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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que destacamos os principais focos na geopolítica mundial. Hoje contamos com a análise de Luís Tomé, professor catedrático, diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa. Luís Tomé, seja muito bem-vindo. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar sobre a situação no Médio Oriente, até porque o Irão e Omã terão finalizado um acordo-quadro sobre o Estreito de Ormuz. Prometem mais detalhes em breve. A informação é avançada pelo porta-voz da Comissão Parlamentar do Irão de Segurança Nacional. O que é que podemos retirar deste acordo entre Irão e Omã e o que é que pode ser considerado uma boa notícia para o Médio Oriente?
Olá, boa tarde. Aparentemente, ambas as partes dizem que o acordo está fechado, só falta ser confirmado pelas mais altas autoridades de cada um dos países, mas a confirmar-se que isto é aceite não apenas pelos dois países ribeirinhos do Estreito de Ormuz, mas por outros, a começar pelos Estados Unidos, isto pode finalmente reabrir o Estreito. Das notícias que surgem dos termos do acordo, vai haver temporariamente navegação por uma rota central e, portanto, os dois países vão coordenar as operações para depois também começarem a fazer o tráfego marítimo na rota junto à costa iraniana e uma outra rota junto à costa de Omã. Mas falta perceber se está ou não está previsto algum tipo de pagamento de serviços, porque vários indícios dos dias anteriores apontavam no sentido de o acordo ser estabelecido em termos bastante próximos de algumas práticas que há noutros estreitos naturais, a começar por Malaca. Isto é, havendo um pagamento voluntário de serviços por parte de países e por parte de empresas que operam tráfego marítimo a Omã e, em particular, ao Irão. A questão é que o Irão foi negociando sempre na base de que deve ter direito de controle e soberania até para lá daquilo que lhe compete territorialmente no Estreito de Ormuz, e Omã foi-se posicionando a dizer que estava a negociar em nome do mundo e, portanto, aparentemente, também com articulação com os Estados Unidos. Mas é cedo para percebermos se isto efetivamente é assim ou não, porque já anteriormente tivemos notícias de algum tipo de negociação próxima do fim entre os dois países e outros atores impediram que esse acordo acabasse por vingar. Veremos se esta é uma situação diferente. Esperemos que sim, mas temos que ser cautelosos com as boas notícias desta região.
Uma outra notícia que marca também o Médio Oriente hoje, Luís Tomé, é este novo pacto de defesa trilateral entre Arábia Saudita, Paquistão e Turquia, que contém uma espécie de artigo quinto da NATO, ou seja, um ataque a uma destas nações é considerado um ataque a todas as três nações. O que é que significa esta aliança para a região?
Em primeiro lugar, é uma aliança entre três países sunitas. É anunciado como um pacto de defesa conjunto e, portanto, o próprio texto diz isso que acabou de referir. Qualquer ataque armado contra um dos três será considerado um ataque contra todos. Estes mesmos três países de maioria sunita já tinham formado em março um quarteto sunita também com o Egito, no fundo, para contrapeso quer a Israel quer ao Irão, e os quatro, estes quatro países sunitas, portanto, para além da Arábia Saudita, do Paquistão e da Turquia, o Egito, estão também entre os 14 países fundadores da nova coligação para a livre navegação no Mar Vermelho, que a Arábia Saudita criou em 30 de julho, em resposta precisamente à ameaça dos Huti do Iémen, apoiados pelo Irão. Isto, aliás, vem na sequência de uma aliança em setembro de 2025, Paquistão e Arábia Saudita tinham estabelecido um acordo estratégico de defesa mútua, ao abrigo do qual, por exemplo, o Paquistão enviou caças para uma base saudita já no contexto da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão. Portanto, eu diria que estas várias alianças sunitas, incluindo esta trilateral hoje firmada, salientam claro as ramificações do conflito dos Estados Unidos com o Irão, a perda de confiança clara dos países de maioria sunita na paz americana e inserem-se nos realinhamentos geoestratégicos que estão em curso no Médio Oriente. É bastante relevante. Eles anunciam como sendo defensiva esta nova aliança sunita tripartida, mas a realidade é que o Irão já veio dizer que a Arábia Saudita não vai ter mais segurança com este tipo de pactos, tal como não tinha apenas com a aliança com os Estados Unidos e parece-me que Israel também não vai gostar e se se pronunciar publicamente, vai dar mostra de não gostar deste tipo de concertação entre países sunitas.
Vamos ainda manter-nos no Médio Oriente, porque há rumores no topo do regime iraniano que apontam para uma morte iminente de Moïtaba Khamenei, o novo líder supremo do Irão. A minha pergunta é se estamos perante uma situação em que se há fumo é porque há fogo?
