Património e poder, o tribunal da Inquisição, ou a magistratura de influência exercida pelas rainhas na Idade Média. Ao longo de cerca de 700 páginas recuamos às origens de uma monarquia com raizes externas, com um rei que era filho de pai borgonhês e mãe leonesa; seguimos diferentes fases e etapas no espaço português, entendendo-as a partir de uma perspetiva global; e terminamos este trajeto com o Partido Popular Monárquico. Com direção do historiador José Eduardo Franco e coordenação de Paulo Drummond Braga, “História Global da Monarquia Portuguesa” guia-nos entre 1139 a 1974, à luz de um ideário de longa duração e de relações macroespaciais, numa obra dividida em 100 da autoria de 54 autores.
“A monarquia é indiscutivelmente uma instituição global. Talvez seja um dos regimes políticos mais globais e mais globalmente persistentes na longa duração da história das civilizações. Encontramos regimes monárquicos em povos de todos os continentes na longa história política da humanidade, uns que perduraram em linha contínua durante milénios como no caso da China, outros que se intercalaram também durante milénios com outros regimes em processos de ascensão e queda de monarquias.”, lê-se na introdução do volume, uma edição com chancela Temas&Debates, que chega às livrarias no dia 5 de novembro. Pré-publicamos dois captítulos.
1415
A Coroa portuguesa conquista Ceuta
A conquista de Ceuta por D. João I (1415) marcou o regresso à guerra contra o Islão que marcara os séculos anteriores da história portuguesa. Questões de prestígio, de estratégia e acaso de teimosia ditaram a posse de uma cidade indiscutivelmente menor de um império que se foi construindo ao longo dos anos, espalhado por três continentes.
A 21 de agosto de 1415, um exército comandado por D. João I, rei de Portugal, conquistou a cidade de Ceuta, localizada no norte de África. Muito mais do que o primeiro passo para a expansão ultramarina portuguesa, tratou-se do retomar da Reconquista cristã ibérica dos séculos xii-xiii. O evento integra-se ainda no expansionismo europeu no Mediterrâneo dos séculos xiv a xvi.
Sucessivamente ocupada por fenícios, gregos, cartagineses, romanos, vândalos, visigodos, bizantinos e muçulmanos, Ceuta tinha fama de ser uma cidade muito próspera, graças sobretudo a um florescente comércio marítimo e terrestre com Aragão, Castela, Egipto, Etiópia, Fez, Gana, Génova, Maiorca, Marselha, Pisa, Turquia e Veneza (HITA RUIZ e VILLADA PAREDES, 2009).
Em data não especificada, mas que se pode remontar pelo menos a 1410,D. João I começou a pensar numa iniciativa bélica de grande envergadura contra o Islão, tendo obtido do papa Gregório XII uma bula de cruzada (1411). A oposição de Castela levou-o a cancelar o projeto de investir contra o reino de Granada. Entretanto, os três filhos varões mais velhos do soberano, D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, instruídos ou não por João Afonso de Alenquer, vedor da fazenda, e apoiados pelo irmão bastardo, D. Afonso, conde de Barcelos, propuseram ao pai que as justas e torneios que para eles eram pensadas como forma de serem armados cavaleiros fossem substituídas pela conquista de Ceuta. D. João I começou por recusar, mas os infantes acumularam argumentos a favor: serviço de Deus, honra do rei e honra para eles próprios. Inquiridos alguns letrados, nomeadamente Frei João Xira e Frei Vasco Pereira, confessores do rei, desvaneceram-se as dúvidas de cariz teológico-moral do monarca, mas não outras, mais pragmáticas: avultadas despesas exigidas pela iniciativa, grande distância entre o reino e Ceuta, falta de gente para o combate, receio de que Castela pudesse aproveitar a sua ausência para atacar Portugal, hipótese de a queda de Ceuta poder vir a beneficiar a futura conquista de Granada por Castela, receio de não conseguir manter a cidade depois da conquista. Os infantes conseguiram desfazer as dúvidas, uma a uma (BRAGA, 2015, 27-28).
