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Bettmann Archive

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Foi há cem anos que a morte se transformou no último grande mistério de Harry Houdini

Ilusionista, escapista, fez coexistir realidade e ficção e sagrou-se um dos artistas mais celebrados de sempre. Um século depois, as dúvidas sobre a vida e a morte do rei das algemas persistem.

“As proezas de fuga misteriosas de Harry Houdini, que emocionaram espectadores à volta do mundo durante a sua vida, foram hoje trancadas no mistério da morte”, escrevia o Long Beach Press-Telegram um dia após o fatídico 31 de outubro de 1926. Passados cem anos sobre a Noite das Bruxas em que uma apendicite foi mais letal do que algemas, correntes, caixões e camisas de força, a morte precoce de Houdini, aos 52 anos, continua a intrigar fãs, estudiosos e — mais recentemente — uma cirurgiã aposentada.

Num livro publicado em julho, a americana Larrian Gillespie reacendeu décadas de especulação e pôs em causa os dados inscritos na certidão de óbito — que atribui a apendicite do ilusionista a um forte impacto na zona abdominal. A especulação sobre a morte de Houdini foi além do mistério associado às fugas que protagonizou em vida. Popularizou-se por fugir de qualquer prisão, caixa fechada a chave e cadeado — até mesmo da barriga de um “monstro marinho”.

A guerra que abriu aos defensores do Espiritismo, que acreditavam na comunicação com espíritos do além, conquistou-lhe inimigos, e abundam teorias que atribuem a morte a envenenamento, sabotagem e vingança. Adepta de uma explicação mais simples, Gillespie argumenta que o corpo atlético e jovem de Houdini — que tinha 52 anos em 1926 — sucumbiu às tormentas de uma obstrução intestinal. Sem explicações inequívocas sobre a morte, o que se sabe da vida do mágico mais influente de todos os tempos?

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Erik Weisz nasceu em Budapeste em 1874, 16 anos antes de Harry Houdini — o nome artístico que adotou e com o qual alcançou o estrelato. Filho de pais judeus, emigrou com a família para Appleton, no Wisconsin, onde assistiu ao primeiro espetáculo de magia. Daí em diante, passaria a preferir as artes circenses à linha de montagem, que era o destino de muitos jovens da sua idade e classe social. O quarto de sete irmãos, fugiu de casa (e da pobreza) à boleia, com apenas 12 anos. As estradas conduziram-no a Nova Iorque e foi na cidade costeira que expandiu a paixão e os conhecimentos de ilusionismo, ao qual se dedicou a tempo inteiro no palco de espetáculos de vaudeville.

Desejoso de ocultar o passado de imigrante e subsequente miséria, depressa descartou o nome com que fora batizado à nascença. Erik transformou-se em Harry, com uma sonoridade semelhante, e o apelido foi um empréstimo do ídolo — que anos mais tarde descredibilizou num livro —, Jean Eugène Robert-Houdin.

O francês, considerado “o pai da magia moderna”, criou a imagem do gentleman, que, de fato e cartola, entretém as classes altas em salas de espetáculo respeitáveis, privilegiando a ciência como método para concretizar os seus truques. Na década de 1850, Robert-Houdin brincava com o eletromagnetismo e construía aparelhos mecanizados, entre os quais a célebre “Laranjeira Maravilhosa”, que desabrochava em flores e produzia fruta instantaneamente.

Na mesma linha do francês, Houdini ficou conhecido por rejeitar o Espiritismo que emergiu na segunda metade do século XIX — uma atitude que lhe trouxe algumas inimizades, nomeadamente a do autor das aventuras de Sherlock Holmes, Sir Arthur Conan Doyle. O escritor inglês acreditava que o artista era um poderoso médium (alguém que comunica com o plano espiritual), assim como muitos dos seus fãs, que associavam as fugas impressionantes à posse de poderes sobrenaturais que lhe permitiam desmaterializar-se e reaparecer noutros espaços.

Décadas antes de se dedicar ao ativismo antiespiritista, Houdini captou a atenção de Martin Beck, o cofundador do circuito de vaudeville Orpheum, que operava em várias cidades americanas. Foi Beck quem aconselhou o ilusionista a descartar os atos de magia tradicionais, a fim de se ocupar em exclusivo dos truques de fuga — pelos quais acabou por ficar conhecido.

