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Está reunido o gabinete de guerra hoje com a ajuda do major-general Arnaut Moreira. Um encontro que também conta com o Bruno Vieira Amaral e com a Vanessa Cruz. E, Vanessa, está aí a retaliação da Rússia contra as explosões na ponte da Crimeia.

Está aí essa retaliação, uma retaliação em larga escala, é o que é admitido pelo próprio Kremlin. É essa a expressão, uma vingança de larga escala, numa altura em que os dois lados continuam a trocar acusações sobre a responsabilidade do que efetivamente aconteceu. Major-general Arnaut Moreira, bem-vindo.

Olá, muito boa tarde a todos.

Boa tarde. Este episódio pode mudar as estratégias militares. Ao que sabemos, a Rússia está a recorrer a armas marítimas de alta precisão contra instalações da Ucrânia.

É natural, todos esperávamos, e o primeiro ator que esperava que houvesse uma reação da Federação Russa era, naturalmente, a Ucrânia. Há aqui dois aspetos que são interessantes de acompanhar ao longo desta guerra e para o qual eu gostaria de chamar a atenção. É que, por um lado, a contraofensiva ucraniana está a decorrer de forma mais lenta do que aquilo que era esperado, porque o tempo deu capacidade à Federação Russa de poder reforçar o seu dispositivo militar a sul e de construir em apoio desse dispositivo defensivo, um conjunto muito significativo de alterações do terreno, trincheiras, minas, etc. Isto é, o tempo jogou aqui a favor da Federação Russa. E agora há este outro aspecto: é que também os ataques que a Federação Russa agora conduz, estes ataques de vingança ou de retaliação, também já não têm tido o mesmo efeito, porque também ao longo de todo este tempo de guerra, a Ucrânia se foi dotando, através dos aliados ocidentais, de um sistema de natureza defensiva para a sua proteção do espaço aéreo, que dificulta também a forma como a Federação Russa utiliza os seus vetores de ataque sobre a própria Ucrânia. Portanto, o que nós estamos a ver aqui nesta evolução da guerra, é a importância que o fator tempo vai trazendo para as lições aprendidas. Certamente que a Federação Russa aprendeu com as lições daquela ofensiva rapidíssima da Ucrânia em Kharkiv, no início de setembro, e da mesma maneira, também a Ucrânia foi aprendendo com as vulnerabilidades da sua capacidade de defesa aérea ao longo deste tempo todo. Nós não sabemos se a Rússia prepara ou não mais ataques do que aqueles que hoje lançou. Foram ataques importantes. Primeiro, também eram simbólicos. Eram simbólicos porque eles foram dirigidos contra as regiões de Odessa e Mykolaiv. Nós sabemos que desde o início da operação, a Federação Russa procurou, como seu objetivo estratégico imediato, cortar a relação da Ucrânia com o acesso ao Mar Negro. Ora, como isso não foi conseguido na altura, a Ucrânia dispõe, através deste acesso, de uma capacidade muito interessante de poder contrariar aquilo que seria o normal domínio russo do Mar Negro. E, portanto, estes ataques de hoje, quer às instalações de Odessa, quer de Mykolaiv, têm também este caráter simbólico. A Federação Russa continua a reconhecer que existe ali um risco efetivo para as suas forças navais, pelo fato de, através de Odessa, Mykolaiv e dos outros portos que dão acesso da Ucrânia ao Mar Negro, ela poder continuar a utilizar esses portos como base de lançamento dos seus dispositivos cada vez mais sofisticados sobre aquilo que é a força naval da Federação Russa.

Major-general Arnaut Moreira, a ponte de Kerch, atacada pelas forças ucranianas, não vai retomar o normal funcionamento até novembro. Que implicações é que isto poderá ter para o conflito?

