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Temos Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Já de seguida olhamos para os últimos desenvolvimentos da guerra na Ucrânia. Vamos ter como convidado o Coronel Carlos Mendes Dias para uma participação neste Gabinete de Guerra. De resto, vamos olhar com maior atenção para a Rússia, esta tensão entre Rússia e Estados Unidos, também a propósito do drone norte-americano que caiu no Mar Negro e também do envio de um tipo específico de aviões para a Ucrânia. Julgo que por esta altura o Coronel Carlos Mendes Dias já está conosco. Seguimos para este Gabinete de Guerra também com o Bruno Vieira Amaral, a Vanessa Cruz e a Judite França.
Muito boa tarde, Coronel Mendes Dias. A Polónia é que anunciou esse envio de quatro aviões MiG-29 para a Ucrânia. São aviões da era soviética, estarão totalmente funcionais e são utilizados para que tipo de operação em específico?
Sim, quer dizer, são aviões totalmente operacionais, ainda em uso em muitos países, e vêm colmatar aquela que é uma das lacunas desde sempre, eu próprio tenho afirmado há algum tempo, obviamente, que é contribuir. Não são com quatro MiG-29 que o fazem, mas no fundo é para contribuir no acréscimo de capacidades no que toca ao poder aéreo por parte das forças ucranianas, visto que há uma desproporção, mesmo com a atrição que tem havido, enorme. E basta ver que, por exemplo, de acordo com fontes russas, já foram abatidos cerca de 400 aeronaves ucranianas, o MiG-29. É um multi-role, portanto dá para o bombardeamento com alguma profundidade, como pode contribuir para o poder aéreo próximo às forças de manobra ucranianas e que nesta altura, salvo as ações irregulares, e que não têm este tipo de apoio de artilharia, encontram-se na defensiva.
Voltando à tensão entre Estados Unidos e Rússia, senhor Coronel, foram divulgadas entretanto imagens pelas forças norte-americanas do momento em que o drone de vigilância colidiu com o caça russo no Mar Negro. Daquilo que viu, chegou a alguma conclusão?
Não, a principal conclusão que eu queria tirar, há várias coisas que estão envolvidas, mas de facto a originalidade do acontecimento não são incidentes, ou melhor, não são incidentes/acidentes, porque tem havido problemas relativamente ao emprego de drones ou à falta de comunicação entre aeronaves, etc. A originalidade do incidente era, de facto, pela primeira vez, haver contacto físico, isto é, o tal tocar da aeronave russa na hélice do MQ-9, do Reaper. E isso não se consegue distinguir. Mas mesmo que isso tivesse acontecido, e um lado diz que não, o outro diz que sim, mesmo que tivesse acontecido, a lógica norte-americana tem sido no desagravar, isto é, colocar a retórica na área da incompetência e da pouca prudência para colar esta ideia generalizada que vai passando para o quadro russo, do que propriamente ter havido intencionalidade. Agora há duas ou três coisas que importam sobre isso, rapidamente, que importam dizer. Primeiro: qual a legitimidade russa de ter decretado e avisado as diferentes autoridades, segundo as normas internacionais, uma zona aeroespacial especial durante este tempo de guerra, no fundo, uma zona de exclusão aérea. Isto é, qual a capacidade, competência e legalidade disto. Depois dizer que, mesmo no espaço aéreo internacional, existem uma coisa, umas zonas ou umas regiões que são as FIR, as Flight Information Region, em que aeronaves e drones, obviamente, isto propriamente não são áreas de soberania, mas estão convidados a comunicar, isto é, terem os transponders ligados. O transponder é um emissor/receptor ao mesmo tempo, em que há a emissão do sinal e o outro lado envia automaticamente um sinal, exatamente para evitar este tipo de acidentes. Ao que parece, quero dizer, de acordo com fontes russas, e estes transponders obrigatoriamente nestas áreas têm que estar a funcionar. Ao que parece, de acordo com fontes russas, os transponders estariam desligados. Acho estranho, mas enfim, de acordo com as fontes russas, não há menções deste tipo do lado norte-americano. E depois dizer ainda o seguinte: o incidente terá ocorrido cerca de 90 km a sudoeste da Crimeia e obviamente, eu vou chamar a queda do drone no Mar Negro, mais 10, 12 km para além dessa área. Independentemente de ter que se cumprir, embora nós saibamos que não se cumprem quando estamos nessas situações, tem que se cumprir o direito sobre isto, e aqui há algumas questões já colocadas também, é o facto de termos que ter ideia, aliás, quer norte-americanos, quer russos, a gente sabe que na Crimeia estão instalações militares russas, eu vou chamar significativas. E sabemos, por outro lado, que os norte-americanos têm fornecido intelligence, informações ao lado ucraniano. E, por conseguinte, mesmo com o eventual cumprimento de direito, estas situações são eivadas de muita tensão, até porque os norte-americanos, em equipamento militar e em informações, que também são pagas, já doaram à Ucrânia 30 bilhões de dólares. E é conhecido de nós que as informações têm sido veiculadas. A Rússia tenta trazer os Estados Unidos a terreiro dizendo que isto é uma prova irrefutável de como os Estados Unidos, de facto, estão na guerra na Ucrânia. Mas não é por causa disto que Digamos assim, que se pode concluir ou não que os norte-americanos queriam ir à guerra na Ucrânia.
Só para uma última pergunta, que lhe peço alguma brevidade. O Kremlin voltou a admitir recuperar destroços do drone no Mar Negro se houver motivações de segurança para isso. E que questões são essas?
As questões são majoritariamente técnicas, isto é, os norte-americanos não conseguem lá ir. A Turquia está a cumprir o Tratado de Montreux, portanto, logo nos primeiros 15 dias, digamos que tipificou a situação como de guerra, fechou o estreito de Bóforo a vasos de guerra ou que vão em funções, vou chamar assim, associadas com a guerra, e portanto, os Estados Unidos deixaram de ter possibilidades de ir ao sítio. A Roménia não tem capacidade e a Turquia tem uma posição, digamos assim, do meio, e obviamente também tem possibilidades muito discutíveis, para além de alavancar, quando se diz aliados, a NATO, e a NATO tem que ser afastada desta situação. Os russos estão mais ou menos livres, têm forças no negro que podem ir à procura do drone, que está localizado, os russos também sabem isso, está a cerca de 1500 metros de profundidade. Questões de segurança em si, naturalmente, segurança técnica e não de outro tipo. E dizer que não é pelo facto, vamos especular, que os norte-americanos tenham apagado a informação, que isso deixa de ter utilidade para os russos. Essas afirmações estão a enganar-nos a nós, povo, porque o que interessa é recuperar tecnologia. E tecnologia é recuperar, por exemplo, uma câmera que está no drone e consegue, a mais de 3 km, identificar a chapa de matrícula do seu carro. Isto é que interessa recuperar, não é somente a informação.
Coronel Carlos Mendes Dias, muito obrigada pelos seus esclarecimentos.
Muito obrigado pela oportunidade.
Em torno desta questão do drone, o Gabinete de Guerra volta amanhã.