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Este é o som do Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões, a análise é do Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais. Olá, Miguel, bom dia, bem-vindo.
Olá, Maria João, bom dia.
Olá, Miguel. A União Europeia está a ponderar aplicar aos Estados Unidos uma autêntica bazuca comercial no valor de 93 mil milhões de euros e pode ainda restringir o acesso das empresas americanas ao mercado europeu. Esta é a resposta de Bruxelas às ameaças de Donald Trump. Miguel, estamos perante uma escalada que pode transformar-se numa guerra comercial entre Bruxelas e Washington? E esta possível resposta é sobretudo económica ou é também política e estratégica?
Essa é uma pergunta extremamente interessante e este instrumento a que nós chamamos bazuca chama-se o instrumento de anti-coerção. Ele é criado em 2023, é criado na altura por um incidente, digamos assim, económico também com a China e com a Lituânia. Na altura não foi aplicado, mas foi criado e na altura foi muito discutido que isto efetivamente seria, por ser tão forte, por ser mesmo uma bazuca, e por ter também uma aplicação fortíssima, porque exatamente como disseste, não é só a aplicação de tarifas, mas é, por exemplo, a proibição de empresas, neste caso seria de empresas norte-americanas, por exemplo, de concorrer para contratos públicos. Seria, por exemplo, também fazer doer onde mais custa nos Estados Unidos, que são as empresas de serviço. Então, por exemplo, a Meta, a Amazon, a Google, também receberiam sanções aplicativas que nós sabemos que depois teriam uma implicação mesmo ao nível, por exemplo, das bolsas americanas. Sabemos que seria uma implicação enorme, porque é efetivamente uma grande fatia da economia americana aquilo que são as empresas de serviços. E, portanto, isto é uma resposta política e forte. Isto é pela primeira vez a União Europeia com a capacidade de dizer aos Estados Unidos de que chega, de que é atingido um limite em que a União Europeia, neste momento, tem mesmo que se defender. Parece-me a mim que esta resposta é uma resposta que acima de tudo tem dois passos, e muito rapidamente. Tem um passo para fora, para os Estados Unidos, para dizer que a União Europeia quer efetivamente demonstrar esta força, esta capacidade política de responder aos Estados Unidos. E eu creio que o presidente norte-americano e a administração não entenderam bem que o poder que a União Europeia tem através desta bazuca, que implicaria realmente sanções enormes, não só aos Estados Unidos em geral, mas particularmente a algumas empresas. E depois é também uma mensagem interna para aqueles países dentro dos 27 que têm algumas restrições, quer seja com a questão da Rússia, quer seja mesmo com a questão dos Estados Unidos. Portanto, parece-me inteligente esta resposta e parece-me que também é uma forma de a Europa começar a ser levada a sério no palco internacional.
Já aqui falámos, Miguel, de como o desejo de Donald Trump de anexar a Gronelândia pode fragmentar a aliança da NATO. A nível interno, será que os republicanos no Congresso estão dispostos a arriscar a fúria de Trump para salvar o pacto transatlântico?
Eu acho que acima de tudo, eles estão preocupados com as midterms, e este é um passo muito interessante. Eu acho que a NATO em si, enquanto projeto militar, está neste momento ferido. Não diria ferido de morte, mas está neste momento ferido. E é exatamente como muitas vezes acontece com as instituições internacionais, não desaparecem, mas vão caindo em desuso. E parece-me a mim que esta administração dos Estados Unidos não tem qualquer preocupação com a NATO, nem está realmente preocupada em sobreviver enquanto parceira deste projeto de defesa militar. Agora, começa a existir dentro dos republicanos, dentro do Congresso, dentro daquilo que são os candidatos nas midterms, a ideia de que, apesar de habitualmente o eleitor americano não se preocupar muito com estas questões internacionais e estar a olhar muito mais para a economia interna. Mas o problema é que inúmeras destas políticas de Donald Trump podem ter implicações internas. Logo, essas implicações internas podem chegar ao bolso do americano, logo, o típico votante do Partido Republicano, nomeadamente a ala MAGA, pode refletir e pode sentir-se um pouco preocupada. E depois o eleitor americano que olhava para os republicanos como alguém que vinha efetivamente trazer uma administração completamente diferente de Biden, olhar e pensar: "Bom, afinal isto não está a correr muito bem, deixa lá ver onde é que eu vou pôr o meu voto". E eu acho que as midterms americanas podem ser mesmo aqui um ponto de viragem. Exato, um turning point, quer internamente, quer externamente. Agora, por outro lado, se formos olhar para as sondagens neste momento, não temos indicações de que os democratas tenham capacidade, efetivamente tenham discurso, tenham projeto e tenham lideranças capazes de bater os republicanos e voltarem a ter, digamos assim, uma maioria no Congresso. O que facilitaria não só a vida dos americanos, mas toda a vida de nós, habitantes deste planeta. Facilitaria bastante.
