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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

"Parece Shakespeare." Frederico Lourenço tirou as partes chatas da Bíblia para pôr os jovens a ler "o livro mais importante da história"

Entrevista a Frederico Lourenço sobre a adaptação da Bíblia, sem as partes "aborrecidas" ou "controversas", que quer apaixonar os jovens pelo texto bíblico — com o qual hão de "lutar" mais tarde.

Uma década depois de se ter lançado na empreitada de traduzir integralmente a Bíblia grega, projeto que lhe valeu o Prémio Pessoa em 2016 e que colocou os textos sagrados do Judaísmo e do Cristianismo nos tops das livrarias comerciais, Frederico Lourenço está este ano de regresso aos livros com uma edição da Bíblia adaptada para jovens. Com menos de 300 páginas, a edição deixa a maioria dos textos bíblicos de fora para dar prioridade às histórias e às personagens mais interessantes da Bíblia — e à construção de um arco narrativo coerente entre o Génesis e o Apocalipse, contando a totalidade da Bíblia como uma grande epopeia.

Assumidamente católico — aliás, os dez anos que passou a traduzir a Bíblia foram decisivos para que passasse da dúvida à fé —, Frederico Lourenço apresenta uma Bíblia abertamente cristã. Segue a ordenação dos livros bíblicos prescrita pelo cânone católico, o pensamento da teologia cristã sobre a relação entre o Antigo e o Novo Testamento, ao mesmo tempo que respeita o conteúdo narrativo e literário dos textos, abstraindo-se dos pontos de vista crítico-históricos. O objetivo, assume logo no prefácio da obra, que se dirige ao jovem leitor, a quem trata por tu, é dar a conhecer “as histórias mais bonitas do Antigo Testamento, que são também as mais importantes para a tua cultura geral”.

“Toda a nossa civilização se baseia na premissa de que as pessoas sabem quem são as personagens da Bíblia”, diz Frederico Lourenço, numa entrevista ao Observador. Porém, lamenta o escritor, tradutor e professor de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra, isso está a perder-se, com graves consequências para a cultura geral e para a preparação literária das novas gerações. Muitos dos seus estudantes, revela, não conhecem as personagens do Antigo Testamento, “não distinguem umas das outras”.

Também por essa razão, a Bíblia Adaptada para Jovens, editada agora pela Quetzal, está fortemente organizada em torno das principais personagens bíblicas. Adão e Eva, Abel e Caim, Noé, Abraão, Isaac, Jacob, José, Moisés, Sansão e Dalila, Rute, Samuel, Saul, David, Salomão, Elias, Jonas, Daniel — todos eles merecem capítulos individuais, que contam as suas histórias a partir dos textos do Antigo Testamento, fortemente sintetizados e reescritos. A começar das profecias de Daniel, Frederico Lourenço introduz o Novo Testamento, com uma ambiciosa harmonização dos quatro evangelhos para produzir uma narrativa simples da vida de Jesus Cristo e alguns apontamentos sobre o nascimento da Igreja cristã, principalmente episódios dos Atos dos Apóstolos, da vida de Paulo e do Apocalipse.

De fora desta adaptação ficaram duas coisas: as partes chatas e as partes polémicas. Tudo em nome do mesmo objetivo: levar os jovens a apaixonarem-se pelo livro central da história da humanidade, antes de chegarem à idade de, inevitavelmente, terem de lutar com o texto. “Existem muitas passagens extremamente aborrecidas e maçadoras, que nós nos perguntamos: porque é que estão aqui? No que é que isto contribui para tornar esta obra literária maravilhosa?”, pergunta Frederico Lourenço. “Não queria que a pessoa desistisse da leitura antes de chegar ao fim do arco narrativo”, até porque, quando se vai direto ao assunto, às grandes histórias bíblicas, “parece que estamos a ler Shakespeare”. Ao mesmo tempo, as partes mais polémicas da Bíblia — por exemplo alguns textos das cartas de Paulo — também não estão aqui, não porque haja uma intenção de as branquear ou de purificar o texto, mas porque, considera o autor, o objetivo da adaptação é promover a aproximação à narrativa literária da Bíblia, abrindo caminho para o processo inevitável de “lutar com a palavra de Deus” que virá mais tarde.