Foi, entretanto, enviada uma embaixada a Joana II, rainha reinante de Nápoles, capitaneada pelo prior da Ordem do Hospital. Dizendo ter como objetivo a negociação do casamento de um dos infantes D. Duarte ou D. Pedro com a referida soberana, visava sobretudo estudar o terreno em torno de Ceuta. De regresso, o prior assegurou a D. João I a certeza de uma vitória militar. Convocado o conselho do rei, todos deram parecer positivo à empresa e o soberano decidiu: ir-se-ia a Ceuta (BRAGA, 2015, 28-31).
Fretaram-se navios em Biscaia, Bretanha, Castela, Flandres, Galiza, Inglaterra – onde se terão igualmente adquirido armas – e Sacro Império Romano-Germânico. D. Henrique ficou encarregue de concentrar no Porto as forças oriundas da Beira, Trás-os-Montes e Entre-Douro-e-Minho. Em Lisboa embarcariam as gentes da Estremadura, Odiana e Algarve, capitaneadas por D. Pedro (BRAGA, 2015, 31).
Para desviar as atenções, D. JoãoI fez constar que tinha mandado desafiar Guilherme II, duque da Baviera-Straubing, conde da Holanda, Hainaut e da Zelândia. Receando um ataque português, Castela e Granada enviaram ao reino vizinho embaixadores, ratificando a paz. A Coroa de Aragão, por seu turno, ordenou obras no castelo de Bellver. Em Portugal, entretanto, ia-se conjecturando sobre o destino da armada: cumprimento de um voto formulado por D. João I de ir a Jerusalém agradecer a vitória obtida sobre Castela em 1385; conquista da Normandia, a que o rei consideraria ter direito, uma vez que descendia de D. Afonso III, conde de Boulogne-sur-Mer; ou colaboração no fim do Grande Cisma do Ocidente (BRAGA, 2015, 33).
Entretanto, a peste assolou Lisboa, assim como o Porto, ensombrando os preparativos da empresa. A mulher de D. João I, D. Filipa, foi contagiada e, retida no Mosteiro de Odivelas, recebeu o marido e os três filhos mais velhos, dando a estes três espadas para com elas serem armados cavaleiros, bem como fragmentos do Santo Lenho e intimou-os a não cancelar o projeto. Morreu a 18 de julho (SILVA, 2012, 251-264).
Embora se tenha pensado em cancelar o empreendimento, D. João I decidiu avançar e a armada levantou ferros a 25 de julho. Compunham-na cerca de duas centenas de embarcações. Quanto aos homens, os números variam muito entre os 50 mil indicados por um cronista aragonês, Jerónimo de Zurita, e os 7500 homens de armas, cinco mil besteiros e 20 ou 21 mil peões referidos pelo alferes-mor de D. João I, João Gomes da Silva. Entre eles estavam, para além do rei e dos infantes, o conde de Barcelos, o condestável, os mestres das três Ordens milita res, o prior do Hospital, o almirante Mice Lançarote e o mar chal Gonçalo Vasques Coutinho. Também seguiam estrangeiros, de França, da Polónia, da Inglaterra e do Sacro Império Romano-Germânico (BRAGA, 2015, 34-35).
A 26 de julho, dobraram o cabo de São Vicente. Em Lagos, D. João I mandou divulgar enfim o destino da empresa, através de um sermão proferido por Frei João Xira. Entre 30 desse mês e 7 de agosto, permaneceram em Faro, rumando depois ao estreito de Gibraltar, com paragens em Cádiz e Tarifa. A 9, “um pouco antes da noite houveram vista de terra de mouros” (ZURARA, 1915, 164). No dia seguinte, ancoraram frente a Algeciras. Granada,receando um ataque cristão, enviou a D. João I uma embaixada (BRAGA, 2015, 35-36).