Isto tem duas implicações, do meu ponto de vista, talvez até três. O primeiro já foi referido, esta questão simbólica. Aquilo é uma ligação de natureza umbilical. Aquilo é a mesma relação que se estabelece entre a mãe, neste caso a mãe Rússia, e o filho, que era a Crimeia. Portanto, aquilo foi uma espécie de um ataque a este cordão umbilical que liga as duas partes. Tem um aspecto de natureza simbólico. Depois tem um segundo aspecto, que também não é despiciendo nesta guerra, que é o aspecto de natureza econômica. A Crimeia depende muito do turismo. Ora, um ataque à ponte da Crimeia, numa altura que constitui o pico do turismo dos russos na Crimeia, até porque os russos estão neste momento com mais dificuldade em deslocar-se em férias para o estrangeiro, é natural que vissem na Crimeia o paraíso ali pertinho, seguro, onde pudessem passar as suas férias. Ora, ao fazer este ataque nesta altura sobre a ponte de Kerch, há também aqui um efeito de natureza psicológica sobre muitos milhões de russos Que pensaram que iam passar umas férias descansadas e, de repente, estão a ver que estão a passar férias numa região de guerra. Não é de estranhar as imensas filas que já se estão a organizar e que já começaram desde ontem para os russos poderem sair da Crimeia. Há aqui um aspecto também de natureza económica e depois há o aspecto de natureza militar. O aspecto de natureza militar tem também duas componentes que me parecem importantes. O primeiro é da audácia. Não é evidente fazer um ataque com estes termos, com drones navais à distância a que se encontra a Ponte de Kerch. Portanto, foi aqui certamente necessário estudar muito bem a forma como estes drones foram transportados até uma localização perto da ponte para depois serem dirigidos sobre os tabuleiros da ponte. Há aqui também um relevo relativamente à capacidade de intelligence e não podemos excluir aqui também alguma ajuda ocidental neste aspecto da intelligence, que permitiu que a Ucrânia conseguisse lançar um ataque com drones numa zona tão distante de Odessa, porque a Ponte Kerch está, como sabemos, do outro lado da Crimeia. Não é a mesma coisa atacar Sebastopol, que está do lado perto de Odessa, ou atacar a Ponte Kerch, que está do outro lado. Mas depois há aqui o aspecto da consequência operacional disto. A Ponte de Kerch foi a ponte que permitiu a invasão de 2022. A Crimeia foi anexada em 2014 e depois por volta de 2018 foi inaugurada esta ponte. Ora, neste período que mediou entre 2018 e 2022, que foi a data da invasão do sul da Ucrânia, a Crimeia militarizou-se com forças, isto é, constituiu uma base avançada, um território avançado a partir do qual foram lançados os ataques, aliás, bem-sucedidos, estes primeiros ataques da Federação Russa sobre o sul da Ucrânia. A Ponte Kerch foi esse elemento fundamental para garantir a militarização da Crimeia. Neste momento, a militarização da Crimeia continua, mas está sob pressão daquilo que é as novas capacidades ofensivas em profundidade da Ucrânia, porque já há bases militares, depósitos, etc., na Crimeia que estão a ser alvo de bombardeamentos por causa da Ucrânia. O que significa que esta ponte vai agora dificultar este reabastecimento. Por outro lado, como a guerra tende a perdurar no tempo, os aspectos de natureza logística começam de novo a pesar. Há, no entanto, aqui um aspecto que me parece também interessante: é que só foi destruída a parte rodoviária ou parte da parte rodoviária, o que significa que a parte ferroviária, que é uma parte importante também na logística, pode continuar a cumprir o seu papel. Eu não me admiraria que agora que a Ucrânia aprendeu o caminho para a Ponte de Kerch, que torne a haver novas ações ofensivas sobre a Ponte Kerch.

Outra notícia de hoje vem do Ministério Britânico de Defesa, que garante que as forças russas que defendem Bakhmut podem estar fragilizadas. Já do lado ucraniano, há o reconhecimento de que a situação a leste está complicada, com a Rússia a avançar em Kharkiv. Daquilo que tem acompanhado, que ponto de situação é que faz?

As duas partes estão a fazer uma manobra muito idêntica. Isto é muito característico na manobra militar. Há duas formas de encarar uma ofensiva. Por um lado, é preparar a defensiva, isto é, é uma manobra simétrica que se faz. A outra é uma manobra semelhante, isto é, uma força está a atacar de um lado, então a outra, em vez de defender, vai fazer também ela própria conduzir um ataque. Isto leva a que há um dilema absolutamente muito difícil do ponto de vista do comando e controle das forças militares, que é: a que é que devemos dar prioridade? Devemos dar prioridade à ofensiva sobre a qual estamos a ter sucesso ou, pelo contrário, arriscamo-nos a prosseguir esta ofensiva e a ir perder terreno noutro lado onde o inimigo está a fazer também uma ação de natureza ofensiva. Isto é, as duas partes estão a jogar com a possibilidade de desequilibrarem o adversário, arrastando reservas de um lado para o outro. Nós, neste momento, o que estamos a ver é, por parte quer do Estado-Maior da Federação Russa, quer por parte do Estado-Maior das Forças Ucranianas, a tentativa de conseguirem resistir a estas ofensivas que são lançadas pelo adversário, sem terem que deslocar forças das suas reservas. E isto é muito difícil de avaliar e resulta normalmente em perdas, pelo menos localizadas, de território de um lado e do outro. Ambas as partes estão a apostar, neste momento, exatamente na mesma estratégia: resistir com as forças que têm no sítio onde está a haver uma ofensiva do adversário e, por outro lado, procurar sucesso num outro lugar onde o adversário possa eventualmente estar menos bem guarnecido ou mais fragilizado.