▲ A Bíblia adaptada para jovens, de Frederico Lourenço, é editada pela Quetzal

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Porque é que quis fazer este trabalho? Foi para seguir aquilo que já tinha feito com a Odisseia e a Ilíada, que também publicou numa adaptação para jovens, ou sente que há um mercado juvenil à procura deste trabalho?
A minha ideia fundamental foi congeminar um livro que permitisse a leitores mais jovens ter uma ideia das histórias e das personagens da Bíblia, sobretudo do Antigo Testamento. Porque acho que toda a gente sabe quem é Jesus Cristo, toda a gente sabe quem é a Virgem Maria, acho que qualquer jovem sabe identificar. Agora, se perguntar a um jovem quem foi Elias, ou quem foi Saul, ou quem foi Samuel, talvez parem um bocadinho e não consigam bem identificar essas figuras na Bíblia. Penso que são figuras tão importantes — agora abstraindo da questão religiosa — do nosso imaginário e são figuras tão importantes do ponto de vista literário. Quando leio essa parte da Bíblia que tem as histórias de Saul, Samuel, David, parece que estamos a ler Shakespeare. É tão interessante, os dramas humanos. Porque a Bíblia, sobretudo o Antigo Testamento, não nos mostra pessoas idealizadas, mas pessoas como elas são, com todos os defeitos humanos que entram em confronto com a vontade divina e com o desagrado de Deus relativamente aos comportamentos de algumas pessoas. Mas são figuras que enriquecem muito a nossa maneira de olhar para o mundo. Tenho pena, às vezes, de ver — noto isso, porque converso com jovens, que são os meus estudantes — que, relativamente às personagens do Antigo Testamento, há um grande branco, quando eles não distinguem umas das outras.

Ao contrário do que pode ser uma expectativa mais ingénua, a Bíblia realmente não apresenta um conjunto de personagens santas, bidimensionais. Há muita gente, traições, enganos, mentiras, hesitações, portanto são personagens muito ricas do ponto de vista literário.
Sim, e também são personagens em que os narradores bíblicos nos mostram as pessoas confrontadas com as consequências dos seus comportamentos. Portanto, as consequências das suas mentiras, das suas traições. Quando as pessoas decidem afastar-se daquilo que Deus queria para elas, há toda uma sequência de coisas que acontecem e que é interessante saber descortinar a lógica de tudo isso. Desse ponto de vista, tal como a Ilíada e a Odisseia contam histórias incríveis — e, mais uma vez, abstraindo-nos da parte religiosa, da fé —, a Bíblia também nos conta histórias apaixonantes do ponto de vista literário, apenas como narrações e histórias, e são personagens impagáveis. Acho que essas personagens, como Samuel, Saul, David, Salomão, são dignas de peças de Shakespeare, porque são tão multifacetadas e tão interessantes.

Aliás, muitas delas deram origem a grandes óperas, por exemplo, que são baseadas em histórias do Antigo Testamento. Na introdução, diz que este é o livro mais importante da história da humanidade e também sublinha que privilegiou as histórias mais bonitas do Antigo Testamento, que são também as mais importantes para a cultura geral de um jovem. Este é um aspeto a que deu, parece-me, muita importância: a ideia da Bíblia como fonte primordial da cultura geral das sociedades contemporâneas.
Isso é inegável. Toda a nossa civilização se baseia na premissa de que as pessoas sabem quem são as personagens da Bíblia. Quando chegamos a um ponto em que as pessoas não sabem, então fica tudo um bocadinho confuso — e fica também pobre, penso eu, para os jovens que não têm esse contacto. A dificuldade em contar a história, pelo menos a minha maior dificuldade, aquilo que me levou mais tempo a tentar resolver na minha cabeça, antes de pôr tudo em prática, foi encontrar um fio que conseguisse unir o Antigo e o Novo Testamento e que desse uma continuidade lógica. Porque, claro, isto é uma síntese da Bíblia. Tive de optar por deixar muitas coisas de fora. A maior parte do Antigo Testamento está fora, porque não me queria perder nesse fio condutor. Também devo dizer que episódios que considero menos edificantes para os jovens também deixei um pouco de fora.

"Quando leio essa parte da Bíblia que tem as histórias de Saul, Samuel, David, parece que estamos a ler Shakespeare."

