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Começa agora mais um Gabinete de Guerra, esta manhã com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia. Obrigado.
Olá, Bruno. Nove anos depois, Trump está de regresso à China, mas chega a Pequim sem a capacidade de pressão econômica que gostaria ter. Bruno, o que esperar deste encontro e que contributo pode Pequim dar para resolver o impasse entre Estados Unidos e Irão, se bem que Trump voltou a descartar a ajuda da China para resolver o conflito?
Acho que Donald Trump está numa posição relativamente enfraquecida. Por um lado, tem essa questão enorme da guerra por resolver contra o Irão, em que Donald Trump insiste que já ganhou, que esmagou o Irão, mas a verdade é que o Irão não aceita essa derrota, não aceita os termos que os Estados Unidos querem impor. Pelo contrário, até parece estar aqui numa posição de uma certa vantagem por causa desta questão da ameaça sobre o estreito de Ormuz e as implicações disso para a economia global. Portanto, em termos geoestratégicos globais, a China pode apresentar-se um pouco como uma grande potência estável, previsível, mesmo em relação a países historicamente aliados dos Estados Unidos, mais do que os próprios Estados Unidos. Pode-se apresentar em relação ao Sul global como defensor do Sul global contra, no fundo, os Estados Unidos que mais uma vez se mostraram bastante agressivos contra países que estão fora do Ocidente. Por outro lado, em termos econômicos, também numa posição enfraquecida, porque pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, a China conseguiu mostrar que tinha capacidade de coerção econômica igual ou superior aos Estados Unidos num choque, numa guerra comercial com os Estados Unidos, a questão das terras raras, que são matérias-primas críticas em todo tipo de tecnologias avançadas, inclusive tecnologias militares norte-americanas. Por exemplo, os F-35 precisam dar volta de 400 quilos desse tipo de matérias-primas e, portanto, forçaram os Estados Unidos a recuar, Donald Trump a recuar. Além disso, a China conseguiu aumentar, teve um ano recorde em termos de exportações. Portanto, apesar da guerra econômica com os Estados Unidos, no fundo, a sua capacidade de continuar a exportar até aumentou, em parte também porque os Estados Unidos estão em guerra comercial com o mundo todo.
Exatamente. A China aproveitou.
Muitos países procuraram essa alternativa chinesa. Portanto, acho que Donald Trump vai realmente numa posição de alguma fragilidade. As expectativas também não são brilhantes do ponto de vista de grandes avanços. Há até receios de que possa haver também naquele estilo muito impulsivo e muito improvisado de fazer a diplomacia de Donald Trump, possa haver algum tipo de declaração, por exemplo, que ainda destabilize mais as coisas, neste caso, sobretudo na Ásia Oriental, no Extremo Oriente, por exemplo, em relação a Taiwan, se de alguma forma Donald Trump fizer alguma declaração que seja lida ou que possa ser lida como uma redução da garantia de segurança dos Estados Unidos em relação a essa ilha. Portanto, acho que se isso não acontecer, já será um bom resultado da cimeira. Para terminar, há a expectativa de que eventualmente a China, no fundo, para permitir a Donald Trump declarar algum tipo de vitória, que também lhe seja vantajosa, dê alguma coisa em termos daquilo que a imprensa americana está a chamar Boeings and Beans, ou seja, algum tipo de concessões em termos de comprar, por exemplo, aviões Boeing ou de comprar mais soja, mais produtos agrícolas, obviamente, em troca de algumas concessões americanas, por exemplo, em termos de controles de tecnologia mais avançada. Muitos analistas dizem que isso seria um mau negócio para os Estados Unidos, em termos dos seus interesses estratégicos a prazo, mas provavelmente do ponto de vista dos interesses políticos de Donald Trump, já seria uma vitória.
Entretanto, um relatório da CIA diz que o Irão pode resistir mais três a quatro meses ao bloqueio do estreito de Ormuz e à pressão dos Estados Unidos. Com as intercalares à porta e com Trump com pressa para mostrar resultados, quem é que tem aqui o relógio a seu favor? É Washington, que precisa de uma capitulação rápida, ou te Irão, que segundo a própria CIA, como estamos a ver, parece ter fôlego para levar esta crise, pelo menos até o verão?
