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Começa agora o novo episódio do Gabinete de Guerra. Eu sou a Maria João Simões. A análise é do historiador Bruno Cardoso Reis, a partir de Washington. Olá, Bruno, bem-vindo.
Olá, obrigado.
Bruno, comecemos por mais uma reunião do G7, que está reunido em Itália. Esta pode ser a última oportunidade da Ucrânia garantir apoio extra. Que importância poderá ter este encontro no conflito com a Rússia?
Este é uma reunião ao nível de Ministros dos Negócios Estrangeiros, este grupo que no fundo é um pouco o nucleador de gestão da aliança ocidental, do Ocidente alargado, se quisermos, porque junta os principais países europeus, a União Europeia, muitas vezes também está convidado o secretário-geral da NATO, embora não faça parte, os Estados Unidos, o Canadá e o Japão. Aqui tem tido uma função muito importante ao nível da guerra econômica. É sobretudo quando são as cimeiras de chefe de governo, foi o caso em julho, e obviamente também envolvendo os ministros das finanças e os responsáveis dessa área econômica. Aqui, aparentemente, os três temas na agenda são a questão da Ucrânia, a questão da negociação de um cessar-fogo, enfim, de algum tipo de acordo, nomeadamente no Líbano e, em terceiro lugar, a questão do mandato do Tribunal Penal Internacional em relação a Netanyahu, no fundo, tentar coordenar uma resposta entre estes países. Em relação à Ucrânia, a expectativa é que saia uma mensagem forte de que este apoio ocidental será para continuar. O grande problema é que quem está lá a representar os Estados Unidos é Anthony Blinken, ou seja, o chefe da diplomacia da administração Biden. Ora, a administração Biden tem um prazo de duração bastante limitada, como sabemos, e, portanto, a questão crucial vai ser depois o que é que os Estados Unidos fará. A minha intuição é que provavelmente os outros países tentarão perceber, falando com Anthony Blinken, o que é que ele acha que vai acontecer, porque apesar de tudo, há aqui uma transição em curso. Apesar de tudo, o seu sucessor, Marco Rubio, é da ala mais moderada, mais tradicional do Partido Republicano, dos poucos que aparecem nesta administração Trump, na nova administração Trump, com essa característica. E, portanto, apesar de tudo, ele terá aqui algumas informações, eventualmente alguns conselhos a dar aos seus colegas.
Inside information, não é?
Exatamente. Em relação à questão do Líbano, vamos ver. Aliás, este encontro, ainda não temos conclusões definitivas também porque ele é de dois dias. Só hoje, na terça-feira, é que vamos saber exatamente quais são as conclusões oficiais, mas na segunda-feira já houve um encontro com vários responsáveis de países árabes e da própria Liga Árabe, países árabes mais moderados, o próprio Qatar, Arábia Saudita, etc., para tentar perceber também o que eles acham que está a acontecer, o que acham que pode acontecer, o que se pode fazer. Mas eu acho que temos que continuar a ser prudentes. E depois há esta questão muito espinhosa do Tribunal Penal Internacional. Os Estados Unidos são muito críticos, consideram que eles não têm jurisdição, consideram que não faz sentido o Tribunal Penal estar aqui a visar o líder, apesar de tudo, de um país democrático. No caso dos países europeus, a posição é muito mais crítica em relação a Netanyahu, eu penso que com alguma justificação. A situação realmente da população civil em Gaza é absolutamente inaceitável há muito tempo e o governo israelita não dá nenhum sinal de ter a mínima preocupação com a sua imagem internacional sequer, para não falar mesmo da questão da população civil e de como era estrategicamente inteligente procurar conquistar essa população e afastá-la do Hamas. Portanto, eu acho que vai ser difícil chegar a algum tipo de posição conjunta, eventualmente a seis e não a sete, ou seja, excluindo os Estados Unidos.
Na Roménia, o candidato presidencial crítico da NATO e das ajudas à Ucrânia, um pró-Trump, ficou à frente na primeira volta das eleições. Atrás está o candidato pró-europeísta. Bruno, ontem muitos ficaram surpresos, mas não devíamos antes ficar preocupados? E pergunto isto porque a sensação é de que temos cada vez mais países dentro da Europa desalinhados com esta ideia de uma Europa unida.
