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Está reunido o Gabinete de Guerra da tarde, em directo. Hoje com Diana Soller, investigadora especialista em Relações Internacionais. Vanessa Cruz, alguns pontos na ordem de trabalhos, a começar pela humilhação pública de um vice-primeiro-ministro por Vladimir Putin.

Foi numa videochamada pública: "Estás a fazer-te de parvo?" Foi a pergunta feita pelo presidente russo, feita para um homem que no governo tem responsabilidades na área da defesa. O vice-primeiro-ministro, só para contextualizarmos, estava a dizer que estariam já assinados os contratos que o Kremlin vai celebrar com uma transportadora aérea que pertence ao Estado russo. Putin não concordou. Temos aqui a Diana Soller, e bem-vinda ao Gabinete de Guerra. Um dos raros momentos de descontrolo público da parte do presidente da Rússia. São sinais de um nervosismo cada vez maior de Putin?

Não me parece de todo. O que me parece que está a passar e o que me parece que essa cena revela, até porque foi uma cena filmada na televisão russa, e isso é possível, e não seria a primeira vez que o Kremlin apaga imediatamente quando uma coisa dessas acontece, ou muda a emissão. O que me parece que aconteceu foi que Vladimir Putin quis publicamente mostrar duas coisas. A primeira é que nem sempre aqueles a quem ele dá as suas ordens executivas, nomeadamente no que respeita à guerra da Ucrânia, cumprem as suas ordens ou cumprem com a celeridade necessária. Isso é importante num momento em que a liderança russa começa a ser contestada por um conjunto de ações no terreno que não têm corrido como se esperaria, nomeadamente aquele último ataque ucraniano ao quartel general russo no Donbass, que segundo os ucranianos fez centenas de mortos e segundo a Rússia fez algumas dezenas. E, portanto, eu penso que este momento serviu, por um lado, para mostrar que a responsabilidade de certas falhas não é de Putin. Aliás, por exemplo, no caso que referi, as responsabilidades foram imputadas aos soldados que usaram telemóveis pessoais, que estavam proibidos pelo exército. E, por outro lado, para mostrar que Putin é o líder máximo da Rússia e quando as suas ordens não são cumpridas, ele age como um homem forte, ou seja, responsabilizando, até de uma forma confrangedora, aqueles que não cumprem aquilo que ele diz.

Para mostrar, portanto, quem manda, quem tem mão firme.

Quem tem mão firme. Acho que foi acima de tudo uma cena de marketing político, no fundo, para mostrar estas duas coisas, que quando as coisas não correm bem, a culpa não é de Putin, quando as coisas não correm bem, Putin sente-se no direito de moçar publicamente, seja quem for, que não cumpra supostamente as suas ordens no tempo que ele supostamente quer que essas ordens sejam cumpridas. Portanto, foi uma humilhação pública que tem por objetivo, do meu ponto de vista, reforçar a posição do presidente russo e não diminuí-la.

Hoje, o novo comandante-adjunto da Rússia fez uma visita pelas tropas na Bielorrússia para avaliar a prontidão dessas forças militares. Um envolvimento direto aqui do país liderado por Lukashenko pode estar cada vez mais próximo. Direto na guerra.

Eu não sei se o envolvimento direto na guerra pode estar mais próximo. Sei que a Rússia tem tido uma grande preocupação mediática em mostrar a Bielorrússia e o envolvimento bielorrusso no conflito. Isto para mim tem duas leituras. A primeira é a tentativa de mostrar que a Rússia não está sozinha e que continua a ter aliados, ainda que seja muito estranho para mim poder chamar aliada à Bielorrússia, porque na verdade é um governo fantoche controlado por Moscovo. Lukashenko não existiria se Putin não quisesse. E por outro lado, porque a Rússia tem feito questão de dar a entender, podendo ou não ser verdade, que a fronteira norte é um novo palco de reunião de tropas para uma eventual invasão na primavera. E a mim parece-me que há novos espaços na guerra, que não existiam há alguns meses. Isso pretende, de alguma forma, pôr os ucranianos a olhar para vários possíveis cenários de guerra e a espalhar as suas forças por esses possíveis cenários de guerra, para que onde quer que a Rússia ataque, ataque mais eficazmente com inferioridade numérica da parte da Ucrânia. Portanto, parece-me que há esta dupla leitura. Por um lado, a Rússia tem aliados, ainda que sejam aliados muito fracos, digamos assim, do ponto de vista internacional, no sentido em que não são aliados Que se tenham aliado à Rússia de livre e espontânea vontade, é porque não têm outra alternativa. Por outro lado, para criar em Moscovo a ilusão que a Rússia está em muitos sítios ao mesmo tempo e que a Ucrânia tem efetivamente que se espalhar militarmente por esses sítios para prevenir ataques da Rússia, pelo menos a partir da primavera, se não antes.

Uma dupla leitura. E temos ainda aqui um terceiro ponto na ordem de trabalhos, Diana Soler. A acusação russa, aqui do porta-voz Sergei Lavrov, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, diz que o conflito na Ucrânia se tornou uma mina de ouro para a indústria militar dos Estados Unidos. Quem está, de facto, a ganhar com esta guerra é mesmo o poderio norte-americano?

Se nós olharmos estritamente para a indústria militar norte-americana, ela tem trabalhado mais rapidamente. Mas não me parece que os próprios Estados Unidos, enquanto Estado, ganhem alguma coisa com isso, porque, na verdade, estão a comprar à indústria militar norte-americana para doar aos ucranianos. E, portanto, não faz sentido nenhum para nenhum Estado do mundo estar a gastar dinheiro inutilmente, se não achar que há, efetivamente, um objetivo muito maior do que propriamente enriquecer a sua indústria de defesa. O que eu penso que os Estados Unidos estão aqui a fazer é tentarem, de alguma forma, apoiar a Ucrânia para que esta não perca a guerra ou mesmo que não a ganhe, que saia dela nas melhores condições negociais possíveis, porque os Estados Unidos perceberam que as fronteiras de segurança da Europa mudaram, perceberam que a Rússia é um Estado revisionista, que pode querer ainda alterar outras coisas e, nomeadamente, criar uma grande instabilidade em várias fronteiras, em várias frentes europeias e fronteiras da NATO. E, portanto, é do interesse dos Estados Unidos que a Ucrânia saia o mais fortalecida e a Rússia o mais enfraquecida possível desta guerra, para que a Rússia não constitua uma ameaça permanente aos aliados permanentes dos Estados Unidos. Esta é a principal razão. Agora, se colateralmente a indústria militar norte-americana ganha com isso, também ganhará a alemã, também ganhará a francesa, também ganhará a russa.

Daí que é sempre importante analisarmos aqui a narrativa também dos dois lados, neste caso, da Rússia, desta acusação. Diana Soler, muito obrigada pela sua análise aqui no Gabinete de Guerra. Nós estamos de volta amanhã.

Obrigada.