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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e conosco temos hoje Jorge Rodrigues, oficial das Forças Armadas. Esteve também em várias missões internacionais e é agora coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Bem-vindo, Jorge Rodrigues, a este Gabinete de Guerra. Começávamos pela Cimeira da NATO, que tem estado a decorrer em Washington. Ontem, Volodymyr Zelensky discursou num encontro à margem desta cimeira. Deixou críticas à NATO, mas principalmente aos Estados Unidos, pedindo que assumam a liderança também no apoio à Ucrânia. Qual vai ser a importância desta cimeira que também assinala os 75 anos da instituição?

Viva, Luís. Está a decorrer, podemos sempre fazer aqui uma antecipação, mas à partida não contamos com grandes surpresas. É o 75º aniversário, o mundo está em reorganização, as pláticas tectônicas acabam por ocupar agora novos espaços e, portanto, é natural que esta cimeira, por natureza, venha a ser bastante significativa. Houve o alargamento, novas parcerias, nomeadamente do Indo-Pacífico, preocupação com novas dimensões, o cyber, a área espacial, mas também um reforço, e é isso que se pretende. Os grandes objetivos desta cimeira, para mim, passam por três pontos: uma demonstração de unidade dos seus países membros, um apoio inequívoco à Ucrânia e uma mensagem estratégica que se pretende passar para a Rússia diretamente, mas também para a China numa segunda linha. Naturalmente, depois também temos outros objetivos secundários, mas também relevantes, como a própria preocupação do status quo neste momento em relação a Biden e às eleições da União Europeia, do Reino Unido, da França, e verdadeiramente a preocupação se vai ser aberto um caminho para a adesão da Ucrânia de forma definitiva, com linguagem perfeitamente efetiva e que deixe bem claro que isso vai acontecer. Naturalmente que aqui as grandes mensagens que parecem que vão surgir no final serão que não se desiste da Ucrânia livre e independente, que continuará a haver uma grande preocupação no sistema de segurança euro-atlântico e que naquela dicotomia "West and the Rest" de Niall Ferguson irá sempre determinar que o sistema internacional liberal será uma grande preocupação e que os países membros da NATO estão particularmente preocupados e orientados nessa defesa.

Outra questão que poderá pairar ou ser um fantasma nesta cimeira poderão ser os receios de uma eventual eleição de Donald Trump nos Estados Unidos em novembro. O secretário-geral da NATO, ainda há pouco ouvimos, desvalorizava precisamente esse desfecho. Até que ponto é que isto também poderá ser uma questão latente nesta cimeira, nesta reunião de líderes?

Luís, isso é o elefante na sala, em especial após o recente debate entre os dois candidatos presidenciais norte-americanos. Desde o "brain dead" de Macron, que realmente o primeiro mandato de Trump foi uma verdadeira ameaça à NATO. Não que ele seja contra a NATO, mas a verdade é que não se identifica com o modelo em que a NATO se desenvolve, seja no processo de decisão, seja também do financiamento, e que realmente acaba por assumir uma visão de maior instabilidade e em que a preocupação é mais essa nos Estados Unidos. Os checks and balances verdadeiramente não estão a funcionar por vários motivos. Nesse sentido, há aqui vetores que serão idênticos, seja com Biden, seja com Trump, que já vêm do anterior e que preocupam a União Europeia, a Europa em geral, que aliás estão vertidos já no National Security Strategy desde o tempo de Obama, em que há uma viragem para o Indo-Pacífico, ou seja, a Europa tem que perceber de uma vez por todas que já não é prioritária para a política externa dos Estados Unidos. Só que a abordagem sendo comum, em que a China e a Rússia são os adversários, Biden continua internacionalista e Trump acaba por manter o America First, que será sempre algo para consumo interno, é certo, mas também com repercussões, dada essa instabilidade, para os países aliados. Acaba por se transformar, eu diria, numa superpotência disfuncional, ou seja, não sabemos bem com o que poderemos contar com esse apoio. Isso irá transformar, sem dúvida alguma, a segurança europeia e os líderes europeus têm que estar preocupados. Muito tempo andaram mais orientados para o bem-estar, para a prosperidade, e começam agora a perceber que realmente a segurança é uma das componentes, é um dos tais objetivos trilógicos do Estado em que têm que ter atenção. Terão que desenvolver aqui uma grande prioridade nesta área para rapidamente recuperarem, porque a segurança euro-asiática está em jogo. A preocupação agora, o centro de gravidade, está realmente noutro local e terá que ser a Europa a liderar dentro da sua autonomia estratégica, que já é procurada com a bússola estratégica, etc, mas de alguma forma ser efetiva e ter posições de unidade para conseguir ser um verdadeiro ator geopolítico.