E nem de propósito, Miguel, está a decorrer em Davos, na Suíça, mais um Fórum Econômico Mundial. A reunião deste ano acontece no momento de uma extraordinária turbulência geopolítica. Donald Trump lidera a maior delegação dos Estados Unidos de sempre. Será esta a última oportunidade para salvar a velha ordem mundial?
Eu acho que a velha ordem mundial está morta e está enterrada. Eu acho que nós ultrapassamos isso, é uma página virada e hoje temos um mundo completamente diferente E esta ideia de que temos várias instituições internacionais que funcionam e que acabam por ser uns checks and balances entre si está enterrada. Agora, o que me parece é que Donald Trump vem a Davos dizer que é o grande senhor internacional, não só o senhor da guerra, que tem capacidade de ir à Venezuela e raptar o líder desse país, como tem também capacidade, se quiser, de fazer guerra contra o Irão ou aplicar tarifas à China ou aplicar tarifas à Europa ou fazer basicamente o que lhe apetecer. Portanto, vem com esta ideia de que "eu sou o país militarmente mais forte, eu sou a economia mais forte, eu sou a maior economia mundial. Portanto, ou vocês seguem aquilo que é a minha linha de entendimento, que vocês deveriam ter, nomeadamente a questão comercial com os Estados Unidos, ou então, como eu não respeito mais a antiga ordem mundial, como eu não respeito as instituições internacionais que ajudei a fundar, eu faço exatamente aquilo que quero. E, portanto, se vocês não cooperarem, eu estou disposto a ir mais além". Parece-me a mim que ele vai chegar a Davos basicamente dizer que em termos comerciais e económicos esta é a nova cartilha internacional. E que, portanto, esta é a nova música que ele vai pôr a tocar para toda a gente dançar. Parece-me que é um palco em que ele vai dizer que esta é a nova América e esta é a América que toda a gente deve entender que neste momento está à vista de todos. Agora, não sei como é que ele vai conseguir manter esta postura. Voltamos outra vez àquilo que estávamos a falar há pouco, é que ele prometeu aos eleitores republicanos que ia ser um presidente completamente diferente, ia ser o presidente da paz, do desenvolvimento económico, da cooperação internacional e hoje o que nós assistimos no palco mundial é totalmente diferente.
Vamos esperar então pelo discurso de Donald Trump agendado para amanhã, quarta-feira. Sobre a Ucrânia, Zelensky diz que a Rússia está a preparar um ataque maciço e que só está à espera do momento certo para o executar. Pediu a todos os ucranianos para estarem em alerta, muito cautelosos e apelou a cada região para estar pronta para responder rapidamente a este futuro ataque russo. Miguel, a Ucrânia tem hoje capacidade militar e defensiva para responder rapidamente a um ataque desta dimensão?