Por exemplo, a violência toda no livro de Josué é passada assim muito…
De forma muito suave. Quer dizer, ponho um bocadinho, mas só um bocadinho de nada. Porque também é preciso perceber o que é que é essencial numa leitura que se faz no século XXI. Isso é uma questão que me tem também preocupado bastante hoje em dia, relativamente à Bíblia: se podemos afirmar que todos os versículos da Bíblia, do primeiro ao último, têm a mesma importância, ou se hoje em dia chegámos a um ponto, pelo menos no contexto católico, em que podemos privilegiar algumas passagens da Bíblia em detrimento de outras — o que, embora a Igreja Católica não diga isso abertamente, acaba por deixar de sugerir que há passagens que não são tão relevantes e que é preferível focarmos nas que são, nas que ainda têm qualquer coisa de importante para dizer hoje. Penso que nem toda a Bíblia é lida nas leituras na igreja, há partes que ficam de fora, acabam por nunca ser lidas em público, talvez com essa preocupação de não estar a sobrecarregar as pessoas com muita informação de coisas que se calhar não são relevantes hoje. O meu critério foi esse: deixar de fora aquilo que achei que não era relevante para esse fio condutor da história e, ao mesmo tempo, tentar pôr-me na pele de um jovem que talvez não tenha paciência para ler 150 salmos, e então reduzi os salmos a bocadinhos de quatro ou cinco salmos, deixando essa curiosidade. Quem quiser ler, lê tudo.

Sente que há um mercado renovado que o leve a escrever esta adaptação? Muito se tem escrito e dito sobre esta ideia de um renascimento religioso entre os mais jovens, um certo regresso da Geração Z à religião. Há dez, quinze anos, pelo menos no mercado português, as Bíblias que existiam adaptadas a jovens seriam as das editoras católicas, confessionais. Há aqui qualquer coisa a acontecer, alguma sede, que pede uma resposta do mercado editorial mainstream, para que se coloque no mercado uma adaptação da Bíblia para jovens?
Não sei responder a essa pergunta, porque a minha perspetiva não é a editorial. Compreendo as coisas que sinto que tenho interesse em fazer, depois proponho e logo se vê se as pessoas estão interessadas, se do lado editorial há interesse ou não. O que eu vi, de facto, foi que quando fiz a adaptação para jovens da Odisseia e da Ilíada, foi num contexto em que já havia adaptações para jovens. Da Ilíada, talvez não houvesse, mas da Odisseia já havia outras adaptações em português, que já tinham um lugar muito fixo nos hábitos das pessoas. Mas, mesmo assim, comparando aquilo que era a minha ideia com essas que já existiam, achei que havia um lugar para a minha adaptação e, de facto, fui obtendo bastantes leitores ao longo destes anos. Relativamente à Bíblia, não conheço muito bem como são as adaptações para jovens atualmente disponíveis em Portugal. Também há sempre aquele dilema: o que é que vamos entender por jovem? É uma criança ou é um adolescente — ou é, enfim, jovens de todas as idades, como eu gosto de dizer? É difícil saber qual é o nível de linguagem que devemos tentar salvaguardar. A minha ideia, como foi com a Odisseia e com a Ilíada, foi a de não fazer uma coisa muito infantil, para crianças com menos de 10 anos — acho que não tenho, sequer, essa capacidade de escrever para essa faixa etária —, mas tentar escrever para jovens mais adolescentes. E tentar pensar o que é que os poderá maçar e o que é que os poderá interessar.

Quando lhe fiz uma entrevista acerca da sua tradução da Bíblia, contou que, na sua infância, os seus pais lhe ofereceram uma Bíblia adaptada para crianças e que isso o estimulou. Essa memória tem algum eco nesta adaptação?
Tenho pena de não ter esse livro. Nas muitas mudanças de casa, penso que o livro ficou nos Estados Unidos, quando nós fomos para lá viver. O meu pai era professor na Califórnia e depois voltámos para Portugal. Os livros eram para voltar para Portugal depois de nós termos voltado e não voltaram. Portanto, houve livros e discos que ficaram lá. Mas essa adaptação foi muito importante para mim. Porque foi justamente numa altura em que eu também tinha recebido, como presente, uma Bíblia normal, em inglês, e tive uma dificuldade enorme em ler a Bíblia na sua versão normal. Porque achei que era impenetrável. E a adaptação para jovens, de facto, ajudava a que, pelo menos, a estrutura da Bíblia ficasse clara e a identidade das personagens mais importantes do Antigo Testamento também ficasse mais destacada nessa adaptação. Porque são tantas as personagens. Se nós começamos a ler a Bíblia a partir de Génesis, são nomes atrás de nomes atrás de nomes. Onde é que nós vamos perceber quais são os nomes fundamentais para reter nas nossas cabeças? Portanto, foi isso que eu tentei fazer. Foi deixar de fora os nomes que não interessam e dar importância àqueles que eu gostaria que os jovens soubessem quem são.

