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Abrimos agora um novo espaço do gabinete de guerra. Joe Biden fez esta madrugada o primeiro discurso do Estado da União enquanto presidente dos Estados Unidos. Foi uma intervenção, claro, marcada pela guerra na Ucrânia e onde, Carla, a Rússia de Vladimir Putin esteve sempre presente.

Foi um discurso muito duro, muitas acusações dirigidas ao presidente russo e o anúncio de mais sanções contra Moscovo. A primeira intervenção de Biden sobre o Estado da União surge numa altura em que os índices de popularidade do chefe de Estado norte-americano continuam a descer. Para análise a esta intervenção está agora conosco a investigadora e professora da Universidade Católica, Lívia Franco. Bom dia, Lívia, e bem-vinda.

Bom dia, Carla.

Que mensagem Joe Biden tentou passar esta madrugada?

Eu acho que foram essencialmente duas mensagens. Uma primeira é uma mensagem de unidade muito forte, que esteve sempre presente ao longo de todo o discurso. Unidade quer dentro do país, internamente, domesticamente, quer unidade fora, os Estados Unidos, os seus aliados, a comunidade internacional, a reagir de maneira muito consensual contra aquilo que foi, de facto, esta decisão terrível da Rússia de decidir intervir na Ucrânia. Um segundo tópico, uma segunda mensagem também que me parece muito forte e que passou ao longo de toda a intervenção, é a questão do otimismo face àquilo que é, no fundo, este combate entre a liberdade e a tirania, entre as democracias e os regimes autoritários, entre a luz e as trevas. Mas é um otimismo que é associado também aqui sempre a um elemento de tranquilidade. Eu acho que o presidente americano, face àquilo que são momentos muito complexos, que nós estamos a viver, quis insistir, e principalmente ao povo americano e muito em particular também à classe média, porque ele fala sempre muito para a classe média, nesta questão de que é preciso ter confiança, há razões para ter confiança, podemos estar tranquilos. Agora, é interessante notar que este discurso muda muito o tom daquilo que foram os discursos sobre o Estado da União do antigo presidente. Eram discursos muito adversariais do anterior presidente, eram discursos que provocavam grande polarização, eram discursos de autoelogio e não foi isso que aconteceu desta vez. Este presidente regressa, no fundo, àquilo que é a prática tradicional dos presidentes americanos de tentarem fazer intervenções de homens de Estado, que focam muito os princípios, muitos valores e até aquilo que é a excepcionalidade, digamos assim, da democracia americana. E, portanto, desse ponto de vista, julgo que, de facto, há aqui a introdução de um elemento de uma normalização da situação. Agora, os desafios que se colocam continuam a ser desafios muito intensos e, portanto, vamos ver até que ponto é que estas propostas que ele avança aqui, de facto, são capazes de responder a esses desafios.

Porque há esse, como dizia a Lívia, apelo à unidade e com essa perspectiva mais otimista de uma evolução positiva dos acontecimentos. Sobre a unidade, de facto, o que se verificou foi mesmo isso, o anúncio das sanções económicas à Rússia mereceu aplausos de democratas e também de republicanos. Há um consenso nessa matéria no país.

Sim, eu acho que há um consenso muito grande nessa matéria, um consenso bipartidário, e acho que o presidente Biden fez bem em começar o seu discurso por aí e de alguma maneira marcar logo o tom daquilo que é a sua intervenção política. E, aliás, para se afastar da questão da polarização. E desse ponto de vista, eu acho que ele esteve muito bem. Agora, também, vamos lá ver, há uma parte da intervenção dele que é uma parte já, digamos assim, de campanha eleitoral, tendo em vista aquilo que são as eleições intercalares.

Daqui a oito meses.

Propostas concretas. Exatamente, que se realizam em novembro, não é? E que nós sabemos, indicam as sondagens, que o Partido Democrata não está em muito boa posição para continuar a manter esta maioria, quer na Câmara dos Representantes, quer no Senado, e portanto, parte para essas eleições numa posição de alguma fragilidade. E o presidente aproveita também este discurso para, de alguma maneira, avançar uma série de propostas, que são propostas, enfim, claramente eleitorais, para temas que são temas muito para consumo interno e, em particular, para responder àquele eleitorado que pode estar indeciso. É um eleitorado mais Moderado. Questões como seja tudo o que se liga à economia e aos desafios econômicos, nomeadamente a questão da inflação, questões como seja, por exemplo, o tratamento que deve ser dado aos veteranos de guerra, questões ligadas, por exemplo, à questão do tratamento de saúde mental ou doenças oncológicas. Outra questão muito importante que é o que eles chamam "law and order", tudo que tenha a ver com a criminalidade e o combate à criminalidade, que são questões sobre as quais ele reconhece que há margem de manobra pra se encontrarem aqui também bases, sobretudo legislativas bipartidárias. No fundo, o esforço dele aqui eu acho que foi sempre isso, continuar a tentar ultrapassar as divisões internas, um discurso e uma narrativa de polarização e trabalhar sobre elementos que podem ser elementos de unidade.

