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Este é o Som do Gabinete de Guerra das Manhãs 360, esta quinta-feira, com análise de Francisco Pereira Coutinho, especialista em Direito Internacional. Muito bom dia, Francisco. Obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Muito bom dia.
Bom dia. Começamos pelo encontro entre Trump e Xi Jinping na Coreia do Sul. De zero a 10, Trump deu um 12. Já estamos habituados a esta euforia depois do encontro. Trump diz que concordaram em quase tudo, mas também disse que nem todos os assuntos foram discutidos. Sabemos que se falou muito de tarifas, passaram de 57% para 47% de soja, que a China vai passar a comprar aos Estados Unidos, e também do combate ao fentanil. Francisco, quanto ao tema da Ucrânia, nada em concreto, apenas que vão trabalhar juntos para tentar a paz.
Sim, também não se esperava que houvesse qualquer tipo de alteração. Aliás, isto é uma chimaera em que, no essencial, eu creio que Trump acaba por aceitar a realidade, que é que não tem hipótese de ganhar uma guerra comercial à China. E em relação à questão ucraniana, os chineses têm uma posição muito coerente desde o início, que é uma espécie de posição de neutralidade, que é: há um conflito na Europa, mas não tomam parte por nenhum dos beligerantes. E por isso mantêm relações comerciais quer com a Rússia, quer com a Ucrânia, porque muitas vezes nós tendemos a olhar para os chineses como estando do lado da Rússia. Mas a verdade é que a China continua a vender, por exemplo, chips e vários componentes eletrónicos com os quais os ucranianos fazem os drones.
Os drones que querem vender depois.
E também vão vender para os Estados Unidos e agora outros países europeus. Isto é claramente uma posição de um país que está numa situação de neutralidade. Nós gostaríamos muito que a China estivesse do nosso lado, não estabelecendo relações comerciais com o agressor, que é o caso da Rússia, mas eles optaram por não fazer isto, que é uma posição que a do direito internacional é perfeitamente razoável. E é, por exemplo, aquela do Brasil também. Existem também relações comerciais com a Rússia e portanto, nesse aspecto, não vemos nenhuma alteração e não é expectável que ela ocorra. Até porque os próprios americanos já várias vezes deram sinais que gostariam de voltar a ter relações comerciais com a própria Rússia. Neste momento, não são, de facto, o Estado em melhores condições para fazer pressão sobre a China.
Entretanto, Trump ordenou ao Departamento de Guerra dos Estados Unidos que comece a testar as armas nucleares do país. O anúncio surge depois dos testes russos com um drone submarino com ogiva nuclear, Francisco. Trump fala em colocar em pé de igualdade as armas nucleares de Washington, de Moscou e de Pequim.
Mas aí claramente há uma diferença, porque os chineses estão muito atrás no número de armas nucleares, se compararmos com os Estados Unidos e com a própria Rússia, só que nos últimos tempos têm vindo a reforçar o seu arsenal nuclear por uma posição que eles entendem que possa vir a ser até de paridade. Agora, realmente, os russos estão constantemente a ameaçar com o uso de armas nucleares e esta semana anunciaram uma nova arma maravilha. Já se percebeu que é essencialmente propaganda.
Pois, exatamente. Uma manobra de distração, na verdade, não é?
Bastante, mas sabe-se que Donald Trump é um baby boomer ainda. E cresceu nos tempos da Guerra Fria e teve um tio, que era professor do MIT, que ele considerava uma pessoa muito inteligente, ou a pessoa mais inteligente que ele já conheceu, que incutiu um certo medo de uma guerra nuclear. Os russos sabem isso, que ele é muito susceptível a esse tipo de ameaças. Embora ele desta vez tenha dito: "Bom, mas não me impressiona nada as armas russas, porque nós temos armas muito melhores e vamos ter ainda armas ainda melhores e vamos reforçar o arsenal nuclear". Infelizmente, isto é de facto uma conversa muito perigosa, porque devíamos estar a discutir uma redução dos arsenais nucleares, que foi uma coisa que fizemos no final da Guerra Fria.
E não o aumento.
E não o aumento, mas infelizmente é o ponto em que estamos.
Depois das sanções dos Estados Unidos, várias refinarias indianas terão interrompido compra de petróleo à Rússia. Francisco, serão estas as sanções tão esperadas, tão aguardadas, que mais vão afetar a economia russa e Putin?
