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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e connosco temos esta hora o historiador Bruno Cardoso Reis. Boa tarde, Bruno. Bem-vindo uma vez mais. Bruno, há várias declarações hoje de Donald Trump, de resto têm havido ao longo das últimas semanas, mas hoje há aqui várias nuances e várias declarações que importa analisar. Desde logo, admitir que está a ponderar a saída dos Estados Unidos da NATO, alega falta de apoio dos aliados na guerra contra o Irão. Isto será mesmo uma possibilidade, Bruno?

Legalmente, Donald Trump não pode sair da NATO. E para o caso de haver dúvidas, o Congresso americano, numa decisão praticamente unânime, que é hoje rara, deixou isso claro. A saída da NATO só poderia ser feita com a sua autorização e a retirada de tropas também, a redução do nível de tropas americanas na Europa abaixo de um certo nível, também só pode ser feita com autorização do Congresso. Sabemos que Donald Trump muitas vezes ignora a lei, ignora o Congresso. Sabemos que ele tem esta aversão à NATO há muito tempo. Basta recordar que logo na campanha para o seu primeiro mandato em 2015, 2016, ele falava da NATO como obsoleta. E temos testemunhos, por exemplo, do John Bolton, que trabalhou com ele na Casa Branca também no primeiro mandato, que dizia que realmente várias vezes ele tinha avançado com essa ideia, porque realmente Donald Trump não percebe a lógica das alianças. Não percebe nem quer perceber. Tudo o que se passou neste conflito com o Irão é um exemplo disso. Ele aparentemente acha normal que comece uma guerra sem consultar ninguém, sem envolver ninguém, sem informar ninguém e depois também sem informar ninguém, sem falar antes com os seus homólogos, com os outros chefes de governo, sem haver consultas sobre exatamente o que se pretende, etc., pelas redes sociais vem dizer: "Agora vão vocês para lá, mandem navios para lá, porque eu agora acho que quem deve abrir o Estreito de Ormuz são os europeus, que dependem mais do estreito." Como de costume também com Donald Trump, isso também é falso. Na verdade, quem depende mais do estreito para as exportações de petróleo, para as suas importações de petróleo e gás, são os países asiáticos, de longe. A Europa depende mais do que os Estados Unidos, mas não chega aos 20%. Portanto, 80%, nalguns casos mais, vai de fato para os países da Ásia. Ele tem realmente este problema com a NATO e isto é mais um pretexto, mais uma razão para ele vir também encontrar aqui um alívio e um bode expiatório, por causa das coisas não estarem a correr como ele achava que iam correr, por causa do estreito estar fechado. É importante aqui sublinhar este dado fundamental, que é:houve dezenas de conflitos armados envolvendo países membros da NATO, em que os outros Estados membros, nomeadamente os Estados Unidos, não participaram. Não participaram com tropas, não participaram com meios militares. Nalguns casos, não deram sequer ajuda militar ou outra. Um exemplo são as guerras coloniais tardias portuguesas entre 1961 e 1974, em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Os Estados Unidos não só não deram nenhum apoio, mas inclusive boicotavam e impediam a venda de armamento. Não estou a dizer que isso estivesse errado ou que estivesse bem, mas foram os Estados Unidos que em 1949 insistiram que no tratado que constitui a NATO, o Tratado de Washington, de abril de 1949, ficasse muito claro que as obrigações, inclusive as obrigações de defesa mútua, só se aplicam na área do Atlântico Norte, no espaço euro-atlântico, e não fora dessas áreas. Não há aqui nenhuma violação por parte dos aliados da NATO do que foi acordado, e Donald Trump não tem obviamente aqui nenhuma razão, mas isso não quer dizer que não possa agir de acordo com as suas inclinações muito isolacionistas, muito unilateralistas. A ideia de que os Estados Unidos são uma espécie de potência omnipotente que se forem contrariadas podem quebrar qualquer tipo de acordo que têm com os seus aliados.

