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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, já sabe que é por aqui que todos os dias analisamos as principais novidades e aquilo que se passa no terreno nos dois grandes conflitos a nível mundial, não só a guerra na Ucrânia, mas também no Médio Oriente. Hoje junta-se a nós Ana Miguel dos Santos, é especialista em assuntos militares, a quem agradeço desde já a disponibilidade para estar conosco. Ana Miguel dos Santos, bem-vinda à Rádio Observador mais uma vez para mais um Gabinete de Guerra.
Bom dia, André. Obrigada o convite.
Obrigado nós. Vamos começar pela Ucrânia. Vamos olhar para as declarações de Volodymyr Zelensky. Zelensky insiste, faz aqui um apelo muito forte ao Ocidente, diz que todos têm de se lembrar que a tática mais eficaz é impedir o mal de acontecer. Estou a citar Volodymyr Zelensky no discurso diário. Insistiu aqui numa daquelas que tem sido a prioridade de Kiev, pedir armas, armas de longo alcance. Pergunto, Ana Miguel dos Santos, a Ucrânia está a precisar urgentemente de mais meios, tendo em conta este apelo quase desesperado de Volodymyr Zelensky?
Bom dia, André, uma vez mais, bom dia aos ouvintes. Sem dúvida, essa não é uma novidade para nós, porque de há dois anos e meio para cá, o tempo que dura essa guerra na Ucrânia, nós temos visto sempre a Ucrânia, em particular Volodymyr Zelensky, apelar ao Ocidente e aos seus aliados o envio de armas, a disponibilização de meios. Essa já não é uma novidade. Eventualmente, o ponto mais relevante, e aqui é que está a novidade, na minha opinião, é que Volodymyr Zelensky hoje, depois da operação de Kursk em 6 de agosto, que já dura há quase um mês, está numa posição mais vantajosa ou mais credível, vamos lhe chamar assim, porque até esta operação, a percepção que existia, sobretudo nos países ocidentais, nos aliados, era de que se estava a enviar ajuda, ou melhor, que não teria efeito útil, ou seja, que a Ucrânia não seria capaz de se defender da Rússia. E portanto, isto causa uma descredibilidade relativamente à capacidade ofensiva e, no caso, defensiva da Ucrânia e da sua eficácia. A partir de agora, e esta foi a estratégia de Zelensky, está cada vez mais claro, e das suas tropas, naturalmente, a estratégia aqui é demonstrar que esta ideia que nós tínhamos relativamente à eficácia da Ucrânia na sua defesa da guerra russa, é uma realidade e, portanto, é possível, se nós dermos as armas certas, se deixarmos de estar aqui a discutir se pode ser usado o material, onde, em que partes do território é que pode ser utilizado, nós temos aqui uma Ucrânia capaz de se defender efetivamente. E portanto, eu julgo que é este o apelo que está a ser feito, isto integrado, naturalmente, na ideia de Zelensky de apresentar um plano para a paz, porque Zelensky não tem, eu digo Zelensky, portanto, a Ucrânia não tem uma vontade de ocupação territorial, não é essa a vontade. Agora, naturalmente, tem que usar das mesmas armas do seu agressor para conseguir tentar evitar o pior, que era a anexação de grande parte do seu território, ou de uma parte estratégica importante, à Rússia. E portanto, naturalmente, Zelensky vai continuar a apelar, e eu espero, sinceramente, essa é a minha vontade, o meu desejo, que de uma vez por todas, se assuma verdadeiramente que se está a ajudar a Ucrânia e não com uma ajuda com tantas limitações, porque dar um carro a alguém que depois não lhe dá a chave para poder ou não o deixa usar o motor, porque há limitações do ponto de vista político ou de receios, ou do que for, portanto isto até tem o efeito perverso, que é descredibilizar e de dar a ideia a Putin de que a Ucrânia realmente, pronto, andamos todos aqui, desculpem, estão a brincar.
