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Partimos para a edição desta terça-feira de Gabinete de Guerra para abordar os conflitos no Oriente Médio e também no Leste da Europa. E hoje é nosso convidado o professor Orlando Samões, atualmente o coordenador da licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. Bem-vindo, professor Orlando Samões, obrigado pela disponibilidade. Vamos começar pela efeméride que hoje se assinala os dois anos daqueles terríveis ataques perpetrados pelo Hamas em Israel e que vitimaram mortalmente perto de 1200 pessoas. Coincide esta efeméride com as negociações que estão a decorrer no Egito, tendo em vista um cessar-fogo. Base para esse cessar-fogo é o acordo proposto pelo presidente Donald Trump, que hoje veio expressar otimismo relativamente ao desfecho dessas negociações. Tem razão para isso, o presidente dos Estados Unidos?
Muito boa tarde, muito obrigado pelo convite. Enfim, temos que estar sempre muito cautelosos e sem excessivo otimismo, mas também a fazer tudo o possível para que se consiga apaziguar o conflito israelo-palestiniano. E no caso, até creio que Donald Trump está bastante empenhado e, de fato, pode ser até ainda por este aspecto simbólico que poderá ter um possível Nobel da Paz, seja que uma instituição europeia, nórdica, da Noruega, que no fundo o deixa bastante interessado. Às vezes estas tradições antigas europeias podem puxar a atenção de alguém como Donald Trump, que se calhar a outros níveis da vida tem muito poder, é muito considerado no seu país, mas que lhe falta depois esta condecoração que o torna empenhado. Agora, como disse, e bem, isto são dois anos de guerra, são dois anos de muitos mortos. Estamos a falar de uma situação humanitária absolutamente catastrófica. Se calhar nunca pensamos que chegasse a estas proporções e, portanto, é muito infeliz para a humanidade que estejamos neste momento na situação em que estamos. Não se percebe até como é que esta guerra começou, porque em 1973 tivemos o primeiro Yom Kippur. É uma celebração muito importante judaica que normalmente deveria fazer não para baixarem a guarda, mas pelo contrário, para ficarem muito alerta. Aliás, ainda recentemente, no último Yom Kippur, não foi a 7 de outubro, foi a 2 de outubro, foi precisamente quando chegou a flotilha, que naturalmente até podia ter corrido mal do ponto de vista da intercessão de Israel, sendo este um feriado tão importante e coincidente com situações em que foram atacados há mais que uma vez, poderiam até estar demasiado alerta e investidos de um dia que estariam em celebração, mas que podiam estar não tão consideravelmente investidos numa atracagem, numa intercessão que pudesse não ter problemas maiores. Ainda bem que não teve, até porque, como disse e bem, estavam as negociações a decorrer. Ora, esta é de longe a maior guerra em termos de prolongamento no tempo de conflito. Em 67, a guerra ficou conhecida como dos seis dias, precisamente foi muito curta. Em 73, o período assim também mais complicado, no fundo, são 19 e mesmo a chamada guerra pela independência, a primeira de todas, depois da declaração do Estado de Israel e dos primeiros desanes das Nações Unidas, as primeiras resoluções, pode-se dizer que foi desde maio de 48 até março de 49. É grosso modo um ano. Pelo que desta feita estamos mesmo a entrar por terrenos muito desconhecidos e também por isso é que se calhar é tão difícil a resolução. São dois anos em que vimos de tudo acontecer. Muita desproporcionalidade, é verdade. Israel tem tendência para olhar no muito longo prazo e, portanto, tentar se manter como Estado independente e de não voltar a incorrer riscos. Muitas pessoas até falaram, até houve aqueles relatórios que apontaram pra palavras ainda mais pesadas, como os "nocídio", mas que sabemos que também ficaram muito ideologizadas. Não temos os dados, não temos até possibilidade de provar a intenção para que assim seja. Mas enfim, há uma punição muito desmesurada, que no fundo afeta também o povo palestiniano e que nós aqui ao longo destes dois anos temos percorrido a situação dos hospitais que ficaram destruídos e das escolas, e por vez alguns ataques terem atingido até a dimensão sagrada da sociedade, cemitérios e até houve igrejas atingidas. Ora, do outro lado, temos também aqui um conjunto de instituições internacionais e a ONU, que parecem ter tido uma falta de imparcialidade muito grande, em que também não condenaram eficazmente. Quantas vezes ao longo destes dois anos não tivemos as resoluções da ONU a serem vetadas pelos Estados Unidos, com alguma razão, em que os Estados Unidos também só pede que seja vincado o início deste processo através dos ataques terroristas, uma condenação efetiva do Hamas. E é com espanto, que também podemos ver que ninguém viu a formação dos túneis durante todos estes anos, quer dizer, pelo menos desde 2005, quando foi ainda Ariel