Entretanto, Donald Trump diz que o Irão pediu um cessar-fogo, diz que isso vai acontecer se e quando o Estreito de Ormuz reabrir, mas o Irão garante que não vai ceder a pressões e até já veio desmentir que tenha existido alguma conversa com o presidente do Irão, que Donald Trump diz que é muito mais inteligente que os antecessores. Bruno, conseguimos perceber exatamente em que ponto é que está esta intervenção norte-americana no Irão, em que ponto estão estas negociações? Conseguimos perceber exatamente esta declaração de Donald Trump?

Aqui temos duas coisas. Um é um padrão em Donald Trump, que é ele está sempre tudo a correr bem, a vitória ou sucesso é garantido e é iminente, está ao virar da porta, ao virar da esquina, mas o segundo padrão também é que isso muitas vezes tem muito pouco a ver com os factos. Estas declarações valem alguma coisa para percebermos que Donald Trump realmente está aflito, está politicamente pressionado. A guerra é muito impopular nos Estados Unidos e é cada vez mais impopular. Este é um ano eleitoral, temos eleições intercalares. Os mercados, de fato, acham esta guerra uma ideia péssima. Há um problema sério no mercado da energia, que depois tem impactos em todos os outros e na inflação dos preços, etc. Donald Trump está muito aflito e quer muito terminar o conflito, desse ponto de vista, acho que estas declarações são reveladoras. Ele diz que houve um apelo de cessar-fogo da parte do Irão. Todas as declarações do Irão têm sido consistentes a dizer que estão preparados para continuar a resistir por muito tempo. Eu até admito que isso não seja exatamente assim, que haja setores no Irão mais moderados, como é o caso do presidente, que queiram chegar a um cessar-fogo e queiram evitar uma escalada perigosa da guerra. Mas o problema de base é que, ao contrário do que diz Donald Trump também O regime iraniano não mudou, continua igual. E no regime iraniano não é o presidente que realmente manda. O presidente tem muito pouco poder. Até temos também algumas informações credíveis de que o presidente se queixa exatamente disso, que está numa posição de completa impotência. É verdade que ele é uma figura mais moderada, mas não é verdade que o regime tenha mudado e a ala dura parece continuar a controlar, no essencial, o curso da guerra do lado do Irão e já deu muitos sinais de que não quer chegar a um acordo a qualquer preço com os Estados Unidos. Portanto, acho que o que temos, sobretudo, é de ver também as ações dos dois lados, mais do que as declarações de um lado ou do outro. Essas valem mais, como eu digo, no caso do Donald Trump, sobretudo como um sinal de que ele quer muito terminar o conflito, declarando vitória, claro, e que se calhar fará isso mesmo que a situação no terreno continue extremamente complicada e perigosa.

O que eu ia perguntar a seguir tem a ver com isso, Bruno. É se podemos estar perante um cenário de retirada dos Estados Unidos do Irão sem necessariamente que o conflito termine, ou seja, que possa continuar noutra frente, por exemplo, de Israel só contra o Irão.

A mim parece-me que o cenário mais provável, e eu tenho dito isso muitas vezes, é haver realmente um cessar-fogo, de facto, sem um acordo mais amplo, eventualmente com um acordo mais limitado, mas basicamente um cessar-fogo, e que mesmo que o Irão, mesmo que esta linha mais dura possa mandar mais uns mísseis, mais uns drones para deixar claro que não termina exatamente quando Donald Trump quer, mas um cessar-fogo, sobretudo por iniciativa americana, porque Donald Trump quer acabar com a guerra, e que depois o próprio Irão acabe por aceitar isso, porque também é importante ao regime mostrar que conseguiu sobreviver a este conflito, que consegue também concentrar-se na transição de poder ao nível da liderança, nomeadamente do guia supremo, que continua desaparecido. A grande questão é saber o que é que acontece no Estreito de Ormuz e se é credível, se Donald Trump consegue declarar vitória e seguir em frente, se o Estreito de Ormuz continuar bloqueado ou pelo menos em grande parte bloqueado ou muito inseguro para grande parte da navegação. Essa é que me parece a questão-chave. Mas que Donald Trump, à partida, não teria problemas, provavelmente em declarar vitória nos termos que for, seguir em frente, procurar outros alvos mais fáceis, eventualmente em Cuba, e deixar os aliados dos Estados Unidos no Golfo, os aliados dos Estados Unidos na Europa e na Ásia a pagar o preço desta crise, deste conflito, isso parece-me bastante possível.

