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Abrimos a porta a mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador, programa em que olhamos para os dois principais conflitos ativos no mundo, um na Ucrânia, outro no Médio Oriente. Para tal, contamos hoje com a análise de Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da Sedes Europa, a quem agradeço ter aceitado este nosso convite. Vítor Gabriel Oliveira, vamos começar por olhar para a guerra no Médio Oriente, olhar também para o Hezbollah, que admite desarmamento se Israel sair do Líbano. Antes de mais, parece-lhe uma situação viável ou apenas um blefe?
Antes de mais, obrigado à Rádio Observador pelo convite. Parece-me bastante complicado esse desarmamento. Aliás, o conflito Israel-Palestiniano está muito longe de qualquer uma das partes poder recuar naquilo que são as suas convicções e sabemos que as convicções estão muito ligadas à luta armada e não me parece exequível que o Hezbollah se desarme, ainda para mais com o apoio que Benjamin Netanyahu tem incentivo os Estados Unidos para irem ainda mais longe, nomeadamente em território palestiniano, do que aquilo que se pensava que poderia ir. Portanto, acho que isto está muito longe de poder acontecer.
Então consegue perceber o porquê de surgir esta notícia, de lançar para o ar esta ideia? Qual é a ideia por trás disso?
É muito complexo. Poderá ser, na minha opinião, uma ideia para conseguir forçar uma melhor negociação, para que na mesa das negociações consigam ter uma abertura, para que digam que há uma abertura para que o Hezbollah entregue as armas, mas na realidade isso não me parece exequível. Poderá ser isso mesmo, ou seja, uma abertura, provavelmente até para os negociadores dos Estados Unidos estarem mais à vontade nas negociações para permitir que o povo palestiniano e para que a luta onde se enquadram várias facções de vários grupos em vários países possa continuar e possam ter algum lastro à mesa das negociações nos vários conflitos, nomeadamente também mais abaixo geograficamente com os hutis, que já vamos a essa questão. Portanto, poderá ser um blefe ou um início de abertura de porta para as negociações, mas acho que isso, na realidade, desarmar um grupo, e falemos do bom senso para quem nos está a ouvir em casa, desarmar um grupo como o Hezbollah, aliás, como vimos agora com o Hamas, são meses e meses de bombardeamentos e não aconteceu. Nós vimos a entrega, por exemplo, no caso do Hamas, vimos a entrega dos reféns e os grupos estão armados e continuam organizados. Portanto, na minha opinião, é impossível que isso aconteça na realidade. É mais um blefe para que se consiga negociar mais facilmente à mesa das negociações do que outra questão.
Isso encaixa na pergunta que lhe vou fazer de seguida, Vítor Gabriel Oliveira. O Hamas, ou melhor, o Hezbollah, caso se desarme, não corre o risco de desaparecer?
Exatamente. E os grupos sabem isso. Os grupos sabem, por isso é que a luta armada deste tipo de grupos é tão intensa. Porque não é só ter a ideologia que defendem, das suas causas, mas também terem uma luta armada que lhes permita ter lastro social, ou seja, conseguirem uma aculturação das sociedades que vão crescendo e dos mais novos. Nós víamos isso com o Hamas, com o recrutamento de mais jovens, que só era conseguido por essa força que era imposta pelos mais velhos e pelos grupos organizados. O Hamas a partir do momento em que deixe de ter armamento, deixa de ter força, porque deixa de conseguir combater, que é a sua principal força no terreno. Não acredito que isso seja possível. Mais uma vez, é uma crença pessoal, mas não acredito que isso seja possível neste momento. Só dizer isto para terminar, até porque não há um sinal dos Estados Unidos em relação a Israel que poderá haver um acordo para haver paz na região. Não havendo esse sentimento das pessoas que estão nos países à volta de Israel, que poderá haver uma acalmia da posição de Israel nessa região, não acredito que os grupos se vão desarmar nesse contexto, porque podem ser quase que dizimados por Israel depois no terreno com o apoio dos Estados Unidos. Nada leva a crer que isso possa acontecer na realidade.
Vamos avançar olhar para um outro tema ainda no Médio Oriente. Benjamin Netanyahu está de novo presente em tribunal após uma viagem que o afastou quase uma semana de Israel. O que é que podemos esperar deste caso?
