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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões. Esta quinta-feira junta-se a mim e ao Júlio Magalhães, Luís Tomé, professor catedrático de Relações Internacionais, diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa e diretor do Observatório de Relações Exteriores. Bom dia, professor Luís Tomé, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Olá, bom dia.
Bom dia. A Rússia diz que a partir de amanhã, todos os navios que viajam para portos ucranianos no Mar Negro vão ser considerados transportadores de equipamento militar e partes do conflito ucraniano. Só não disse que ações pode tomar. Ao mesmo tempo, dos Estados Unidos chega a informação de que a Rússia terá colocado minas marítimas nas proximidades dos portos ucranianos. Um porta-voz da Casa Branca diz tratar-se de um esforço coordenado para justificar qualquer ataque contra navios civis no Mar Negro e culpar depois a Ucrânia por esses ataques. Professor Luís Tomé, está aberta aqui uma via para uma possível escalada da guerra?
A escalada já está a ocorrer, não apenas porque nós percebemos que há uma intensificação dos ataques ucranianos contra várias infraestruturas, inclusive militares russas na Crimeia, e a Rússia, pela terceira noite consecutiva, tem feito ataques muito significativos contra portos, zonas portuárias, silos, infraestruturas de equipamento de cereais e, de facto, já está a avançar essa escalada. Inclusivamente, o próprio presidente Zelenskyy diz que esta é a maior tentativa da Rússia infligir danos, designadamente a Odessa, desde o início da invasão. Portanto, essa escalada já existe, mas pode efetivamente agravar-se, porque a Rússia arranjou aqui um pretexto para considerar que todos os navios que vão para portos ucranianos são suscetíveis de transportar carga militar e, portanto, sem inspeções, dá como adquirido que transportam armas para fornecer os ucranianos. É evidente que para além das infraestruturas portuárias e dos navios que possam deslocar-se aos portos ucranianos, navios que tentem sair de portos ucranianos com cereais, como uma possibilidade de alguns poderem ir para a Bulgária e Roménia, também são considerados pela Rússia alvos. Sim, a escalada já está a ocorrer e pode intensificar-se. Isso é uma evidência.
Entretanto, professor, falou aqui dos ataques a Odessa. Cerca de 60 mil toneladas de cereais foram destruídos com estes ataques e, além disso, também ficaram danificados parte do equipamento que é utilizado para o carregamento destes alimentos. Até que ponto isto mancha a imagem da Rússia, mais ainda em países mais desfavorecidos, ou não? Os russos têm canais próprios de distribuição e isto para eles não é um problema.
Para a Rússia não é problema absolutamente nenhum. A única questão é que a Rússia vai ter que justificar para alguns dos seus parceiros, que estavam a receber muita quantidade de cereais ucranianos exportados por via do Mar Negro, como a China. A China foi de longe o maior destinatário das exportações ucranianas de cereais pelo Mar Negro no último ano, cerca de oito milhões de cereais. Aliás, os ucranianos dizem que estas 60 mil toneladas até teriam como destino a própria China. Por outro lado, também a Turquia é o terceiro maior destinatário desses cereais ucranianos. Mas para a Rússia, há aqui uma lógica clara de negócio. Não é apenas de contexto de pressão, de chantagem sobre a Ucrânia, sobre o Ocidente, sobre as próprias Nações Unidas, mas há aqui um propósito comercial, porque evidentemente o que a Rússia está a tentar fazer, um dos objetivos, é demonstrar que há quantidade de cereais suficientes no mercado e, portanto, a ausência de cereais ucranianos já não terá o impacto na segurança alimentar global que teve no início de 2022. E, por outro lado, a Rússia quer apresentar-se como uma alternativa aos importadores dos cereais ucranianos, oferecendo os seus próprios cereais. Uma parte deles, aliás, de produção em território ucraniano por produtores ucranianos que o escoam, como já tem acontecido, através da Rússia. É bom ter presente que, ao contrário da Ucrânia, que viu ao longo deste ano diminuir o ritmo das suas exportações de cereais pelo Mar Negro, e portanto, digamos que genericamente uma média mensal de três milhões de toneladas que eram escoadas, isso reduziu até em junho e julho a uma quantidade menor de 1,4 milhões de toneladas. No caso da Rússia, segundo o que o próprio presidente Putin anunciou, há uma subida significativa, porque na temporada 2021-22, a Rússia exportou mais de 38 milhões de toneladas de grãos e na temporada 2022-23, a Rússia vai bater um recorde, devendo exportar cerca de 55 a 60 milhões de toneladas de grãos. E por isso mesmo, logo na segunda-feira, quando a Rússia anunciou a retirada do acordo, a associação de agricultores russos veio saudar esta decisão. Portanto, para a Rússia, há aqui apenas uma questão que tem que gerir, mas eu continuo a pensar que não é uma retirada a longo prazo, mas vai ter que gerir a narrativa para explicar aos países parceiros, aos países mais pobres, designadamente de África, e vem aqui muito de primeira a Rússia a África Que o fato de não estar havendo escoamento dos cereais ucranianos não vai ter impacto neles. Hoje mesmo o The Economist também diz que o impacto nos preços, por exemplo, do trigo, é muito pequeno, porque a Rússia já foi limitando por várias vias o escoamento desses cereais ucranianos.
