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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, programa em que falamos dos conflitos em curso. Destaque, claro, sempre para o conflito na Ucrânia e também o conflito no Médio Oriente, sendo que no dia de hoje o destaque vai para esse entendimento entre Ucrânia e Estados Unidos, um acordo para a segurança no Mar Negro. É um entendimento que permite a navegação no Mar Negro, ou pelo menos tem como objetivo. Daniela Nunes é especialista em Relações Internacionais, está conosco nesta edição do Gabinete de Guerra. Muito boa tarde, Daniela. Qual é a importância deste acordo para o Mar Negro e se de facto vamos passar a ter uma navegação segura nessas águas?

Olá, Miguel, boa tarde. O que está aqui em causa é, sobretudo, uma questão de confiança ou de falta dela e uma questão de interesses também. Ou era, porque até há alguns minutos ou horas, ainda não era conhecida a aceitação da Ucrânia em relação aos trâmites definidos pela Rússia e pelos Estados Unidos. Faltava o tal aval, se é que podemos chamar-lhe assim, ucraniano, porque, na verdade, a Ucrânia está, como tem estado desde que os Estados Unidos estão envolvidos nestas conversações, a aceitar pequenas amostras de solução para as quais não tem outro remédio, pelo menos para já. Por um lado, a Rússia está, em particular na pessoa do ministro dos Negócios Estrangeiros, o senhor Sergey Lavrov, a Rússia diz não poder crer na palavra do presidente ucraniano e, portanto, até há bem pouco tempo não era possível avançar para um novo acordo sem a mão norte-americana. Já agora, diga-se também de passagem, que dá muito jeito aos russos, porque se livram aqui um bocadinho da lógica confrontacional, que é a lógica normal de uma mesa de negociações num contexto de conflito entre duas partes e sobretudo com Donald Trump no poder, a substituição desta lógica confrontacional pela lógica do mediador que pende para um dos lados, que neste caso é o lado russo, é ainda mais benéfica para o Kremlin e para a Rússia. O ministro Lavrov disse recentemente, e passo a citá-lo, que "precisa de garantias claras e dada a triste experiência de acordos apenas com Kiev, essas garantias só podem ser o resultado de uma ordem de Washington a Zelensky e à sua equipa para fazer uma coisa e não outra". Fim de citação. Portanto, o que isto significa é que, de facto, Washington está a conseguir manobrar Zelensky e a Ucrânia no sentido de fazer, não aquilo que os Estados Unidos querem, se quer, mas aquilo que a Rússia quer. E o ministro Lavrov, já agora, dizer também que exigiu ainda que a Rússia deixasse de ser excluída do mercado mundial de fertilizantes e de cereais, isto por causa das sanções do Ocidente, e, portanto, estando obviamente a aproveitar-se ao máximo desta mediação norte-americana, que está a dar à Rússia e de mão beijada todas as regalias normais do período pré-guerra, e ignorando completamente o fato de nesta guerra ser muito claro que só há um agredido e um agressor. Nada disto, a meu ver, significa, para responder à pergunta em concreto, que a partir de agora vamos ter navegações seguras no Mar Negro. Vamos ter é navegações com base nos interesses em que a Rússia se escuda para continuar a retardar uma solução viável para a guerra. Escuda-se, por exemplo, nos países africanos, designadamente aqueles com mais necessidades em matéria alimentar, para fazer valer, obviamente, como digo, os seus interesses no mercado dos cereais e dos fertilizantes, no contexto do qual vai mesmo, presumo eu, acabar por levar a sua avante, como aliás já está provado, vai conseguir fazer com que os Estados Unidos lhe façam a cama, passo a expressão e no bom sentido, para que este novo acordo não penalize demasiado a Rússia e, pelo contrário, deixa a Ucrânia numa posição que é e que tem sido a posição de inferioridade em que os ucranianos e este governo de Zelensky têm vindo a sair de todas as negociações que têm vindo a acontecer sobre o Mar Negro e sem ser sobre o Mar Negro.

Temos a Ucrânia sempre nessa posição. Vimos isso nos primeiros entendimentos, aquele que deu troca de reféns e também a questão das instalações energéticas. Agora temos este acordo que também deixa a posição da Ucrânia um pouco frágil. Podemos estar a caminhar também para um entendimento de cessar-fogo, mesmo deixando a Ucrânia nessa situação frágil?

Não me parece que estejamos a caminhar para uma situação de cessar-fogo verdadeira. A Rússia tem provado não estar verdadeiramente interessada nessa solução de cessar-fogo, primeiro com a história das instalações energéticas, depois bombardeiam as instalações energéticas, mas consideram-nas instalações militares, portanto, arranjam forma de fazer a narrativa e de construir a sua retórica em torno de mentiras e teatralizam, não sei se posso utilizar esta expressão, as suas ações no terreno e escudam-se em mentiras. Portanto, não me parece que uma solução de cessar-fogo, já agora também dizer, quer num cenário de guerra, quer no outro, nas duas guerras que estão em curso, parece-me que as soluções de cessar-fogo que estão em cima da mesa, quer num conflito, quer no outro, não têm grandes pernas para andar, Miguel.

Moscovo, entretanto, quer a ONU envolvida nas negociações com os Estados Unidos da América sobre a Ucrânia. Que importância de fato pode ter a ONU nesse tipo de negociação?