A primeira tournée de Houdini pela Europa, em 1900, foi determinante para estabelecer as regras do jogo daí para a frente. Quando chegou a Londres, percebeu que os truques que fazia com algemas não interessavam ao público, uma vez que os espectadores acreditavam que o equipamento era falso ou fora adulterado. Empenhado em eliminar qualquer dúvida sobre a autenticidade dos truques, Houdini requisitou os serviços da Scotland Yard (Polícia Metropolitana de Londres), que passou a disponibilizar as algemas e trancá-las à volta do pulso.

“O Houdini era um génio da autopromoção”, explicou o biógrafo e autor do livro The Life and Afterlife of Harry Houdini, John Posnanski, citado pelo Detroit Free Press. “Sempre que fazia algo na Europa, enviava notícias para casa e isso aparecia no jornal: ‘O nosso conterrâneo Houdini está a impressionar o público em Munique’. […] Começava a ganhar fama nos EUA, mas nunca se teria tornado no Harry Houdini que conhecemos hoje se não fosse o período que passou na Europa.”

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Além disso, Houdini “é o nome de mágico perfeito […], acho que explica grande parte do sucesso que ele teve”, continua o biógrafo, entrevistado pela plataforma Art of Manliness. Ao acrescentar um “i” ao último nome de Robert-Houdin, conferiu-lhe uma qualidade exótica, e uma musicalidade que escorrega na língua e continua a atrair o interesse dos nossos contemporâneos — digam-no Dua Lipa ou Eminem, que homenagearam o ilusionista em títulos de canções.

Além de deixar para trás o nome que lhe foi atribuído à nascença, o ilusionista também tentou esconder o país de origem: em público, dizia ser natural da cidade do Wisconsin para a qual emigrou em 1878. O mesmo não aconteceu com a religião que herdou da família. Num artigo do jornal Milwaukee Sentinel de 1926, citado pela plataforma de divulgação da cultura judia Aish, lê-se que Houdini “é um homem devotamente religioso, que, onde quer que as suas performances o levem, transporta […] símbolos de fé judaicos”.

O site JewishPress.com escreve que “Houdini era particularmente importante para os judeus americanos, para quem incorporava a ideia de que um judeu conseguia ser bem-sucedido num mundo antissemita. Para os judeus, que herdavam uma longa história de medo e vulnerabilidade, Houdini era o símbolo contemporâneo por excelência de força, e o célebre mestre das fugas tornou-se no paradigma, comum entre os imigrantes judeus, de que seria possível escapar às correntes metafóricas da história”.

“Rei das algemas”

Foram, de facto, os truques que envolviam fugas de espaços fechados e selados com múltiplos cadeados, correntes e cordas, e ainda a abertura de algemas sem utilizar a chave, que impulsionaram a carreira de Houdini, até alcançar o estatuto de celebridade internacional. Ainda hoje, boa parte das artimanhas que punha em cena para iludir os espectadores permanecem em segredo, ainda que os estudiosos reconheçam que a sua agilidade e condição física acima da média ajudavam na concretização dos atos.

“Se alguma vez me viu atuar, pode ter ficado maravilhado com a forma como concretizei os meus truques e talvez tenha chegado à conclusão de que neles havia algo de sobrenatural. Não há”, escreveu Houdini num artigo do Tampa Sunday Tribune intitulado “‘Fortaleça os seus músculos abdominais!, diz Houdini, que explica como desenvolver a força muscular de que precisa”. O escapista acrescenta que os truques “são simplesmente o resultado de “treino, pensamento”, “força física e destreza”.

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“Na minha profissão, este fator é particularmente essencial, porque se, por um instante, perdesse o controlo muscular, estaria perdido — a minha vida poderia ser o preço a pagar”, explica, acrescentando que começou a testar os limites do seu corpo com apenas sete anos — o que lhe oferecia “uma vantagem face à maior parte das pessoas”.

No texto, o ilusionista é igualmente incisivo a respeito da importância da destreza manual, “essencial para um mágico como os pés para um bailarino”. “As mãos de quem trabalha com magia devem ser velozes, precisas, infalíveis” e a forma de melhorar estas habilidades depende de exercícios que ajudam os atletas a, por exemplo, “desatar um nó no tornozelo enquanto os braços estão presos por outro” — “uma tarefa bastante difícil”, na opinião do redator.