Entretanto, há um novo vídeo, mudando de tema, de Prigozhin, é o primeiro desde a rebelião. Aparece a falar com os seus combatentes na Bielorrússia, pelo menos alegadamente, apelidou de "desgraça" o esforço de guerra russo e disse que o Grupo Wagner não vai lutar mais na Ucrânia e que vai seguir para a África. Que futuro de fato está guardado para Prigozhin e para este Grupo Wagner?
Para Prigozhin é muito difícil perceber, mas aparentemente há aqui uma conversão do Grupo Wagner em várias direções. Uma parte parece estar no sentido de uma certa nacionalização. Por outro lado, há um grupo que já se terá deslocado para a Bielorrússia. O próprio governo Lukashenko até anunciou exercícios militares conjuntos das Forças Armadas bielorrussas com o Grupo Wagner e também haverá aqui uma lógica estratégica de pressionar, por um lado, a possibilidade de uma nova frente no norte a partir da Bielorrússia sobre a Ucrânia, mas também pressionar naturalmente a Polônia, porque a base onde eles aparentemente estão a concentrar em Brest é relativamente próxima da Polônia. Mas aquilo que as palavras alegadamente proferidas por Prigozhin indiciam, ele falou numa nova jornada em África, o foco do Grupo Wagner, e tudo leva a crer, até por declarações anteriores do próprio Peskov, que haverá uma concentração do Grupo Wagner essencialmente nos negócios que tem no Meio Oriente e em África, da Síria, depois da gente passar pela Líbia e República Centro-Africana, Mali até Moçambique, mas com uma menor componente militar, porque em regra em cada país estão algumas dezenas, no máximo poucas centenas de elementos Wagner que prestam serviços de segurança e de segurança pessoal a infraestruturas, mas sobretudo que exploram e dão garantias de segurança a quem explora, designadamente minas de minerais, diamantes, de ouro. Há aqui uma reconversão mais acentuadamente de negócio do Grupo Wagner, e é provável que esse seja parte do acordo com Prigozhin, mas é uma especulação porque não temos informações concretas, e aquilo que é parte mais combatente ficará concentrado na Bielorrússia, depois diluído ao serviço das Forças Armadas Russas. Mas isto é um pouco especulativo, porque nós vamos tendo indicações até às vezes contraditórias, e sem haver declarações por mais, sem sabermos exatamente o que se passa, nós andamos aqui num jogo sabendo que o lado russo nos vai tentando dar indicações, areia para os olhos, que podem não corresponder à realidade.
Entretanto, em entrevista à CNN, Richard Moore diz que perante a rebelião deste Grupo Wagner, Putin não deu luta e que fez um acordo para salvar a pele usando os bons gabinetes do líder da Bielorrússia. Para Moore, este é um claro sinal que o regime russo está fragilizado e é vulnerável a ameaças. Pode mesmo falar-se em sinal de fraqueza ou pode-se antes falar num poderio de negócios do Grupo Wagner espalhado por vários pontos do mundo que são muito importantes para a Rússia?
