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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Professora Liliana Reis, a Rússia deixou hoje avisos à Coreia do Sul, pode retaliar do alargamento das sanções e avisos também ao Japão. Se os japoneses enviarem os mísseis Patriot pra Ucrânia, isso vai ser visto como um ato hostil. Se o fizerem mesmo, que consequências é que apontaria na sequência desta ameaça que foi feita hoje?

Essas ameaças também não são surpreendentes. Aliás, nós temos vindo a observar desde o dia 24 de fevereiro, quer a Estados europeus, quer a Estados não europeus. Recordo-me que também já tinham sido feitas ameaças, nomeadamente à Noruega e ao Canadá, devido ao fornecimento também de ajuda militar à Ucrânia e por isso não são surpreendentes. Agora, aquilo que nos pode colocar efetivamente a questionar é como é que ficará a estabilidade da região do Indo-Pacífico e nomeadamente também da Ásia, depois das eleições em 14 de janeiro, em Taiwan. Neste momento, aquilo que nós começamos a perceber do ponto de vista das relações internacionais é que a formação de blocos e o alinhamento destes blocos com aquilo que são os seus principais aliados, e nós sabemos que o Japão, a Coreia do Sul, Taiwan, Austrália, Nova Zelândia, são parceiros, quer dos Estados Unidos, quer da Europa. Aliás, antes mesmo do ataque do Hamas a 7 de outubro, a Índia, e não deixa de ser curioso, porque o presidente Modi também já veio dizer que via com preocupação não apenas a evolução daquilo que se passa na Ucrânia, mas também no Médio Oriente, e vai estar reunido com Vladimir Putin nos próximos dias. Como eu dizia, aquilo que nós neste momento conseguimos percepcionar é que este alinhamento e esta formação, ou pelo menos consolidação destes blocos, pode efetivamente desafiar o sistema internacional num quadro mais alargado. Aliás, não era expectável aquilo que aconteceu dia 7 de outubro e aconteceu. Nós neste momento não sabemos quem irá ganhar as eleições no dia 14 de janeiro em Taiwan, mas se porventura for o partido mais conservador, e até mais nacionalista, é provável que também a China possa desencadear aqui algum fator de instabilidade. E por isso, essas palavras de Vladimir Putin, e da Rússia, relativamente àquilo que é o apoio, quer do Japão, quer da Coreia do Sul, são, por um lado, um elemento de dissuasão para evitar que eles continuem a fornecer ajuda à Ucrânia. Isso temos vindo a observar recorrentemente. Há sempre este tipo de ameaça, seja por Vladimir Putin, seja por Lavrov, seja por Peskov. Isto é algo recorrente. Primeiro dissuadir e depois alertar para que há efetivamente blocos ali, e nomeadamente a Coreia do Norte e a China, que podem efetivamente posicionar-se no sentido de concretização da ameaça.

Major-general João Vieira Borges, a Ucrânia diz ter provas de 465 casos em que foram usadas armas químicas por parte da Rússia em território ucraniano. Há evidências disso?

É o relato, é a narrativa da Ucrânia, há sempre desmentidos, com uma exceção, que foi assumido no caso de uma brigada que utilizou armas químicas. Mas de resto, obviamente, são situações que hão de ser avaliadas por observadores da comunidade internacional, em particular das Nações Unidas. Não tem tido o impacto que teria se não houvesse a guerra em Gaza. Imaginemos, são linhas vermelhas, da mesma maneira que a questão que colocaram à professora Liliana antes eram as tais linhas vermelhas. Aqui a linha vermelha das armas químicas, já pra não falar das armas nucleares, é algo que inclusivamente a própria China tinha uma postura relativamente à Rússia de oposição e portanto era uma linha vermelha para a China assumida. E só que no meio de tudo aquilo que se tem passado em Gaza e desta destruição e sobretudo desta mortandade que estamos a assistir em direto todos os dias, infelizmente, através dos órgãos de comunicação social, digamos que atenuou esta linha vermelha pra uma linha laranja. Estamos a falar, e ainda bem que fizeram a pergunta, de uma situação muito complexa nos dias de hoje. Não estamos só a falar de direito internacional, estamos a falar de direito dos conflitos armados. Mas passou despercebida uma situação que, pelos vistos, certamente que a Ucrânia não ia fazer essas acusações sem provas, que pelos vistos aconteceu. Agora, obviamente que da parte da Rússia há sempre os desmentidos tradicionais, inclusivamente que ia invadir a Ucrânia no dia 24. No dia 23 também diziam que era invenção dos países ocidentais.

Entretanto, temos eleições na Rússia em março e hoje o Supremo Tribunal rejeitou o recurso da candidata anti-Putin, Ekaterina Duntsova. Não pode concorrer às eleições, mas ela diz que vai criar um partido. Terá, professora Liliana Reis, alguma hipótese? Corre aqui o risco de represálias pelo regime se o fizer?

Aquilo que nós temos vindo a perceber, e também não é nada de novo relativamente a regimes autocráticos como é a Rússia, é que a oposição é toda silenciada, presa ou até morta. Relativamente à Yekaterina Dudsova, que é jornalista, e tem sido muito crítica do atual regime. Cumpre-me sublinhar este aspecto, ela tem colocado em discussão, nomeadamente na agenda de alguns dos poucos media que ainda podem fazê-lo, a questão da democracia, dos direitos humanos e mais do que isso, também daquilo que é a agressão russa à Ucrânia. Nós soubemos na semana passada que a candidatura dela tinha sido afastada pela Comissão Eleitoral. Aquilo que disseram foi que haveria erros ou falhas do ponto de vista do processo de candidatura e que, por isso, ela estava afastada. Vimos aquilo que aconteceu também a Navalny na última semana, que foi afastado para uma prisão muito mais longínqua, e mais do que isso, muito mais severa do que aquela em que se encontrava. E neste momento, pelo menos aquilo que tem sido relatado é que o único candidato que provavelmente concorrerá contra Vladimir Putin será o candidato do Partido Comunista, Nikolai Kharitonov. Mas mesmo este ainda não sabemos efetivamente se irá concorrer. Por isso, mesmo que Yekaterina forme um novo partido e a presente a eleições, eu estou convencida que o governo, e todas as estruturas institucionais do Kremlin tratarão, nem que seja na secretaria, como fizeram da primeira vez, de afastar esta candidatura, porque ela representaria, tal e qual como a de Navalny, representariam ambas as candidaturas mais hostis ao atual governo e mais contestatárias à autocracia que se vive na Rússia.

O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9:30 da manhã, tem nova edição depois da síntese das 16:30 da tarde e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.