Pode ser que sim. Não será uma surpresa se efetivamente Moïtaba Khamenei for anunciado como morto, o tal martírio, como vêm dizendo algumas fontes iranianas, mas também não temos a certeza se tudo isto não é uma manobra de desinformação ou de contrainformação que tanto pode vir de dentro do regime iraniano, como inclusivamente do lado de Israel ou dos Estados Unidos. Sem ter estas informações, no entanto, eu suspeito que isto é mais orquestrado pelos chamados moderados do regime iraniano Porque as fontes que são indicadas nas várias notícias apontam o gabinete do presidente e do primeiro-ministro iraniano. Portanto, as fontes são de dentro. E como nós percebemos, o regime iraniano embora tenha sobrevivido, está bastante dividido. E creio que este tipo de notícia apontar para a morte iminente do atual líder supremo é, de alguma forma, dos moderados que querem negociar e fechar algum tipo de acordo com os Estados Unidos, até para recuperar da dificílima situação econômica em que o país está, mas que percebem que há outra ala, outras fações, designadamente do Corpo da Guarda Revolucionária e alguns líderes próximos de Mostaba Khamenei, que não querem negociações e muito menos qualquer tipo de concessão aos Estados Unidos. Portanto, em todas as incertezas que temos neste contexto, eu creio que isto é mais favorável aos moderados iranianos para tentar limitar a autoridade daqueles que se dizem próximos do novo Aiatolá e, em particular, daquelas fações mais duras do Corpo da Guarda Revolucionária. Mas tudo isto com muita especulação, porque não temos as fontes seguras.
Luís Tomé, vamos mudar de assunto, falar sobre o conflito entre a Ucrânia e a Rússia, até porque hackers russos dizem que os ataques ucranianos a refinarias na Rússia tiveram envolvimento da NATO. Ora, esta é uma acusação muito grave. Não é a primeira vez que a Rússia dá indicações neste sentido. Que alerta é que podemos tirar daqui, tendo em conta também que os Estados Unidos deixaram um alerta para um possível ataque russo a um aliado da NATO até 2029. São dois temas para analisarmos. Temos quatro minutos para o fazer.
Isto está tudo interligado, mas na verdade isto é recorrente. Do lado russo, as acusações cíclicas de que aquilo que a Ucrânia está a fazer é, no fundo, uma guerra por procuração ao serviço da NATO. Isto é repetido porque o regime de Putin vai tendo que justificar internamente e também para alguns parceiros externos, o fracasso daquilo que é a tal operação militar especial lançada em fevereiro de 2022. Como não consegue os grandes objetivos de finalizar a guerra ou a capitulação da Ucrânia ao longo de todos estes anos, está sempre a dizer que, no fundo, a guerra é da Rússia contra a NATO para assim poder melhor justificar o insucesso estratégico militar na Ucrânia. Por outro lado, também ciclicamente, nós temos notícias de vários países e fontes de intelligence, seja de países bálticos, Polônia, Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, como agora de novo a intelligence americana, para o risco de a Rússia fazer um ataque direto, seja ele um ciberataque de grandes dimensões ou até mesmo uma incursão terrestre contra um país membro da NATO. E agora tem aqui um calendário entre o outono deste ano e 2029. É verdade que os cenários variam, mas este relatório da intelligence americana fala num risco que aumenta à medida que o tempo passa e, por outro lado, um risco que aumenta se o regime de Putin ficar mais desesperado. Agora, todos nós pomos esta hipótese há bastante tempo de a Rússia fazer mais qualquer coisa, designadamente contra um país membro da NATO, que vá para lá destas ameaças híbridas e da guerra híbrida que leva a cabo contra países europeus, membro da União Europeia e da NATO. E 2029 ou até mesmo 2028 são, creio eu, anos de grande risco, porque nós vamos ter eleições muitíssimo polarizadas presidenciais nos Estados Unidos em 2028. Ainda por cima, sabemos a articulação da Rússia com a China, que também está em crescendo no seu bloqueio e ameaças em relação a Taiwan. Portanto, nada disto é propriamente novo, mas faz parte de uma retórica de antagonismo. O que é difícil perceber é porque é que em todo este contexto e no meio desta retórica, o presidente Trump deu o dito pelo não dito e agora, pelos vistos, não quer dar as tais licenças à Ucrânia para a produção de mísseis Patriot. Isso é que é o mais estranho, porque isso significa que Putin pode continuar a jogar na tentativa de alcançar com Trump aquilo que militarmente não consegue na Ucrânia.
E é um desejo de Volodymyr Zelensky, essa licença para a construção e para o fabrico de mísseis Patriot na Ucrânia. Chegamos-
E bem precisa