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Gabinete de Guerra da tarde de quinta-feira com enfoque, pois claro, na visita de Donald Trump à China. Bruno Cardoso Reis, boa tarde.
Boa tarde.
Há sorrisos, palavras calorosas, afetuosas, um convite Trump para que Xi Jinping visite os Estados Unidos no próximo mês de setembro. Esta cimeira vem revelar uma relação mais marcada pela amizade do que propriamente pela rivalidade?
Eu acho que vem marcar, sobretudo, uma relação marcada pela maior fragilidade dos Estados Unidos e pela maior força da China. Como resultado, por um lado, nesta disputa comercial, a China é a primeira potência desde, pelo menos, a Segunda Guerra Mundial, que mostra que consegue ter, de facto, armas de coerção econômica, de pressão de guerra econômica tão ou mais fortes do que os Estados Unidos. A questão das terras raras não é só a questão da dimensão da economia, é que controla certos setores vitais, por exemplo, essa questão das matérias-primas, que são a base de muita da tecnologia atual, inclusive militar. Por um lado, depois a questão da guerra no Irão, os Estados Unidos estão ali numa situação complicada, com uma saída difícil e é evidente que embora a posição oficial dos Estados Unidos seja que não estão a pedir ajuda da China, é evidente que a pressão chinesa potencialmente pode ajudar a desbloquear as coisas e, portanto, ao mesmo tempo que os norte-americanos dizem "não estamos a pedir ajuda", no decurso destas conversas ficou claro que estavam de acordo em relação à questão do Estreito de Ormuz.
Regulação do Estreito de Ormuz.
Que tem de haver uma abertura sem condições, não pode haver um sistema de peagem, etc. Isso realmente seria muito contra os interesses chineses. Além disso, realmente Donald Trump tendencialmente tende a ter melhores relações. Estes encontros tendem a correr melhor com, no fundo, homens fortes de grandes potências autoritárias, com grandes ditadores, com grande poder, mais do que propriamente com líderes de países aliados, líderes democráticos de países aliados. É a inversão daquilo que eram as expectativas em relação aos presidentes americanos durante muitas e muitas décadas. Tudo isso acho que ajuda a explicar este clima relativamente favorável, mesmo comparado com o primeiro mandato de Donald Trump, que obviamente em termos pessoais ele já tinha estas características, mas a verdade é que estava rodeado de uma equipa que tinha uma linha muito mais dura com a China, em que Trump parecia estar convencido que podia ganhar esta guerra comercial com a China, agora claramente percebeu que essa aposta é perigosa. Acho que tudo isto ajuda a explicar a fraqueza relativa dos Estados Unidos, ajuda a explicar por que é que o tom tende a ser bastante cordial. Acho que também vale a pena, já agora, sublinhar, que dou aqui uma nota positiva a Donald Trump de ele não ter respondido nada às perguntas que lhe foram feitas sobre Taiwan. Acho que certamente isso é o resultado da pressão da sua equipa para evitar que ele, numa área onde qualquer palavra conta muito e pode ter um efeito desestabilizador, alguém que é completamente indisciplinado no uso da palavra, como é Donald Trump, no fundo, evitar que ele cometa aí alguma gafe que possa complicar as coisas.
Sendo que Xi Jinping já disse que esta é uma matéria com potencial conflito com os Estados Unidos.