Sharon a fazer a retirada dos colonos de Gaza e a permitir Gaza vir para uma situação em que teria eleições, tal como a Cisjordânia, e em que ainda assim em Gaza, de fato, há uma vitória política do Haniyeh, que entretanto também já foi morto, até foi no Irão e numa cerimônia de homenagem ao general Soleimani, creio eu. E como é que ninguém viu a ajuda humanitária ser utilizada para construção de túneis que podem ter tido mais de 5000 entradas e saídas, um pouco por toda Gaza. Gaza é tão pequena, apesar da densidade populacional ser muito elevada Uma coisa que acho que se tornou muito clara ao longo destes dois anos é como é possível, num espaço tão exíguo de território, 40 km quanto muito, depois por sete ou um pouco mais, 10, 12 mais a sul, de quilômetros, desse retângulo ter tantos sítios não só para esconder reféns, para construção de túneis, que aumenta muito a quilometragem possível. Portanto, até a falta de empenho geral da comunidade internacional para ter antecipado parte deste problema. Ninguém viu e de fato a ONU foi muito permeável e a honra a toda esta situação. Não houve um soar de alarmes, não houve uma capacidade de fazer com que a ajuda humanitária chegasse mesmo às pessoas e não a este grupo. A maneira como foram possíveis utilizar rotas e talvez a fronteira sul para alimentar uma verdadeira militarização, indústria de guerra do Hamas, que primeiro combate até os seus próprios outros grupos palestinianos, nomeadamente a Fatah durante 2006, 2007, mesmo a seguir à sua vitória, e poderiam ter usado apenas a vitória para governar livremente, mas não. E esta negação constante até da própria liderança em se unir em torno da ideia do seu próprio Estado, que no fundo ao longo do conflito Israel-Palestina tem sido também muito clara, que muitas vezes estas lideranças destes grupos não são assim tão amigas do seu próprio povo, não os protegem, até porque notam que quanto mais subirem os números de mortos, parece que mais razão lhes é dada, quando devia ser o contrário. O Hamas devia ter essa preocupação de proteger a sua população, coisa que nem sempre teve. E, portanto, entramos numa situação nova em que não se tem vincado aquilo que eram as resoluções aprovadas e que tantas vezes foram esquecidas. Mas se calhar hoje é um bom dia voltarmos à resolução 15/15 de 2003, o chamado Roadmap for Peace, que se chamava na altura, em que já pedia a desmilitarização da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, a resolução 1559, que já pedia o desarmamento do sul do Líbano. Nós não estávamos à espera, mas no meio desta guerra de Israel para com o Hamas, a envolvência de outros Estados, que no fundo ajudou à sua própria unificação. Recorde-se o Líbano, que estava muito dividido e com uma espécie de situação de impasse que não permitia eleger um presidente e que depois do enfraquecimento do Hezbollah conseguiu unificar-se e ter um presidente. A própria Síria, que também estava sujeita a muitas divisões internas e Bashar al-Assad também não conseguiu o controle do seu próprio país. Neste momento, ainda assim, apesar de todas as limitações, houve uma eleição na Síria. Sabemos que muito controlada pelo seu líder e presidente, é verdade, que escolheu em parte a comissão eleitoral e que escolhe também os candidatos e que não é um sufrágio universal, mas que ainda assim é uma assembleia e que pelo menos não foi buscar inspiração aos partidos anteriores e está a tentar criar algo de novo. Sabemos que não foi uma eleição democrática, mas ainda assim houve alguma consulta popular e um conjunto de pessoas notáveis e acadêmicos que surgiram desses conselhos eleitorais para a revolta política. Isso também é importante até para a formação de novas opiniões. E, portanto, tanta coisa que tem mudado. E agora voltamos ao Egito. O Egito é uma das fronteiras mais importantes, porque é outra fronteira. Não era só Israel a bloquear as saídas de Gaza. Pelo contrário, Israel até teve alguns contratos a partir de 2008 de trabalho e permitia muitos de Gaza irem trabalhar a Israel. Com isto também julgava que amenizava mais as tensões do conflito, mas o Egito também não contribuiu assim tanto, era mais uma força de bloqueio que também tornava aquela população um pouco de refém. É do plano de paz do Egito, que é muito recente, que surgem as expressões administração da paz ou mesmo governo tecnocrático. A ideia de termos um comitê de supervisão que agora estão na ordem do dia. E enquanto às vezes sede da Liga Árabe, houve a chamada carta, que foi aprovada por 22 Estados, aqui já se inclui também Palestina. Portanto, não só o Líbano e a Síria se centralizaram e estão neste momento mais unificados em termos de Estado, a própria Palestina acabou por ser neste movimento reconhecida por mais países, inclusive por Portugal e por países ocidentais. E, portanto, se calhar, até podemos estar mais perto de uma possível tentativa.