A 12 dirigiram-se enfim para Ceuta, mas forte nevoeiro dificultou as manobras, tendo as naus sido arrastadas pela corrente em direção a Málaga. Contudo, ao seu destino chegaram as galés, as fustas e os outros pequenos navios, que foram recebidos com os disparos da artilharia muçulmana, que não os atingiu por os barcos estarem ainda demasiado longe. Entretanto, alguns desembarcaram, registando-se escaramuças com os Mouros na praia. A 14, D. João I reuniu o conselho e decidiu-se pela ancoragem no Barbaçote, a sul da cidade, na hoje chamada Punta Desnarigado, enquanto não chegassem as naus desgarradas. Dois dias depois, deliberou atacar a cidade pelo lado sul, mas outra tormenta sobreveio, levando a corrente novamente as naus para os lados de Málaga e indo as galés aportar a Algeciras. A 19, o conselho voltou a reunir-se. Uns opinaram que se deveria regressar a Portugal, outros que se contentassem em conquistar Gibraltar, não faltando os que defendiam a prossecução do projeto inicial até ao fim, entre eles os infantes. D. João I mandou ir a armada para a Ponta do Carneiro, à entrada da baía de Algeciras, e, no dia seguinte, comunicou ao conselho a sua decisão: Ceuta seria atacada. A frota comandada por D. Henrique iria ancorar na Almina. A do rei e do infante D. Pedro ficaria diante da cidade, para despistar os mouros, que cuidariam ser este o ataque principal, desguarnecendo a Almina. Assaltada esta, seriam enviados reforços e D. João I desembarcaria por sua vez. E o desembarque deu-se, a 21, por volta das seis da manhã, no dizer de um dos participantes. Tudo correu como o monarca planeara. O combate durou todo o dia e à noite os conquistadores saquearam Ceuta (BRAGA, 2015, 36-39).
D. João I mandou sagrar igreja a mesquita principal da cidade conquistada. A 25, ali se celebrou Te Deum em ação de graças pela vitória cristã. Frei João da Xira pregou, uma vez mais. Findo o serviço religioso, D. João I armou os filhos cavaleiros, com as espadas que lhes havia dado D. Filipa, e a eles se seguiram muitos outros jovens (BRAGA, 2015, 40-41).
Tendo ficado decidido que se manteria a posse de Ceuta, o rei designou como capitão D. Pedro de Meneses, primo direito da antiga rainha D. Leonor Teles, que mais tarde se tornou 1.o conde de Vila Real e 2.o conde de Viana do Alentejo (CAMPOS, 2004).
O regresso ao reino deu-se a 2 de setembro. Achando-se em Tavira, D. João I fez seu filho D. Pedro duque de Coimbra e D. Henrique duque de Viseu e senhor da Covilhã (FARINHA, 1990, 54-58), ou seja, deu os primeiros passos para a constituição de duas das mais relevantes casas senhoriais da época.
A nível simbólico, alguns aspetos podem ser relevados no período posterior à conquista. Um deles é o facto de o monarca ter acrescentado aos seus títulos de rei de Portugal e do Algarve o de “Senhor de Ceuta”. O primeiro documento em que a nova intitulação surge data de 8 de fevereiro de 1416 (MARQUES, 1944, 563-564).
Mais tarde, assinale-se que o cronista Rui de Pina, ao construir a sua narrativa a respeito da morte de D. João I, não hesitou em deliberadamente alterar as datas quer da morte do soberano quer da partida da armada destinada a Ceuta, para fazer crer que o rei de Boa Memória deixou o mundo a 14 de agosto, dia do aniversário da batalha de Aljubarrota e da saída para a expedição vitoriosa de 1415 (SOUSA, 2009).
Além de ter comunicado à Cristandade a conquista de Ceuta através de uma embaixada enviada ao Concílio de Constança (1416), D. João I obteve do papa várias graças espirituais, como a remissão de pecados para os que vivessem em Ceuta ou aqui fossem em sua defesa (1419). O papado também disponibilizou para a cidade, ao longo dos anos, parte dos rendimentos eclesiásticos de Portugal (BRAGA, 2015, 42-43).
Castela não se deve ter preocupado excessivamente com a conquista de Ceuta, até porque rapidamente viu as suas atenções desviadas para o teatro europeu da Guerra dos Cem Anos. Entretanto, o regente, que era em simultâneo rei de Aragão com o nome de Fernando I, recusou uma proposta de D. João I para levar a cabo uma operação conjunta contra Granada (BRAGA, 2015).
