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Gabinete de Guerra na Rádio Observador: duas guerras em curso em partes bem diferentes do mundo, uma na Ucrânia, outra no Médio Oriente. Nos próximos minutos, vamos falar sobre os dois conflitos em curso com a ajuda de Luís Tomé, é especialista em Relações Internacionais. Luís, muito boa tarde. O cessar-fogo no Líbano pode ser aprovado ainda hoje. O governo israelita está reunido a esta altura com proposta em cima da mesa que alegadamente já terá sido aceite pelo Hezbollah. São já conhecidos alguns detalhes desta proposta. Os ataques vão ser suspensos de forma imediata e vai ainda haver um período de transição de 60 dias nos quais o exército israelita deve retirar-se totalmente do território libanês. Já o Hezbollah irá retirar e deixar uma faixa fronteiriça entre o Líbano e Israel, que será assegurada quer pelo exército libanês quer pelas forças de manutenção da ONU. Estamos, neste momento, a horas de um cessar-fogo?

Olá, boa tarde. Aparentemente, sim, todas as informações vêm nesse sentido. O gabinete de segurança e o governo israelita estão neste momento precisamente a ultimar esse acordo com os termos desse cessar-fogo, mas temos que ser prudentes, porque do lado do governo israelita há ministros que publicamente se mostram contra qualquer acordo, designadamente foi pública a posição do ministro da Segurança Nacional de Israel, o Ben-Gvir, conhecido extremista de extrema-direita, que disse que seria um enorme erro, são as palavras dele. E, por outro lado, o próprio Hezbollah, o porta-voz, já veio dizer que o Hezbollah permanecerá ativo mesmo após esse cessar-fogo. Diz o Hezbollah que é pra ajudar o regresso dos libaneses deslocados e a reconstrução das áreas destruídas pelos ataques israelitas. Portanto, nós estamos aqui próximo, aparentemente, de um cessar-fogo. Há muita pressão dos Estados Unidos, o próprio enviado no fim de semana verbalizou que era a última oportunidade pras partes chegarem a um acordo. Portanto, temos que esperar pra ver se o acordo se confirma e, por outro lado, se as partes chegam a um cessar-fogo de boa-fé. Depois há esse outro lado, não basta o anúncio do cessar-fogo, é preciso que as partes estejam, de fato, de boa-fé para depois o cumprir. E há aqui detalhes que podem ser muito significativos. Aquilo que talvez o João Gama já adiantou, eu salientaria que aqui dos detalhes mais delicados é a ausência de uma zona-tampão verdadeiramente, aquilo que Israel foi dizendo que queria, de forma que os deslocados israelitas que saíram do norte de Israel há cerca de um ano, possam regressar às suas casas. Isso não está contemplado no acordo. O que se prevê é que, de facto, o Hezbollah retire todas as suas forças, todos os seus meios de possível ataque para Israel, para norte do rio Litani, mas Israel quer que, designadamente, o comitê de supervisão do cessar-fogo liderado pelos Estados Unidos, e que tem mais quatro países, a França incluída, e o governo do Líbano aceitem que, no caso do Hezbollah comprovadamente violar os termos do cessar-fogo, Israel tem direito a atacar e, por outro lado, gostava Israel, falta perceber esse ponto, de ter algum papel na monitorização da fronteira entre o Líbano e a Síria, uma vez que para Israel é a partir da Síria que tem vindo muito do fornecimento de armas, munições, sistemas que no fundo servem pra atacar Israel. E, portanto, o governo israelita quer uma forma de poder monitorizar essa fronteira. Só pra acentuar que este acordo é muito assente nos termos da Resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, aprovada por unanimidade em 2006, a célebre Resolução 1701. E, portanto, o fundamental não é apenas as partes estarem de boa-fé, é, por um lado, o governo do Líbano e o seu exército serem munidos de condições e, portanto, ter apoio externo para efetivamente exercer a autoridade em todo o território, designadamente na parte sul do rio Litani, onde o Hezbollah não deverá estar e, por outro lado, a missão das Nações Unidas, a UNIFIL, poderosíssima, com 11 mil capacetes azuis, também estar apta a efetivamente cumprir a sua missão, ainda por cima, foi estendida em agosto último por mais um ano, até agosto de 2025. E, portanto, não são só Israel, por um lado, e o Hezbollah por outro, são outras entidades, partes-chave pra que o eventual cessar-fogo venha a ser cumprido e respeitado conforme se pressupõe.