Quem também apelou a um cessar-fogo foi a China, Bruno. Será que o país poderá fazer mais do que isso? Que repercussões é que este conflito pode também ter para a China?

À partida, nós poderíamos pensar: isto é ótimo para a China, porque significa que os Estados Unidos estão a empenhar aqui imensos meios militares. Estamos a falar de qualquer coisa como metade, basicamente, por exemplo, dos meios aéreos operacionais. Isso quer dizer que há mais margem de manobra para a China, por exemplo, no Extremo Oriente, na Ásia Oriental. É também um conflito que tem minado muito a credibilidade dos Estados Unidos. Esta ideia de que os Estados Unidos são cada vez mais um fator de instabilidade, de imprevisibilidade, que mesmo os aliados dos Estados Unidos não podem contar com os Estados Unidos. Tudo isso à partida potencialmente favorece a China, mesmo a questão da importância de diversificar as fontes de energia para as renováveis. A China é a grande produtora de tudo o que é material, que é necessário para essa transição energética. Agora, a China também precisa de um mundo relativamente estável. A China precisa, sobretudo, como o grande país exportador a nível global, precisa de vias de comunicação, de comércio marítimo seguro, que não esteja constantemente em risco de ser interrompido. E desse ponto de vista, por exemplo, o corte do Estreito de Ormuz, embora não afete tanto a China, porque tem boas relações com o Irão, é um precedente perigoso. A China tem esta questão que quer mudar o sistema, quer ter um peso maior no sistema internacional, mas não quer destruir completamente o sistema, nomeadamente económico global, que a tem beneficiado muito. Parece-me que este apelo realmente corresponde aos objetivos chineses. É também uma forma de mostrar apoio ao Paquistão, que tem tido aqui um papel de mediação importante. Isso faz sentido porque o Paquistão é o país que representa o Irão junto dos Estados Unidos. O Irão e os Estados Unidos não têm relações diplomáticas desde 1979, desde que a embaixada americana foi ilegalmente ocupada, invadida. Os diplomatas norte-americanos, violando a sua imunidade, foram presos pelos revolucionários dos Aiatolas. É o Paquistão que já tem essa função. Tem muito interesse também o Paquistão em que esta crise não escale mais, porque também depende do petróleo do Golfo, tem um acordo de segurança com a Arábia Saudita, que a Arábia Saudita poderia evocar defesa mútua, poderia envolver aqui o Paquistão. Obviamente, é um país vizinho do Irão, por outro lado, portanto, tem todo o interesse em que esta vizinhança não se destabilize mais. E tem uma relação de parceria também muito próxima com a China, que está a usar o Paquistão precisamente também para contornar outros pontos de estrangulamento da geopolítica, da geoeconomia global, como o Estreito de Malaca. Está a construir uma série de rodovias, ferrovias, portos, que ligam o extremo Ocidente chinês, a zona do Tibete, do Xinjiang, depois através do Paquistão ao Oceano Índico. E faz sentido que realmente haja aqui esta convergência de esforços. Agora, se a China se irá envolver mais diretamente, isso eu já tenho mais dúvidas, porque a China geralmente tem uma diplomacia muito prudente e não gosta de entrar neste tipo de iniciativas sem ter alguma garantia de que isso poderá ser bem-sucedido. Em todo o caso, se o fizer, parece-me que é mais provável que o faça de forma discreta. Agora, objetivamente e para terminar, a China tem muito interesse em que esta crise de segurança marítima, de facto, não se agrave, não se multiplique. Há o risco, inclusive, de alargamento também ao Estreito de Táden, que é ainda mais importante, porque afeta também as exportações chinesas para a Europa. E também tem interesse em que, em termos do mercado de energia, as coisas se normalizem. A China tem grandes reservas estratégicas para vários meses de petróleo e de gás, mas também está muito dependente da importação dos hidrocarbonetos e também tem interesse em que a crise se resolva.

Bruno Cardoso Reis, obrigado pela tua análise em mais um Gabinete de Guerra. Boa tarde e até amanhã.

Boa tarde, obrigado.