“Os Evangelhos são os livros da minha vida.” Após dez anos a traduzir a Bíblia, Frederico Lourenço voltou a ser católico

Logo na introdução, apresenta esse elenco de personagens: Adão e Eva, Abraão e Sara, Isaac e Rebeca, Jacob, Raquel, Moisés, vai por aí fora até Samuel, Saul, David, Salomão. Depois vai acabar nos profetas com Daniel. Dizia há pouco que um dos desafios que teve ao fazer esta adaptação foi encontrar um arco narrativo que começasse no Génesis e acabasse no Apocalipse. Estamos a falar de mais de 70 livros e não apenas de um livro. Como é que foi fazer esse trabalho? O que é que lhe custou mais?
Este trabalho baseia-se na interpretação teológica da Bíblia e não na interpretação crítico-histórica. Porque, do ponto de vista crítico-histórico, não existe nenhum arco narrativo desde Génesis a Apocalipse. São livros que foram escritos de forma completamente individualizada e que, por coincidência fortuita, foram reunidos num só livro a que nós chamamos Bíblia, onde temos escrituras de duas religiões que estavam em antagonismo uma em relação à outra, o Judaísmo e o Cristianismo. Portanto, em rigor, talvez não exista nenhum arco narrativo. Mas a interpretação teológica da Bíblia assenta na ideia de que existe, de facto, um arco narrativo. Acho que o grande eixo entre um testamento e o outro é o livro de Daniel e a interpretação teológica assenta na ideia de que o livro de Daniel foi autenticamente escrito na época de Daniel — e não, como pensam os críticos crítico-históricos, no século II antes de Cristo. E a ideia, também crítico-histórica, de que os profetas não previram nada do Cristianismo esbarra contra a ideia teológica de que os profetas profetizam a vinda de Jesus. Portanto, aceito toda a interpretação teológica: parto do princípio de que o edifício que estou a construir é o edifício teológico. Portanto, não ponho nada dessas coisas em dúvida, não problematizo nenhuma dessas questões. E, para mim, então, Daniel é aquele momento em que Antigo Testamento e Novo Testamento começam a fazer sentido juntos, porque é Daniel que prevê a vinda do Filho do Homem e, com base nessa visão e nessa profecia, foi possível, então, encadear o Novo Testamento no Antigo Testamento. Portanto, aquilo que Daniel previu foi aquilo que aconteceu depois com o nascimento de Jesus e com a vinda de Jesus. Também havendo passagens muito importantes de Isaías, que, interpretadas do ponto de vista cristão — não do ponto de vista judeu —, também anteveem Jesus e a história de Jesus. É uma Bíblia totalmente teológica.

▲ Frederico Lourenço na Sala de S. Pedro da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Realmente, ao contrário do que poderíamos esperar, a partir do conhecimento de uma Bíblia tradicional, o seu segmento do Antigo Testamento acaba com a história de Daniel e, portanto, a história do exílio na Babilónia não inclui os textos de Esdras e Neemias e essa história toda. Mas, depois, abre o Novo Testamento com um pequeno preâmbulo, com algumas passagens de Isaías, em que fala sobre esse período intertestamentário. Portanto, também procurou, com isto, criar uma coesão, uma unidade narrativa entre estes dois universos?
Sim, porque penso que isso faz sentido para esta Bíblia para jovens funcionar. Faz sentido ver isso. Não interessa estar a propor muitas informações contraditórias, de teorias sobre a Bíblia, na fase em que as pessoas estão a ler isto: algumas delas terão feito catequese recentemente, ou terão feito a primeira comunhão, ou estarão a preparar-se para o Crisma, não sei. Não interessa estar com muita confusão e mais vale olhar para isto como esta grande arquitetura teológica que tem a sua beleza extraordinária, como acho que também já tive a ocasião de lhe dizer noutras conversas. Porque reconheço essa beleza extraordinária que está presente nessa interpretação teológica da Bíblia.

E assume aqui esse edifício narrativo da própria Bíblia. Suponho que tenha havido algumas escolhas que teve que fazer, em termos até de cronologia bíblica, por exemplo, estou a pensar aqui em encadear episódios como Rute… O objetivo foi realmente tentar respeitar a Bíblia na tradição do texto, mais do que depois nas interpretações críticas posteriores?
Sim, no caso de Rute é respeitar a Bíblia cristã, como ela está organizada. A localização do livro de Rute é diferente na Bíblia cristã, comparada com a Bíblia judaica. Na Bíblia hebraica, Rute está numa posição diferente da posição em que está na Bíblia cristã, porque na Bíblia cristã já se tentou fazer um arco narrativo aqui: Rute como avó ou bisavó de David. Portanto, é colocada nessa sequência, e na Bíblia hebraica o livro de Rute está fora dessa sequência, porque também não era tão importante pensar em David como antepassado de Maria e de José. São coisas que têm lógica do ponto de vista cristão. E isto é uma Bíblia para jovens assumidamente cristã.