Dependerá certamente das posições de cada um. Quem defende posições de uma direita mais identitária e quem tem uma posição mais crítica, mais cética em relação à União Europeia, se calhar, vê isto com satisfação. Agora, acho que objetivamente é um sinal de que há aqui realmente uma vaga Trump. É claro que esta vaga Trump não é apenas ou principalmente causada por Donald Trump. É causada por fatores que são transversais, que têm a ver com uma série de crises, em particular a crise econômica e financeira de 2008. A questão da pandemia, crises associadas a grandes transformações ligadas à globalização criaram realmente muita gente muito insatisfeita, muitas vezes com razões até compreensíveis de queixa. Esta ideia de que a globalização é boa para toda a gente, bem, não é realmente assim. Na média pode ser boa, mas em concreto, em relação a certos setores, em relação a certas atividades, muitas vezes leva a que elas se tornem completamente insustentáveis e que as pessoas, sem nenhuma culpa delas, de repente estejam no desemprego e com grandes dificuldades em certas regiões, por exemplo, em encontrar alternativas viáveis. Há esses fatores que são estruturais, há questões como as redes sociais que permitiram um estilo de política populista muito mais eficaz, uma comunicação muito mais eficaz, que não precisa de passar por mediação, pelos meios de comunicação tradicionais, etc. É claramente aqui o caso, nós estamos a falar de um candidato independente, que não tem partido, portanto um populista identitário sem partido. Agora, realmente tem estas características que tornam complicada as coisas em termos de, pelo menos aqueles como eu, que acham que para Portugal, o bom funcionamento da União Europeia, por exemplo, é muito importante e ainda mais importante no contexto atual. Não quer dizer que não haja coisas a criticar ou melhorar, mas para um país pequeno como Portugal, no contexto atual, seja económico, seja até em termos de segurança e defesa, estar numa rede de alianças fortes é indispensável. E portanto, haver países, cada vez mais países, com líderes que são declaradamente muito hostis em relação à União Europeia, tal como ela existe hoje, vai criar dificuldades em termos de chegar a acordos, chegar a consensos, avançar com coisas como acordo no orçamento comunitário, e acho que isso pode ter implicações bastante negativas para os interesses portugueses. É também uma péssima notícia para a Ucrânia.
Pois é, o que eu ia perguntar se não é mais uma voz para o Putin
Exatamente, porque essa também é outra característica, muito crítico da NATO, muito compreensivo em relação a Putin. A Roménia é o país vizinho da Ucrânia ao sul, vamos dizer assim, naquela zona mais próxima de Odessa, por exemplo. É muito importante para os movimentos de cereais e portanto, desse ponto de vista, será uma má notícia este peso desta corrente num país como a Roménia. Apesar de tudo, estamos a falar da primeira volta. Ele conseguiu 22% dos votos. O voto mais moderado dividiu-se muito, nomeadamente entre o atual primeiro-ministro, que já se demitiu, que por duas décimas, por 0,2%, não ficou em segundo lugar, mas em terceiro e portanto não passa à segunda volta. Será uma reformista, uma líder de um partido mais liberal, que passará à segunda volta e vamos ver se concentrará os votos nessa candidata que é pró-europeia, pró-União Europeia, pró-Ucrânia. Se for assim, é de notar este resultado, mas ele não terá necessariamente grandes consequências na política externa da Roménia, sendo que o presidente na Roménia realmente tem alguns poderes maiores do que em Portugal. O sistema é um pouco também semipresidencial, mas isso significa que muitas vezes os equilíbrios são diferentes e o presidente, no caso da Roménia, tem algum poder maior no campo da defesa e da política externa do que tem o presidente em Portugal e também por isso estas eleições contam um pouco mais, além de que vamos ter eleições legislativas entretanto também. Realmente aí as coisas vão se clarificar, mas é certamente um sinal de preocupação, seja para Bruxelas, seja para Kiev.
