torturar prisioneiros de guerra, dois polícias russos que morreram esta manhã em Moscovo. Como é que vê este incidente? Como é que explica um incidente destes na capital russa?

Obviamente que nenhum de nós está de acordo que haja qualquer tipo de ataques que possam, de alguma forma, serem ataques que não sejam de acordo com aquilo que são as regras de guerra e as guerras estabelecidas pelas várias convenções internacionais. Mas se nós formos pensar, efetivamente, eu acho que de lado a lado nós já ultrapassamos certas linhas vermelhas. O que está a acontecer é que os serviços secretos ucranianos estão a ter capacidade de, dentro do território russo, efetuar operações. Portanto, também não é nada que a Rússia não faça, não só dentro da Ucrânia, mas também noutras partes. Quem é que não se esquece de vários opositores russos que foram envenenados e que foram assassinados, por exemplo, no Reino Unido. E, portanto, o que nós estamos a assistir é, não só com o assassinato do general que tivemos na segunda-feira, mas também o que estamos a assistir agora são operações militares levadas a cabo por parte dos serviços secretos ucranianos, são operações que não são contra alvos civis, são contra alvos específicos e têm essa especificidade de tentar e de demonstrar para Vladimir Putin, primeiro, que a Ucrânia tem condições de, dentro do território russo, fazer operações militares. E depois, está a acontecer agora também à Rússia, o que não acontecia antes, Miguel, era que antigamente este cansaço de guerra, esta fadiga de guerra, o facto de que a população civil sentia a guerra muito próxima, acontecia só na Ucrânia. O que agora está a começar a acontecer é que no coração da Rússia, em Moscovo, estão a haver ataques, não, e repito, não contra alvos civis, porque a Ucrânia não o fará, mas estão a acontecer contra alvos militares e são operações muito específicas. Nós estamos a ver aqui um modelo muito parecido com aquilo que é o modelo utilizado, por exemplo, pela Mossad, mas são efetivamente operações militares dentro do território russo, o que para a elite militar russa, para a elite governativa russa, demonstra algo que até agora era profundamente desconhecido, é de que a Ucrânia, quando organizada, consegue fazer esses ataques. Mesmo para terminar, não esquecendo o ataque ao petroleiro que foi feito em águas internacionais no Mediterrâneo ou, por exemplo, o ataque que foi feito na base naval, que fica a mais de 1000 km da fronteira entre a Ucrânia e a Rússia, portanto, vamos chamar a fronteira ou linha da frente da guerra, e que é feita também através de um drone subaquático. Isto significa que, em primeiro lugar, a Ucrânia não está a perder a guerra, a Ucrânia não está incapacitada militarmente de responder. Nós sabemos, efetivamente, que precisaria de ter condições de aprofundar a guerra e ter capacidade de infligir militarmente na profundidade da Rússia também. E para isso nós falámos muito sobre os Tomahawks e os Taurus. De toda a forma, isto representa que a Ucrânia, quando organizada e quando quer infligir estes ataques e estas baixas, quer a militares, quer a polícias, o consegue fazer e isto efetivamente é algo de que Vladimir Putin não contava ou pelo menos não estava habituado.

Na região do Médio Oriente, estamos agora num período de Natal, já com período de cessar-fogo, depois de vários meses de conflito e com anos passados em que a situação foi bem mais tensa. Há festividades que se podem realizar em algumas cidades, sempre com preocupação ainda por um cessar-fogo que continua a ser recente. Ainda hoje uma situação em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, ficou ferido um israelita. Israel diz que vai responder a esse ataque do Hamas, acusa o grupo terrorista, Netanyahu, de não estar a respeitar o plano de 20 pontos de Donald Trump. É de facto uma situação de cessar-fogo que tem tido vários conflitos pelo meio e vários ataques, várias situações a acontecerem pelo meio, mas já é uma situação bem diferente daquilo que se viu em outros períodos festivos em meses anteriores.

