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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e hoje conosco temos o Major-General João Vera Borges. Muito boa tarde. Hoje começamos pelo conflito na Ucrânia, até porque essa notícia do assassínio do general Igor Kirillov, em Moscovo, a presidência russa acusou Kiev de um ato de terrorismo. Senhor Major-General, qual é o impacto que esta morte pode ter no contexto deste conflito entre a Rússia e a Ucrânia?
Muito boa tarde. Não é a primeira vez que os serviços secretos ucranianos matam oficiais, designadamente da Marinha já tinham sido dois, ou então as próprias filhas de geopolíticos. Acho que nos últimos 10 dias já foram assassinados pelos serviços que se chamam SBU de Kiev. Este tem um impacto maior, porque Kirillov era o comandante das tropas de defesa radiológica, química e biológica e, por outro lado, era também uma figura pública. Figura pública pelo mau sentido. É uma figura pública a partir do momento em que era acusado de crimes de guerra. E era acusado de crimes de guerra não só na Síria, mas sobretudo aqui no teatro de operações da Ucrânia. Era acusado não só pela Ucrânia, mas também por países como o Reino Unido, se não me engano, e o Canadá. Portanto, ele tinha mais de 4800 casos de uso de munições químicas, que obviamente havia conhecimento da parte da comunidade internacional. E é nessa perspectiva que para a Ucrânia, e até foi com aviso, a morte foi quase com aviso de que amanhã foram novamente chamada a atenção dos seus crimes e passado pouco tempo deu-se o atentado. Mas independentemente disso, da parte da Ucrânia, é um alvo legítimo. É um oficial-general, que toma posições relativas à morte e feridos com armas químicas da parte da Ucrânia, é em território russo, do inimigo, não é na China nem é em Portugal, e, portanto, é para a Ucrânia, um alvo legítimo. Para a Ucrânia e para o direito internacional, não será muito diferente disso. Relativamente à posição da Rússia, é uma posição que, neste momento, visa sobretudo criar o terror também. Se há país que está habituado a matar com ações deste tipo, dirigentes políticos, inclusive do próprio país no estrangeiro, o último foi em Espanha, todos os dias, e outros que caem das janelas, é a Rússia. Isto está é a ser usado pela Rússia, uma situação perfeitamente normal, exatamente como justificação para uma qualquer outra operação especial, nesse caso, sim, operação especial, de matar, eventualmente, um dirigente político, porque as linhas vermelhas não existem para a Rússia. Na medida em que há um ataque da parte da Ucrânia sobre alvos militares e a resposta é a destruição de alvos civis, como foi recentemente e publicamente dito, uma coisa é esconderem, outra coisa é a Rússia já chegou a um ponto em que não está minimamente preocupada com as questões do direito internacional. E portanto, responde a ataques militares com ataques a civis. E depois usa essa linguagem numa narrativa que internamente compreendemos por que é aceite, mas internacionalmente deveria ser inclusivamente mais criticada pela comunidade internacional.
Mas é de esperar que exista uma retaliação por parte de Moscovo, que não apenas estas palavras que temos estado a ouvir por parte dos dirigentes russos.
É de esperar, claramente, porque a Rússia quando diz que vai responder, até agora tem respondido sempre, nem que seja uma resposta, como eu te estava a dizer, e acho que os nossos ouvintes já perceberam, poderá ser inclusivamente sobre um líder político e não sobre um militar. E portanto, ultrapassa todas as linhas vermelhas. Ou então há de ser sobre civis inocentes, em Kiev ou noutra cidade qualquer. A resposta, tal como foi da outra vez, relativamente aos ataques sobre uma base aérea e com ataques de longo alcance, a resposta é a destruição de todos os sistemas energéticos junto à fronteira com a Polónia, quase como também um desafio à própria Polónia. Aqui pode ser a mesma coisa, que dizem que a resposta vai haver. Quando não se sabe, mas que vai haver, vai. Agora, também tenho a certeza absoluta que aquela que vai ter lugar não vai ter par, ou seja, vai ser noutra dimensão. E também a comunidade internacional há três anos que está a conviver com estas infrações do direito internacional por parte da Rússia, e eles já perceberam que não têm efeitos absolutamente nenhuns. E portanto, até pelo menos chegar Trump, vão fazer o que bem entendem, como entendem e quando entendem.
E faz sentido, senhor Major-General, esta ideia da Rússia de levar o caso também à discussão no Conselho de Segurança das Nações Unidas?
Aliás, o embaixador referiu logo, mesmo antes da própria reunião, mas isto é fumo. Acho que os outros membros do Conselho de Segurança têm dados suficientes para apresentar uma lista de ações semelhantes desenvolvidas pela Rússia, dizendo inclusivamente que é um alvo legítimo, é fácil. Isto faz o aproveitamento político da situação.
Resta-nos só adicionar aqui um dado, que foi a Maria Zakharova quem disse que a Rússia ia levantar o caso no Conselho de Segurança e aproveitou também para, de alguma forma, acusar também os Estados Unidos e o Reino Unido de estarem por trás desta morte. É uma discussão que fará sentido levar ao Conselho de Segurança?