Eu não tenho nenhuma dúvida que o Irão está a sofrer grandes perdas com esta campanha, grandes perdas militares, baixas e grandes perdas econômicas. Agora, o problema é que isto é um conflito assimétrico, em que de um lado temos um regime teocrático iraniano que faz do culto da resistência um aspecto central da sua legitimação. Passam o tempo a citar aquela frase do fundador da República Islâmica, do Aiatolá Khomeini, que diz que a única hipótese para o Irão num conflito é a resistência, a vitória ou o martírio, e que o martírio já é uma vitória. Portanto, isso diz bem desta cultura de resistência. E, por outro lado, também é um regime que é completamente indiferente aos custos econômicos em vidas etc, entre a população iraniana. Basta dizer que em janeiro deste ano matou milhares de pessoas, que há dezenas de milhares para se manter no poder. Portanto, à partida, tem uma vantagem enorme em relação aos Estados Unidos, onde, por enquanto, ainda vai havendo eleições que realmente podem alterar as coisas, alterar a distribuição do poder, por exemplo, no caso do Congresso, nestas eleições intercalares em novembroE sabemos também que o Donald Trump não é propriamente conhecido por ser uma pessoa muito paciente. Portanto, ainda a semana passada, ele publicou na sua rede social um gráfico em que mostrava que aquilo que ele chama a excursão ao Irão, ou seja, esta intervenção militar no Irão é a mais curta em duração. Obviamente, ele só conta o período até ao início do cessar-fogo, mas é a mais curta intervenção militar norte-americana de uma série de guerras que ele lista, incluindo o Afeganistão, o Iraque, etc. Isso diz bem, realmente, que apesar das declarações de que está disposto a fazer o que for preciso, na verdade, tem pressa que o conflito termine e está a pagar um preço econômico e político também bastante elevado por esse conflito. Portanto, essas ameaças ou essas declarações são realmente pouco credíveis. É evidente que o regime tem uma vantagem a esse nível em relação a Donald Trump.
A Rússia testou com sucesso um novo míssil nuclear que Putin diz ser o mais poderoso do mundo e capaz de penetrar qualquer defesa. Primeiro diz que a guerra na Ucrânia está perto de acabar, logo a seguir exibe um míssil com alcance de 35 mil quilômetros. Bruno, Moscou está a preparar-se para negociar a paz a partir de uma posição de força absoluta ou a ameaça nuclear serve apenas para garantir que a NATO não interfere nas condições que a Rússia quer impor a Kiev?
Isto parece ser mais do mesmo e neste contexto atual, até pode ser lido eventualmente como sinal de um certo desespero. A Rússia, de fato, não tem grandes alternativas em relação a insistir naquilo que tem feito desde o início da guerra. Quantas vezes já discutimos um novo míssil com um nome muito ameaçador, um novo míssil nuclear. Lembro aquele míssil nuclear naval que até produzia radiações, etc. Portanto, isto faz parte desta mesma estratégia de tentar acenar com o arsenal nuclear russo, que nós já sabemos, é o maior do mundo, é até ligeiramente maior do que os Estados Unidos. Só que o problema é o mesmo, é que as armas nucleares são armas estratégicas, são armas para dissuadir um ataque, uma ameaça que possa destruir uma potência nuclear. Não são armas que condicionem ou terminem um conflito armado. E tem sido assim desde 1945. Os Estados Unidos também tinham o maior arsenal nuclear do mundo nos anos 60 e 70, e isso não impediu que perdessem estrategicamente a guerra do Vietnã. O arsenal nuclear soviético não impediu a derrota estratégica, a retirada forçada da União Soviética do Afeganistão. Portanto, não me parece que isto altere nada de essencial. Ainda que vale a pena sublinhar que isto corresponde realmente a um processo de modernização dos arsenais nucleares e de uma certa corrida à nova tecnologia militar no campo nuclear por parte de várias potências, em particular a Rússia e a China, mas mesmo isso não altera o essencial do equilíbrio de poder ou das dinâmicas de conflito a nível global.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela análise. No Gabinete de Guerra, um bom dia.
Bom dia, obrigado.
Obrigada, Bruno.