A situação de Ceuta, rodeada de inimigos, quase como uma cidade permanentemente sitiada, esteve longe de ser fácil. Logo após a conquista, fracassaram dois cercos colocados pelos reis de Fez e de Granada (1418-1419). Em 1437, ocorreu o desastre de Tânger (BRAGA, 1998, 256-268). Coube a D. Afonso V levar a cabo nova conquista, desta feita Alcácer Ceguer (1458). Depois de tentar, sem êxito, atacar Tânger (1463-1464), apoderou-se de Arzila, o que levou a que Tânger tenha facilmente caído nas mãos dos portugueses (1471) (BRAGA, 1998, 268-286). Embora D. João III tenha equacionado o abandono de Ceuta, tal não aconteceu e a cidade manteve-se, com Tânger e Mazagão, na posse da Coroa lusa. D. Sebastião esteve em Ceuta em 1574 e o seu cadáver, ou aquilo que se fez crer sê-lo, jazeu sucessivamente em dois templos da cidade (1578-1583) (BRAGA e BRAGA, 1998, 39).
Em 1581, Ceuta aceitou Filipe II de Castela como rei de Portugal (BRAGA e BRAGA, 1998, 41-43). Depois da Restauração (1640), manteve fidelidade a Filipe IV, considerando-o o legítimo soberano luso. Preferencialmente abastecida em termos de alimentos, armas e homens pela Andaluzia, poderá ter receado um bloqueio. Só em 1656 é que ingressou na Coroa de Castela, situação que Portugal reconheceu em 1668 (BRAGA e BRAGA, 1998, 45-50).
A conquista de Ceuta foi uma etapa mais de um longo relacionamento entre Portugal e o Islão, marcando o reinício da chamada reconquista cristã. Questões de prestígio, de estratégia e acaso de teimosia ditaram a posse, nas mãos da Coroa, de uma cidade indiscutivelmente menor de um império que se foi construindo ao longo dos anos, espalhado por três continentes.
1666
Utopia da monarquia universal
A ideia de monarquia não só se consumou historicamente em formas diferenciadas de regimes monárquicos, mas também foi projetada utopicamente como projeto de ordem global para estabelecer uma era de paz e fraternidade englobando todos os povos e civilizações, restaurando a harmonia fraturada com a natureza.
A monarquia enquanto regime sob o governo de um só, ou encabeçado por alguém que assume o título de rei ou de imperador, ganhou, não só concretização política efetiva estruturando a vida de muitos povos em todos os continentes ao longo dos tempos até aos nossos dias, como teve momentos em que granjeou configurações míticas e utópicas, nomeadamente no contexto da civilização ocidental.
No coração da Idade Média europeia, desenhou-se um mito e uma utopia de um futuro auspicioso sob o signo monárquico, sendo uma das expressões do profetismo milenarista que anunciava o mundo melhor. O milenarismo heterodoxo era uma corrente que promovia a crença da chegada, na última etapa da história soteriológica, de uma era de mil anos de felicidade e paz sobre a terra sob o domínio de Cristo, que antecederia a parusia com o juízo final e a ressurreição dos mortos com o fim da vida terrena e o início da vida plena dos seres humanos redimidos em Deus.