E precisamente por essa questão da segurança e do foco local da segurança. Sabemos que nesta cimeira haverá muito apoio à Ucrânia, será aprovado certamente mais um pacote substancial de apoio para a Ucrânia, também anunciou Jens Stoltenberg, a questão também da adesão da Ucrânia à NATO. De que forma a Rússia poderá vir a responder a esta cimeira? E já agora perguntava-lhe se os recentes ataques em maior escala na Ucrânia, nomeadamente em Kiev nos últimos dias, também serão, de certa forma, uma resposta, uma demonstração de força da Rússia perante esta cimeira que está a acontecer em Washington.

Eu respondo já sim às duas questões e vamos começar pelo apoio à Ucrânia. É uma prioridade, isso ficou bem definido logo nos primeiros discursos, seja de Biden, seja de Stoltenberg. Eles deixaram bem claro que o apoio à Ucrânia era uma prioridade e que, portanto, iriam de alguma forma tentar assegurar uma continuidade de apoio militar que até agora vinha a ser um desequilíbrio operacional no terreno. Demonstra que isso é essencial e que os sistemas estratégicos de defesa aérea, que têm sido realmente um dos maiores problemas, vão começar a ser fornecidos com alguma regularidade. Até se fala inclusivamente num comando na Alemanha para coordenar todo o apoio com 40 mil milhões de euro/ano para assegurar essa continuidade, seja de sistemas de defesa aérea estratégicos, táticos, de munições, em que realmente sistemas como os Patriot, como NASAMS, os locks, o IRIS-T, etc, continuem a ser fornecidos, mas volto e reforço também munições e subsalentes, que é essencial que isso aconteça. Mas também a aviação, os F-16, etc. Isso tem que ser conseguido. E a segunda parte da questão falava exatamente no ponto em que a Rússia naturalmente procura, dentro do seu eurasianismo, desenvolver algum tipo de parcerias que já começou aqui há uns meses atrás. Aliás, já começou desde o início do conflito, mas já há uns meses atrás que tem tentado reavivar, seja com uma aproximação a Xi Jinping, seja também com a Coreia do Norte, o Vietnã, o Irã, a Índia, que agora Modi acabou de fazer uma visita a Moscovo, e de alguma forma criar um adversário estratégico ao Ocidente, o tal The Rest que eu há pouco falava, de Niall Ferguson. Mas além disso, tentou no terreno, como é normal sempre que acontece algo de importante do lado ocidental, tenta contrapor com ações efetivas no terreno, demonstrar capacidade. Eventualmente, não era bem o objetivo atingir um hospital pediátrico.

Teve sido um dano colateral.

Um colateral, mas era definitivamente objetivo atacar Kiev, deixar bem claro que ainda atinge as povoações, as grandes cidades e que há perigo para a população civil, de facto, e que irá exercer esse vetor como exerce depois outros a nível tático na frente de batalha.

Jorge Rodrigues, vamos olhar ainda para a situação no Médio Oriente, até porque uma delegação israelita partiu para o Catar para quatro dias de negociações. O Arets diz que na delegação estão o diretor da CIA, o primeiro-ministro do Catar, também o líder dos serviços secretos egípcios. Estará mais próximo um acordo de cessar-fogo no Médio Oriente?

