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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, programa em que olhamos para os principais conflitos a marcar a atualidade na Ucrânia e no Médio Oriente, hoje com Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Jorge Rodrigues, bem-vindo. Obrigado por ter aceitado o nosso convite.
Obrigado eu, Vasco.
Vamos começar desta vez pelo que está a acontecer no Médio Oriente, numa altura em que a Europa está a pressionar cada vez mais Israel. Reconhecer o Estado palestiniano é determinante para o que possa acontecer ao longo dos próximos meses, é algo que pode ser até decisivo?
Vamos por partes. A Europa realmente procura pressionar por falta de armas e de unidade interna. Aliás, por isso é que chamam potência herbívora tal os extremos que surgem na Europa. Temos a Espanha por um lado e temos uma Alemanha e uma Itália que não alinham agora com as últimas versões. Portanto, há aqui dois momentos relevantes. Há uma suspensão do acordo de associação e relembro que a União Europeia é o principal parceiro de Israel, um terço do comércio total de Israel é com a União Europeia, que tem um tratamento especial em 37% de toda essa totalidade, em que na ameaça suspender exatamente esse tipo de tratamento especial e o acordo de associação, não comprar sanções a extremistas, nomeadamente em relação aos dois ministros e a colonos da Cisjordânia. Isso sim, causa algum impacto. Aliás, Netanyahu já foi dando alguns sinais de preocupação e incômodo. Quanto à parte do reconhecimento do Estado palestiniano, é bem-intencionada na direção da solução dos dois Estados, de pressionar, mas parece mais cheira à impotência, diria mesmo. Tem um impacto mais moral que propriamente pragmático, não é determinante. Aliás, só seria determinante se os Estados Unidos se envolvessem diretamente, o que não parece ser o caso. Muitos reconheceram, falta ainda ratificar nos procedimentos internos, é certo, mas é uma tentativa de pressionar Netanyahu mais que qualquer outra coisa. Apesar de reconhecer que já se expor muito por uma solução no Médio Oriente, algumas coisas mudaram, mas nem tanto. Há aqui uma resposta ao sucesso da guerra de comunicação contra Israel, seja na opinião pública, seja publicada. A noção que Trump é indefectível no seu apoio, o assumir da incapacidade de pressionar por outra forma e o risco de um grande Israel que abrange já a Cisjordânia também, sempre um objetivo maximalista de Netanyahu, é certo. Pois há um ambiente mais favorável. Só que o reconhecimento tem três riscos. Neste momento, pode ser associado como uma recompensa ao 7 de outubro e o Hamas já vai aproveitar e outros atores extremistas da região. O não ser efetivo, em boa verdade, o reconhecimento deve vir na sequência de um processo sólido que permita a concretização e solidez. Só que, e não tem sido falado, tem sido falado numa questão de a Palestinian state e não the Palestinian state. Isso faz muita diferença, porque não se sabe verdadeiramente que território, que administração, que soberania. Isso acaba por abrir uma brecha tremenda neste desenvolvimento. Por fim, deu uma desculpa para avanços de Netanyahu, quer em Gaza, quer na Cisjordânia. Em suma, a solução de dois Estados, apesar das dificuldades, parece ser a melhor, sem dúvida, mas tem que seguir em condições para se efetivar, porque o problema será sempre o dia seguinte. Quanto à Europa, gostaria de ver a União Europeia alinhada e efetiva na sua política externa para ser um ator geopolítico reconhecido e de alguma forma conseguir ter poder para defender os valores europeus. Eu disse poder, não disse força, mas a verdade é que precisa dessa união.
E convém também olharmos ainda para os ataques israelitas no Qatar, ataques na última semana e ataques de Israel no terreno de um país que agia e age como mediador neste conflito. A reação dos países árabes está a ser tão forte como seria de esperar?
