Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Rádio Observador, falamos de conflitos em curso. Começa agora mais uma edição de Gabinete de Guerra, hoje com o historiador Bruno Cardoso Reis. Sou Miguel Cordeiro e vamos começar, Bruno, por essa cimeira da NATO que terminou ontem. O que tiramos desta cimeira que decorreu ao longo de dois dias?
Boa tarde a todos. Em primeiro lugar, são 75 anos, ou seja, é um marco que vale a pena sublinhar. Nunca nenhuma organização, aliança multilateral, ou seja, com tantos países aliados, conseguiu durar tanto tempo e com tanto sucesso. Inclusive, esse sucesso traduz-se também no facto de termos passado 12 membros fundadores, nenhum dos membros fundadores entretanto saiu, para 32 membros neste momento. É claro que aí uma ajuda muito importante veio da agressividade crescente da Rússia nos últimos anos, que levou uma série de países a repensar até a sua neutralidade, nomeadamente a Suécia e a Finlândia. Esse é um marco importante. Depois, há questões práticas, como a eleição do novo secretário-geral. Tínhamos há 10 anos o mesmo secretário-geral, também é um marco importante. Ele prolongou o seu mandato para não haver uma mudança, não haver eleições, uma escolha no contexto de uma guerra em curso, em que a NATO teve um papel fundamental, mas era realmente importante ter alguém novo e portanto temos alguém de peso, o antigo primeiro-ministro dos Países Baixos, um político extremamente experiente, Mark Rutte, e que também revelou, inclusive como chefe do governo, grande empenho na aliança e grande capacidade de lidar com Donald Trump. Outra questão prática tem a ver com o próprio planeamento, os planos que a aliança vai desenvolvendo, nomeadamente os planos regionais. Não é uma questão muito importante para fora, mas para dentro tem a sua importância. Questões como a organização do apoio à Ucrânia, que passou a ser uma responsabilidade principalmente da NATO, em vez de apenas dos Estados Unidos, isso tem a ver também com o fantasma do Trump. Há aqui algumas questões práticas que foram avançando. Eu diria, em termos de grandes mudanças, se calhar das mudanças que seriam necessárias de uma clara visão estratégica para os próximos 10 anos, isso se calhar não teve aqui a resposta que seria desejável, mas isso também tem muito a ver com o facto de termos nos Estados Unidos um presidente que está muito empenhado na sua reeleição, com grandes dificuldades, e portanto, se calhar não houve aqui este impulso, que dificilmente depende só dos Estados Unidos, eu insisto sempre nisso. Na NATO não é apenas uma formalidade, é mesmo assim, cada país tem um voto e um veto, e temos visto isso múltiplas vezes, ainda agora nos últimos dois anos com a questão da Turquia e da Suécia, por exemplo, mas os Estados Unidos claramente são o país mais importante, o que mais contribui para a defesa coletiva, o que mais investe em defesa, e isso dá-lhe um papel de liderança natural e portanto faltou talvez aqui esse impulso da parte dos Estados Unidos, que está realmente ocupada com a sua eleição. Apesar de tudo, a Ucrânia conseguiu algumas coisas. Eu diria, uma das coisas que falta, no entanto, a fórmula está lá, é uma fórmula muito positiva para a Ucrânia, mas não resolve o essencial, é esta questão do caminho para uma futura adesão da Ucrânia, que do meu ponto de vista seria fundamental para impedir novas agressões russas contra a Ucrânia. É esse o grande histórico destes 75 anos. Nenhum país membro da NATO foi atacado por outro Estado no seu território durante estes 75 anos. É impossível melhor do que isto em termos de uma aliança que tem como grande objetivo a defesa coletiva, a dissuasão, portanto evitar até entrar em guerras, dissuadir agressões futuras. Mas realmente, no caso da Ucrânia, há esta expressão, um caminho irreversível para a integração plena no espaço Euro-Atlântico, inclusive a NATO, mas não se responde a esta questão, mantêm-se os critérios de que um país em guerra, um país que tem o território em parte ocupado, não pode aderir. Sendo assim, isso na prática significa que esta adesão pode estar adiada sine die e estará, em última análise, dependente da Rússia.
Desta cimeira da NATO ficam também gafes de Joe Biden. Ele tinha pedido uma avaliação nesta prestação que iria ter nesta cimeira. Temos casos como este.
"Now I want to hand it over to the President of Ukraine, who has as much courage as he has determination. Ladies and gentlemen, President Putin."
Enganou-se no nome de Zelensky, chamou-lhe Putin, depois corrigiu, acabou por tratar Zelensky por Zelensky, mas tinha convidado Joe Biden a fazer uma avaliação daquilo que seria a prestação nesta cimeira. Como é que sai essa avaliação, Bruno?