Infelizmente, na minha perspectiva, não estará. Já estivemos mais perto, houve momentos em que eu acreditei mais. No entanto, todos os esforços são louváveis e até posso estar enganado, e espero verdadeiramente amanhã estar exatamente a dizer que estava enganado. Mas a verdade é que, por um lado, Netanyahu autorizou negociações detalhadas, mas, por outro lado, deixou princípios invioláveis, que é a continuação da pressão no terreno, que segundo ele foi exatamente o que levou o Hamas a sentar-se à mesa de negociações, e os grandes objetivos serem atingidos. Isso estamos um pouco longe de os alcançar. E os grandes objetivos, eu relembro, será um controle efetivo de Gaza, do Hamas, uma criação de uma buffer zone para, de alguma forma, manter a segurança. Relembro que a população teve que retirar, tanto no Sul como no Norte, teve que retirar a população israelita, ainda não voltou às suas casas. E assegurar uma vitória efetiva que por dois motivos, uma primeira para venda interna, passo a expressão, para realmente deixar bem claro o poderio do seu governo. Relembro que Netanyahu era conhecido pela segurança que transmitia, e que transmitia também prioridade, mas também para servir, entre aspas, de lição para outros adversários que possam surgir e que ponham em causa as dificuldades estratégicas que Israel tem por ser rodeado por vários adversários. Nesse sentido, não acredito que haja efetivamente boas informações a curto prazo. Dos grandes pontos de discórdia, eu queria só salientar dois que para mim serão os mais importantes, apesar de haver muitos outros, e o Hamas vai se lembrando de acrescentar pequenos detalhes cada dia que passa. Mas um primeiro que será Israel faz questão de manter o controle do corredor Filadélfia. O corredor Filadélfia é algo que fica junto à fronteira com o Egito e é que é usado para contrabando de armamento, mesmo fuga e regresso de combatentes e de operacionais. E uma segunda questão, que é exatamente o veto dos prisioneiros a libertar, que Israel não quer abdicar desse ponto, porque obviamente há prisioneiros que têm bastante significado para o lado palestiniano e que Israel, de alguma forma, pelos crimes de sangue, por tipo de crimes, não quer dar prioridade no momento de os libertar.

Jorge Rodrigues, uma outra questão também relacionada com esta questão do Médio Oriente é a viagem que Netanyahu vai fazer para os Estados Unidos ainda neste mês. Está tentado até evitar uma paragem na Europa numa altura em que o Tribunal Penal Internacional estava a avaliar o pedido para avançar com o mandado de detenção do primeiro-ministro israelita. Mas aquilo que eu lhe queria perguntar é: Netanyahu vai marcar presença numa ação no Congresso a 24 de julho, é o que está previsto. Esta visita é também uma tentativa de maior reaproximação de Israel aos Estados Unidos, tendo em conta os avisos que os Estados Unidos têm feito, alguns bem audíveis até lá vivem.

Naturalmente que sim. Aliás, esse é um ponto particularmente importante. Se nós verificarmos, algo que foi surpreendente foi a rapidez com que Israel foi perdendo parceiros e apoiantes no mundo ocidental, dentro da Europa, inclusivamente, houve vários atores a atuarem de uma forma desmembrada com a orientação estratégica da Europa, e os Estados Unidos acabaram por ficar verdadeiramente isolados ou quase isolados no seu apoio efetivo. Ora, Netanyahu desde sempre foi conhecido por ser extraordinário a conseguir concessões, mas melhor ainda a não cumprir a sua parte dos acordos, nomeadamente com os Estados Unidos. Nós sabemos que há grupos de pressão, há grupos de pressão judeus, há outros grupos de pressão que de alguma forma reconhecem o interesse que Israel tem na região por ser o único ator com quem os Estados Unidos podem ligar estrategicamente numa área que é prioritária para os Estados Unidos. Mas, por outro lado, os Estados Unidos não estão satisfeitos com a condução das operações no terreno, estão preocupados com a imagem que tem surgido e que de uma forma diferida os afeta, mas também com os reféns com dupla nacionalidade norte-americana e israelita. Portanto, há uma pressão e de alguma forma já vimos passos que no início do conflito nem pensaríamos que poderiam acontecer, nomeadamente a não entrega de algum tipo de armamento que se possa considerar que venha a ser utilizado contra a população civil. Portanto, houve, de facto, já algumas ações. São ações ainda limitadas, mas que de alguma forma deixam bem claro que Biden poderá ter uma postura um pouco mais forte. E Netanyahu tem um objetivo maior, que é aguentar-se até às eleições de novembro, altura em que eventualmente, com a tomada de poder de Trump pela vitória nas eleições, estará numa situação completamente diferente. Portanto, ele terá que resistir, na perspectiva dele, até esse momento, e as ações são sempre desenvolvidas nesse sentido, de alguma forma tentando ganhar tempo para poder desenvolver as ações no terreno e obter mais sucessos operacionais e táticos.

Muito obrigado, Jorge Rodrigues, oficial das Forças Armadas, esteve também em várias missões internacionais e é coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Obrigado pela sua análise neste Gabinete de Guerra. Eu sou o Luís Soares. O Gabinete de Guerra vai estar disponível daqui a instantes em podcast no site do Observador.