Sim, Donald Trump apostou muito no reforço das exportações, nomeadamente de armamento. Aí Taiwan é um grande cliente e está muito interessado em responder a este enorme reforço do poderio militar chinês, que neste momento já é a segunda potência que mais gasta em defesa a nível global, à volta de mais de 300 mil milhões, portanto só ultrapassado pelos Estados Unidos. Mas já se fez negócios à volta de 11 mil milhões de compra de armamento. Fala-se de um novo negócio da volta 14 mil milhões. Claramente a China está interessada em fazer alguma pressão para evitar que esse negócio se concretize, que a entrega de armas seja atrasada o mais possível, já está a ser atrasada também como resultado do conflito no Irão. Acho que há aí margem, provavelmente para, sem fazer uma concessão pública, os Estados Unidos, provavelmente discretamente, fazerem alguma concessão à China nessas questões dos prazos ou de que não haverá um pacote tão grande, em troca de algumas concessões comerciais. Fala-se muito nos Estados Unidos de Boeings and Beans, que a China poderá comprometer-se a comprar uns quantos aviões Boeing, que é uma companhia que está, aliás, com problemas, e também alguns produtos agrícolas, soja, etc., que é um setor, por exemplo, politicamente muito próximo de Trump, mas que está muito aflito como resultado também do conflito no Irão, o preço dos fertilizantes, do combustível, tudo isso afeta muito negativamente a agricultura. Vamos ver se algo se concretiza.
É o que de mais palpável até agora sai desta visita de Donald Trump, os acordos e os compromissos de natureza comercial de abertura dos dois mercados?
Até agora, o que ouvimos não é nada de muito concreto. São boas intenções genéricas. O presidente chinês a encorajar os empresários americanos a continuarem a investir na China, mas não vimos nada de muito concreto em termos, por exemplo, de garantias de maior abertura do mercado ou realmente estas promessas de compras ou investimento. Não me espantaria que isso acabasse por acontecer, mas creio que seriam sempre relativamente limitadas e sobretudo haveria que ver que concessões é que os Estados Unidos dão em troca. Por exemplo, na questão de Taiwan, pode ser que as concessões não sejam públicas, mas se calhar no prazo de alguns meses podemos perceber que existiu aí algum quid pro quo e eventualmente também concessões ao nível económico, por exemplo, de menos restrições ainda no acesso à tecnologia mais avançada. É algo em que Donald Trump adotou uma postura muito mais permissiva do que tinha no primeiro mandato ou do que o próprio Joe Biden tinha mantido durante o seu mandato, muito como resultado desta pressão também, desta coerção econômica chinesa, por exemplo, na questão das terras raras.
Voltemos agora nosso olhar para a nova ronda negocial agendada para esta tarde entre as delegações de Israel e do Líbano. O que é que se perspetiva que saia alguma coisa de palpável desta terceira ronda negocial?
Acho que temos de ser muito prudentes. Já não será mau se este cessar-fogo frágil no Líbano e limitado, parcial, não entrar completamente em colapso. Já não será mau se não haver uma escalada nos ataques da parte de Israel. O Hezbollah veio dizer aquilo que se esperava, que o Hezbollah acha que o simples facto de haver estas negociações já é uma concessão. Obviamente, isso não parece que faça nenhum sentido. É um sinal de que o Hezbollah está preocupado, porque realmente há uma pressão crescente, mesmo no interior do próprio Líbano, para o desarmamento do Hezbollah.
Li há pouco algures que Israel ia precisamente apresentar um plano tendo em vista esse objetivo de desarmamento do Hezbollah.
Sim, claramente essa é a grande prioridade de Israel. Vamos ver se há um plano minimamente exequível e também o que Israel está disposto a dar em contrapartida. Ou seja, o governo libanês também precisa aqui-
E de que forma pode o Líbano contribuir para esse desarmamento?
E também o que é que exige da parte do Líbano, sendo que o governo libanês está aqui, no fundo, permanentemente numa posição de alguma fragilidade. Ou seja, por um lado, tem a pressão israelita e a ameaça de ataques renovados. Obviamente, isso é altamente impopular entre os libaneses, mas há libaneses que culpam, sobretudo, Israel e, portanto, não querem ver o governo a fazer concessões a Israel. Há outros que culpam, sobretudo, o Hezbollah e querem ver avançar esse processo de desarmamento. Mas também há o risco de que se esse desarmamento for um desarmamento forçado pelo exército libanês, que isso desencadeie uma nova guerra civil, em que o resultado também não pode ser dado como garantido. Portanto, o governo libanês está aqui, de facto, sempre num equilíbrio muito frágil e é também por isso que me parece que temos que ter grande prudência e, portanto, ainda mais do que eventualmente noutros casos, observar sempre aquelas regras, que é esperar que as partes anunciem um acordo, esperar que o mediador, neste caso os Estados Unidos, confirme que há um acordo e esperar ainda, depois disso, pela implementação efetiva desse acordo.