Ele inclusive fez de facto uma conferência de imprensa com perguntas não preparadas durante uma hora, no final da cimeira. Eu diria, para ser justo, e aliás os ouvintes mais atentos se calhar até estão a pensar nisso, que eu próprio, que sou um pouco mais jovem que Joe Biden, de vez em quando aqui me engano e quero dizer China e digo Rússia. E estou completamente convencido que disse China e na verdade disse Rússia, ou que queria dizer Ucrânia e disse Rússia. Esse tipo de coisas realmente pode acontecer, acontece a pessoas de todas as idades, sempre aconteceu com Joe Biden. A questão é: isso está a acontecer com imensa frequência. Foram múltiplos. Por exemplo, na conferência de imprensa trocou Kamala Harris por Donald Trump, disse que o seu vice-presidente era o Donald Trump, etc. Isso realmente num político é especialmente relevante, não é normal haver um político, alguém com funções de liderança, que esteja constantemente a fazer este tipo de confusões. Além disso, parece-me que a questão não é apenas essa, para sermos realmente rigorosos e justos. Ou seja, ele realmente em alguns casos não se percebe assim tão bem, não tem um discurso assim tão coerente, noutras alturas sim, e sobretudo está muito longe de mostrar o nível de energia, de empenhamento, mobilização, até no discurso, que apesar de tudo conseguiu mostrar em 2020 e que foi crucial para vencer Donald Trump e que não está a mostrar agora. Ora, o problema é que ele precisa disso mais do que nunca. As sondagens não lhe são favoráveis. Nos estados chave que decidem as eleições e que são cada vez mais, há cada vez mais estados em que Trump parece ter hipóteses, ele está em desvantagem, em muitos casos diferenças de 10%, muito para além da margem de erro e isso realmente é bastante preocupante para os Estados Unidos, para aqueles que nos Estados Unidos, e não são apenas democratas, há muitos republicanos que acham que Trump é uma ameaça potencial à democracia, ao sistema de democracia pluralista nos Estados Unidos, e para muitos aliados que sabem que Trump é alguém que não valoriza todas as alianças, acha todo o tipo de ajuda ao exterior é um desperdício e que muitas vezes já mostrou a sua hostilidade em relação à NATO e em relação à União Europeia, e uma enorme admiração por autocratas ditadores, como, por exemplo, Vladimir Putin. É realmente um contexto bastante preocupante.
Falemos então de notícias das últimas horas que apontam para uma tentativa de assassinar o CEO da Rheinmetall, estamos a falar de uma empresa de armamento alemã. Bruno, explique-nos melhor que empresa é esta, o que é que aconteceu, que alegações são estas. A Rússia estava a perseguir este líder desta empresa de armamento da Alemanha?
Isto, por um lado, é mais do mesmo e mais até do que eu várias vezes aqui fui sublinhando, que era a ameaça mais imediata, mais provável e já presente da Rússia, até antes da própria invasão da Ucrânia, e muito mais depois disso, que é ações de sabotagem, ações de assassinato. Agora, é apesar de tudo diferente aquilo que eram até aqui o normal, que era ações de, normal entre aspas, mas o que tinha sido a prática russa, que era ações de assassinato contra dissidentes russos, que por vezes punham em risco ou até levavam à morte de cidadãos de países europeus. Aconteceu, por exemplo, na Grã-Bretanha em 2018, em Salisbury. Tentaram matar os Skripal, acabaram a matar uma pessoa, uma mulher britânica, e puseram em risco a vida, inclusive, de vários policiais britânicos. Mas isto é realmente outra questão, que é visar deliberadamente, por um lado, um cidadão europeu, por outro, alguém com elevadas responsabilidades na defesa europeia, porque a indústria de defesa é uma componente indispensável da defesa da liberdade da paz na Europa. É importante esclarecer isso para quem ainda não percebeu, não se consegue garantir a segurança e defesa sem armas. Foi assim contra o Hitler durante a Segunda Guerra Mundial e é assim contra os ditadores e as potências agressivas atuais. Infelizmente, continuamos a precisar de armas, porque não estamos num mundo em paz. De fato, isso é de uma gravidade extrema e do meu ponto de vista deveria ter consequências para ter algum efeito dissuasor. Por exemplo, a Alemanha tem aqui uma saída muito simples, uma resposta muito simples, que é dizer os tais mísseis Taurus que nós temos estado a negar à Ucrânia, supostamente porque isso seria uma escalada, nós vamos dar à Ucrânia. Depois desta ameaça absolutamente inaceitável à vida de uma pessoa que não é só um alemão, mas não é um alemão qualquer, é alguém que é indispensável para a defesa da Alemanha. Isto mostra realmente o grau de escalada na agressão russa contra os países europeus, embora nunca de uma agressão convencional, ou seja, não estamos a falar de uma invasão por exércitos, porque como eu tenho aqui sublinhado, pelo menos nos próximos anos, a Rússia tem estado desde já muito ocupada e a sofrer enormes baixas e desgaste na Ucrânia e nos próximos anos, mesmo que pare a guerra, de repente não recupera completamente as suas capacidades. Isso não é provável, não é lógico, não aconteceu nunca, aliás, nestes 105 anos, sobretudo enquanto a NATO mantiver a sua coesão e tiver aqui uma defesa coletiva credível.