O caldo cultural onde germinam as correntes milenaristas com vários matizes e em diferentes períodos assenta na chamada apoclítica judaica do Antigo Testamento e depois robustecida pelo último livro de Novo Testamento, o Apocalipse. Com efeito, os textos bíblicos, nomeadamente os do género apocalíptico, quer canónicos quer apócrifos, vão ser a base para as mais diversas especulações em torno da mensuração das chamadas idades do mundo e, neste quadro, da última idade e do fim da história. Além do texto paradigmático e fontal do Apocalipse 20, temos um outro do Antigo Testamento, também ele matricial, que é uma versão judaica da doutrina grega das quatro idades: o texto de Daniel, no capítulo 2 do livro com o mesmo nome. O capítulo referido narra o misterioso sonho de Nabucodonosor e a sua interpretação pelo jovem judeu Daniel, depois das tentativas fracassadas de explicação dos magos e sábios da corte babilónica. Assim é descrito o sonho do rei: “Era uma estátua. Enorme, extremamente brilhante, a estátua erguia-se diante de ti, de aspeto terrível. A cabeça da estátua era de ouro fino; de prata era o seu peito e os braços; o ventre e as coxas eram de bronze; as pernas eram de ferro; e os pés, parte de ferro e parte de argila. Estavas olhando, quando uma pedra, sem intervenção de mão alguma, se destacou e veio bater na estátua, nos pés de ferro e de argila, e os triturou. Então pulverizaram-se ao mesmo tempo o ferro e a argila, o bronze, a prata e o ouro, tornando-se iguais à palha miúda na eira de verão: o vento os levou sem deixarem traço algum. E a pedra que havia atingido a estátua tornou-se uma grande montanha, que ocupou a terra inteira” (Dn 2, 31-35). Seguidamente, Daniel apresenta a sua decifração deste sonho. Explica ao soberano que a estátua constituída por diferentes metais representava os reinos do mundo que se haviam de suceder um a seguir ao outro. Finalmente, chegaria um reino (representado pela pedra que pulverizou a estátua) que superaria os reinos anteriores e os subsistiria para sempre. Daqui se extrai o esquema bíblico para as especulações sobre a sucessão das idades históricas e a sua aplicação concreta ao surgimento e decadência de diferentes impérios, povos e civilizações e sobre a promessa de uma idade feliz no fim da história.
Esta utopia de uma era final de paz e justiça sobre a Terra articula-se capítulos 20 e 21 do livro do Apocalipse que lhe dá conteúdo profético em sentido cristão. Seria um tempo intervalar especial entre o regresso de Jesus e a eliminação definitiva dos inimigos de Deus no “lago de fogo e enxofre”, assim como o resultado da assunção de uma nova ordem cósmica. Esta expectativa interpretada literalmente por correntes cristãs desde os primeiros séculos do Cristianismo dá forma à heresia do milenarismo ou quiliasmo, segundo a qual os predestinados, depois do juízo final, permaneceriam mil anos na terra e gozariam de uma felicidade terrena. O milenarismo foi entendido, e no seguimento do livro do Apocalipse, como o retorno à experiência primigénia do Paraíso, descrito sob atributos tradicionais do reino messiânico. O milénio será o tempo de fecundidade, de prosperidade e de paz entre os homens. Esta matriz fundamental ganhará diferentes expressões ao longo da história consoante os contextos, os ambientes culturais e as expectativas sociais para um mundo de felicidade assente na justiça e na paz.
As correntes de inspiração milenarista atravessaram grandes acontecimentos e movimentos políticos e sociais da Idade Média com destaque para a elaboração e influência da teologia das três idades da História de Joaquim de Flora e a expectativa utópica denominada terceira idade do Espírito Santo, que se compaginava com a esperança profética da chegada do imperador dos últimos dias para instaurar o reino cristão universal (v. g. Carlos Magno foi considerado durante séculos o imperador dos últimos dias). Estas expectativas inspiraram sucessivos movimentos que perduraram até à Idade Moderna em certas regiões da Alemanha Central e Meridional, na atual Bélgica, norte de França, Holanda, Boémia, na região de Londres e no reino de Aragão. Com efeito, a figura imaginária do imperador dos últimos dias foi atribuída sucessivamente, pela Europa fora, a diferentes reis e imperadores, ou simplesmente a heróis que, pelos seus feitos extraordinários, foram mitificados pela imaginação popular e identificados com esta figura de Messias terreno que viria instaurar uma era de equidade e paz, fazendo justiça às classes oprimidas contra a tirania dos que oprimiam os povos.
A personagem do messias profetizado por Joaquim de Flora viria a ter várias projeções identificativas em figuras monárquicas europeias, sendo uma das mais relevantes a sua identificação pela imaginação popular com o medieval Frederico II. De facto, este monarca germânico foi apoiado por fações joaquimitas nas lutas que travou contra o papado, que o consideravam o imperador dos últimos dias, na esteira do que já tinha acontecido com Carlos Magno. A sua recordação permaneceu viva até ao século xvi, estimulada pela crença de que ressuscitaria para acabar de cumprir a sua missão universal.