Eu penso que Benjamin Netanyahu continuará a sofrer bastantes pressões internas. Veremos o que é que irá acontecer no próximo ato eleitoral que ele se irá apresentar. Veremos principalmente se esta ida, mais uma vez, sua presença à Justiça, se poderá impactar a nível público, já está impactado, como é óbvio, mas se poderá impactar também internamente naquilo que são as suas alianças, nomeadamente com partidos mais da extrema-direita Eu penso que Benjamin Netanyahu irá tentar sobreviver o máximo que puder dentro da política israelita até às próximas eleições, para tentar ganhar novamente as eleições. Porque se isso não acontecer, fica numa situação muito fragilizada. Cometeu muitos erros. Eu costumo alegar que a comunidade internacional penso que é unânime nesses erros que ele foi cometendo na liderança dos ataques que Israel teve e que não são tão bem aceitos pela comunidade internacional por muitos países. Sabemos que, e vimos que ele esteve na Casa Branca há não muito tempo, vimos que tem um grande aliado que é Donald Trump e que estão completamente em sintonia até noutros assuntos, como o caso das taxas em que Donald Trump disse: "Temos aqui um aliado", nesta visão nova para a imposição de taxas sobre vários países do mundo. Portanto, acredito que enquanto Donald Trump esteja para o proteger nos próximos três anos e meio e que ele se consiga aguentar, se irá novamente apresentar a eleições, mas penso que ele continua a ser muito desgastado pela oposição interna e até pela própria coligação que o mantém no poder, que está à espreita para que ele possa cair, para que se possa apresentar e para que o possam derrotar em eleições.
Entretanto, Vítor Gabriel Oliveira, vamos olhar para o campo de batalha. Israel mantém ataques constantes. Hoje, pelo menos 40 pessoas morreram. Perante este cenário, retomar negociações para um cessar-fogo é quase uma miragem.
Sim, como eu dizia há pouco, Israel, desde o momento em que chegaram ao acordo, tem sentido uma certa impotência, até pelo enorme apoio que tem sentido dos Estados Unidos. Ou seja, nós, se nos recordarmos, vivemos quase em dois mundos diferentes. O mundo em que Joe Biden apelava a Israel constantemente e diariamente para que parasse, a partir de um certo momento, embora continuasse sempre a apoiar Israel, mas Donald Trump está longe desse apelo que Joe Biden fazia. Portanto, Israel sente-se mais forte, mais apoiado pelos Estados Unidos, que são o seu principal aliado e, por sua vez, os Estados Unidos também se sentem muito mais apoiados por Israel. É um aliado que os Estados Unidos precisam na região, nomeadamente pela questão da intelligence e das informações que circulam em todo o Médio Oriente. Israel é o principal aliado nas informações que permitem aos Estados Unidos ter bases militares próximas do Médio Oriente e que lhes permite fazer ataques aos houthis para que o comércio mundial continue a circular. Portanto, há muitos interesses comuns para os dois e eu penso que está longe de haver um encerramento ou uma paz duradoura para aquela região.
Antes de avançarmos para a guerra na Ucrânia, os houthis acusam os Estados Unidos de terem matado 80 pessoas, prometem manter também os próprios ataques. É por aqui que o conflito no Médio Oriente pode mais escalar?
Sim, eu penso que sim, porque aí é onde os Estados Unidos realmente estão mais perto. Quando Donald Trump ou alguém da administração se refere a esse assunto, nota-se que é o sítio do Médio Oriente onde há mais crispação. Ou seja, todos os outros Donald Trump controla de forma mais ou menos bem. No caso dos houthis, nota-se que os Estados Unidos estão a ficar agastados. Agastados porque realmente as companhias e as empresas americanas têm sentido fortemente o condicionamento no Canal do Suez devido aos ataques. Ou seja, não só os navios que são atacados efetivamente, mas também muitas empresas que deixam de poder passar os seus navios, que como deve imaginar, uma parte do comércio mundial de importação dos Estados Unidos passa por aquela zona do globo e há muitas empresas que cortam as suas rotas e que tornam os produtos mais caros e Donald Trump tem uma pressão económica também sobre isso, interna, sobre os seus secretários da administração, mas também sobre si próprio, da entourage americana que controla grande parte do poder financeiro. E isso tem uma importância especial para os Estados Unidos, ainda mais agora nesta altura que Donald Trump quer uma hegemonia nas suas decisões na área comercial e na área do comércio. Portanto, eu acho que isso impacta realmente, é aquilo que impacta mais Donald Trump, é realmente essa questão. E é por aí que pode escalar mais, como dizia agora, é por aí que pode escalar mais, porque se pensarmos que haja um ataque a larga escala dos houthis, Donald Trump terá que ripostar e será muito mais veemente essa resposta.