Há grandes segmentos de texto que, claramente, são reescritos, portanto, contados por si, enquanto há outros momentos, por exemplo, citações, em que parece respeitar ipsis verbis penso, a sua tradução. Outras vezes usa algumas paráfrases. Como é que foi o processo de reescrita destes textos?
O processo foi tentar simplificar o que é muito difícil: tentar ir mais por contar a história com palavras mais minhas, mantendo a história, mas não empregando as palavras mesmo bíblicas, quando são muito difíceis. E, em segmentos textuais, que são por si próprios muito cristalinos e muito acessíveis, então tentar manter isso o mais possível. Na parte do Novo Testamento há mais texto mesmo próprio, original da Bíblia, muito menos adaptado por mim. Porque, de facto, presta-se a essa leitura mais acessível e mais cristalina. Onde tentei simplificar um pouco mais e usar mais palavras minhas para contar a história, foi mais na parte do Antigo Testamento e, sobretudo, em secções que, quando são lidas no contexto em que estão inseridas — por exemplo o Livro de Reis, a história de Elias e tudo isso, tive de adaptar um bocadinho para alguém que está a ler aquilo sem conhecer o contexto todo conseguir seguir as etapas da história de Elias, que, na Bíblia, estão misturadas com muitas outras coisas. Então é também tirar muita coisa para dar mais destaque àquelas que eu acho que são mais interessantes.

"Toda a nossa civilização se baseia na premissa de que as pessoas sabem quem são as personagens da Bíblia."

Às personagens também. No Antigo Testamento, a maioria dos capítulos está organizada em torno de personagens.
Sim, para as pessoas se informarem sobre quem foram estas pessoas. Como digo, o meu grande objetivo é que quem leia isto fique com uma ideia muito clara de quem são estas figuras e depois que se interesse por ir ler a Bíblia. Para depois ver como é que isto é na sua forma completa.

Na introdução, dirige-se ao jovem partindo da premissa que um dia o jovem há de ler a versão completa. Portanto, o seu objetivo não é que um leitor que pegue neste texto, ou a quem os pais o leiam, e que este seja o contacto definitivo que se tem com a Bíblia.
Não. É a mesma coisa com as minhas adaptações de Homero. É um primeiro passo, é para quebrar o gelo, é para tentar despertar algum interesse e alguma curiosidade — e, depois, o ideal será que as pessoas depois leiam as obras como elas são. Sendo obras muito antigas, são obras que foram compostas com base noutros critérios daquilo que torna um texto interessante. Não direi tanto no caso da Odisseia, mas no caso da Ilíada e no caso da Bíblia, temos de reconhecer que existem muitas passagens extremamente aborrecidas e maçadoras, que nós nos perguntamos: porque é que estão aqui? No que é que isto contribui para tornar esta obra literária maravilhosa?

A segunda metade do Êxodo, por exemplo, passa-a completamente à frente. Aquele código penal todo que vem depois da saída do Egito.
Cortei tudo. Toda essa parte, cortei tudo. Mesmo os próprios estudiosos, hoje em dia, também se perguntam porque é que uma coisa tão anacrónica, que não podia fazer sentido na época do Êxodo, porque é que todas aquelas leis — que têm que ver já com o Templo de Jerusalém, que seria fundado e construído séculos e séculos depois — estão todas ali naquele lugar. Parece que estão deslocadas do seu lugar lógico na Bíblia. Isso tem a ver com a redação desses livros do Pentateuco, que é uma redação mais tardia do que se pensava há 200 anos, mas são coisas que depois não fazem sentido. Eu não queria confrontar os leitores desta Bíblia com as perguntas às quais não podemos escapar. Porque é que isto está aqui? Porque é que isto era tão interessante e agora de repente é uma maçada tão grande? É o caso do livro de Êxodo. São 41 capítulos, os primeiros vinte são extremamente interessantes e depois os outros são extremamente maçadores, porque não contam a história.

▲ Frederico Lourenço adaptou a Bíblia para jovens em menos de 300 páginas

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Ficamos ali a avançar páginas à procura de quando é que a história volta, quando é que eles retomam a marcha, não é?
Exatamente. Os israelitas saíram do Egito, nós queremos ler a história até eles chegarem à Terra Prometida. Não queremos ficar com aquilo tudo. A segunda parte de Êxodo, todo o livro de Levítico, Números e a maior parte de Deuteronómio, é uma interrupção muito grande na história.