E uma solução definitiva. Ponho aqui em evidência o papel que tem tido o Hamas e dos grupos a favor da autodeterminação da Palestina, mas a verdade é que Israel, eventualmente, também não terá contribuído nos últimos anos para que se possa chegar a uma solução política pacífica e o estabelecimento de dois Estados naquele território. E estou a lembrar-me, por exemplo, daquilo que tem sido a política até assumida pelo próprio primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em relação à construção de colonatos na Cisjordânia.
Pois, é verdade. Em Oslo foi feito o mapa e as várias zonas. Estávamos na altura do triunfo da terceira via e muitas vezes para se conseguir uma solução de paz, é preciso esquecer alguns conceitos de outros valores. Temos um pouquinho a tendência de pensar que sem justiça não há paz, mas não é bem verdade. A justiça é por vezes uma forma de iniciarmos mecanismos coercivos até contra outras pessoas que nos possam ter feito mal. A paz consegue-se ao olhar para o futuro. Em Oslo, aquilo que em vez de se tentar fazer justiça ao mapa, tentou-se até tornar o mapa mais baço e mais confuso, permitindo, ainda assim, à autoridade palestiniana ter o controle sobre as cidades principais da Cisjordânia e desenhando a partir daí umas zonas de policiamento, por exemplo, as zonas C, que eram de segurança israelita, policiadas de forma israelita, e depois uma intermédia B. Ora, essa imperfeição do arranjo é que ainda assim conseguiu que Lideranças de ambos os lados, Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, conseguissem apertar as mãos e termos esta situação histórica que permitiria olhar para o futuro com um pouquinho mais de esperança do que hoje. Tentativas muito perfeccionistas de esboçar as fronteiras que possam ficar para sempre, parece-me que podem levar ainda mais problemas. Um só Estado, por muito que fosse, se calhar, até a solução ideal, do ponto de vista dos recursos, do ponto de vista da unidade do próprio povo. Se calhar, estamos a falar de um povo que tem mais em comum e que em cooperação uns com os outros podia triunfar muito mais do que nestas rivalidades que muitas vezes são culturais ou têm uma dimensão religiosa, que poderia ser esquecido num Estado que fosse mais neutro do ponto de vista moral, mais pluralista e até binacional. Mas estamos longe dessas soluções perfeitas e se calhar termos que ir para uma solução de dois Estados, dadas as situações, é algo que toda a comunidade internacional pugna por essa situação. E isso significa que a continuação de construção dos colonatos, desta feita o último foi o E1, que parece limitar muito a possibilidade de no futuro Palestina ser um território contíguo e contínuo. Aliás, como tem sido sempre descontinuado e precisamente com um mapa muito sinuoso. E essa maneira de olhar de Israel que é condenada, porque à luz do direito internacional não são só as resoluções que proíbem a militarização de 2003 e 2004. Também é verdade que também são ilegais os colonatos. No caso de Gaza, foram de facto retirados em 2005 ainda neste movimento, mas neste momento foi pedido à população que fosse deslocada, muita gente teve que se deslocar para Sul e ficaram em autênticos campos praticamente de refugiados, muitas vezes em tendas, em condições sub-humanas, enquanto que Israel tem grande domínio e controlo sobre muitas porções de terreno, que no fundo, não é seu.
Imagino que esse professor Rolando Tambão, eu peço desculpa interrompê-lo, mas atingimos mesmo o limite do nosso tempo e imagino que isso seja um problema, tendo em conta também a natureza dos cidadãos israelitas que habitam precisamente nesses colonatos e que têm também a ambição de expandir o território de Israel contradiano daquilo que é a vontade do povo palestiniano e das resoluções internacionais. Professor Rolando Tambão, nós haveremos seguramente de voltar a falar destas negociações de paz que contam com o otimismo de Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos acredita que as negociações que duram há dois dias em Sharm el-Sheikh, no Egito, vão chegar a bom porto.