Isso é verdade. É verdade que a Faixa de Gaza não está sob intenso ataque por parte de Israel, não está sob o intenso ataque que era perpetrado quase diariamente e de uma forma indiscriminada que Israel fazia sobre a Faixa de Gaza, o que levou aos milhares de mortes civis que isso acontece, mas também sabemos que não existe neste momento um plano Para a implementação daquilo que era a ideia, quer daquele Conselho de Segurança, quer a entrada de uma força de manutenção de paz. Israel não quer a Turquia por razões óbvias. Depois, a ideia era trazer talvez o Paquistão ou até mesmo o país no mundo que tem a maior quantidade de muçulmanos, que é a Indonésia, trazer a Indonésia, portanto, trazer dois países muçulmanos que não sendo da região poderiam de alguma forma ajudar a fazer essa manutenção de paz. Mas tem aqui um problema, Miguel, que é apesar de Miguel ter dito, e muito bem, que foi assinado um acordo de 20 pontos, curiosamente também os 20 pontos que são propostos para a Ucrânia, portanto, é quase um modelo copy paste americano, nós continuamos com ataques quase diários de parte a parte. Da mesma forma que nós sabemos que a faixa da linha amarela, que era para ser considerada como uma faixa chamada terra de ninguém, essa linha que dividia, que era uma linha de segurança entre a Faixa de Gaza e Israel, foi ocupada por Netanyahu e foi ocupada de uma forma permanente, com a total destruição do que existia nessa linha. Portanto, é efetivamente um momento um pouco melhor, porque não estamos a assistir a ataques diários à Faixa de Gaza, mas, como disse há pouco, é verdade, Israel voltou a acusar o Hamas de violar o cessar-fogo em Gaza e afirma que responderá. Isto é uma notícia que tem pouco mais de uma hora. Nós sabemos que também no norte, o Hezbollah continuou, supostamente estaria ativo e houve ataques por parte de Israel, apesar do Líbano dizer que não tem absolutamente nada a ver com os ataques e com o que aconteceu. E nós também assistimos ainda ontem à quantidade de habitantes da Faixa de Gaza que tentam de alguma forma reconstruir a sua vida num local do planeta que neste momento deve ser um dos locais mais destruídos e com menos infraestrutura que nós podemos conhecer. Será um Natal difícil, será efetivamente um momento de festividades extremamente complicado, mas sim, é verdade, estamos melhor do que estávamos há um ano atrás. Agora, a paz está muito longe. Netanyahu continua a não aceitar de forma absolutamente nenhuma a ideia da criação dos dois Estados. E isto é algo que Netanyahu fez a sua carreira política contra, portanto não iria alterar agora. E depois, nós sabemos que continua a existir uma vontade premente, por parte de Israel, da anexação também daquilo que é não só a Faixa de Gaza, de forma total, mas acima também a questão da Cisjordânia, chamado West Bank. E portanto, 2026 vai ser um ano em que vamos ter de voltar a olhar e estar muito atentos a este local do planeta. Agora, enquanto não haver vontade de Israel de criar efetivamente os dois Estados, será sempre extremamente difícil haver um processo de paz. Depois, tinha outra questão e com isto termino, Miguel. É que não se conseguiu, de forma absolutamente nenhuma, desmilitarizar o Hamas, que era efetivamente um dos pontos que estava na primeira fase do acordo de paz e não se conseguiu. Por que não se conseguiu? Vamos imaginar isto aqui de uma forma quase acadêmica. Mesmo que o Hamas se quisesse desmilitarizar, fica aí esta pergunta: a quem é que o Hamas ia entregar as armas, uma vez que essa tal força de manutenção de paz, que já deveria estar no terreno, não foi criada, nem se sabe quando será.

Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais, muito obrigado por ter estado conosco neste Gabinete de Guerra.

Obrigado. Feliz Natal.

Obrigado e boas festas.