Essa é a esperança, mas claro que são sanções importantes e estamos a ver aqui um efeito, isso é muito relevante, mas estávamos à espera das sanções secundárias, que Trump acabou por não decretar. Eu nunca esperei que ele decretasse, porque esse tipo de sanções teria um efeito sobre os próprios Estados Unidos, mas ainda assim, estas sanções mais cirúrgicas podem ter um efeito mais eficaz a curto prazo. E realmente estamos a ver a União Indiana, pelo menos as refinarias indianas, a não comprarem petróleo russo. E eu creio que isso vai ter um efeito, não temos é de esperar um efeito rápido, isso não vai acontecer. Teremos de ver se isto não é um epifenómeno ou se de fato isto terá um impacto grande sobre a economia russa. Eu estou um pouquinho cético e não esperemos que seja isto, especificamente, a bala de prata que vai levar ao colapso da economia russa, que é algo que nós estamos à espera já há quatro anos. Seria preciso bastante mais, seria preciso também que os europeus, e repare, nós só agora estamos a decidir o fim do gás natural e do petróleo russo, mas só para 2027. Estamos a diferir isto para daqui a dois anos. Mas este é o caminho, eu creio que este é o caminho para chegarmos a algum lado, porque de fato a economia de guerra russa alimenta-se muito da exportação de hidrocarbonetos e não podendo exportar para a Índia, sobra apenas a China e muito poucos estados por onde os russos de fato podem receber divisas exportando hidrocarbonetos.
Sobre o Médio Oriente e as críticas a Israel pelos ataques a Gaza, Trump diz que estes não vão comprometer o cessar-fogo e defende o direito de Israel a retaliar depois do alegado assassinato de um soldado israelita. Francisco, tudo isto que se está a passar só mostra a fragilidade do acordo. Como é que se pode passar a uma segunda fase assim?
Nós poderemos passar a uma segunda fase quando implementarmos o plano Trump. Porque o plano Trump falava na criação de um governo tecnocrático e do envio de uma força internacional. O problema é que não temos força internacional nem governo tecnocrático e, portanto, estamos numa situação obviamente muito problemática, porque o Hamas continua em Gaza, não foi eliminado. Neste momento estará numa pausa tática para no futuro voltar a atacar Israel, porque isso é a natureza do Hamas.
Pois é, exactamente.
Aliás, eles dizem isso: "Nós só entregaremos as armas quando existir um Estado da Palestina". Obviamente, a situação não mudou. A única coisa que mudou é que temos um cessar-fogo, mas um cessar-fogo muito precário. Um ponto importante é que Donald Trump não se esqueceu do assunto em Gaza. Ele diz a Israel que pode reagir quando for atacada, mas está a controlar muito a situação, porque houve um soldado israelita que foi morto. Israel retalia atacando dezenas de alvos na Palestina, morrendo dezenas de pessoas, mas depois Trump diz: "Já chega. Acabou". E ouvimos sempre os israelitas dizer: "Bom, voltamos ao cessar-fogo". É uma guerra estranha neste momento. Há um cessar-fogo que é violado e que depois volta sempre que Israel considera que já atacou o suficiente Gaza. Só saímos deste ciclo de violência interminável e infernal se os dados da equação mudarem. E isso implica justamente, eventualmente, a tal força internacional que vai substituir o Hamas no governo de Gaza e na segurança de Gaza.
Falta definir que força internacional será essa.
Que força internacional seria essa. Os Estados Unidos se oferecessem com homens para isso, só que não se oferecem, teriam que ser os países árabes, os países muçulmanos, mas ninguém está muito disposto a ir para Gaza para combater o Hamas também. Porque já vimos o que isso significa nos túneis etc. É uma equação difícil e Israel não ajuda, porque também não quer lá a autoridade palestiniana. Já disse que não queria lá tropas turcas e estamos numa discussão de surdos, muitíssimo difícil sair daqui. Mas enquanto se conseguir manter o cessar-fogo, é melhor do que estarmos numa situação de guerra, mas já percebemos que isto não vai acabar bem, provavelmente.
Sim. Francisco Pereira Coutinho, muito obrigada pela sua análise. Bom final de semana.
Obrigado.
Obrigada.