Queria também pegar no artigo d'O Observador, que questiona a forma como Teerão se está a preparar para uma nova administração Trump. Bruno, como é que achas que vai ser a reação do Irão? Medo e cautela ou vai querer acertar contas pelo apoio dos Estados Unidos a Israel?
A questão toda é qual Irão. Um dos problemas em lidar com o Irão é que estamos a falar do guia supremo, do Aiatolá Khamenei, do sucessor do Aiatolá Khomeini, da linha dura, que é quem realmente controla o Estado e sobretudo a sua política de defesa e a sua política repressiva também ao nível interno e a sua política externa, ou estamos a falar do novo presidente, que até é um moderado no contexto, obviamente, de alguém que está dentro do regime, portanto, um moderado com bastantes aspas. À partida, esses moderados vão tentar puxar pelo lado mais pragmático de Donald Trump, esta ideia de que é alguém que valoriza, sobretudo, o pragmatismo. Vão valorizar o fato de que Donald Trump não é propriamente alguém que se preocupe muito com a natureza autoritária dos regimes. E tentar perceber se por essa via mais pragmática, será possível algum acordo. Certamente haverá muitos setores da linha dura que continuarão a ser muito céticos em relação à possibilidade de isso acontecer e acham que a resposta deve ser apostar no programa nuclear, apostar em armar estas milícias e estes grupos terroristas, o Hezbollah, os Houthis, etc. O problema aí também é que, apesar de tudo, o Irão está sob sanções há muito tempo e sanções reforçadas. Está com recursos muito mais limitados do que no passado. Sofreu um embate muito forte nos seus principais aliados, sobretudo o Hezbollah. Sofreu um ataque, uma decapitação das suas lideranças como nunca se viu na história e não tem realmente boas opções em relação a Donald Trump. Do meu ponto de vista, haverá estas duas tendências, vamos ver qual é que prevalece e também dependerá de qual será a reação da parte da administração de Donald Trump. A ideia dominante é que a prioridade para Trump no Médio Oriente serão Israel e Arábia Saudita, que não são propriamente grandes amigos do Irão. Do meu ponto de vista, dá uma pista no sentido de dizer que as relações serão provavelmente difíceis.
Ontem, Bruno, falávamos sobre um eventual cessar-fogo entre Israel e Hezbollah. Sempre vem, afinal, parece estar mais próximo?
Como eu já referi, penso que temos que ser bastante prudentes, ou seja, eu não estou a dizer que certamente não vai acontecer. Eu vou repetir aquilo que tenho dito e que infelizmente se tem mostrado válido já há muitos meses, que é eu acredito quando vir o acordo assinado e sobretudo quando vir a ser implementado.
Até mais do que assinado, não é?
Sim, exatamente. Ou seja, mesmo depois de assinado, eu ainda vou manter uma certa reserva até o ver efetivamente implementado, porque o grau de desconfiança entre estes polígonos é enorme. Tende sempre a ser grande quando há um conflito armado, mas neste caso é colossal e temos que ter aqui uma grande prudência. É evidente que há alguma expectativa positiva, é evidente que há uma grande pressão da parte da comunidade internacional, dos Estados Unidos, dos países árabes moderados para esse acordo acontecer, pelo menos em relação ao Líbano. Esse acordo em relação ao Líbano é relativamente mais fácil do que em relação a Gaza. Basicamente implicaria o Hezbollah cumprir o acordo que já existia antes, que é retirar-se para norte do rio Litani e criar uma faixa de segurança para a zona norte de Israel, permitindo à população israelita regressar. Mas o fato de ser simples perceber o que é preciso fazer, não significa que depois seja simples as partes aceitarem fazer isso e dar garantias também que permitam ultrapassar esta enorme desconfiança e é isso que complica as coisas e que obriga que tenhamos aqui bastante prudência.
Bruno Cardoso Reis, a partir dos Estados Unidos. Obrigada, Bruno, pela análise em mais um Gabinete de Guerra. Bom descanso.
Obrigado.
Até amanhã.
Obrigado, até amanhã.