Vamos avançar, olhar para a Ucrânia. O Kremlin não comenta o alegado envolvimento chinês no campo de batalha. Pequim diz que não aconteceu e veio pedir afastamento. Que ilações é que podemos tirar, Vítor Gabriel Oliveira, desta situação?
A China, sobretudo, já nos habituou a um silêncio que eles interpretam como inteligente. Ou seja, a China pratica um silêncio inteligente. E como vimos agora na guerra da Ucrânia contra a Rússia, na invasão que a Rússia perpetrou na Ucrânia, vimos que a China manteve relação com todos, sem discriminar ninguém. Portanto, é essa a visão da China, mas penso que a China irá tomar medidas para se proteger e também eu continuo a referir, eu estou a referir muitas vezes, eu sei, a questão das taxas que Donald Trump aplicou, mas esse é um assunto que está na cabeça dos países, porque os dois assuntos estão completamente conectados
Entretanto, continua a haver batalha no campo de batalha, muitos ataques ucranianos com recurso a drones em instalações militares. Esta é a única forma que os ucranianos têm de tentar mitigar os efeitos dos ataques russos?
Neste momento é quase o único, porque conforme sabemos, grande parte do apoio a nível de drones que tem sido prestado à Ucrânia tem ido via Reino Unido. É o apoio que continua a ser dado neste momento. Sabemos que houve alguns problemas, nomeadamente com o controle das informações que os Estados Unidos limitaram na Ucrânia e isso debilitou a frente de batalha ucraniana, em curso e noutras regiões já tomadas no Donbass também, nomeadamente em outras regiões já tomadas pelo exército russo, mas que havia combates fortes para serem recuperadas. E aquilo que aconteceu foi que com essa falta de informação e limitação da informação da intelligence dos Estados Unidos, houve uma quebra grave que permitiu à Ucrânia perder algum do seu território. E isso está a ser compensado pelo apoio com mais drones e que pode equilibrar de certa forma o conflito naquela região.
Já daqui a pouco, Vítor Gabriel Oliveira, há um encontro entre António Costa, o presidente do Conselho Europeu, e o primeiro-ministro da Ucrânia. Arranca já daqui a pouco, a partir das 17h. O que é que podemos esperar desta reunião e o que é que pode o Conselho Europeu fornecer à Ucrânia?
Aquilo que o Conselho Europeu poderá continuar a fornecer à Ucrânia, temos que analisar aqui uma questão muito importante. A Ucrânia, para continuar a funcionar como país, precisa de continuar a ter dinheiro. Ou seja, precisa de continuar a ter os seus serviços públicos, pagar ordenados aos militares, pagar ordenados aos funcionários públicos. E a Europa, nesse aspecto logístico menos visível, tem tido um papel muito importante. É preciso continuar a trabalhar para que isso continue a ser uma realidade na Ucrânia. Agora, penso também que abordarão o futuro, como vimos ainda ontem e hoje já várias notícias, e nós falámos disso no Gabinete de Guerra há cerca de duas semanas, que era uma perspetiva que poderia acontecer e que não estava ainda a ser veiculada, mas que agora já está, que é a retirada de cerca de 20% das tropas americanas das bases NATO nas fronteiras de leste. Já há uma notícia de hoje que a Alemanha já deslocou tropas, é a primeira vez que isso acontece desde a Segunda Guerra Mundial, já deslocou tropas para a fronteira mais a leste. Isso realmente pode ter um impacto. E eu penso que António Costa também irá abordar essa matéria, a realocação provavelmente de tropas mais a leste e a continuação do apoio à Ucrânia, logístico e financeiro. Em termos de intelligence, os Estados Unidos continuam a gerir e aí é que está o nervo e a União Europeia não consegue modificar essa importância que os Estados Unidos têm na região. Provavelmente falarão também, e só especulando um pouco, da futura adesão da Ucrânia à União Europeia, que se manteve a porta aberta por parte da Rússia para que isso pudesse acontecer, para que isso seja uma pequena vitória da Ucrânia, mas sobretudo é para que haja um plano B também.
Para concluir?
Para concluir, para o dia em que os Estados Unidos possam tirar o tapete em termos de apoio à Ucrânia e que a União Europeia possa realmente ter um plano B também da sua parte para continuar a apoiar a Ucrânia.
Vítor Gabriel Oliveira, muito obrigado pela sua análise neste Gabinete de Guerra que está de regresso amanhã.
Obrigado.