Não tem sido impactante. Eu não fiquei particularmente surpreendido, até porque há muitos interesses divergentes, há uma competição pela liderança muçulmana, mais do que árabe, mas muçulmana, entre a Arábia Saudita, Irão, Turquia, Egito, isso só pra falar dali no Médio Oriente, pois há mais países que tentam procurar algum tipo de liderança muçulmana. Por outro lado, o Qatar criou bastante inimigos neste ambiente, nomeadamente com a Arábia Saudita e os aliados. E Rubio, na sua visita, já tentou fazer um certo controle de danos. Como é que se reagiu? A nível muçulmano, a Turquia, não sendo árabe propriamente, está preocupada em ser a seguinte. Repare que alberga alguns VIPs do Hamas e portanto é um risco. Não acredito muito bem que aconteça, mas a verdade é que é sempre um risco e obviamente reagiu mal. O Irão falou em vingança, mas já era expectável. Mas a verdade é que fez o mesmo há uns meses em que atacou também direcionado às bases dos Estados Unidos, mas atacou o Qatar. O Egito é particularmente relevante aqui, porque Al-Sisi falou em inimigo, Israel como inimigo. Isto é a primeira vez desde 1977. Há também uma reação ao avanço em Gaza e na Cisjordânia, mas a verdade é que neste contexto é realmente relevante esta mudança. A Arábia Saudita, os Emirados e outros atores mostram algum incômodo, mas nada de relevante. Por exemplo, os Emirados reagiram mais Aos avanços na Cisjordânia, e mesmo aí era só eventualmente retirar a embaixada que propriamente é este ataque no Qatar. E houve atores como por exemplo a Síria que nada, business as usual, apesar do conflito recente com Israel a atacar território sírio, a verdade é que Al-Shara preocupa-se mais com a sua própria sobrevivência. Tem a ida a Nova Iorque a curto prazo, mas já se disponibilizou para um acordo de princípio de segurança e a nível de defesa e a perseguição com os acordos de Abraham. Ou seja, mais uma vez o pragmatismo das relações internacionais sobrepõe-se às amizades e ao ambiente regional.
E ao longo destes últimos dias temos estado a acompanhar a visita de Donald Trump ao Reino Unido, visita oficial que está agora a chegar ao fim. O que é que podemos tirar desta visita, o que é que pode resultar? Por exemplo, sabemos que foi assinado um acordo para o desenvolvimento tecnológico para a indústria, ou seja, um investimento norte-americano na indústria do Reino Unido. O que é que pode daqui sair e tem algum significado para o contexto geopolítico? Lembrando que o Reino Unido já não fala na mesma voz que a União Europeia.
Vasco, verdadeiramente na pergunta já respondeu com duas questões particularmente importantes, que é o seguinte: há aqui uma orientação muito económico-comercial e uma pouca orientação geopolítica. Mais uma vez vamos por partes. Esta é a segunda visita ao Reino Unido. Trump adorou a extraordinária pompa com que foi recebido, aliás, foi destacado e foi diferente de outras recepções. Adorou conviver com a realeza e eu vinha acompanhado a conferência de imprensa que terminou há pouco, em que ele realça várias vezes essa ligação à realeza britânica. Mas a verdade é que Trump não gosta da Europa, dos seus valores, da sua burocracia. E o primeiro político europeu que recebeu na Casa Branca foi Nigel Farage, que é exatamente um dos grandes adversários do sistema democrático no Reino Unido. Depois esteve sempre muito presente a questão Epstein, que inclusivamente muito salientada pelos manifestantes.
Foi projetada em Windsor.
Exatamente. Que alguma imprensa tentou trazer para a conferência de imprensa e que esteve o embaixador do Reino Unido em Washington, que foi demitido há pouco tempo. Tentou-se passar um bocadinho ao lado. Foi uma visita importante mais para Londres, em boa verdade. Foi a tal visita de negócios, um investimento de 290 milhões de euros de empresas tecnológicas dos Estados Unidos no Reino Unido, que obviamente criando 7000 empregos é um balão de oxigênio para Starmer. E houve aqui também a procura de chegar a um acordo de investimento conjunto de exploração petrolífera no Mar do Norte, em linha com o Drill Baby Drill, em que é dada prioridade a este tipo de energia em detrimento das eólicas, e aliás todos nos lembramos da piada da visita de Trump à Escócia em que falou que as eólicas estavam a incomodar a vista no seu campo de golfe. Portanto, tem algumas mensagens dentro desta área também. Por fim, a questão geopolítica. A pressão em estilo negocial de Trump tem tido mais sucesso com os amigos do que propriamente com os competidores. Aliás, amanhã vai haver uma conversa com Xi, em que a China tem demonstrado estar particularmente bem preparada e que tenta impor uma certa, eu não diria humilhação, mas pelo menos uma certa supremacia relativamente a Trump, obrigando-o a ir a Pequim e de alguma forma assumir a sua inferioridade geopolítica e a necessidade de negociar neste momento. Mas há aqui dois temas que realmente não se conseguiu chegar a grande sucesso, um avanço a nível da Ucrânia, em que ele apenas disse que Putin o desiludiu e que está mais difícil, mas verdadeiramente não assumiu nada de concreto, e o Médio Oriente, em que aí sim assumiu as suas divergências com Starmer, e Starmer teve a delicadeza de retardar o reconhecimento do Estado palestiniano para sábado. Portanto, nada de especial dentro da área geopolítica, mais uma vez foi apenas uma visita ligada à área económica.
E temos ainda tempo neste gabinete de guerra, Jorge Rodrigues, para olharmos para o conflito na Rússia. Isto porque esta semana temos um desenvolvimento importante, uma declaração de Dmitry Peskov que diz que a NATO está em guerra com a Rússia. Além disso, há também exercícios militares na Bielorrússia. Parece que perguntamos isto quase todas as semanas, mas desta vez há aqui mesmo uma escalada que pode passar das palavras aos atos?