Ainda gostaria também de olhar consigo, Major-General Arnaut Moreira, para esta questão do facto de a Rússia agora, saímos um pouco do teatro militar, do teatro de operações do terreno, mas a Rússia mostra-se disponível para fornecer gratuitamente cereais aos países africanos. Isto faz naturalmente parte da campanha para ter aliados nesta guerra?

Isto faz parte desta grande estratégia que tem várias fases. A ação da Federação Russa, do ponto de vista da conceção geral da guerra, tinha uma componente de natureza militar que foi executada através da operação militar de invasão em fevereiro de 2022, mas tinha também uma componente económica associada. Essa estratégia de natureza económica correspondia a asfixiar a economia ucraniana. Como? Cortando o seu acesso ao Mar Negro. Ora, essa estratégia acabou por não resultar, pelo que a continuação da estratégia tem que ser feita através de outras medidas. Qual é a medida que a Federação Russa, neste momento, tem como o seu enquadramento da guerra económica? É o de acabar com o apoio dos cereais, de maneira a que a Ucrânia tenha muito mais dificuldade em exportar os seus cereais, vai ter que correr riscos, as companhias de seguros das companhias de navegação vão certamente incrementar também os preços dos seguros, os preços ucranianos também deixam de ser tão competitivos como estavam. E então dá-se aqui uma outra manobra ao nível das Nações Unidas, que é a Federação Russa oferecer os cereais aos países em necessidade. Isto é, em vez de o Programa Alimentar Mundial ir comprar à Ucrânia aquilo que são os bens necessários a alimentar as populações que estão em desespero alimentar, a Federação Russa salta por cima das Nações Unidas e vai ela negociar, através de uma próxima cimeira Rússia-África, a forma como ela vai dar, fornecer de borla estes cereais a estas populações necessitadas. Portanto, trata-se aqui de uma grande estratégia de natureza económica. É claro que ela joga com essa estratégia, emprega a fome e o desespero das populações, mas a Federação Russa continua a pensar que vai ganhar votos através do fornecimento gratuito, sobretudo porque vai tentar secar a fonte do Programa Alimentar Mundial, através das compras que tem feito à Ucrânia.

Entretanto, e porque no site do Observador acompanhamos sempre ao minuto o que se vai passando na guerra, desde que o conflito começou, leio aqui, Major-General Arnaut Moreira, que a Rússia decidiu aumentar a idade limite para mobilização de soldados. É um aumento de cinco anos, o que quer dizer que para as patentes mais altas podem ser chamadas pessoas até aos 70 anos, em vez dos 65 atuais. Isto é, de facto, já um sinal de desespero.

Isto é muito preocupante. Isto é um sinal de grande desespero. Putin sempre entendeu que esta guerra se resolvia num instante e que, portanto, não tinha necessidade de declarar uma guerra, porque quando se declara a guerra, criam-se também um conjunto de instrumentos de natureza jurídica que obrigam as pessoas a combater nessa guerra. Ora, como o Putin sempre achou, no início, que esta guerra era de pouca duração, achou que o conjunto de efetivos que tinha reunido, ainda era um conjunto significativo no início, era suficiente para conduzir a guerra. Ora, não só não foram, como teve imensas baixas nesta ofensiva e teve que fazer aquela célebre, por volta de outubro, na sequência da ofensiva ucraniana, teve que fazer uma mobilização parcial. Correu muito mal, quer do ponto de vista político interno, onde as pessoas se assustaram, quer do ponto de vista dos recursos humanos russos, porque uma grande parte daquilo que eram pessoas que tinham formação superior e estavam enquadradas nos planos de mobilização, fugiram da Federação Russa. Portanto, a partir desse momento, Putin está convencido que não vai conseguir nunca juntar as pessoas suficientes dentro daquilo que são os limites de idade que estavam estabelecidos para poder continuar a alimentar a guerra, porque é preciso ver que a alimentação da guerra obriga à rotação do pessoal. Isto é, as pessoas não podem ser enviadas para a guerra no dia 1 de janeiro e 10 anos depois as mesmas pessoas não foram substituídas, porque, entretanto, estas pessoas estão absolutamente desmoralizadas e já sem nenhuma vontade de combater. Ora, para poder continuar a realimentar a guerra, agora, sobretudo numa fase em que perdeu também umas dezenas de milhares de combatentes, que eram os que estavam no grupo de Wagner, a solução que lhe aparece viável é aumentar a idade de convocação das pessoas. Isto parece claramente uma manobra já de desespero. E esta ideia de que a Rússia tem muita gente, eu gosto sempre de dizer: "Tem muita gente, mas pouca gente com vontade de combater".

Obrigada pela sua análise, Major-General Arnaut Moreira. Mais uma vez aqui a ajudar-nos a olhar para os desenvolvimentos deste conflito. Obrigada.

Muito obrigado.

Rádio Observador. Loures. 94.5