Vamos ao conflito no Médio Oriente e a uma proposta do Hamas, que era um governo palestiniano independente no pós-guerra. Isto foi noticiado durante o dia de hoje, uma intenção do Hamas já para uma situação pós-guerra, quer esse governo palestiniano independente. Isto foi comunicado pelo grupo islâmico, uma proposta que surgiu nas negociações indiretas em curso entre Israel e o Hamas, sob a medição do Qatar, do Egito e dos Estados Unidos da América. Sugere assim o Hamas a formação de um executivo composto por figuras que não pertençam a qualquer partido para administrar a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. O que é que podemos tirar desta proposta?
É um governo de independentes. Essa é a questão chave. Não seria um governo com representantes do Hamas, mas também não seria um governo com representantes da Fatah, ou seja, não seria a Autoridade Palestiniana na sua formulação atual. No fundo, seria uma espécie de governo tecnocrático. O Hamas, ao mesmo tempo, diz que isto é uma questão interna dos palestinianos, ninguém mais tem mais nada a ver com o assunto. Obviamente, isso não é todo assim. A Palestina não é um Estado independente, depende integralmente do exterior para pagar os seus salários, os seus serviços públicos, nomeadamente e em grande medida dos países europeus, dos países ocidentais, são de longe os principais contribuintes há muitas décadas para existirem serviços públicos a funcionar nos territórios ocupados aos palestinianos. Obviamente, os países árabes moderados, os países ocidentais têm que ter aí uma palavra a dizer. Mas dizendo isso, ao mesmo tempo, o Hamas está aqui pelo menos a aceitar uma questão que é eles não podem fazer parte desse governo. Agora, ao mesmo tempo, aproveitam para dizer também não queremos os nossos principais competidores para a liderança do movimento independentista palestiniano, que é a Autoridade Palestiniana, que é a Fatah, que é o nacionalismo histórico secular palestiniano. Obviamente, é verdade num aspecto crucial, que é isto terá sempre que ter o acordo dos palestinianos e veremos aqui como é que se faz esta quadratura do círculo, que tipo de reação é que existe da parte da Autoridade Palestiniana. A minha intuição é que a Autoridade Palestiniana recusará no fundo deixar de existir. Dificilmente também os principais financiadores da Autoridade Palestiniana aceitarão este tipo de solução, pelo menos formulada nestes termos.
Mas as negociações de paz para Gaza continuam e têm decorrido praticamente desde o início do conflito em diferentes fases. Em que ponto é que estamos? Estamos a ir num bom progresso, está parado, o que é que podemos dizer daquilo que são as negociações de paz para Gaza nesta fase?
O próprio presidente Biden, na tal conferência de imprensa, veio dizer que estava muito otimista e que a ideia que tinha é que estavam a avançar bem e que havia disponibilidade dos dois lados para fazer algumas cedências adicionais. Vamos ver se é realmente assim. Por exemplo, entretanto hoje soubemos que Nathaniel deixou muito claro que não põe de todo a possibilidade de abandonar o controle daquela faixa de território, que foi a última a ser ocupada, próximo de Rafah, e que liga o Egito com a Faixa de Gaza e que é crucial para a entrada clandestina de todo tipo de material que depois é usado pelo Hamas para se armar, para fazer ataques a Israel. Portanto, isso será aceitável por parte do Hamas? Teremos de ver. Já temos ouvido várias vezes, da parte de responsáveis americanos, indicações de que estão muito otimistas, de que as negociações estão a avançar bem e depois, afinal, elas acabam por não levar a um acordo, e muito menos a um acordo que esteja a ser implementado no terreno. Portanto, infelizmente, acho que temos de continuar a manter algum ceticismo e esperar para ver. Acho que só podemos dar como certo que existe um acordo quando ele for realmente oficialmente assinado pelas duas partes e mais ainda quando começar a ser efetivamente implementado no terreno.
Para fechar, a questão do cais americano em Gaza, que era importante também para a ajuda humanitária para essa região. Vai terminar as operações, o que aconteceu e que buraco deixa aqui também na chegada de ajuda humanitária a Gaza com o fim das operações deste cais norte-americano?
O cais foi muito criticado. Realmente, revelou-se uma solução difícil, demorou tempo a funcionar. A minha opinião sempre foi: provavelmente é uma resposta limitada, mas pelo menos é alguma coisa. Neste momento e aparentemente, o essencial da ajuda humanitária está a conseguir fazer-se por via terrestre. E sobretudo, houve aqui uma questão, que houve uma tempestade, coisa que também existe no Mediterrâneo de vez em quando, apesar de ter fama de ser um mar pacífico, e realmente o cais foi muito atingido e portanto agora revelou-se muito difícil voltá-lo a tornar funcional e portanto a opção dos norte-americanos foi realmente não vale a pena continuarmos a investir neste esforço e mais vale apostar nos outros mais. Mas numa determinada altura, eu penso que foi uma ajuda adicional importante, quer aqueles lançamentos de ajuda por via aérea, quer este cais, mas aparentemente neste momento não é muito realista voltá-lo a utilizar e também não parece ser a melhor solução neste momento.
Bruno Cardozo Reis e mais uma edição de Gabinete de Guerra na Rádio Observador.