Não, parece evidente que o motim Wagner e o fato de Putin ser obrigado a fazer um acordo e não tentar por via da força, não só de mover o Grupo Wagner, que ocupava uma cidade importantíssima, gigantesca, mas optou pelo acordo e dá margem de manobra para o próprio Prigozhin, o tal traidor, sem referir o nome, mas foi a referência que Putin fez mais do que uma vez, poder gozar de margem de manobra e dar a opção aos membros do Grupo Wagner, quer de irem para a Bielorrússia, quer continuarem na Ucrânia e servirem o exército russo, quer irem para casa. Tudo isto significa, por um lado, que a tal imagem de Vladimir Putin todo-poderoso e inamovível, incontestado, caiu por terra, mas também dá amostras de um autocrata disfuncional e muito adaptativo e que soube reagir da forma que pôde para minimizar os danos e de certeza que nessa minimização de danos estavam os cálculos sobre o império do Grupo Wagner, que ele próprio ajudou a cultivar e pôs ao serviço da política externa e de segurança da Federação Russa. Mas o fazer repentinamente iria pôr em causa também os interesses da Rússia em muitos países, designadamente no continente africano, porque a influência russa em África fez-se muito por via do Grupo Wagner, em várias direções, no mínimo dos negócios, no mínimo da segurança, depois na quantidade de acordos de segurança e defesa que a própria Rússia, e econômicos, foi fazendo com estes países e Putin não quis pôr nada disso em causa. Tem-se esforçado por garantir aos líderes africanos que não há nenhum prejuízo, nem consequências negativas também para eles desta situação. E não tenho qualquer dúvida que este aspecto, a somar às garantias a propósito dos cereais, serão objeto fundamental das conversas das negociações que vão ocorrer na segunda cimeira Rússia-África, que vão ocorrer 27 e 28 de julho em São Petersburgo. A agenda já foi mudada várias vezes E obviamente destes dois aspectos, o destino do império Wagner e das suas subsidiárias em África, por um lado, e os cereais, com Putin provavelmente a dizer que vai abastecer alguns gratuitamente, pelo menos aqueles que recebiam cereais ucranianos passam a receber gratuitamente diretamente pela Rússia. Estes dois aspectos vão ser objeto dessas negociações da cimeira Rússia-África.
Professor Luís, falou disso agora. Acabou o dilema para a África do Sul, que não queria cumprir o mandado de captura internacional de Putin para não entrar em guerra. Parece que por mútuo acordo, o presidente russo não vai à cimeira, vai participar por videochamada. Putin temeu mesmo ir e ser detido, sabendo-se que na África do Sul há uma efetiva separação entre o poder político e judicial?
Não, eu acho que nunca esteve em causa a possibilidade de a África do Sul prender Vladimir Putin. E não esteve em causa, porque as próprias autoridades disseram que não o iriam fazer. O próprio presidente Ramaphosa disse que se alguma vez a África do Sul prendesse Putin, se tivesse Putin ao abrigo do mandado do Tribunal Penal Internacional, isso seria uma declaração de guerra à Rússia. E depois há aqui precedentes, temos que ter em conta o caso concreto da África do Sul. Para já, é bom lembrar que do grupo BRICS, só a África do Sul e o Brasil integram o grupo dos 123 países que são signatários do Estatuto de Roma. E portanto, não é apenas a Rússia, também a Índia e a China não são parte do Estatuto de Roma. Mas sobretudo a África do Sul, por um lado, em 2017 já tentou sair e foi o Tribunal Constitucional que disse que não poderia ser por decreto de governo, teria que ser feita uma alteração legislativa no Parlamento e isso acabou por ainda não acontecer. Mas recordo que em 2015, os sul-africanos permitiram a entrada, na África do Sul, de Omar al-Bashir, o ditador do Sudão, que era acusado de crimes de guerra contra a sua própria população. E portanto, não era muito crível que Putin, caso fosse pessoalmente à África do Sul, fosse detido. Mas obviamente, Putin não queria, pelo menos alimentar a discussão, a conversa, a cobertura mediática de se poder falar, e falar-se-ia certamente muito, não só de estar sob mandado, mas da possibilidade de ser detido, criando, aliás, depois o incómodo, naturalmente, para as autoridades sul-africanas. Portanto, acompanha a cimeira por videoconferência, também não quer sair da Rússia nesta fase, e não me parece nada estranho.
Entretanto, professor Luís, Kiev previu uma contraofensiva longa e difícil e por isso Zelensky pediu ao Ocidente novos tanques e F-16. Com isto que a Ucrânia pede, poderíamos dizer com toda a certeza que esta guerra seria mais curta, que a Rússia seria derrotada e que o mundo não correria mais perigos?