Como os Estados Unidos e França, por exemplo?

Os Estados Unidos e a França, até porque os Estados Unidos vão liderar o tal comitê de cinco países que vai monitorizar e supervisionar os termos do cessar-fogo. Isto porque, obviamente, Israel não confia nem nas capacidades do governo do Líbano, nem na missão das Nações Unidas. A questão, e isso não sei se será público, Israel tinha solicitado aos Estados Unidos uma carta que expressamente previsse a eventualidade de Israel poder atacar posições do Hezbollah, no caso do Hezbollah violar os termos do cessar-fogo. E, portanto, de alguma forma, não só os Estados Unidos, se o conseguirem é um sucesso diplomático da administração Biden, mas os Estados Unidos estão vinculados a que depois, de alguma forma, o acordo também seja Respeitado, porque é a esse comitê que quer o Hezbollah, quer o governo israelita deverão reportar suspeitas e queixas de que a outra parte viola os termos do acordo. Os Estados Unidos têm aqui um papel fundamental, não só na angariação do cessar-fogo por toda a pressão e empenho diplomático que colocaram, mas também para depois monitorizar, de facto, a concretização dos termos de cessar-fogo. Mas temos que ter alguma prudência, porque sendo uma boa notícia e sobretudo se se confirmar o acordo de cessar-fogo, vamos ver se isto não é uma estratégia das duas partes ou de uma das partes para ganhar tempo, perspetivando uma agenda desconhecida nesta altura mais para diante.

Vítor Tomé, também vimos António Guterres a falar sobre este mesmo aparente cessar-fogo que pediu hoje no Estoril um cessar-fogo imediato não só no Líbano, mas também na Faixa de Gaza. E soubemos desta manhã que os Estados Unidos esperam que o eminente acordo de um cessar-fogo no Líbano possa ser um catalisador da paz na Faixa de Gaza. Por que conseguimos um cessar-fogo com o Hezbollah e não com o Hamas?

Eu acho que este cessar-fogo com o Hezbollah se deve muito à fragilidade da liderança do Hezbollah, da decapitação da liderança e de muita da sua estrutura de comando, da sua fragilização, e é por isso que eu não ponho de parte que o Hezbollah ao aceitar os termos do cessar-fogo queira passar uma boa imagem internacional. É bom lembrar que até para os Estados Unidos o Hezbollah é considerado um grupo terrorista, mas pode estar a ganhar tempo, porque há aqui uma mudança de fundo. A liderança do Hezbollah ao longo de todo este ano sempre foi dizendo que só deixaria de atacar Israel e só aceitaria negociar uma paz, um cessar-fogo, depois de Israel deixar de atacar Gaza e de ter alcançado um acordo de paz em Gaza. Neste momento, o que se percebe é que o Hezbollah aparentemente está disposto a fazer um cessar-fogo, mesmo que continuem as operações, como continuam, de Israel em Gaza. O problema é que nós no caso do Líbano, temos um Estado soberano, temos um governo, temos apesar de tudo um exército formal no Líbano e isto dá margem de manobra aos Estados Unidos, aos negociadores, para que haja um cessar-fogo no pressuposto de que o governo do Líbano restaure verdadeiramente a sua autoridade sobre todo o território, designadamente a sul do tal rio Litani, em conformidade com a resolução que vem desde 2006. No caso de Gaza, falta perceber qual é a possibilidade de encontro para aquilo que pode ser a posição de Israel e aquilo que obviamente teria que ser a posição do Hamas, se ainda tiver capacidade negocial. Ora, os sinais vindos do governo israelita é que o que vê para o pós-conflito, para um pós-cessar-fogo, para um acordo qualquer que venha, é o próprio Israel ocupar de novo a Faixa de Gaza. Não se percebe quem pode neste momento fazê-lo, porque a autoridade palestiniana está muito fragilizada. Ainda por cima, a contragosto obviamente de Israel, há aqui um acordo entre a Fatah, que lidera historicamente a autoridade palestiniana, e o próprio Hamas, com mediação da China. Israel não confia nas Nações Unidas para ter essa capacidade e papel de administração do território. Vários membros do governo israelita e várias fações de extrema-direita querem o regresso dos colonatos israelitas à Faixa de Gaza e a ocupação definitiva de Gaza por Israel. Na ausência desse fim político, aliás a própria administração Biden tem mostrado publicamente que tem feito pressão para que Israel assuma o princípio dos dois Estados e comece a avançar nesse sentido, mas o governo Netanyahu longe desse pressuposto e agora na mira devemos a ter o novo presidente Trump, isso ainda estará mais afastado. Na impossibilidade de termos um fim político neste momento que seja suscetível de ser negociado com o governo israelita e com muita dificuldade em perceber como é que o Hamas pode negociar e quem é que verdadeiramente negoceia em nome do Hamas, parece-me mais difícil podermos ter um cessar-fogo sem que Israel possa assumir que ganha pela capitulação do Hamas e ter os reféns, os que ainda estão vivos, de volta. Aí me parecem menos as possibilidades. Embora um cessar-fogo funcione no Líbano, abra maiores oportunidades para que algo se faça também em Gaza, mas aí é o problema político do desenlace para o pós-conflito.