De unidade. Sempre num contraste muito grande com a anterior administração de Trump. Ainda assim, Lívia, com níveis de aceitação, taxas de aceitação do presidente muito baixas. Como é que isso se pode explicar?

Elas subiram ligeiramente. Elas estão baixas relativamente àquilo que eram as taxas de popularidade com que ele iniciou o mandato o ano passado. Comparativamente, por exemplo, com o presidente anterior, não estão assim tão baixas, mas de facto estão baixas para o primeiro ano. De qualquer maneira, os estudos de opinião indicam que elas subiram ligeiramente nas últimas duas semanas, relativamente àquilo que tem sido a resposta que a administração americana tem dado à questão da Rússia e à questão da guerra na Ucrânia. Elas estão a subir ligeiramente e o presidente fez bem em trabalhar sobre essa questão, que é uma questão que aliás o ajuda muito. Essa unidade bipartidária em domínio da política externa pode ser aproveitada como cascata para o domínio da política doméstica. Agora, Carla, deixa-me só apontar aqui um ponto que eu acho que é importante, que é: este sendo um discurso do otimismo relativo, da tranquilidade, da confiança e da unidade, é um discurso que claramente não agrada ao eleitorado, quer do Partido Democrata, que é mais progressista, quer do Partido Republicano, que é mais radical e mais pró-Trump. Porque é um discurso que é feito para o eleitorado moderado. Uma parte do eleitorado americano não se reviu neste discurso, porque ele não é um discurso de divisão, nem de polarização, nem de radicalidade e as críticas que nós ouvimos vão, sobretudo, no sentido desse eleitorado mais radical ou mais progressista, que não se reviu aqui nesta moderação.

Essa questão da política internacional norte-americana e de intervenções militares normalmente vai resultando e criando um apoio generalizado por parte do presidente. Neste caso, o que temos assistido, e pergunto-lhe, Lívia, se também concorda com isso, temos assistido, de alguma forma, a uma liderança por parte da União Europeia nos últimos dias. Que papel é que os Estados Unidos terão efetivamente neste conflito que decorre no continente europeu?

Eu acho que a liderança tem partido, é verdade, das autoridades europeias, quer dos governos nacionais, quer da União Europeia, mas eu acho que também se tem notado uma autoridade, uma liderança clara da presidência norte-americana. Aliás, eu acho que o interessante, face àquilo que tem acontecido nos últimos anos, é precisamente o tom consensual com que os aliados transatlânticos, portanto, os Estados Unidos e os países da Europa, têm tratado esta questão, nomeadamente, por exemplo, naquilo que é o trabalho conjunto que têm feito para os sucessivos pacotes de sanções e aquilo que é também, e julgo que isto é mesmo uma questão importante, tentar, nas suas respostas à estratégia russa, ter o cuidado, ter a prudência de que essas respostas não provoquem uma escalada na contra-resposta russa. Desse ponto de vista, eu acho que vivemos momentos de grande união também e de grande recuperação daquilo que era um tom, um discurso e um olhar comum dos aliados transatlânticos relativamente ao próprio contexto estratégico. E até acho que há claramente essa vontade da parte da presidência americana, quando, na verdade, a escolha clara da presidência americana tinha sido, de alguma maneira, a de apontar agulhas mais no sentido da Ásia-Pacífico. Mas os factos, às vezes, obrigam a que alterem os projetos, as intenções e os planos. Mas isso foi feito muito bem. O presidente norte-americano reconheceu a necessidade de voltar a olhar com muita atenção para o que se passa na Europa e eu acho que tem trabalhado isso muito bem com os seus aliados europeus e acho que isso também ficou muito claro ontem no discurso do presidente americano, que ele insistiu exatamente isso, nessa unanimidade e nesse consenso muito forte.

Unidade e otimismo relativo. Lívia Franco, muito obrigada pela análise aqui na Rádio Observador, da investigadora, professora da Universidade Católica, horas depois do discurso de Joe Biden sobre o Estado da União.