Houdini também construía mecanismos elaborados, raramente patenteados — para salvaguardar o secretismo das suas invenções. Preferia, ao invés, protegê-los com direitos de autor, que reconheciam a propriedade intelectual sem exigir que a tecnologia utilizada fosse descrita ao detalhe e esquematizada para registo público.

O resto pode ser atribuído à perícia que desenvolveu a manejar cadeados e algemas, cujos mecanismos dominava, sendo, por isso, capaz de abrir todo e qualquer trinco sem precisar da respetiva chave. Conta-se que possuía uma coleção de algemas provenientes dos quatro cantos do mundo e conhecia o funcionamento de todas as fechaduras fabricadas nos EUA e na Europa.

Não demorou muito para que a alcunha de “rei das algemas” pegasse entre os admiradores das suas façanhas e figurasse nas manchetes dos periódicos que as relatavam. O New York Tribune de 16 de julho de 1914 conta como o ilusionista saltou de uma ponte algemado, enquanto 15 mil curiosos assistiam. Além das correntes que lhe prendiam as mãos, Houdini foi encerrado dentro de uma caixa de madeira “fixada com pregos e fitas de aço” e lançada às águas do rio Hudson. Um minuto depois, emergiu à superfície, desembaraçado das algemas, e motivando um debate aceso entre os espectadores — “alguns diziam que escondia as chaves no cabelo espesso, outros que tinha uma genialidade diabólica”.

Os imitadores dos truques cunhados pelo rei dos ditos multiplicavam-se, mas o original arranjava sempre forma de renovar o seu ato. Em 1906, saltou para as águas geladas do rio Detroit, com as mãos presas por duas algemas da polícia. Quando recordou o sucedido, anos mais tarde, afirmou ter entrado na água através de um buraco escavado no gelo, uma versão que figurou em múltiplas biografias e no filme sobre a vida de Houdini que estreou em 1953.

Entretanto, os estudiosos já descredibilizaram esta versão da história, pois tudo indica que o rio Detroit não tinha gelo na data em causa. “Ele era ótimo a esbater as fronteiras entre realidade e magia, a viver naquela margem em que nunca sabes bem o que é efetivamente real ou falso sobre a sua vida”, explica Jeremy Dimick, curador da Sociedade Histórica de Detroit.

Nas tournées que fazia pelos EUA, o Houdini incentivava os artesãos locais a produzir estruturas únicas, das quais pudesse escapar. “Estou disponível para aceitar desafios racionais de qualquer pessoa, apenas pedindo que seja feito um aviso de 24 horas, para que o teste ou desafio em causa seja devidamente publicitado”, lê-se num anúncio de jornal assinado pelo próprio.

Barris de cerveja, bilhas de leite, caixas do correio, caldeiras — tudo servia, ao mesmo tempo que atraía o interesse do público local. Houdini foi amarrado a rodas de locomotiva e a imprensa dá conta de que, em 1911, aceitou ser encerrado no interior de um “monstro marinho” (uma espécie de “cágado-tartaruga-peixe”, segundo o The Boston Herald), do qual conseguiu escapar passados 15 minutos.

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Houdini atravessava paredes de tijolo, libertava-se de camisas de força com as mãos nuas, fugia de prisões trancadas a sete chaves e chegou a fazer desaparecer um elefante de 4,5 toneladas — mas o seu truque mais célebre, e que repetiu até morrer, recebeu o nome de Câmara de Tortura Aquática Chinesa. Com os pés presos e suspenso de cabeça para baixo, Houdini era submerso em água e trancado dentro de um aquário de vidro. Enquanto tentava escapar da cápsula de tortura, coberta por um cortinado opaco, o seu assistente aguardava do lado de fora com um machado na mão, no caso de o truque correr mal (o que nunca aconteceu).

No biopic realizado por Tony Curtis em 1953, Houdini morre no decurso de um truque desempenhado no interior da câmara aquática — uma variação da qual também figura no filme de Christopher Nolan, The Prestige (O Terceiro Passo, de 2006). O desfecho de Houdini (1953) criou um novo mito sobre a morte enigmática do ilusionista, mas que não tem qualquer base de verdade.