Em Portugal, a duradoura e metamórfica corrente do Sebastianismo viria a projetar em D. Sebastião, de quem se esperava o regresso depois do seu desaparecimento na batalha de Alcácer-Quibir em 1578, as características e funções do rei restaurador equivalentes ao do imperador dos últimos dias. Esta personagem-símbolo contrapõe-se, na mentalidade milenarista, à figura terrível do Anticristo associado à imagética da figura do dragão ou da antiga serpente, metamorfoseando-se em figura de monstro de faces diversas, mas sempre com características demoníacas. A figura do Encoberto, cognome dado a D. Sebastião depois do seu desaparecimento na batalha perdida, vai associar-se como figura mítica de um líder a esperar de uma outra corrente que ganhará dimensão no pensamento teleológico português: a ideia/utopia do quinto império.
Seria no pensamento utópico quinto-imperialista do jesuíta António Vieira (1608-1697) que viríamos a encontrar, na cultura portuguesa, uma das elaborações mais paradigmáticas da utopia da monarquia universal.
Na sua perceção bem barroca que define a mundividência moderna e a geografia humana global como um “labirinto das raças” e os caminhos da conversão como o espelho da vontade do “misterioso labirinto de Deus” (VIEIRA, 2013, III,VI: 206), o jesuíta António Vieira situa profeticamente a apoteose da história no desejado tempo da plenificação do projeto de conversão que permitirá que a história humana dê aquele salto qualitativo teleológico há muito esperado e profetizado: “Por conseguinte, a consumação, que supomos, do Reino de Cristo, para dizê-lo com uma só e clara palavra, não é outra coisa senão a fé universal de todos os povos, ou do mundo inteiro na sua totalidade, convertido à fé e obediência de Cristo. É que, através da fé, aquela Igreja, que é parte do Reino, tornar-se-á todo o Reino; através da fé, os membros informes formar-se-ão, e aquilo que é somente potencial, unido através da fé a Cristo, volver-se-á em atual; finalmente, através da fé, o próprio Cristo reinará simultânea e igualmente em todos, não imperfeitamente e menos propriamente e de um modo em certa maneira comum, mas particular, propriíssimo e perfeito, tal como de várias formas mais atrás distinguimos. E assim, quando não restar nenhuma diferença ou distinção entre a Igreja e o Reino espiritual de Cristo, considerado no sentido mais lato, a saber, ao passar o Reino de parcial para total, de potencial para atual, de informe para formado, de comum para particular e de reino em sentido menos próprio para Reino em sentido plenamente próprio, tanto por parte de Cristo reinante, quanto por parte do mundo governado, submetido e obediente, ter-se-á consumado então na Terra o Reino de Cristo” (VIEIRA, 2013, III,VI: 50).
Com efeito, Vieira emerge no seu tempo – ao lado de outras vozes intelectuais (máxime João de Castro, Sebastião de Paiva, Bocarro Francês…) – como o mais profundo e extensivo elaborador do projeto de conversão universal configurada na esperança da fundação do quinto império da história humana. A concretização deste projeto global de carácter político-religioso só ocorreria na sequência da conversão universal de todos os povos à fé de Cristo, que constituiria a momentosa tarefa prévia à sua plena instauração. Este projeto, sonhado desde os profetas bíblicos, teria de respeitar os ritmos de Deus e o insondável labirinto da sua vontade. Deste modo, em obras como a História do Futuro e A Chave dos Profetas, Vieira procura fundamentar as esperanças de um tempo novo, que parecia tardar. Assim escreve nesta sua última obra profética: “Ora, esta conversão e transformação do mundo e dos povos não deveria ser concluída de uma só vez e ao mesmo tempo, mas nos tempos fixados por Deus, e inteiramente, por três vezes, sob a mesma cabeça da Igreja. A primeira vez e no primeiro estado sob São Pedro, que foi a primeira divulgação do Evangelho pelos apóstolos, a que chamamos Reino de Cristo iniciado. Em seguida e no segundo estado sob Silvestre, sendo imperador Constantino, através da livre e aberta edificação de igrejas em todas as províncias submetidas ao império, à qual chamamos Reino de Cristo em crescimento. Finalmente, em terceiro lugar, no terceiro e último estado sob o Pontífice, acerca do qual nada podemos saber de seguro, quando ao cabo, depois de pregado e acolhido em todo o mundo o Evangelho, inteiramente todos os povos se hão de juntar à Igreja e obedecer a Cristo, tempo em que o seu Reino estará verdadeiramente concluído e consumado” (VIEIRA, 2013, III,VI: 62-63).