Não, neste momento não tem. E esse tem sido um grande problema, que é enquanto nós andamos entretidos com essas questões, quer da Venezuela, quer do Irão, quer da Gronelândia, o mundo acabou por se esquecer um pouco da Ucrânia. Nós continuamos a não saber efetivamente quais são as garantias de segurança. Nós andámos meses a falar sobre um possível acordo de paz, não seria um cessar-fogo, que essa seria a lógica de toda esta ginástica para chegarmos a um processo de paz, que seria um cessar-fogo primeiro, uma discussão e depois a assinatura de um tratado de paz. E enquanto nós andamos ocupados, a Rússia tem vindo aos poucos a ganhar terreno, a ganhar algumas posições importantes. E efetivamente, neste momento, a Ucrânia está completamente dependente daquilo que é não só a inteligência americana para conseguir efetivamente combater os russos, mas também em termos militares, de armamento convencional, está completamente dependente daquilo que é o mercado norte-americano, financiado, obviamente, pela Europa. Mas neste momento existe no terreno uma falta enorme de capacidade militar defensiva da Ucrânia, até porque nós sabemos que em alguns momentos os Estados Unidos têm atrasado a entrega de muito material militar e portanto a Rússia tem vindo a progredir aos poucos no terreno de uma forma em que não se via já há bastante tempo. Dito isto, nós sabemos efetivamente que a Rússia está a preparar uma ofensiva enorme, que não se esperaria que fosse neste momento, uma vez que estamos a viver naquela parte do globo temperaturas baixíssimas e que este ano, curiosamente, o inverno tem sido extremamente rigoroso.
Sim.
Mas efetivamente sabemos que existem movimentações militares e que a Rússia pode estar mesmo a preparar uma grande ofensiva, como aconteceu em 24, e que essa ofensiva poderia, principalmente na região de Donbass, poderia quebrar uma das grandes defesas da Ucrânia, quebrando aquela ideia de que é importante manter aquela zona estratégica do Donbass, porque essa dá acesso depois a um corredor que levaria até Kiev com bastante facilidade. E isso sim, Zelensky tem noção do que neste momento vive. Primeiro, não vive sendo a grande prioridade dos Estados Unidos. E esse é um problema importante, não só para Zelensky, mas também para a Europa. É que quando nós vimos esta questão da Gronelândia e a questão das tarifas, em que a Europa tem que se reunir e tem que se proteger e tem que pensar como é que vai resolver esta situação e até demonstrar força e uma resposta política a Donald Trump, deixa de ter força negocial do outro lado, também para a Ucrânia. É que a Europa vive aqui no fio da navalha, Maria João, porque veja, se por um lado, mostrar força e capacidade política contra os Estados Unidos na questão da Gronelândia e na aplicação deste instrumento anti-coercivo, que é esta grande bazuca de resposta, pode perder depois um leverage na discussão relativamente às garantias de segurança e à proteção da Ucrânia. E é viver no fio da navalha constantemente. E Zelensky sabe disso e está preocupadíssimo também com essa situação. Portanto, vamos ter que aguardar efetivamente para saber como é que corre estes próximos dias e saber para que lado é que os Estados Unidos se vão virar. Nós sabemos é que existe uma determinação de Donald Trump de levar avante não só, eu não diria anexação, mas uma capacidade de poder sobre a Gronelândia extrativa, porque é o que ele quer, e em relação à Ucrânia, cada vez mais nós vemos os Estados Unidos neste ziguezague em saída desta guerra. E aqui eu termino dizendo isto: a grande preocupação da Europa é que a Europa e a Ucrânia sejam culpadas por parte dos Estados Unidos por sair da guerra. Ou seja, a Europa não quer, nem Zelensky quer, que os Estados Unidos culpem a Ucrânia e a Europa por sair da guerra, dizendo que de alguma forma, em retaliação a isso, bloquearia quer a informação e a inteligência que a Ucrânia precisa, quer dificultaria o acesso aos mercados norte-americanos de armamento para fornecer à Ucrânia. Por isso é que a Europa vive, como eu disse há pouco, neste fio da navalha. E se por um lado está preocupada em proteger a Gronelândia e também a sua própria economia, por outro lado, olha para a Ucrânia como uma grande fragilidade de defesa.
Miguel Baumgartner, muito obrigada pela análise. Boa semana.
Nada, obrigado eu, igualmente.
Obrigada, Miguel.