Guerra aberta aos espiritistas

No dia 3 de dezembro de 1925, uma estação de rádio de Connecticut pôs Harry Houdini no ar. “Venho informar os ouvintes de que estou em posse de uma soma avultada, próxima de 50.000 dólares, que serve como uma espécie de recompensa para qualquer ser humano com poderes psíquicos que seja capaz de provar em condições de teste, e sem sombra de dúvida, que um espírito desencarnado pode regressar e manifestar atividade física”, anunciou o ilusionista. “Não sou cético — estou disposto a acreditar e a minha mente está aberta, mas, em 35 anos, nunca conheci um médium que me conseguisse converter. Tem sido uma aventura minha ir a sessões de espiritismo e detetar médiuns notáveis a produzir manifestações fraudulentas.”

O livro que escreveu sobre Robert-Houdin em 1906 (The Unmasking of Robert-Houdin), no qual desmascara a figura, explicando como executava os seus truques mais populares, denunciava uma queda de Houdini pela identificação e denúncia de fraudes. Essa tornou-se na missão de Houdini durante os últimos anos de vida, em que deu palestras e escreveu livros que procuravam dissuadir os clientes de quem afirmava comunicar com os mortos, como Miracle Mongers and Their Methods ou A Magician Amongst the Spirits (de 1920 e 1924, respetivamente).

Meses antes de morrer, chegou a testemunhar diante do Congresso dos EUA, a fim de convencer os senadores e representantes estaduais a criminalizar o negócio da adivinhação. “Esta coisa a que chamam Espiritismo, em que um médium comunica com os mortos, é fraude do início ao fim”, terá afirmado nessa circunstância, citado pela Smithsonian Magazine.

Foram estas ideias que tingiram a relação amistosa que mantinha com Arthur Conan Doyle desde 1920. O autor de Sherlock Holmes era um ávido defensor do Espiritismo, que, apesar de ter surgido na segunda metade do século XIX, ganhou novo fôlego depois da Grande Guerra. Foi este tema que sustentou as primeiras interações com Houdini, que argumentava não ter identificado um médium verdadeiro entre os cem que conhecera nas ilhas britânicas.

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▲ Além de escritor, Arthur Conan Doyle era um espiritista influente e acreditava piamente que Houdini era um poderoso médium, com capacidades sobenaturais.

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Apesar de reconhecer a existência de fraudes, o inventor de Sherlock afirmava que existiam psíquicos que possuíam um dom verdadeiro — e que começara a consultar após a morte do seu filho na guerra de trincheiras. Além disso, acreditava piamente que o próprio Houdini era detentor dos mesmos poderes sobrenaturais e, na correspondência que mantinham, ter-lhe-á perguntado: “Meu caro amigo, porquê percorrer o mundo em busca de uma demonstração do oculto quando já a põe em cena a todo o momento?”

Depois de assistirem juntos a uma falsa prestidigitação — que Houdini não desmascarou — Conan Doyle confessou aos media ter convertido o amigo ao Espiritismo. O ilusionista rejeitou publicamente essa asserção, tendo admitido estar mais cético do que nunca. A amizade entre os dois azedou quando contradisse o escritor em público, que acusou de depositar fé em artistas fraudulentos. O golpe de misericórdia aconteceu quando Houdini começou uma tournée pelos EUA, em 1923, durante a qual militou contra psíquicos charlatões, denunciando as estratégias que utilizavam.

“Há uma teoria com a qual tendo a concordar, de que Houdini teria adorado encontrar uma forma de romper essa barreira e falar com pessoas que já tinham morrido”, admite Posnanski. “Mas nas suas experiências, o que descobriu foi que as pessoas que faziam sessões de adivinhação eram impostoras. Estavam a enganar as pessoas.”

Desapontado, mas nunca cético — como, aliás, insistiu no comunicado de rádio supramencionado —, Houdini concordou em conduzir uma experiência espiritista com a mulher: o primeiro que morresse deveria tentar comunicar com o sobrevivente. Anos depois de 1926, a viúva confessou o falhanço do projeto.

Os mistérios da morte

Tivesse a experiência de Houdini com a mulher funcionado, e talvez hoje soubéssemos mais sobre as circunstâncias da sua morte.