A questão das omissões é uma questão interessante. Obviamente, até pelo tamanho do livro se percebe que não está aqui a Bíblia toda e isso é assumido.
É uma síntese.

Mas o critério que usou para deixar segmentos de fora também incluiu, pelo que percebi, aquelas passagens mais difíceis de compreender à luz do nosso pensamento atual, passagens que sejam até mais controversas. Isso pode resultar num livro que acaba por purificar a Bíblia da sua dimensão mais controversa?
Tratando-se de uma adaptação para jovens da Bíblia, acho que é lógico e expectável que muitas coisas tenham de ficar de fora. A maior parte. Digo, no início, que a Bíblia, de facto, é um livro gigantesco e aqui temos uma síntese muito pequena. Nessa escolha das coisas para deixar de fora, acho que é lógico deixar as coisas mais controversas de fora. As mais controversas e as mais aborrecidas. Não queria que a pessoa desistisse da leitura antes de chegar ao fim do arco narrativo, pelo menos para perceber qual é a lógica que está na organização, pelo menos cristã, da Bíblia: com o Antigo e o Novo Testamento e com os livros ordenados da forma como estão ordenados nas Bíblias cristãs. O que seria diferente, no caso do Antigo Testamento, relativamente às Bíblias judaicas. Há uma lógica muito grande também na própria Bíblia cristã, no facto de os Profetas estarem em último lugar antes de começar o Novo Testamento. Isso tudo é um pensamento cristão de organizar a Bíblia de modo a dar esse encadeamento lógico.

"Tratando-se de uma adaptação para jovens da Bíblia, acho que é lógico e expectável que muitas coisas tenham de ficar de fora. A maior parte. Digo, no início, que a Bíblia, de facto, é um livro gigantesco e aqui temos uma síntese muito pequena. Nessa escolha das coisas para deixar de fora, acho que é lógico deixar as coisas mais controversas de fora. As mais controversas e as mais aborrecidas."

A contar uma grande história.
Sim, e acho que faz sentido seguir isso.

O facto de ser uma edição sem notas de rodapé, que é uma coisa que se tornou muito famosa nas suas edições, também impediria que fosse dado contexto a algumas passagens…
Sim, porque isso não estava no meu objetivo. O meu objetivo é mesmo dar a conhecer as histórias mais interessantes da Bíblia, as personagens mais importantes e, no final, as pessoas saberem quem são essas figuras. Ficaria muito contente se isso se concretizasse. E se um dia, por exemplo, nas minhas aulas na Universidade de Coimbra, nesta cadeira que dou, Origens do Pensamento Ocidental, as pessoas souberem algumas coisas que estão aqui neste livro… O que são as cebolas do Egito, por exemplo, o que são os corvos que foram alimentar Elias. Faz parte da nossa cultura saber essas coisas e é pena, chegámos a um ponto em que já ninguém sabe nada disso.

Nota isso? Que há um declínio grande da cultura bíblica?
Sim. Não sei se alguma vez houve muita cultura bíblica em Portugal. Falo muito como estrangeirado, como pessoa que fez, em parte, a escolaridade inglesa. Em que, de facto, tínhamos uma disciplina chamada Escritura. Scripture. Quando os meninos portugueses tinham Religião e Moral, nós tínhamos Scripture, que era basicamente o Antigo Testamento. Era ouvirmos as histórias, estudarmos e lermos as histórias do Antigo Testamento. E éramos testados relativamente aos episódios do Antigo Testamento. Acho que é uma coisa que contribuiu muito para a minha cultura e é uma coisa que eu acho que é útil. Há muitas áreas do saber em que isso é sobretudo importante. A História da Arte, por exemplo. Como é que a pessoa se confronta com toda a iconografia da História da Arte Ocidental não sabendo quem são as figuras da Bíblia? As coisas não vão fazer sentido.

O livro inclui algumas reproduções de alguns quadros que tratam de episódios bíblicos, é uma maneira de dar uma dimensão visual a algumas histórias?
Sim, também dá um pouco de cor para tornar o livro mais agradável.