Para a Rússia faz sentido. A Rússia está a utilizar esta situação, exatamente numa altura em que, em termos militares, tem vantagens, em termos estratégicos, tem vantagens e em termos políticos, está a preparar a situação para 20 de janeiro para ter uma posição muito favorável, quer em termos militares, quer em termos estratégicos, quer nesta dimensão de se fazer atacado permanentemente por toda a comunidade internacional, em particular pela NATO e pelos Estados Unidos. Portanto, arranja todos os argumentos, quando na prática, no Conselho de Segurança, mais uma vez a China vai abster-se, os aliados vão votar contra e obviamente ficará. É uma situação mais de fumo, mas sem qualquer fogo aqui, porque isto faz parte da lei da guerra. Da mesma maneira que a Rússia mata por dia mais de 300, 400 ucranianos, dos quais 50 ou 60 inocentes, e que também faz atentados em determinados territórios da Ucrânia, matando vários dirigentes ucranianos, a Ucrânia faz o mesmo, mas a linha vermelha dos russos é: o que eu faço, os outros não podem fazer. Portanto, a lei da guerra é que nós podemos usar todos os instrumentos da guerra e a Ucrânia não pode usar. Nós já sabemos isso desde o início da guerra.
Sr. Major-General João Vieira Borges, vamos agora olhar também para a situação no Médio Oriente, até porque ontem houve notícias de que um cessar-fogo em Gaza poderia estar na fase final, poderia estar mesmo por dias. Já hoje o ministro das Finanças de Israel manifestou-se contra um possível acordo, falando num erro sério. Podemos acreditar que alcançar um cessar-fogo em Gaza é mesmo uma possibilidade?
Eu acredito sempre, como sabe. Todas as entrevistas busco a paz, todos os dias busco situações em que haja paz. Obviamente, depois de três anos de guerra na Ucrânia, depois de mais de um ano de guerra no Médio Oriente, eu acho que todos nós já temos estresse pós-traumático. Sobretudo vocês, jornalistas, e nós, comentadores. Os nossos ouvintes podem desligar, vocês não, nem nós. E acompanhamos, inclusivamente com informações que colocam, por exemplo, Trump anteontem a fazer um discurso quando recebeu pela primeira vez relatórios de exatamente o que é que se está a passar no teatro de operações, nós vimos quais foram as palavras dele. Ou seja, é impossível continuar com este genocídio permanente em todos os lados. A mortandade de jovens, eu tenho que parar a guerra. O homem ficou tão chocado. Porque aqui é a mesma coisa. Eu busco sempre estes acordos e tenho sempre esperança, independentemente de ter consciência do que é a realidade.
Mas a questão é que temos estas notícias de que pode estar um acordo por dias, ao mesmo tempo que Israel intensifica ataques na Faixa de Gaza. Parecem notícias contraditórias, informações contraditórias.
É de tal maneira contraditória que inclusivamente não é só os ataques que hoje tiveram lugar, é a preparação de uma ofensiva, claramente, que pode servir de pressão. Isso também pode ser uma pressão sobre o Hamas. A partir do momento em que eu há pouco vi a preparação da ofensiva, eu acho que isso também é pressão nesta fase final das negociações. Israel sempre trabalhou assim, em 67, em 73, em todas as situações, mesmo na altura da assinatura dos acordos, Israel está a fazer pressão. E não é muito diferente nesse aspecto. O que é diferente agora é este acordo estar a ser negociado e ter determinados atores, o próprio Netanyahu, o diretor da CIA chegou há pouco, também ao Catar. Até porque eu estou a dizer isto porque o acordo, como sabem, não sei se deram nas notícias, está a ser negociado no Cairo e em Doha, em simultâneo, o que também não era normal. Agora há um esforço muito grande, mas aquilo que me deixa esperança, na resposta à sua questão, ainda mais esperança, é o facto do Hamas ter afirmado que há discussões, se não me engano, foi a expressão que utilizaram, sérias.
E que 90% das questões foram resolvidas e há apenas pequenas sugestões que continuam na discussão.
As sugestões, ainda bem que diz isso, porque eu vou também aos jornais árabes e tenho informação do Egito e até da Arábia Saudita, apesar de demorar mais tempo, antes de porem no ar. Isso você sabe como é, lá demora seis horas para porem a informação, mas seja como for, aquilo que eu tenho de dados, cruzando informação, são uma pausa de seis semanas com a libertação de 30 reféns. Dos quais três, já não me lembro, três ou quatro são de cidadania israelita e americana. Aliás, isto é imposto por Trump, quando ele tomar o poder, esta gente tem que estar cá fora. Isto tem estado a pressionar o Hamas, tem estado a pressionar o Catar, tem estado a pressionar o Egito e também Israel. E a troca por centenas de prisioneiros palestinianos, não sei quantos, era este o número. As outras questões dos dois corredores já estavam mais ou menos aceites. A questão de não ser o cessar-fogo total e a questão de não retirar totalmente as forças, que era inaceitável para o Hamas, já aceitam. O que estava agora era a questão dos números e da troca de números e da troca de quais os reféns. Foi isso que eu percebi na leitura cruzada que fiz das várias informações. Mas é sempre positivo para chegar a este ponto, é que ainda não tínhamos chegado a este ponto. Por isso é que eu tenho mais esperança.