É certo que Houdini atuou no Princess Theatre de Montréal a 22 de outubro de 1926, nove dias antes de ser declarado morto. Nos camarins do espectáculo, foi visitado por três estudantes universitários, um dos quais chamado Joscelyn Gordon Whitehead, que esmurrou Houdini no abdómen após uma troca que podemos ler no obituário do San Francisco Chronicle. “Não sentirias um golpe no estômago, certo, Houdini?”, perguntou o jovem. O “rei das algemas” respondeu: “Certamente que não”.

A série de murros administrados por Whitehead apanhou-o de surpresa e causou-lhe uma infeção no apêndice que, por sua vez, degenerou numa peritonite — isto é, uma inflamação na membrana que reveste a parede abdominal. Esta versão da morte de Houdini é a mais consensual e foi confirmada pelos respetivos familiares. Segundo o relatório dos médicos que o assistiram, exalou o último suspiro no dia 31 de outubro de 1926.

As mais recentes descobertas a respeito do caso questionam se a leitura mais unânime da morte de Houdini não terá sido fabricada. No passado mês de julho, a cirurgiã aposentada, Larrian Gillespie, publicou um livro que limpa o nome de Whitehead e sugere não só um motivo diferente para a morte do ilusionista, mas também uma data.

Gillespie privilegiou uma abordagem médica durante a pesquisa, que começou de forma acidental, quando verificou incongruências na certidão de óbito de Houdini. “Soube imediatamente que estava algo errado, que aquela não era a forma como uma certidão de óbito costuma ser preenchida”, confessou ao The New York Times.

As informações que desenterrou a respeito da morte de Houdini tiveram origem numa série de documentos médicos, declarações sob juramento, cartas e artigos de jornal que consultou, além de especialistas na matéria, profissionais de saúde e um familiar. Acabou por descobrir duas certidões de óbito além daquela que já foi mencionada, e uma série de relatos que colocavam a morte do ilusionista não no dia de Halloween mas naquele que o antecedeu, 30 de outubro de 1926.

A consulta dos relatórios médicos de Houdini esclareceu ainda que a sua morte não foi causada por uma apendicite decorrente do golpe no estômago. Foi submetido a duas cirurgias na última semana da sua vida, a primeira das quais uma enterotomia — isto é, um procedimento que visa desobstruir o intestino, que, de acordo com a estudiosa, estava bloqueado com uma massa fibrosa de chop suey (espécie de salteado chinês), que comeu no dia 28 de outubro.

Operado de urgência no dia 29, Houdini não resistiu e entrou em choque séptico, tendo sido intervencionado de novo no dia seguinte. O óbito foi declarado às 13h26 de 30 de outubro e não às 13h30 do dia seguinte, como demonstra a maioria dos documentos sobreviventes e relatos de jornal da época. Gillespie sugere que foram manipulados, para evitar suspeitas de negligência médica.

Enfatiza ainda que o corpo nunca chegou a ser autopsiado — não só porque os médicos receavam ser acusados de más práticas, mas também porque, desse modo, a viúva de Houdini garantia uma dupla indemnização pela morte aparentemente acidental do marido.

Diante das novas evidências, Gillespie esforçou-se para ilibar Whitehead, que terá morrido na obscuridade e atormentado pela culpa. Nunca foi criminalizado pelo sucedido, mas não recebeu um tratamento leve dos media, que o identificaram e condenaram a uma vida de indigência.

Uma entre muitas teorias sobre a morte de Houdini, junta-se ao catálogo onde também figuram suspeitas de envenenamento. Muitas pessoas acreditam que as maleitas que sofreu nos últimos dias de vida foram o desfecho sangrento da guerra aos espiritistas. Conan Doyle chegou a ameaçar Houdini de que “o pagamento” pela caça aos psíquicos “estava para breve”.

Não há respostas inequívocas, mas a contínua especulação confirma apenas que se destacou face aos seus antecessores e àqueles que o sucederam, e se inspiraram nas suas façanhas. Fosse pelo nome sonante ou pelos truques inéditos e que permanecem por explicar, Houdini tinha uma star quality que se repete poucas vezes na História. Os truques que o tornaram célebre também representavam uma alegoria com grande significado para os seus contemporâneos — a possibilidade de libertação de estruturas opressoras, da discriminação que visava muitos imigrantes como ele ou, em última instância, das gavetas e dos rótulos impostos pela sociedade americana. “Este tema de resistência contra a opressão ecoa ao longo dos tempos”, conclui Jeremy Dimick.

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