Ana Miguel dos Santos, ainda sobre a guerra na Ucrânia, já vamos ao Médio Oriente, vamos falar aqui da demissão do comandante da Força Aérea da Ucrânia, uma demissão efetuada por Volodymyr Zelensky. Demitiu Mykola Oleschuk, falamos então do comandante da Força Aérea Ucraniana. Ainda não há uma confirmação oficial do motivo, ainda que a Sky News tenha avançado que esta demissão pode estar relacionada com a queda de um jato F-16, isto depois de uma deputada ucraniana ter declarado que a aeronave foi abatida pelos próprios sistemas de defesa antiaéreos ucranianos. Ana Miguel dos Santos, é mais uma mudança no corpo ucraniano, no corpo do exército, da Força Aérea Ucraniana, neste caso. O que pode significar também esta demissão naquele que é o esforço de guerra da Ucrânia?
Antes de mais, eu julgo que isto tem um impacto muito circunscrito, ou seja, para dentro. Uma coisa boa das Forças Armadas, sejam elas de que país forem Mas sobretudo as mais democráticas, vamos dizer assim, funcionam para o lado da existência ou da saída de uma das pessoas. É evidente que um líder de uma força, neste caso, a Força Aérea, tem o efeito muitas vezes de uma escolha de liderança, uma mudança tática. Portanto, temos aqui duas possibilidades: ou esta alteração do comandante pode indicar efetivamente uma mudança estratégica, ou uma resposta à insatisfação com o desempenho militar na guerra, que é o caso que a Sky News ou a BBC, não sei agora, André, que noticiavam-
Sim, Sky News, exatamente.
Sky News, ok. Podia indicar esta demissão com uma falha grave e, portanto, tem que haver consequências, porque nos militares há consequências para as ações e isso tem até um efeito pedagógico, digamos assim, nas Forças Armadas, a utilização da ação-reação e claro, responsabilização neste caso. Eu diria que faz sentido porque nós sabemos do abate do F-16, imagino que a esta altura já tenham percebido claramente qual foi a origem, a razão desse abate e portanto poderá admitir-se que houve uma falha interna das Forças Armadas ucranianas, e portanto, há aqui uma responsabilização que tem que servir como exemplo para baixo e até para as tropas ficarem desculpas que são mais espertas. No fundo há aqui a lógica de uma operação militar e portanto, julgo que será aqui a razão. Sendo certo que nós não podemos esquecer que em virtude das limitações que existem relativamente à utilização do equipamento, sobretudo equipamento aéreo e às dificuldades e carências que existem, porque este tem sido o grande enfoque dos pedidos de Zelenskyy, sobretudo no sistema de defesa aéreo, eu diria que até é ingrato para um comandante estar a dirigir tropas com as limitações todas que estão a ser colocadas, porque há uns países que admitem a utilização do seu material, os outros não. Isto é quase como um jogo de peças em que estão ali a tentar com um cuidado que é contrastante ou contraproducente ou até paradoxal com aquilo que se pretende numa guerra, que é a eficácia, a rapidez e o tempo, que é o fator mais importante e estratégico numa guerra.
Ana Miguel dos Santos, vamos até ao Médio Oriente. As forças israelitas mataram dois atacantes na Cisjordânia ocupada, é o que dizem militares à Reuters. Tem-se falado pouco ou pelo menos menos do que de Gaza. Tem-se falado pouco da Cisjordânia. Como é que está a situação por lá e também o que é que significam estas duas mortes?
Tem-se falado pouco da Cisjordânia porque os ataques têm sido circunscritos ou têm incidido sobretudo sobre a Faixa de Gaza. A Cisjordânia é um território palestiniano, mas separado de Gaza, que é controlado pela Autoridade Palestiniana, que, para as pessoas entenderem de uma forma muito clara, não é a mesma coisa que o Hamas. O que é que isto indicia? Indicia que esta operação é, do ponto de vista da sua configuração por parte de Israel, uma operação preventiva, no sentido em que ela foi qualificada como dirigida, eu peço desculpa porque às vezes vemos os termos em inglês.