Embora o Antigo Testamento seja muito maior que o Novo Testamento, aqui neste livro eles talvez sejam metade-metade. O Novo Testamento terá tido, suponho, desafios diferentes do Antigo Testamento. Por exemplo, harmonizar os quatro Evangelhos.
Foi fazer uma coisa da qual eu discordo tanto e, portanto, apanhei-me a mim próprio a fazer uma coisa que eu critico sempre nas outras pessoas. Mas tive de fazer aqui. Justifiquei-me a mim próprio, pensando que os primeiros cristãos já fizeram isso. O famoso Taciano fez o chamado Diatessaron, que era uma versão dos quatro Evangelhos, que fundia os quatro Evangelhos de modo a contar uma história contínua, sem diferença entre Mateus, Marcos, Lucas e João. Eu, que normalmente sou crítico disso, acabei por fazer a mesma coisa. Foi uma lição de humildade para mim, de não criticar os outros e de ver que há vantagens em fazer isso. Do ponto de vista teológico, não interessa dizer se é Mateus, Marcos, Lucas ou João. É o Evangelho, não é os Evangelhos. É o Evangelho. Então, abracei essa heresia de juntar os quatro Evangelhos e tentei fazer o melhor possível. Vi que há aspetos muito aliciantes em fazer isso, porque evidentemente que eles se completam. Mesmo havendo passagens em que se contradizem — aí a pessoa tem de ter cuidado para não deixar a contradição —, completam-se.

Mas como é que trabalhou nesse sentido? Pôs os quatro Evangelhos à sua frente e tentou criar uma cronologia a partir daquilo que coincidia entre os quatro e deixou as contradições de fora? Como é que foi o método?
Comecei por fazer uma lista num papel, uma lista daquilo que, na minha cabeça, era o fundamental numa leitura transversal dos quatro Evangelhos, em que todas as coisas que eu considerasse fundamentais estivessem presentes. Comecei com essa lista, sem estar muito preocupado se é Marcos, se é Lucas, se é Mateus, mas aquilo para mim eram as etapas principais da vida de Jesus. Depois, a partir dessa lista, comecei a tentar perceber quais são os evangelistas que tratam os diferentes temas e, às vezes, qual deles é que vou escolher para determinada questão, quando há mais do que um que trata a mesma questão. Havia outras opções que pudessem ser tomadas. A minha opção, nos Evangelhos, foi tentar aproveitar o mais possível tudo o que está no Evangelho de João. As outras pessoas talvez pensassem que o fundamental é tomar como marco principal o conjunto Mateus, Marcos, Lucas, os três Evangelhos sinóticos. Mas eu guiei-me mais pelo Evangelho de João. É mais o Evangelho de João complementado pelos sinóticos, do que os sinóticos complementados por João — que é a abordagem, no fundo, que nós até temos na Igreja.

Até nos ciclos de leituras, não é? São seguidos esses três e depois João vai aparecendo…
Para completar. Não é um ciclo só de João, infelizmente.

E tomou essa decisão por uma razão literária?
Por uma razão literária, subjetiva, de preferência pessoal. É o meu texto preferido. De todos os textos que existem, que eu conheça à face da terra, o meu texto preferido de todos é o Evangelho de João. E é um texto que eu conheço muito bem, porque o leio permanentemente; estou sempre a reler, em grego. É a minha leitura preferida. É um texto que sinto que contém qualquer coisa de tão transcendente e de tão extraordinário e de tão sobre-humano. Foi a minha bússola. Foi o Evangelho de João. E depois completei.

Com episódios de outros.
Sim. Mas a primeira abordagem foi mesmo tentar fazer uma lista e depois, a partir dessa lista, fui enchendo a coisa, fui acrescentando também coisas que me tinham faltado. O Novo Testamento tem 27 livros, estes são quatro, os Evangelhos. Depois temos os outros todos. Aí foi difícil encontrar passagens que pudessem interessar a um leitor mais jovem.

"Se um dia, por exemplo, nas minhas aulas na Universidade de Coimbra, nesta cadeira que dou, Origens do Pensamento Ocidental, as pessoas souberem algumas coisas que estão aqui neste livro... O que são as cebolas do Egito, por exemplo, o que são os corvos que foram alimentar Elias. Faz parte da nossa cultura saber essas coisas e é pena, chegámos a um ponto em que já ninguém sabe nada disso."