A importância relativa das Nações Unidas tem vindo a cair a pique desde que estão em curso estas duas guerras e que o campo de ação desta organização está tão limitado. Está limitado por um conjunto de regras, por um conjunto de princípios que impedem a organização de poder ter uma palavra a dizer em uma série de momentos fundamentais, quer no contexto do Médio Oriente, quer no contexto russo-ucraniano. E neste último, portanto, na guerra na Ucrânia entre russos e ucranianos, envolver as Nações Unidas, do ponto de vista da Rússia, será evidentemente sinônimo de ganhar algum tempo no sentido de melhorar a sua posição no conflito e de evitar um acordo totalmente favorável pra Ucrânia, penso eu. E além disso, não nos podemos esquecer também que existe um interesse evidente de ir diluindo aos poucos a influência dos Estados Unidos nestas negociações, porque se elas forem mediadas por países com ainda menor ligação à Ucrânia, tanto melhor. Estou a pensar, por exemplo, nos casos do Brasil ou da Índia, isto porque, pra além da ONU, Moscovo disse ainda que quereria envolver a comunidade internacional, portanto, presumo que o interesse seja trazer pra cima da mesa outros nomes, outros países com ainda menor interesse em defender os interesses da Ucrânia, como é o caso do Brasil ou da Índia.

Vamos falar aqui um pouco sobre um dos casos que está a marcar a atualidade, o SignalGate, o caso em que Mike Waltz colocou um jornalista num grupo da rede social Signal, semelhante ao WhatsApp, semelhante ao Telegram, e nesse grupo foram divulgados dados, planos da segurança dos Estados Unidos da América, como alguns planos para atacar os houthis no Iêmen. Donald Trump reagiu, entretanto, veio dizer que Mike Waltz aprendeu uma lição, que é um bom homem, quis chamar mentiroso ao jornalista que foi adicionado a este grupo e que acabou depois por publicar toda esta história no The Atlantic. O que é que fica, de facto, deste caso? Podemos ter aqui alguma consequência política perante esta situação?

Francamente, acho que não. Acho que, obviamente, em primeiro lugar, é preciso dizer que este não é o tipo de lapso sobre o qual se possa simplesmente dizer que acontece. E se é que este lapso é mesmo um erro não propositado. É bizarro imaginar que assuntos como aquele que está em causa são tratados via Signal ou via WhatsApp ou via quaisquer aplicações primas destas. Soa mesmo a algum amadorismo no tratamento de informações importantes e altamente secretas. Mas que neste caso em concreto não estou a ver que possam ter algum tipo de impacto negativo, a não ser obviamente ao nível da percepção que fica. Não estou a ver que possam ter um impacto verdadeiramente negativo ou algum tipo de repercussões perigosas pra segurança dos Estados Unidos ou dos seus aliados. Relativamente à reação de Trump, parece-me ser a reação expectável. Se ele admitisse com demasiada assertividade que este erro seria uma tradução caricata de amadorismo ou de incompetência, ficar-lhe-ia mal, tendo em conta a imagem de tudo sob controle que ele quer passar sistematicamente. Portanto, o mais lógico é retirar importância ao caso e fingir que quase se tratou de um pequeno equívoco da parte de Mike Waltz e que ele até é um bom homem, nas palavras do próprio Trump, e que errar é humano e que faz parte. Portanto, não creio que pra além da percepção de amadorismo que fica, este caso, o SignalGate, possa verdadeiramente ter um impacto negativo para os Estados Unidos ou para os seus interesses.

Para fechar, vamos falar aqui de uma história que está no Financial Times. Está escrito que Israel está a preparar-se para ocupar a Faixa de Gaza. Pode ser o fim desse cenário de negociações para cessar-fogo, esta entrada total de Israel na Faixa de Gaza?

Sim, claro que sim. E é claro que a ocupação de Gaza é ou será sempre um exercício escudado na desculpa de derrotar o Hamas e, sobretudo, na necessidade, se assim é que é, de derrotar o Hamas enquanto grupo terrorista que ele é. Agora, não pode é valer tudo para acabar com o grupo terrorista. Por outro lado, também é claro que esta lógica se tornou cada vez mais tangível desde que Trump chegou novamente à Casa Branca e basicamente ofereceu ao governo de Netanyahu uma carta-branca para se comportar quase à maneira do que a ala mais radical deste governo, desde o início do conflito a 7 de outubro, tem vindo a reivindicar como sendo a dureza e a agressividade obrigatórias para combater um grupo como o Hamas. Já agora dizer também que um representante israelita chegou mesmo a estabelecer uma comparação entre os governos de Biden e Trump, dizendo que o primeiro queria acabar com a guerra e o segundo quer que Israel vença a guerra, havendo por isso aqui também uma espécie de interesse em comum na derrota final do grupo terrorista palestiniano, entre israelitas e esta administração norte-americana liderada por Trump, obviamente. E que enquanto assim for, enquanto o povo palestiniano continuar de fora da equação, que só tem em conta o Hamas, e obviamente a Faixa de Gaza é muito mais do que o Hamas, enquanto assim for, quaisquer acordos de cessar-fogo estarão obviamente condenados.

Daniela Nunes, muito obrigado. Amanhã há mais uma edição de Gabinete de Guerra.

Obrigada.