Não tem problema.
Fico na dúvida, peço desculpa. Contra intenções terroristas. O que é que nós vemos aqui? Há um expandir da operação para outras zonas do território, há uma vontade clara do governo israelita em atacar, portanto, deixar de estar só focado no objetivo estratégico de eliminar o Hamas, há aqui uma expansão do seu conteúdo, digamos assim, para outros possíveis grupos que estão a ser armados. Aliás, é essa a perceção por parte até do exército israelita, de que o Irão está a abrir uma nova frente na Cisjordânia, portanto, a armar novos grupos. Voltar àquilo que eu tenho vindo a dizer, até se pode acabar com o Hamas, mas a situação de insegurança, a situação histórica, aquilo que está na raiz deste conflito, é de tal maneira orgânico que até se pode eliminar formalmente um grupo e os seus principais dirigentes, que ele transforma-se e criam-se novos grupos, porque é algo que faz parte do contexto destas pessoas. Há uma grande intensidade neste momento na Cisjordânia, em termos militares Alguns até tendem a qualificá-la como estando quase ao mesmo nível daquilo que está a acontecer em Gaza. Eu tenho algumas dúvidas neste momento, até porque Gaza já vem com algum fustigamento de bastante tempo.
Histórico, quase.
Histórico, sim. E desde 7 de outubro, isto do ponto de vista mesmo militar da operação. E portanto, há uma escalada de insegurança, há uma vontade clara de Israel, do governo israelita, em eliminar essa insegurança, portanto, está a aproveitar este episódio de 7 de outubro para eliminar qualquer ameaça terrorista. Isto porque considera-se que quem está também a alimentar estes grupos armados, e por isso é uma operação também preventiva, porque quem está a alimentar também é o Irão, porque estes grupos têm que ser armados e não se armam sozinhos, não vão ao mercado livre do armamento e, portanto, é esta neste momento a situação na Cisjordânia, sendo certo que ela já foi claramente condenada pela autoridade palestiniana, e portanto isto demonstra uma expansão clara deste conflito.
Vamos ao último tema.
André, e uma confirmação de que o cessar-fogo, mais uma vez, eu sempre senti isto, vai ser muito difícil de acontecer.
Sim, e as negociações têm provado isso, infelizmente.
Sim.
Vamos ao último tema, Ana Miguel dos Santos. Tivemos um bombardeamento israelita na zona de Khan Yunis, a oeste de Rafah, é o que informa a Al Jazeera. Qual é que é a importância também que Rafah tem ainda nesta guerra? Falámos muito de Rafah a certa altura, entretanto, nas últimas semanas tem estado um pouco mais discreto, mas qual é que continua a ser a importância desta zona?
Esta zona é um ponto de passagem, é a fronteira entre Gaza e o Egito. É uma zona também onde entra a ajuda humanitária e os suprimentos de bens essenciais, e portanto, é uma zona estratégica. E também é uma das zonas onde passa o corredor de Filadélfia, que é uma zona controlada por Israel e era um dos problemas que estavam, segundo as notícias, a inviabilizar o cessar-fogo, porque o controle desta situação, Israel considera que é por aqui que se faz a entrada e a passagem de muitos terroristas, de muito contrabando e de armas. E portanto, o controle desta zona também é um dos problemas das negociações do cessar-fogo em que não há acordo, sendo certo que nós também já partimos do pressuposto que vai ser muito difícil, e por isso é que um cessar-fogo vai ser muito difícil, porque tudo neste momento é estratégico para ambas as partes. É, sem dúvida, uma situação muito peculiar e muito difícil de equilibrar e de harmonizar.
Obrigado, Ana Miguel dos Santos, especialista em assuntos militares, esteve conosco nesta edição do Gabinete de Guerra, que regressa já na próxima segunda-feira. Ana Miguel dos Santos, muito obrigado e até à próxima.
Muito obrigada, bom dia.