Esses estão reunidos num segmento que se chama “O Nascimento da Igreja”. Ou seja, uma espécie de período de transição entre a história bíblica e o mundo que se construiu depois. Foi a maneira de integrar aqui Paulo, as cartas, os Atos dos Apóstolos?
Foi desafiante tentar encontrar passagens que fossem acessíveis e não fossem aborrecidas, mas, sobretudo, que fossem compreensíveis. Porque um dos grandes problemas da epistolografia paulina é que, de facto, são textos muito exigentes, são textos que até para adultos são difíceis de entender, quanto mais para jovens. Então, tentei focar-me mais em passagens dos Atos dos Apóstolos, complementando com alguma coisa da epistolografia paulina e depois com alguma coisa do Livro do Apocalipse, para terminar no mesmo ponto em que a Bíblia termina. Mas não é fácil, a partir das cartas do Novo Testamento, como não são narrativas, não contam histórias, enfrentam mais problemas teológicos ou problemas das primeiras comunidades cristãs, com todos os seus conflitos e tudo isso, não é tão interessante ou não é tão exequível transformar aquilo num texto apto para leitores jovens. Portanto, um dia hão de ler.

Nas cartas de Paulo, talvez seja aí que se encontram algumas das passagens mais polémicas, controversas, do Novo Testamento. Dedicou um pequeno capítulo às cartas de Paulo, em que fez uma escolha, que não será inocente, em que escolhe um excerto famoso da carta aos Coríntios, aquele do “se não tiver amor nada sou”, que todos conhecemos que, se calhar, dos casamentos. Porque é que escolheu este pequeno excerto de Paulo para sintetizar a mensagem dele?
Porque eu penso que, se quisermos sintetizar a mensagem do Novo Testamento, tem de ser essa afirmação, que não é de Paulo, mas de João, na primeira carta de João: Deus é amor. É isso que Jesus vem dizer, com frases muito diferentes e com abordagens variadas, mas essa é a mensagem do Novo Testamento. Então, para Paulo estar consentâneo com a mensagem do Novo Testamento, esse capítulo 13 da primeira carta aos Coríntios é a passagem ideal. Além de ser muito, muito bonita e ter uma grande poeticidade, é uma passagem fantástica, mas é uma passagem em que vemos aqui os autores do Novo Testamento alinhados na mesma ideia de que Deus é amor. E talvez seja essa a primeira ideia que as pessoas recebam na catequese, que é a sua primeira abordagem à religião que praticam. Se a Bíblia, com a Escritura Sagrada, é tão facilmente coadunável com essa mensagem ou não, isso são problemas que depois, mais tarde, cada pessoa terá de enfrentar por si próprio. Faz parte do processo de cada cristão, depois, lutar com a palavra de Deus. Mas isso é uma luta para cada um.

Já falou publicamente — aliás, numa entrevista que fizemos aqui no Observador, falou disso — sobre como esta década a traduzir a Bíblia o impactou profundamente, até na sua própria relação com a fé e no seu regresso à prática religiosa e à Igreja Católica. Também já o admitiu aqui, e é visível a partir deste livro, que este livro é feito, claramente, com um olhar cristão. Se se tivesse aventurado a fazer esta adaptação há dez anos, teria sido diferente?
Não sei, é difícil fazer esse exercício. Eu acho que mesmo há dez anos teria visto que não faz sentido fazer uma adaptação para jovens se não alicerçarmos a organização do livro nessa ideia de que existe um fio condutor e uma arquitetura que tem coerência. E essa é a visão teológica, de facto. Porque senão ficam textos muito isolados uns dos outros e não se consegue fazer uma história que faça sentido, começando com Adão e Eva e acabando em Apocalipse. Acho que seria difícil.

Esta adaptação sai ainda antes de a sua grande coleção da tradução da Bíblia estar completa. Continua a faltar o segundo tomo do quinto volume. Penso que terá os livros das Crónicas, Esdras e Neemias…
E Macabeus.

Já há um plano para quando é que esse volume poderá sair?
Vai sair. O que posso dizer é que vai sair. Agora não posso dizer é quando, porque ainda não acabei. Já tenho algumas partes feitas, mas ainda não está pronto. É um tomo também bastante trabalhoso porque os livros de Crónicas, chamados Paralipómenos na Septuaginta, têm muito texto, têm muita coisa para fazer. É um trabalho também um bocado trabalhoso porque implica muita comparação com os dois livros de Samuel e dos livros de Reis, porque contam a mesma história, mas de forma um pouco diferente. Os quatro livros de Macabeus também são muito trabalhosos. São livros, neste tomo, que não são propriamente aqueles que as pessoas mais leem, mas que dão muito trabalho para fazer uma coisa que esteja em condições. Eu não me estou a apressar a mim próprio, estou a fazer com a minha calma, com o meu ritmo. Sei que, quando sair, as pessoas vão ficar interessadas porque querem ter a última peça do puzzle desta minha tradução da Bíblia, e eu também estou entusiasmado para fazer isso, mas não lhe posso dar uma data ainda porque estou a tentar não pôr pressão sobre mim próprio.

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