Não. É evidente que na narrativa de Zelensky, sempre fez, ele é muito hábil nisso, ele tem que dizer que se o sucesso não é maior e mais imediato, é porque não dispõe dos meios. É evidente que a Ucrânia está a travar uma guerra muito difícil porque está presa com uma mão atrás das costas, porque efetivamente não recebe tudo o que precisa para se defender da agressão russa e para lançar a contraofensiva. Basta imaginar as enormes dificuldades que é lançar uma contraofensiva sem força aérea, sem capacidade aérea e das limitações que também tem para se defender dos ataques de mísseis e de drones russos. Agora, passar daí a dizer que se tivesse, por exemplo, aquilo que diz o conselheiro de Zelensky agora, que a Ucrânia precisa de 200 a 300 veículos blindados de combate, tanques e mais 70 a 80 F-16 e outros sistemas de defesa antiaérea, isso mesmo que fosse cedido, estava longe de garantir a vitória contra a Rússia, porque nós efetivamente também temos que ter cuidado em não subvalorizar quer as capacidades que a Rússia tem, e ainda tem muitas capacidades e muitas delas ainda não exercitou na guerra ofensiva contra a Ucrânia, nem a vontade. Esse é um outro dilema, sabendo que estamos a lidar com uma superpotência nuclear. E é por isso, aliás, que há muitos cuidados e que o Ocidente e os Estados Unidos, apesar de sustentarem o esforço militar, humanitário e económico da Ucrânia, têm sempre o cuidado de evitar dar mais pretextos para que a Rússia aumente as capacidades, aumente os ataques e até faça mobilização interna, faça mesmo uma declaração de guerra, que poderia levar a um confronto militar direto, neste caso já com a NATO. Portanto, nós estamos longe de, independente dos meios que sejam fornecidos à Ucrânia, podermos dizer com absoluta certeza, embora Zelensky o faça bem, de que isso garantiria a vitória ucraniana.
Entretanto, um incêndio deflagrou num campo de treinos na base militar na península da Crimeia. Já se sabe mais ou menos as consequências. Perguntava-lhe isto: a Crimeia pode tornar-se, ou isto não é de todo crível, um dia um ponto de combate semelhante ao que vimos em Bakhmut ou em Mariupol? É um ponto estratégico decisivo nesta guerra ou serve apenas para os dois lados irem esgrimindo forças como sinal de aviso?
Por um lado, a Ucrânia, também com estes ataques e em toda a narrativa, continua a dizer que a Crimeia é território ucraniano. É, aliás, assim reconhecido pelo Tribunal Internacional desde 1991. Apesar da anexação que a Rússia fez em 2014, a Crimeia é território ucraniano e, portanto, a Ucrânia não desiste da Crimeia. É evidente que se nós sabemos sendo uma guerra existencial para a Ucrânia, a sua existência enquanto Estado independente e soberano, também o é, de certo modo, para o regime de Putin e para a própria Rússia, e neste caso, mais ainda a Crimeia Por isso é que muitos analistas, muitos putativos mediadores, colocam sempre na mesa, como contrapartida, a Ucrânia acabar por ceder a Crimeia para ver se desse modo a Rússia se satisfaria num hipotético cessar-fogo ou paz. Não parece que alguma vez a Rússia possa desistir da Crimeia, mas também não parece que alguma vez a Ucrânia possa reconhecer a Crimeia como russa. E, portanto, eu acho que nós vamos continuar a assistir, se porventura chegarmos a um dia em que a Ucrânia tenha reconquistado os outros territórios, designadamente do Donbass e nas outras províncias de Zaporizhia e Kherson, e puder estar a fazer junto da Crimeia ou lançar ataques sobre a Crimeia como está a fazer estas contraofensivas a leste e a sul, isso é sinónimo de que, efectivamente, a campanha de contraofensiva e defensiva da Ucrânia é bem-sucedida. Mas tenho para mim que a Rússia irá fazer tudo no limite de as coisas lhe correrem francamente mal para salvaguardar a Crimeia. E depois sabemos que do ponto de vista naval e do ponto de vista aéreo, a Rússia dispõe de uma enorme vantagem e, portanto, isso facilitará a defesa da Crimeia face a uma ofensiva ucraniana. Mas a Ucrânia é muito hábil em fazer ataques de várias formas, actos de sabotagem, ataques directos com drones, provavelmente com alguns mísseis e, portanto, munidos de outros meios, colocará maiores dificuldades ainda à Rússia, também na Crimeia.
Professor Luís Tomé, muito obrigada por fazer parte de mais um Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Um bom dia, professor.
Eu é que agradeço.
Muito obrigada.