Há um teste. Escalada talvez não, mas há um teste muito efetivo. Demonstra que Putin quer alcançar os objetivos maximalistas, já não tínhamos dúvida, um bocadinho ao estilo soviético, eu diria, que é o ponto número um, pedir algo que não se tem, o ponto número dois, fazer ultimatos, o ponto número três, não ceder nas negociações. Era este o estilo soviético. E em boa verdade acreditava-se que a fraqueza do Ocidente, a divisão do Ocidente, acabe por dar qualquer coisa que os soviéticos não tinham no início Isto eu não vejo como uma escalada, mas sim como um teste militar e político e uma afirmação política pós-Alasca. Pós-Alasca porque Putin também não gostou que a Europa falasse em colocar tropas na Ucrânia, mesmo que numa questão de peacekeeping, e que de alguma forma quis marcar rapidamente posição. Trump parece estar hipnotizado. Teve observadores dos Estados Unidos no exercício, que estiveram nos Single Visitor Days, que é no final. Abriu recentemente um encarregado de negócios em Minsk, desde junho. É bastante significativo. E apesar de assumir a primeira remessa de equipamento militar, as anteriores tinham sido assinadas por Biden, como sabemos, esta é a primeira, a verdade é que parece hipnotizado. Não quer saber da Ucrânia nem da Europa, quer se concentrar na competição com a China. Mais uma vez demonstra alguma fraqueza, que é explorada exatamente por Putin. Com este exercício, são 100 mil pessoas, é menor do que o Zapad-22, mas o Zapad-22 foi o exercício de prelúdio da invasão, na altura. O exercício agora de 2025 foi movido para mais perto da fronteira com a Polônia, o que levou a Polônia a fechar a fronteira. Teve o lançamento do Oreshnik, o míssil hipersônico. Tem presença, e isto não é despiciendo, de tropas não só da Bielorrússia, do Irã, do Bangladesh, Burkina Faso, da República Democrática do Congo, do Mali, ex-potências controladas por França, mas também da Índia, que recentemente teve uns problemas e uma instabilidade com Trump, que agora se tenta negociar. Tem o seu significado, mas verdadeiramente aqui Putin conseguiu atingir alguns objetivos, seja com isso, seja também com a questão dos drones na Polônia e em menor escala na Romênia, que foi testar as linhas vermelhas, em que sabemos que a fraqueza é política a nível NATO e União Europeia, quer explorar a tal divisão que eu falava há pouco, criar uma atmosfera de medo que vai ser explorada pelos extremistas dentro da União Europeia e até alimentar um sentimento anti-Ucrânia, provocar o debate que em si vai levar a algum tipo de dúvida e mais uma vez menor vontade de se empenhar em defesa da Ucrânia e, em última análise, preparar ações em maior escala no território. Resumindo, não é uma escalada, mas cria algum estresse ao sistema e qualquer erro de cálculo, qualquer passo em falso pode vir a levar a uma escalada, seja ela horizontal, seja ela vertical, o que é preocupante vista a capacidade nuclear que existe de ambos os lados.
Lembrou aí o incidente com drones na Polônia, já na altura também foi descrito como uma provocação. Dá a ideia, Jorge Rodrigues, de que a Rússia e Vladimir Putin estão a puxar a corda e a ver até onde a corda da NATO consegue ir. Eu pergunto-lhe é se nos próximos tempos podemos esperar mais provocações destas.
Podemos esperar mais provocações destas. Vamos ver o nível em que surgem, espero que não seja num nível elevado. Sejamos claros, o Ocidente também as faz, também faz exercícios na fronteira, também faz uma ou outra provocação. Elas existem, já houve inclusivamente no Mar Negro e no Mar Báltico algum tipo de ações também testaram as forças russas. Isso acaba por ser um pouco normal. Aqui a questão é que nitidamente Putin aliou o nível de 19 drones, a escala que entrou 650 km em território polaco, chegando a Gdansk, e aliado ao momento de um maior ação na Ucrânia, um maior empenhamento de forças e drones na Ucrânia, e também na ressaca, entre aspas, das conversações no Alasca, poderia dar a ideia que iria amenizar. O que verdadeiramente Putin me parece estar a querer fazer aqui é empurrar as linhas vermelhas do Ocidente um bocadinho para trás e ir ganhando algum espaço, ir ganhando alguma margem, até um pouco espaldado pelo reconhecimento da sua posição a nível de sistema político internacional, que estava realmente um pouco diminuto e que estas ações com os BRIC e as conversações no Alasca acabaram por o trazer para a mesa dos adultos no sistema internacional, se a expressão me é permitida.
Jorge Rodrigues é coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Muito obrigado por ter estado no Gabinete de Guerra.
Obrigado eu, Vasco. Até breve.