É um avanço significativo.
Muito, mesmo.
Sr. Major-General, outra frente que bem sabemos é a frente síria, depois das recentes mudanças no país. Hoje, Benjamin Netanyahu fez declarações depois de uma visita ao Monte Hermon, um território sírio incluído numa zona tampão patrulhada pela ONU nos Montes Golã, e que Israel tomou neste mês depois da queda de Assad. Netanyahu diz que as forças israelitas vão manter-se em zona ocupada na Síria até haver outro acordo que garanta a segurança de Israel. Estamos aqui a falar já na questão síria. Como é que Israel consegue lidar com todas estas frentes e de que forma é que poderá também lidar com estas mudanças na Síria e no governo sírio?
Essas frentes estão todas interligadas, como sabemos. Gaza, Líbano, por causa do Hezbollah, e por causa do Hezbollah é que aceitaram esta situação os movimentos apoiados pela Turquia, quer se queira quer não. Já não sei se aquilo é o HTS, se é outra coisa qualquer. Sabemos que é o Al-Shara, agora o novo nome dele, e o Al-Bashir sabemos. E as entrevistas deles, no fundo, há uma compreensão. Agora vou falar da parte da Síria, como é estranho para muita gente, que a Síria não faça críticas consideráveis relativamente a este posicionamento de Israel. Não o faz porque sabe que também só tomou o poder à custa daquilo que foi o enfraquecimento do Hezbollah. No fundo, é um agradecimento nesta fase àquilo que Israel fez. Ora bem, mas por outro lado, obviamente, já houve declarações ontem de dirigentes do HTS dizendo que não pode haver um aproveitamento exagerado da parte de Israel da situação política, que a prioridade do HTS agora é a paz, é a união, é a inclusão interna e o grande problema, como sabemos, vão ser os curdos em face do posicionamento da Turquia.
Mas estamos aqui perante um novo foco de tensão?
É um novo foco de tensão. Israel teve um posicionamento inteligente para quem sabe que mais tarde ou mais cedo poderia ter ali movimentos que também o poderiam atacar. E nesse sentido fez o ataque a tudo que era objectivos, há mais de 700 objectivos que tinham armamento, não só armamento químico, como é evidente, esses seriam 10 ou 15 objectivos, mas tinham armamento que pudesse pôr em causa a segurança de Israel. Por outro lado, está a pressionar a negociação num espaço que é muito importante. E é importante não só em termos de segurança, em termos militares, mas também em termos de segurança da água. A água vem dali. A alimentação do rio Jordão vem dali. Portanto, aquela ocupação do território que lhe dá uma posição vantajosa em termos militares, também lhe dá uma vantagem depois a outro nível, que é muito importante naquela região, que é a água, sobretudo naquilo que vamos vivendo em termos daquilo que nós sabemos das condicionantes que tem o mundo inteiro com as alterações climáticas também atingem aquela região. Mas estrategicamente é uma posição que temos que considerar positiva para Israel. E agora é preciso é que depois seja negociado e haja um novo acordo para além do acordo de 74. Eu acho que a situação se alterou consideravelmente. Aquilo é uma frente considerável. Israel vai jogar exatamente a questão em termos de Nações Unidas e num futuro acordo, vai jogar exatamente aquilo que foi a realidade depois de 74 para Israel, aquilo que foi a insegurança criada, designadamente na possibilidade da fronteira da Síria ligada ao Líbano, poder afetar consideravelmente a sua segurança, para depois conseguir ter mais espaço do que tinha em 74, que independentemente disso foi ocupado, como nós sabemos. A relação com as Nações Unidas, eu julgo que ainda vai ser mais difícil para Israel do que a relação com a Síria, com o HTS, independentemente da questão curda.
Sabemos também, senhor major-general, e para uma resposta muito breve, tem havido declarações, nomeadamente da União Europeia, com alguma expectativa em relação ao que pode ser o futuro da Síria. Houve uma delegação também alemã que já teve um encontro com a liderança do HTS. Este movimento está aqui também a tentar normalizar-se de alguma forma e mostrar que é um elemento de diálogo viável?
Sim, e isso é muito importante. É importante para eles, é importante para a Europa, é importante para o mundo em geral e para a paz. É importante para eles, internamente, inclusão, externamente, ter relação com todos os atores, que não aqueles que impediram que ganhassem a guerra civil em 2011. E portanto, nesse sentido, a União Europeia deve aproveitar agora esse espaço que tem, essa oportunidade que tem, porque vai ter uma resposta positiva, como já vimos pelo HTS. Eu acho que isso é positivo para todas as partes e sobretudo para a paz na região.
Major-General João Vieira Borges, muito obrigado por ter vindo a mais um Gabinete de Guerra. Estamos de regresso amanhã. Bom dia, obrigado. Boa tarde.