Vítor Tomé, olhemos também para a guerra na Ucrânia. Hoje os ministros dos Negócios Estrangeiros dos países do G7 que estão reunidos na Itália vieram acusar a Rússia de apresentar uma retórica nuclear irresponsável e reforçar o apoio inabalável do G7 à Ucrânia pela soberania e pela integridade territorial da Ucrânia. Numa altura em que António Guterres pediu hoje não só paz no Líbano e em Gaza, mas também uma paz justa na Ucrânia, esta é a melhor forma de conseguirmos uma paz justa na Ucrânia, um apoio inabalável a Kiev e acusações à Rússia a propósito da retórica nuclear?

É muito interessante porque do lado russo também o chefe do serviço secretos diz que quer uma paz sólida e duradoura, mas também acrescenta que não quer uma paragem imediata da guerra e que, ao contrário daquilo que se presume, não é interesse russo congelar o conflito. Agora, de facto, eu acho que tem razão o G7 quando acusa a Rússia de ter um comportamento imprudente e irresponsável, sobretudo a propósito Da questão nuclear, porque no fundo o que a Rússia tem estado a dizer permanentemente, a fazer ameaças de utilizar as armas nucleares, não é apenas contra a Ucrânia. E eu recordo que a Rússia é a maior potência nuclear do mundo, invadiu a Ucrânia, potência não nuclear, que abdicou das armas nucleares que também herdara da União Soviética, mas esta potência nuclear ameaça usar armas nucleares quer contra a Ucrânia, quer contra os países que a apoiam com meios convencionais. Isto, aliás, é a grande mudança da nova doutrina nuclear. Embora a Rússia ataca a Ucrânia com munições, mísseis e drones, que são transferidos tanto pela Coreia do Norte como pelo Irão, e sabe-se que está a usar soldados da Coreia do Norte. Eu acho é que a irresponsabilidade da Rússia é mais grave do que isso. Não é apenas esta chantagem, não é apenas esta dissuasão de maiores apoios ocidentais à Ucrânia. É porque no meio de todo este conflito, que leva quase três anos, a Rússia suspendeu a participação no novo start com os Estados Unidos, retirou a ratificação do Tratado de Proibição Total de Ensaios Nucleares, o CTBT, vetou uma resolução nas Nações Unidas que permitiria manter a monitorização das sanções à Coreia do Norte, vetou outra resolução que impedia a instalação de armas nucleares no espaço e a troco daquilo que o Irão e a Coreia do Norte têm dado a Moscou pra usar contra a Ucrânia, a Rússia tem estado a transferir tecnologia que obviamente vai servir os seus programas nucleares. E, portanto, para além da ameaça e da chantagem nuclear, a Rússia está a destruir todo o edifício de controle de armas estratégicas e de não proliferação. Daí a imprudência e a irresponsabilidade, criando um quadro que vai para lá daquilo que vier a ser um acordo, quando vier a ser estabelecido um acordo, na Ucrânia, sendo que a Rússia, pelos vistos, quer chegar às negociações com a Ucrânia numa fase de quase capitulação. E a mensagem do G7 é: a Ucrânia negociará os termos que entender quando entender, mas deve estar na melhor posição possível pra não ter que ceder a tudo aquilo que Moscou quer.

Luís Tomé, especialista em Relações Internacionais, esteve conosco no Gabinete de Guerra desta tarde aqui na Rádio Observador. Luís Tomé, muito obrigado. Boa tarde. Quanto ao Gabinete de Guerra, volta já amanhã.