Sob uma monarquia imperial tutelada, em regime de diarquia, pelo rei de Portugal, na esfera temporal, e pelo papa, na esfera espiritual, estabelecer-se-ia, na etapa final de história, um império global não de dominação à maneira dos impérios anteriores, mas de concórdia e paz. Esta monarquia universal inauguraria uma nova era marcada por uma vida harmónica, abençoada e fraterna sobre a Terra, implicaria fechar o ciclo clássico das idades do mundo e inaugurar um novo ciclo histórico com uma nova qualidade e um novo carácter. Vieira chegou mesmo a profetizar que 1666, o ano da Besta, identificada no livro do Apocalipse com o número 666, seria a data desse fim de ciclo. Este ano de fronteira seria marcado por convulsões e perturbações sociais e cósmicas, simbolizadas pela significativa metáfora das “dores de parto” que gerariam a “nova criação” da humanidade, conforme escreveu São Paulo (Rm, 8, 22-27), para marcar essa passagem para um novo tempo felicidade sobre a Terra. Diferentes teólogos, filósofos e poetas, desde Vieira, passando por Fernando Pessoa, Agostinho da Silva até Natália Correia, reivindicaram para Portugal o estatuto de protagonista desta ideia de monarquia universal com base numa hermenêutica profética (religiosa e/ ou esotérica) das suas realizações históricas destacada na história da humanidade como prefiguração de realizações maiores. Por esta via, conferiam a Portugal uma missão ímpar na história universal que estaria já inscrita nas origens mitificadas da sua fundação medieval enquanto reino. Alcançada a conversão de todos os povos da humanidade, sem os uniformizar culturalmente, orientando-os para o horizonte da fé de Cristo e salvaguardando diversos modos de estar social e politicamente, numa concórdia das diferenças, Vieira considera então que estarão reunidas as condições materiais e espirituais para a instauração plena do regime quinto-imperialista em toda a Terra por um tempo longo de 1000 anos.
Por seu lado, a elaboração observada do projeto teleológico-utópico do quinto império da humanidade em diferentes países cristãos (v.g. Espanha, França, Inglaterra e Rússia) por intelectuais destes países assenta também numa leitura da história da humanidade à luz de uma chave de leitura profético-providencialista. Esta tornou-se a via encontrada para manter e atualizar uma expectativa, profeticamente fundamentada, da consumação de um estado global de conversão ao cristianismo como meio para a resolução dos problemas da humanidade no presente e para a superação das dificuldades da empresa de missionação a nível planetário. Ao mesmo tempo, subjaz a esta projeção de uma monarquia universal sob a égide destas potências europeias, com as suas redes e domínios globais, uma pretensão de afirmar, através desta construção utópica, a bondade dos seus projetos de expansão imperial à escala planetária assente numa legitimação religiosa, tendo por horizonte a realização maior de uma missão sagrada.
[Duarte Lima admite ter estado com Rosalina Ribeiro na noite em que a herdeira milionária desapareceu mas nega ter sido a última pessoa a vê-la com vida. Conta que, depois da reunião que tiveram, no Rio de Janeiro, levou a cliente até Maricá, para um encontro com uma mulher chamada Gisele. É uma versão que não bate certo com as primeiras provas recolhidas pelas autoridades brasileiras. Enquanto Duarte Lima se torna, para a polícia, o principal suspeito do homicídio, perde força a outra linha de investigação. Olímpia Feteira era inimiga assumida da antiga companheira do pai mas garante que nunca desejou a morte dela. E, ao contrário de Duarte Lima, disponibiliza-se para prestar todas as informações necessárias à polícia brasileira. Já pode ouvir o segundo episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]