Relativamente às negociações de paz, tendo em vista o fim definitivo do conflito entre Estados Unidos e Irão, nada de novo, continuamos no impasse.
Sim, aí, de facto, aparentemente não há novidades. Também tendo em conta que na atual administração está tudo muito concentrado em Donald Trump e em dois ou três enviados especiais, tendo em conta também que Donald Trump está obviamente agora concentrado na China, é normal que haja aqui uma espécie de intervalo nas negociações enquanto estiver a decorrer esta viagem à China da parte de Donald Trump.
Outra viagem que é notícia hoje, a do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu aos Emirados Árabes Unidos com ameaças do Irão direcionadas precisamente para os Emirados.
Sim, de facto, nós já tínhamos percebido que havia uma cooperação muito estreita entre os Emirados Árabes Unidos e Israel ao nível da segurança. No fundo, os Emirados é uma espécie de versão árabe de Israel, ou seja, um Estado de relativa pequena dimensão, mas com uma economia muito pujante, muito dinâmica, com muito dinheiro disponível para investir em defesa e apostou em reforçar muito as suas capacidades militares, muito acima do que seria o seu peso normal, e fez isso muito em cooperação com Israel. Agora, geralmente numa cooperação relativamente discreta, mesmo depois daquele acordo público excepcional, os chamados Acordos de Abraham, é o grande Estado árabe que nesta zona da Península Arábica do Golfo realmente aceita publicamente normalizar em parte as relações com Israel. Agora, de facto, não era suposto claramente esta informação aparecer em público, portanto, os Emirados vieram desmentir. Não creio que essa desmentido seja muito credível, portanto, não me custa a acreditar que realmente tenha havido aqui uma visita do primeiro-ministro de Israel. Agora, isto é uma oferta para a propaganda iraniana e não por acaso, hoje mesmo, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, numa reunião dos BRICS+, onde estão também os Emirados, portanto, os BRICS, com este alargamento também, como muitos previam, eu próprio fui prevendo, por exemplo, nos cinco continentes, estão muito mais divididos e portanto, neste momento, temos uma espécie de guerra entre dois membros dos BRICS, entre os Emirados e o Irão. Arábia Saudita está lá, mas nunca vai, portanto, foi convidada, não se sabe muito bem se aceitou ou se não aceitou, mas a partir dos Emirados o Irão está. E portanto, o ministro iraniano aproveitou para atacar, no contexto dos BRICS, esta proximidade a Israel e usar isso como argumento para justificar os ataques do Irão contra os Emirados. Vale a pena sublinhar que os ataques contra os Emirados foram ainda mais intensos, mais numerosos do que contra Israel. Isso também se explica em parte pela proximidade, mas é bem um sinal do nível de inimizade entre os Emirados e o Irão neste momento.
Estranho que haja esta fuga de informação.
De facto, não se percebe muito bem qual é o objetivo que Netanyahu, que o governo israelita pode alcançar com esta divulgação. Claramente, isso não agradou aos Emirados, criou a dificuldade aos Emirados. Não me parece que isso seja vantajoso. Israel, apesar de tudo, não tem assim tantos amigos ou aliados no Médio Oriente que possa, por plantar uma notícia ou mostrar aqui uma proximidade, uma intimidade maior, que isso valha a pena em termos de eventualmente criar tensões, problemas com o aliado, que realmente tem sido aqui um alvo muito grande da ira e das armas iranianas, precisamente por essa proximidade a Israel.
Bruno Cardoso Reis, obrigado pela tua presença neste Gabinete Guerra. Historiador Bruno Cardoso Reis, durante a semana no Gabinete Guerra, ao fim de semana nos cinco continentes.